Wilfried Wang em mesa de discussão no PLEA 2013 - Sustainable Architecture for a Renewable Future, Munique, 10 a 12 de setembro de 2013
A entrevista abaixo é parte da pesquisa sobre Moradia e Vida Urbana na cultura de artistas e arquitetos contemporâneos, que teve início em setembro de 2014, como parte das atividades desenvolvidas na Universidade do Texas em Austin, na qualidade de professor/pesquisador visitante do programa CAPES/Fulbright
O ponto de partida da pesquisa é a constatação do fim de dois aspectos cruciais da cultura moderna, presentes ao longo dos debates dos CIAM:
a questão da moradia, em geral, e, em particular a questão da habitação e
o relacionamento da arquitetura com as demais artes, a questão da síntese das artes ou da integração.
Da agenda da cultura arquitetônica de vanguarda, o tema da habitação passou para assunto apenas de política pública. Já o problema da síntese das artes parece superado, na medida em que, desde os anos sessenta do século passado, assistimos a uma crescente afirmação e autonomização do campo das artes, sobretudo das artes visuais em relação ao dos arquitetos.
Diante destas constatações, colocamos como questão de pesquisa:
Existiriam novas causas, preocupações ou atribuições de responsabilidade social por parte da nova cultura arquitetônica? Como se estabelece o novo relacionamento entre artistas e arquitetos contemporâneos? Apesar da autonomização dos campos, seria possível verificar elementos comuns às culturas de ambos os campos profissionais? Em que medida estes elementos evidenciariam preocupações de ordem social?
A partir da nossa observação e como aponta a entrevista que nos concedeu o professor Wang, erige-se uma hipótese para a primeira questão. De fato, malgrado a polivalência do termo, uma preocupação parece rondar a cultura arquitetônica: a sustentabilidade.
Conjunto residencial Küppersbusch, Gelsenkirchen, IBA Emscher-Park, 1998. Escritório Szyszkowitz + Kowalski
Sonia Marques: Como você define a cultura arquitetural contemporânea atual em geral?
Wilfried Wang: A sustentabilidade, ainda que um campo essencial do pensamento e da ação, tem sido marginalizada no discurso recente da cultura arquitetural, porque, em primeiro lugar, muitas das áreas de ação têm sido resolvidas em termos tecnológicos e, em segundo lugar, muitas das outras questões são solúveis pelo bom senso, por exemplo, para citar Frei Otto: ser sustentável significa não construir. Tudo o mais que envolver um ato de construir já é um compromisso, um distanciamento do real objetivo sustentável.
É possível utilizar o princípio da sustentabilidade tanto na dimensão quantitativa quanto qualitativa como a medida do sucesso ou fracasso de um artefato proposto ou existente.
Aquela parte da cultura arquitetural que se autoconsidera de vanguarda é egocêntrica, auto-referencial e não tem relevância para a cultura contemporânea. Isto é o que é hoje a velha vanguarda. Muito do que é publicado em blogs, fanzines e nas chamadas revistas de vanguarda pertence a isto. Pertencem a este segmento exercícios de criação de formas desenvolvidos como um fim em si mesmo; qualquer tentativa de legitimar uma relação entre as formas e sociedades, em geral, não passa de esotéricas pós-racionalizações pseudo-intelectuais. Grande parte deste pensamento retorna ao discurso do nordeste do EUA da década de 1980.
O direito ao formalismo individualista continua a ser uma falsa medida de liberdade acadêmica e cultural. A compulsão pela procura da "criação de novas formas" é uma parte do sistema de mercantilização do capitalismo tardio. "Nova arquitetura" é provavelmente mais um serviço de marketing da propriedade e de satisfação da sede supersaturada por "novidade" das classes de lazer do que um serviço ao progresso da humanidade. A maior parte do que foi recentemente publicado como arquitetura de vanguarda é de fato parte da indústria da especulação-propriedade-construção que fornece abrigo para o excesso de liquidez em vez de abrigo para as pessoas.
Há muitas influências parcamente difundidas e absorvidas nas escolas de arquitetura em todo o mundo. Sem ter consciência de uma contradição básica, o princípio da sustentabilidade, bem como a reivindicação de liberdade absoluta de expressão não são fundamentalmente fáceis de serem buscados em paralelo. Inovações em técnicas de construção e na criação de formas são válidas apenas com fins socioculturais.
A pequena proporção contínua de imóveis recém-construídos de qualidade adequada em relação à produção global (talvez 10%) significa que a sustentabilidade cultural não será alcançada em breve.
A maioria da construção civil global está fora da influência da profissão de arquitetura e urbanista. O pouco que resta, ou permanece como um fim em si mesmo, e assim socialmente irrelevante, ou é arquitetura no que há de melhor, verdadeiramente de vanguarda: com uma qualidade de projeto adequada, consciente de sua contribuição limitada para o princípio da sustentabilidade e eminentemente transformadora do ponto de vista sociocultural.
MAXXI – Museu de Arte do Século XXI, Roma, Itália, 1998-2009. Zaha Hadid Architects
Sonia Marques: Você diria que houve mudanças importantes no sistema profissional como um todo? Por que razões?
Wilfried Wang: Entre as principais mudanças no sistema profissional pode ser contabilizada a perda de solidariedade das instituições profissionais, veja-se, por exemplo, as questões de concursos, honorários ou ética. Além disso, há uma perda na autoridade da profissão. Arquitetos não são árbitros dos interesses dos clientes, da cultura e do público em geral, mas servos de grupos de interesses particulares, nominalmente chamado "clientes". Dentro desta degradação da profissão, houve figuras individuais egocêntricas que buscaram cavar um nicho pessoal. Eles não representam quaisquer outros interesses.
SM: Como você descreveria os principais aspectos da atual: natureza dos serviços profissionais, tipo de mercado para os serviços profissionais, tipo de clientela, a base cognitiva e instituições e associações profissionais de credenciamento e ensino.
WW: (sobre a natureza dos serviços profissionais) É essencialmente tentar satisfazer interesses particulares às expensas da sustentabilidade e de uma cultura mais ampla.
(sobre o tipo de mercado para os serviços profissionais) O mercado global é do modo do capitalismo tardio.
(sobre o tipo de clientela) Corporações e indivíduos com excesso de liquidez e com um senso inseguro de auto-identidade em busca de melhorias compensatórias de sua própria importância.
(sobre a base cognitiva) A base cognitiva dominante é a de inovação de formas com um fim em si mesmo.
(sobre as instituições e associações profissionais de credenciamento e ensino) Há muita inércia nestas instituições e associações. Não houve visíveis alterações estruturais significativas nem reformas de objetivos pedagógicos de apoio à sustentabilidade. É business como sempre.
Lovell House (Health House), Los Angeles, California, 1929. Arquiteto Richard Neutra
Sonia Marques: De acordo com estudos, tais como os de Raymonde Moulin de 1974 LesArchitectes. Métamorphose d'une profession, arquitetura é a profissão onde há o maior hiato entre o ideal profissional e as condições reais da prática. Em 1992, Dana Cuff escreveu The Story of Practice para mostrar um novo retrato da profissão que crescia mais rapidamente na América naquele período, “mas num contexto privado que permanecia envolto em mitos". Você acha que as coisas mudaram desde então? De que maneira?
Wilfried Wang: Se qualquer coisa ocorreu, é que o hiato aumentou. O melhor retrato da realidade vem a ser os mapas que mostram o crescimento das cidades e a sua decadência interna. Este é um fenômeno visto em muitas cidades ao redor do mundo. Então, se alguém perguntar, quanto impacto têm os arquitetos no planejamento dessas periferias suburbanas e no projeto dos edifícios individuais, torna-se claro como é pouca a influência, como é grande o fosso entre ideais e realidade.
A taxa de crescimento de uma cidade como Phoenix, Arizona, é paradigmática. É imparável, baseado no modelo político e econômico do "sonho americano" e alimentado pela ideologia da família nuclear que vive perto da natureza. É improvável que este "sonho americano”, esta ideologia seja reformada. Então, com toda a conversa sobre empreender esforços internacionais para limitar as alterações climáticas, enquanto o "sonho americano" e sua ideologia associada à moradia unifamiliar no campo não parar, o insustentável modo de vida suburbana e seu crescimento imparável garantirão que a mudança climática vai acelerar.
Como não há poderosas alternativas sendo comunicadas dentro da profissão e nem entre o público em geral, e mesmo que houvessem modelos sendo propagados agora, levaria décadas para essas alternativas fazerem o seu caminho através das mentes e práticas das instituições e academias de todo o mundo.
Esta falta de liderança global, os contra-movimentos atuantes pelos setores interessados da economia global (instituições financeiras, como bancos e companhias hipotecárias, companhias de habitação, fabricantes de automóveis, etc.); as ações de querer tapar o sol com uma peneira através de iniciativas bem-intencionadas para reduzir a consciência culpada dos indivíduos e da coletividade; a insistência das academias no gênio do arquiteto individual (apesar do fato bem conhecido de que arquitetura é trabalho de equipe); a obsessão com o objeto arquitetônico autônomo como o veículo fotogênico para a legitimação dessa cultura arquitetônica ego-fixada; a perpetuação da historiografia arquitetônica ensinando estilos via recontagem da realidade construída como constituída pela construção de tais objetos autônomos (apesar do fato bem conhecido de que a maioria dos edifícios conhecem algum tipo de transformação ao longo de suas vidas); em suma: a falta de vontade da civilização global contemporânea para enfrentar a difícil verdade sobre a necessidade de mudar radicalmente o nosso comportamento será a razão pela qual: arquitetura vai continuar a automarginalizar-se; a profissão não vai recuperar a autoridade, uma vez que não está disposta a propor um paradigma que resolva as necessidades do ecossistema vis-à-vis às diferentes necessidades das sociedades em todo o mundo; os conflitos como resultado da mudança climática serão inevitáveis e irreversíveis, dada o profundo enraizamento dos padrões de comportamento acima mencionados.
Wilfried Wang
Wilfried Wang
Professor da escola de Arquitetura da Universidade do Texas em Austin. Arquiteto pela Bartlett School, University College London, foi codiretor da 9H Gallery (1985-1990), e diretor do German Architecture Museum (1995-2000). Juntamente com Barbara Hoidn, é fundador da Hoidn Wang Partner, Berlin. Ele ensinou em diversas universidades em Londres, em Zurique, em Navarra, em Harvard e é autor de vários ensaios e monografias sobre arquitetura do Século XX.
Sonia Marques
Arquiteta, especializou-se em Urbanismo e Organização Territorial (Toulouse) trabalhou em Planejamento Habitacional, é mestre (UFPE) e doutora em sociologia (EHESS/Paris) com trabalhos respectivamente sobre a formação e a profissão do arquiteto e urbanista, foi diretora do IPHAN, foi professora de História e Teoria da Arquitetura a partir de 1974 (UFPE/UFBA/UFRN). Atualmente é professora do departamento de Artes Visuais da UFPB e do Programa de Pós-Graduação em AU na mesma instituição.
Entrevista
A primeira de uma série de três entrevistas foi realizada por Sonia Marques no dia 13 de dezembro de 2014, e faz parte da etapa de coleta de dados de uma pesquisa exploratória sobre diálogos entre artes visuais e arquitetura realizada com apoio da Comissão Fulbright Brasil na Universidade de Texas em Austin.