português Entrevista com o paisagista Haruyoshi Ono sobre a relação entre Roberto Burle Marx e os arquitetos de São Paulo, em especial Rino Levi, Marcello Fragelli, Hans Broos, Miguel Juliano e Ruy Ohtake.
como citar
Marília Dorador Guimarães.
“São Paulo na vida de Roberto Burle Marx”.
Vitruvius entrevista, ed. 15.060. 2015.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/15.060/5386
Hans Broos, Burle Marx e Haruyoshi Ono no jardim da casa de Broos no Morumbi
A vida profissional de Haruyoshi Ono foi definida no gesto simples de pedir estágio para Roberto Burle Marx na segunda metade dos anos 1960, quando era estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. Foi ao escritório do paisagista com o colega de curso José Tabacow, que também conseguiu uma colocação. Inicialmente estagiários, ambos se tornaram colaboradores e, posteriormente, sócios do grande paisagista. “José Tabacow partiu para uma carreira solo, após 17 anos de muitos projetos e aprendizado prático”. Haruyoshi Ono “continuou ao lado do mestre até seu falecimento e tornou-se o herdeiro do seu legado” (1).
A presente entrevista não teve originalmente como foco o pensamento e obra de Ono. Ela foi motivada pela pesquisa de mestrado desenvolvida por Marília Dorador Guimarães, sob orientação de Abílio Guerra. O tema geral da dissertação – a obra paisagística de Roberto Burle Marx em São Paulo – levou a pesquisadora até o escritório Burle Marx & Cia., no tradicional bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde pôde pesquisar os originais dos projetos. Como continua ativo, a presença de pesquisador no escritório traz inevitáveis contratempos, mas os contatos estabelecidos anteriormente pelo orientador com Ono e sua filha e sócia, a arquiteta Isabela Ono, possibilitou a pesquisa e a entrevista, ocorrida em maio de 2012.
Jardim de Burle Marx para a Residência do Arquiteto, do arquiteto Hans Broos
A entrevista com Haru, como é conhecido, foi a decorrência natural do processo de pesquisa, motivada pelo interesse específico por algumas obras de Burle Marx em São Paulo, em parceria com arquitetos atuantes no Estado: as residências Olivo Gomes, Irmãos Gomes e Clemente Gomes, e o Centro Cívico Santo André, projetos de Rino Levi; os edifícios São Luiz e Macunaíma, e o restaurante da SEW Fábrica de Motores, de Marcello Fragelli; a Abadia de Santa Maria e a residência do arquiteto Hans Broos; o Parque Anhembi e o edifício Promenade, de Miguel Juliano; e as residências Luiz Izzo e José Egreja, de Ruy Ohtake. A dissertação, defendida em 20 de setembro de 2011 (2), analisa alguns jardins públicos e privados no Estado de São Paulo projetados pelo paisagista Roberto Burle Marx, tendo como pano de fundo seu desenvolvimento intelectual e suas referências artísticas.
A decisão em publicar a entrevista tem uma explicação simples: nas respostas de Haru temos em um primeiro plano sua visão sobre o trabalho do seu mentor, com esclarecimentos sobre decisões específicas em algumas obras como também princípios que nortearam a atuação geral de Roberto Burle Marx. Mas nas suas respostas é possível também verificar suas próprias ideias e a amplitude de sua participação na obra do mestre.
Jardim de Burle Marx para o Centro Cívico de Santo André, do arquiteto Rino Levi
Com memória excelente de fatos ocorridos há anos ou mesmo décadas, Haru observou, ao ser confrontado a fotos atuais do jardim do Edifício Macunaíma, que o atual estado do canteiro lateral é uma livre interpretação do sindico ou jardineiro, pois ali deveria estar uma forração para fazer composição com as árvores. De qualquer modo, segundo ele, os jardins particulares estão mais bem mantidos e bonitos que os jardins públicos, caso do Centro Cívico de Santo André, que citou como em estado ruim de conservação ao observar as fotos mostradas durante a entrevista.
A edição da entrevista, publicada a seguir, respeita a transcrição da gravação original, mas se optou por uma edição de texto que mantém a fluência da oralidade, evitando algumas repetições e corrigindo alguns erros gramáticos e sintáticos oriundos da oralidade ou da transcrição. Também foram eliminados alguns poucos trechos, por estarem excessivamente enigmáticos ou sem sentido na ausência da entonação ou gesticulação. As perguntas estruturadoras foram elaboradas anteriormente, pelo orientador e pesquisadora, assim como algumas perguntas alternativas, que seriam feitas conforme a resposta anterior. Outras tantas foram elaboradas espontaneamente pela entrevistadora, no calor do momento. Quem tiver interesse no material bruto, poderá consultar os anexos da dissertação original.
Projeto paisagístico de Burle Marx para a Residência José Egreja, do arquiteto Ruy Ohtake
2 GUIMARÃES, Marília Dorador. Roberto Burle Marx: a contribuição do pintor e do paisagista em São Paulo. Dissertação de mestrado. Orientador Abilio Guerra. São Paulo, FAU Mackenzie, 2011. Download: http://tede.mackenzie.com.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2475.
Jardim e painel de Burle Marx para Residência Olivo Gomes em São José dos Campos, dos arquitetos Rino Levi e Roberto de Cerqueira César
Marília Dorador Guimarães e Abilio Guerra: Como foi sua participação e como foram realizadas as encomendas dos projetos do escritório Burle Marx & Cia Ltda no Estado de São Paulo?
Haruyoshi Ono: Dos projetos do Rino Levi, a Residência Olivo Gomes, eu entrei depois, em 1965, projetando a parte do playground. Na residência dos irmãos Gomes, em Ubatuba, eu só fazia os desenhos, depois tinha o projeto de uma estrada, um Parkway, e era numa dessas regiões ligadas também aos Gomes. Já do Centro Cívico de Santo André eu participei; foi um concurso que eles ganharam e encomendaram o projeto de paisagismo ao escritório do Burle Marx. Não sei se foi uma encomenda, pois o pagamento foi feito através da Prefeitura de Santo André.
Começou com o paisagismo e, nas conversas, o Roberto começou a pensar em painéis e foram feitos três estudos para os três painéis do teatro e depois para a tapeçaria. Foi tudo mais ou menos na mesma época, com o mesmo prefeito. A tapeçaria foi feita nos teares da fazenda da família Gomes. Lá tinha um grande tear e esta tapeçaria é considerada uma das maiores tapeçarias do Brasil. Restauraram o painel, que foi emprestado para o centenário do Burle Marx aqui no Rio de Janeiro; foi um sucesso, pois a tapeçaria é muito bonita. Estivemos há pouco tempo em Santo André, mas o local está muito abandonado. Quanto à residência de Clemente Gomes, no Pacaembu, eu só conheço pelo projeto, em desenho. Foram projetadas pequenas jardineiras e um painel em concreto, mas não sei se executaram. Mas é uma residência pequena, um jardim menor. Desenvolvemos alguns trabalhos na avenida Nove de Julho: os edifícios Gravatá e Araucária –, mas não com Rino Levi, que já havia falecido, mas com os “Robertos” [os sócios de Rino Levi, Roberto Cerqueira Cesar e Luiz Roberto Carvalho Franco].
Piso em pedra portuguesa de Burle Marx para o Edifício São Luiz, do arquiteto Marcello Fragelli
O Edifício São Luiz – projeto em concreto aparente de Marcello Fragelli, situado na Avenida Juscelino Kubistchek – era chamado antigamente de Parque São Luiz e Condomínio Parque São Luiz. Também foi uma encomenda do arquiteto, que queria a participação do Burle Marx na execução do jardim. Era para ser a sede da Promon, escritório em que Marcello Fragelli trabalhava. Fizemos dois estudos e o segundo que foi aprovado e construído. Até hoje damos assistência na manutenção dos jardins. O escritório só supervisiona, pois é a Promoverde que faz a troca das plantas, a manutenção, mantém as características do jardim.
O Edifício Macunaíma, situado em Alto de Pinheiros, também foi um convite do Marcello Fragelli para um jardim residencial. Roberto quis inovar e criou espécies de vulcões, que era esquisito, diferente. O jardim propriamente dito está entorno da piscina e do edifício. [Haru vê as fotos do projeto] Ah reformaram tudo! Executaram os vulcões com telas de arames, que faz a armação toda por baixo, que é oco. Depois revestiram todo com pedra portuguesa. Posteriormente Roberto quis utilizar esta ideia nos jardins da Fazenda Vargem Grande, em Areias RJ, com o mesmo material – a pedra portuguesa –, mas devido à enorme quantidade de pedras que seria utilizada na fazenda, a pedra portuguesa teria que ser importada e para transportar seria muito caro. Nos croquis do projeto paisagístico da Fazenda, nos primeiros estudos, têm estes volumes com buracos abrigando bromeliáceas, plantas epífitas. Então o projeto foi alterado, pois era mais fácil – eles já tinham outra pedra – e ficaria melhor, mais integrado à paisagem. Este exemplo foi precursor da solução que ele usou depois em Brasília, em um dos Palácios (em um pátio interno, eu não sei se é no Ministério da Justiça ou no Tribunal de Contas da União, um dos dois). Com estas formas livres, bem abstratas, com piso de duas cores. [observando as fotos, aponta a cerca e complementa]. Tem que tirar este vaso! Mas o jardim está bem, bem conservado. As obras particulares são mais bem preservadas.
Jardim com “vulcão” de Burle Marx para o Edifício Macunaíma, do arquiteto Marcello Fragelli
No caso da SEW Fábrica de Motores (Guarulhos SP) ocorreu o contrário: fomos contratados pela empresa. Não me lembro mais do nome do presidente, que continua o mesmo, mas o nome da esposa é Úrsula Bickle Marx, que não tem nenhum parentesco com Burle Marx. A gente começou a fazer o jardim para a sede e depois, mais tarde, eles precisaram de uma ampliação, de um refeitório maior com restaurante. Roberto sugeriu o nome do arquiteto Marcello Fragelli, ele foi contratado e o projetou que fez obrigou a uma readaptação do jardim. Nós nos entrosamos bem com Marcello; foi uma grande época, ele vinha muito para o Rio, para as festas de Roberto, vinha com a senhora dele, Maria Amália, que tocava piano. Foi uma época boa. Eles se relacionavam muito bem, inclusive no sitio tem uma espécie de candelabro do Marcello Fragelli, que trabalhava com artesanato, tupia, coisa de marcenaria. Eles eram bem amigos.
A Abadia de Santa Maria, de Hans Broos, está localizada na Serra da Cantareira, em São Paulo. Eu me lembro pouco deste jardim. Na verdade, eu nunca fui neste lugar, eu me lembro mais do projeto em si e mais da conversa do arquiteto com Roberto; eu não participava muito. Eu trabalhei mais nos painéis da parte interna da capela, acho que fiz maquetes em auto-relevo dos painéis. Hans Broos estava fazendo na mesma época a casa dele no Morumbi e queria um painel também para casa dele. Fizemos um outro painel, em cima da lareira, que é uma adega. O painel da capela era todo em concreto, o negativo foi feito em isopor. Quase sempre era feito desta maneira; às vezes, utilizava-se madeira para a confecção do negativo, que foi o caso do Banco Santander.
Painel em concreto de Burle Marx para a sala de estar da Residência do Arquiteto, do arquiteto Hans Broos
MDG: Sempre montavam maquetes?
HO: Sempre se fazia maquetes. O traço inicial era sempre de Roberto, os rabiscos inicias... Depois eu interpretava os desenhos, ele aprovava ou desaprovava até chegarmos num acordo. Então desenvolvíamos a maquete, que normalmente ficava com o construtor. A gente não tem quase nada. Eram formas irregulares, fazíamos o desenho com raios, construíamos o desenho geometricamente e depois transpúnhamos para a maquete e fazíamos o molde com ela. O painel da Abadia de Santa Maria foi feito assim. A casa do arquiteto Hans Broos também, onde fizemos também o jardim. E tem uma árvore que ele gostava muito na casa dele, perto da piscina que é uma bauhinia blakeana enorme, pata de vaca. Quando Broos plantou, não acreditou que ficasse tão bonita, mas depois que ele viu a floração, ficou doido. Esta árvore era a peça principal do jardim dele.
Em relação ao arquiteto Miguel Juliano, a gente o conheceu sim, só não me lembro como. Eu sei que ele não era arquiteto na época, ele se formou depois. Tinha escritório junto com Pedro Paulo de Melo Saraiva, depois com Jorge Wilheim, que fez o projeto do Parque Anhembi. Depois ele saiu e foi trabalhar com Pedro Paulo e Sami Bussab. Eu não sei se o Sami Bussab trabalhou no Clube Hebraica, perto do aeroporto, todo circular, com uns arcos, o jardim todo em triângulos. Miguel Juliano ajudava muito, era o principal do escritório. Eu não me lembro da obra do edifício Promenade, mas me recordo do desenho.
No caso da residência Luiz Izzo – do arquiteto Ruy Ohtake, localizada no Morumbi –, fomos várias vezes lá. Depois de muito tempo, depois de muitos anos, foi feita uma reforma no jardim, pois o jardim havia crescido demais, principalmente as bromélias, que ficaram enormes. Quem ajudou na época foi o Oscar Bressani, e também Jorge Sakai, da Promoverde, que trabalharam muito com Roberto. Ele tinha uma forte admiração pelo Jorge, pois era uma pessoa muito legal, muito interessada. Numa época que ele tinha acabado de sair da Campineira – era uma das chácaras grandes de São Paulo, que existe até hoje, queríamos que ele trabalhasse aqui com a gente. Ele não aceitou a proposta e fundou a Promoverde.
Projeto paisagístico de Burle Marx para a Residência Luiz Izzo, do arquiteto Ruy Ohtake
Koit Mori e Klara Keiser, professora da USP, trabalharam muito com a gente. Flavio Motta também. A Klara, que é teórica, era auxiliar de Flavio Motta e o ajudou no livro [Roberto Burle Marx e a nova visão da paisagem]. Na parte de botânica, havia a Nanuza Menezes, pesquisadora da USP, hoje aposentada. Nanuza classificou a família das Velosiáceas, que Roberto começou a se interessar, influenciado por Nanuza. E a gente fez muitas excursões juntos para descobrir muitas Velosiáceas. Era um ponto forte das obras de Roberto: sua fixação por botânica e pelas plantas no seu habitat.
MDG/AG: Como foi a relação de Burle Marx com os arquitetos de São Paulo?
HO:Rino Levi era mais um amigo mesmo; tinham os mesmos interesses pela botânica, pelas viagens, tanto é que Rino morreu em uma dessas viagens (eu estava entrando no escritório e Roberto estava saindo para esta excursão). Quando ia para São Paulo, Roberto se hospedava na casa de Rino Levi (creio que na Rua Bélgica). Recordo-me da mulher dele, Ivone Levi, da filha Bárbara e de outras criancinhas, que não me lembro o nome. Marcello Fragelli era amigo também, tinha bastante contato. Hans Broos a mesma coisa; quando se encontravam, não paravam de falar, só falavam em alemão, o que, para mim, era difícil de compreender, mas eram bem amigos. Com o Miguel Juliano, no final só falavam de vinho, pois Juliano passou a ser um vinólogo. Na reforma da casa do Sitio, Roberto executou a construção de uma adega com a ajuda de Miguel Juliano, tudo climatizado, mas que nunca deu certo, pois Roberto comprava os vinhos e bebia antes. Toda a aparelhagem está lá, deve estar enterrada lá. Com Ruy Ohtake ele teve uma amizade mais recente, mas não era amigo-amigo, como o caso de Rino Levi. Roberto admirava muito as obras da mãe dele, da Tomie Ohtake.
MDG: Roberto Burle Marx comentava alguma questão relacionada às obras de São Paulo não serem concluídas?
HO: Não, não. Ele tinha tantos trabalhos, que não ficava muito ligado a isto. Ele ficava interessado quando começava um jardim e se ia até o final. No Parque Anhembi, ele sempre cobrava o Miguel Juliano – “Como está o projeto?” Quando o projeto não andava, ele acabava se desinteressando, nem ia mais lá. O relacionamento de Roberto com os arquitetos de São Paulo sempre foi muito bom, ele tinha um envolvimento grande com o pessoal de uma geração que não era a minha. Se reunia com o pessoal do IAB, havia o Roberto de Carvalho que gostava de jogar xadrez, havia um monte de gente que eu não conhecia, havia o Artigas que encontrávamos lá também... Eu acompanhava o Roberto, mas eu era estudante e o pessoal, mais velho. Mas Roberto tinha um grande relacionamento em São Paulo, que ele considerava um lugar especial, onde encontrava os antigos amigos. Havia um barzinho: não me lembro qual era o bairro, creio que na Praça da Republica – onde determinados arquitetos se reuniam à noite. Giancarlo Palanti era um deles. Lá encontrava também um primo, José Carlos Burle, o Zeca, que era médico, mas que ficou conhecido como cineasta e compositor; aquela música “Meu limão, meu limoeiro” é dele, ninguém sabe, mas é dele. Outra pessoa que Roberto se encontrava muito era um senhor do qual não me lembro o primeiro nome, mas o sobrenome era Sales, não era Walter Moreira Salles, mas era uma pessoa bastante importante em São Paulo. Isto nos anos 1960. Roberto não tinha nenhum problema com São Paulo. Ele era paulista, mas adotou o Rio como cidade.
Projeto paisagístico de Burle Marx para o Pavilhão de Exposições do Parque Anhembi, dos arquitetos Jorge Wilheim e Miguel Juliano
Projeto paisagístico de Burle Marx para a laje superior do Banco Safra, na Avenida Paulista
Marília Dorador Guimarães e Abilio Guerra: Existe alguma especificidade nas obras de Burle Marx em São Paulo?
HO:É difícil responder, ele gostava sempre de inventar e fazer coisas novas, colocar um painel em um jardim quando não se pensava nisso, fazer estruturas para plantas, quando não se pensava nisto. Hoje em dia todos fazem murais com jardins verticais. Em São Paulo, ele fez em residências e no Banco Safra, o maior exemplo. Mas ele já fazia antes no Rio. Em 1965, quando eu entrei no escritório, ele já fazia jardins verticais e murais. Depois nos anos 1980 ele fez os jardins da Manchete aqui no Rio. Em São Paulo fez talvez menos, porque tinha menos oportunidade. No inicio de 1960 fez uma série de estruturas para plantas na calçada para o Banco Itaú na Paulista, mas depois a avenida cresceu e as estruturas de metal galvanizado com xaxim que ele colocava bromélia se perdeu com a desapropriação. Você pode ver essa estrutura na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, no showroom da loja de cerâmicas Roca, perto da Avenida Brasil.
MDG: O painel na fachada do Banco Safra, na Avenida Faria Lima em frente ao Museu da Casa Brasileira, não tem assinatura. Ele é de Burle Marx?
HO:É meu. O painel ele não tem assinatura, pois eles não quiseram colocar, para que todos pensassem que é do Burle Marx. É uma adaptação do painel em concreto do Banco Safra na Avenida Paulista. Roberto e eu assinamos este projeto do Banco Safra na Paulista, então eles queriam tirar um pedaço deste e colocar em todos os outros bancos Safra em São Paulo. Eu disse: “não, eu faço outro baseado naquele”. O aspecto inovador está aí: o jardim vertical; ou seja, onde não há substrato (terra), não se pode usar árvores e elas são substituídas por um elemento vertical, um elemento criado artificialmente. Havia também o uso de água, que ele gostava muito, mas que hoje está sendo eliminado por conta do mau uso.
MDG/AG: Nos projetos em questão, o projeto paisagístico foi feito em paralelo com o projeto arquitetônico ou após?
HO: Com Rino Levi e Hans Broos era junto, pois desde o inicio, quando estava se elaborando o projeto arquitetônico, já entrava o projeto de paisagismo. Então, normalmente era isso: eles trabalhavam juntos desde o inicio. Com Fragelli na SEW houve um entrosamento muito grande e no projeto para estação de metrô Vergueiro, também fizemos juntos. Com Miguel Juliano não havia muita relação em termos de projeto, porém foi junto também. São poucos os projetos que entramos depois – uma ou outra reforma –, então quase todos são juntos.
MDG: Mas como funcionava a relação?
HO: Normalmente o arquiteto deixa áreas determinadas para o paisagismo, daí nós fazemos o diálogo com a arquitetura, que não prejudique a fachada. Normalmente o arquiteto comenta o que quer. No caso de Oscar Niemeyer, por exemplo, ele não quer nada. Daí a gente já sabe. Normalmente, o arquiteto sabe o que quer: “aqui eu não quero volume, aqui eu quero volume, uma coisa mais simples...”
MDG: E em relação à criação de um painel?
HO: Em relação ao uso de painéis, quase nunca falam. Ou seja, a gente sugere e vê se cola, mas não é sempre.
Painel de Burle Marx para a Abadia de Santa Maria, do arquiteto Hans Broos
MDG: Há casos em que a proposta foi recusada?
HO:Não pelo arquiteto, mas pelo cliente, quando quer reduzir os custos. Mas no caso do Ruy Ohtake, por exemplo, tenho certa cerimônia para colocar um painel. Se tiver uma piscina para executar eu gosto de fazer e o Ruy também. Fica uma situação delicada mexer ou não mexer, a gente vê quem trabalha junto com ele e já percebe que quer desta forma. Por exemplo, no Blue Tree Towers em Brasília, tem uma forma que é toda recortada, fiz o piso externo e o coloquei também dentro da piscina. Fizemos muitos projetos juntos hoje em dia. Eu sempre tento interferir nos desenhos dele, mas as vezes ele não gosta e bota pé firme! Tem que haver um equilíbrio no trabalho.
MDG/AG: Nos projetos em questão, qual a relação entre a arquitetura construída e os jardins? Como os dois objetos dialogam entre si?
HO: Sempre quando se faz um projeto – e estou falando do Roberto também, pois ele me ensinou assim – você tem que observar e tentar valorizar a arquitetura. Você tem que entrar dentro da arquitetura, como se fosse o ocupante da construção e usufruir a paisagem. Você tem que construir a paisagem de acordo com o que você vai ver no local, se colocar na pele do observador. E esta relação tem que ser uma coisa muito equilibrada, você não pode interferir no campo do outro, pois às vezes “abafa” e o projeto paisagístico passa a chamar mais atenção que o arquitetônico. É possível fazer um jardim sem chamar a atenção, integrá-lo à arquitetura, sem interferir. Mesmo que a arquitetura seja feia, não pode interferir. Esse equilíbrio precisamos procurar manter.
MDG/AG: Qual a concepção estética desses jardins? Quanto contribui os conhecimentos da botânica e quanto participa os conceitos buscados à pintura?
HO: O conhecimento com a concepção estética dos jardins é justamente a procura desse equilíbrio, com as formas, junto com os volumes da vegetação, das texturas que você dá e o conhecimento da botânica é imprescindível. No paisagismo, a base são as plantas, a vegetação. Então você não precisa conhecer botanicamente a planta, mas como ela se adapta, quando ela floresce, a estética da planta, a forma: são estas coisas que você precisa analisar para equilibrar. As regras que ditam a composição artística de uma pintura são as mesmas de quando se compõe um jardim. Mas o jardim é uma coisa bem diferente, porque as plantas são efêmeras, hoje está muito bem, amanhã não está... Depende das condições do clima, da temperatura, da luz, as coisas vão se transformando, pois são coisas imponderáveis da natureza. Se houver uma praga, precisamos cuidar, saber como estas coisas se portam para compor um jardim.
Projeto paisagístico de Burle Marx para o Edifício Promenade, do arquiteto Miguel Juliano
MDG/AG: Como Burle Marx entende o papel do paisagismo com relação à arquitetura? A visão do paisagista sobre este papel mudou ao longo do tempo? O senhor nota uma evolução nos projetos de Burle Marx ou os traços são os mesmos desde o inicio de sua processo criativo?
HO: Eu acredito que não, pois o paisagismo tem que estar em equilíbrio com um volume arquitetônico, com a arquitetura. Eu acho que até hoje não mudou, continua o mesmo [o papel do paisagismo com relação à arquitetura]. Em relação à evolução dos traços de Burle Marx, é lógico que eles vão evoluindo, mas têm coisas que vão e voltam, dependendo do conhecimento que você vai adquirindo. Como ele sempre falava, uma composição é o resultado de uma soma de conhecimentos que você vai tendo ao longo da sua vida. Quanto mais experiência, mais você vai se aprofundando. E com esses conhecimentos, você quer simplificar a composição. No inicio você quer colocar tudo o que você sabe numa planta só, fica tipo uma salada, mas com o tempo você vai simplificando; quanto menos coisas melhor, isso valoriza determinadas plantas. Faz parte da evolução de um profissional.
MDG/AG: Quais são as principais distinções na concepção de áreas livres considerando as diferenças de escalas e programas dos projetos arquitetônicos associados aos jardins?
HO: Eu acho que cada composição paisagística vai depender de uma finalidade, para qual fim você está fazendo paisagismo. Se for para uma área esportiva ou uma área recreativa, para qual faixa etária se destina, fatores que condicionam o projeto. A função é essencial, pois tem jardim contemplativo, de lazer, onde você vai descansar e curtir, mas tem jardim que você vai participar, como têm jardins que você vai para sentir. Um cego, por exemplo, não vê, mas há várias maneiras dele usufruir um jardim. Existem fins específicos para compor cada jardim.
MDG/AG: É diferente a criação de um jardim público de um privado?
HO: Tem diferenças sim. Um projeto público você tem que fazer algo mais geral, porque é mais abrangente. Então para cada uso é um tipo de jardim. Por exemplo, se você está dentro do carro, necessita de um tipo de jardim para circular, é um jardim que é observado em movimento. Se você estiver andando não, é outro tipo de jardim, você vai entrando e participando. No caso do Aterro do Flamengo você tem essa idéia. Você consegue ver os agrupamentos de arvores, as florações, você vai vendo quando vai chegando como se fosse só uma arvore, você passa rápido. Então, em um parque você deve colocar muitas árvores para que passando rápido ou devagar você as veja. Então são estas visões que temos que prever na hora de fazer uma composição.
MDG/AG: Como Burle Marx colocava o observador nos seus jardins? Quais sentimentos e/ou sensações ele queria produzir no visitante de seus jardins?
HO: Quando se projeta um jardim, elege-se pontos de vistas; mesmo em um jardim pequeno. Cria-se um obstáculo, coloca-se um anteparo, para em algum momento alguém dizer: “Olha, que coisa bonita, tudo se abre”. Pois se vê no meio das rampas uma fonte d’água e outras referências – um laguinho, um mural. Então, quando Burle Marx criava, ele sempre pensava nisso. Criava caminhos sinuosos, com ou sem elevações, pequenas sinuosidades no terreno.
Jardim com cascata de Burle Marx para o Edifício Macunaíma, do arquiteto Marcello Fragelli
MDG: Como nos jardins do Pignatari [atual Parque Burle Marx em São Paulo]?
HO: Sim, como em quase todos os projetos. Muita gente não quer ver tudo de uma só vez. Os jardins são para serem desfrutados aos poucos. Vai dando água na boca e devagarzinho dá vontade de ver mais e mais. Mas muitas vezes o cliente não entende.
MDG/AG: Burle Marx tendo o escritório com os sócios, estes participavam de suas criações, dando idéias, opiniões ou até mesmo alterando o processo criativo?
HO: Sempre! Ele dava essa liberdade. Estava sempre aberto a idéias novas. Se aceitava ou não, era outra história.
MDG: E nesses casos que estamos estudando?
HO: Não.
MDG/AG: Vocês que conviveram no cotidiano com Burle Marx, qual a sua opinião sobre o processo criativo do artista? Ele tinha um método de trabalho sistemático? Ele compunha a partir de uma inspiração? Tinha alguém ou alguma coisa que lhe inspirava?
HO: A opinião criativa do artista é impossível definir, pois têm dias que está inspirado ou não está. No caso de Roberto, creio que ele esta inspirado o tempo todo. Eu via ele fazer mil coisas ao mesmo tempo. Se não estava nos projetos, estava desenhando, lendo, vendo plantas... Ele não tinha um método sistemático. Para ele, tudo era lazer: gostava de pintar, cozinhar, desenhar, comer, não era uma pessoa regrada. Se dava vontade de pintar, ele pintava até cansar. Ele era muito observador. Eu lembro que nas viagens de avião, ele sempre sentava na janela e chamava a atenção dizendo “olha aquelas formas” e ficava com aquilo na cabeça. Mas não sabia se um dia ia usá-las. Com as plantas se dava o mesmo; nas viagens ele comentava “olha que beleza esta cor, a luz, as formas”. Tudo era fonte de inspiração para ele, o tempo todo.
MDG/AG: Ele tinha alguma preferência por projetar jardins públicos ou residências?
HO: Ele dizia que tinha mais prazer em fazer jardins públicos do que jardins particulares. Afirmava que muito mais gente usufruía. E isso é verdade, ele sempre tinha mais vontade pelo coletivo. O Parque do Flamengo, não é projeto que mais gostava, mas era o que tinha mais carinho; este e o Parque Del Este, em Caracas. Mas, ao mesmo tempo, eram fontes de grandes aborrecimentos para ele, pois às vezes tinham pessoas que maltratavam as plantas. Quando ele via, ele reclamava, ele falava, pois tinha esta qualidade, de não guardar nada para ele; ele ligava, achava ruim e falava. Eu não tenho esta facilidade, mas deveria!
MDG/AG: Vocês notavam alguma conotação de cunho político quando ele criava os projetos?
HO: Não, só prevalecia esta visão de gostar de fazer jardins para o público. Ele era apolítico, não se envolvia muito com políticos. Teve uma época, mais por amizade, na juventude, em que era socialista, mas depois não tinha esta preocupação. Claro, ele pensava muito na população, nas dificuldades, tanto que ele ajudava muitas pessoas. Em Guaratiba, Rio de Janeiro, onde morava, ele tinha o maior carinho pelas pessoas, ele ajudava muita gente, todos os empregados eram ajudados muito por ele. Toda vez que viajava para fora, a preocupação dele era de sempre trazer uma lembrança para todos os empregados. Roberto ia muito aos Estados Unidos, não era rico, mas tinha um amigo que sabia onde comprar coisas mais baratas. Ia para Miami e comprava camisas e camisetas para todo mundo em outlets, inclusive para as meninas do escritório. Quando ia para Malásia, comprava coisas muito vistosas para o escritório. Ele criou uma profissão que não existia. Lá em Barra de Guaratiba, todos que sabem lidar com plantas aprenderam com ele, foram formados no Sítio como empregados.
MDG: Ele era muito ativo?
HO: Ele vinha para o escritório em Laranjeiras e voltava para o sítio em Guaratiba, acordava cedo, andava o sitio todo, dava as ordens e vinha para cá. Era difícil acompanhá-lo. Nas excursões, ele era o primeiro a acordar e o último a dormir. Às vezes dá muita saudade dele.
Haruyoshi Ono e Marília Dorador Guimarães no escritório Burle Marx & Cia Ltda, Rio de Janeiro
Haruyoshi Ono
Arquiteto e paisagista tendo sido amigo e companheiro de trabalho de Roberto Burle Marx (1909-1994). Atualmente é diretor da empresa Burle Marx & Cia, sediada no Rio de Janeiro, que continua a criar jardins no Brasil e no exterior.
Marília Dorador Guimarães
Arquiteta (Universidade Guarulhos, 2007) e mestre em Arquitetura e Urbanismo (FAU Mackenzie, 2011). Atua como arquiteta autônoma no escritório MDG Arquitetura e é professora no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Guarulhos – UNG.
Abilio Guerra
Arquiteto (PUC-Campinas), mestre e doutor em História pelo (IFCH Unicamp) e professor da FAU Mackenzie. Com Silvana Romano, é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius. É coautor de Rino Levi – arquitetura e cidade (com Renato Anelli e Nelson Kon), autor de O primitivismo em Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp e organizador dos Textos fundamentais sobre historia da arquitetura moderna brasileira (Romano Guerra, 2001, 2010 e 2010).
Entrevista
Entrevista presencial realizada por Marília Dorador Guimarães no dia 5 de maio de 2011 no Escritório Burle Marx e Cia Ltda, Laranjeiras, Rio de Janeiro, Brasil, com perguntas previamente elaboradas com Abilio Guerra. Além da entrevista, no mês de maio do mesmo ano, Marília Dorador Guimarães realizou pesquisa documental no escritório para sua dissertação de mestrado intitulada Roberto Burle Marx: a contribuição do pintor e do paisagista em São Paulo, cuja banca final ocorreu no dia 20 de setembro de 2011, com as presenças de Abilio Guerra (orientador), Maria Assunção Ribeiro Franco (FAU Mackenzie) e Renato Anelli (IAU USP São Carlos).
Jardim de Burle Marx para o Edifício Macunaíma, do arquiteto Marcello Fragelli