português Benaminio Servino tem uma maneira pessoal de imaginar o presente, com um vocabulário próprio, feito de memória e desejo. Também de ironia, paródia, caricatura, distopias... Entrevista feita por Sérgio Hespanha e Federico Calabrese.
Benaminio Servino, nasceu em San Giuseppe Vesuviano (1), em 1960, graduou-se arquiteto pela Universidade de Nápoles, em 1985.
Vive em Caserta (2), onde mantém seu estúdio e desenvolve um trabalho que foge ao convencional. Ele produz intensamente imagens que não podemos cair na tentação de simplesmente chamarmos de desenhos, tal como geralmente os entendemos no âmbito da arquitetura. Estas imagens são divulgadas e não se restringem à comunicação interna ao desenvolvimento de cada projeto voltado a uma obra específica: compõe séries, livros e uma teoria da arquitetura.
A técnica de Servino é variada e tem, por si, um interesse artístico. Sem deixar de fazer uso do desenho, são imagens em que a relação com projetos existe, mas não é simples, nem direta. Esta relação é mediada por um elaborado discurso que coloca estas imagens num quadro complexo, com elementos que Servino reputa autobiográficos, visionários (mas não pré-visionários).
Uma maneira pessoal de imaginar o presente, com um vocabulário próprio, feito de memória e desejo. Também de ironia, paródia, caricatura, distopias...
Criando uma relação múltipla entre imagem e projeto, no entanto, Servino não despreza a construção, afirmando que a arquitetura acontece in vivo e o desenho é um laboratório que reconstrói artificialmente o ambiente externo.
As imagens que produz correlacionam-se de um modo diverso do que conhecemos e visam à obra, mas de modo mais teórico.
A divulgação destas imagens em meios como as redes sociais, especialmente o Facebook, constitui uma característica – já esta cada vez mais comum – que compõem parte do que nos pode levar a entender a natureza destas imagens e o tipo de vínculos que têm, ou que podem ter, de modo crescente, com a arquitetura, com sua produção e com o ato de projetar.
De um modo particular, o trabalho de Servino exemplifica um conjunto de transformações pelas quais vem passando o processo de representação da/na arquitetura, para além da questão instrumental: gráfica ou o que seja equivalente.
Autobiografia
Operando a distância entre concepção, representação e sua avaliação de um modo novo (numa perspectiva histórica), o trabalho de Servino aponta para questões acerca de como a representação, especificamente, e o ato de projetar, mais em geral, ultrapassam as condições da produção da arquitetura, até certo ponto prescindindo dela (o que não quer dizer desvincular-se), transformando e potencializando o processo de projeto; até mesmo o estatuto da arquitetura. Com Servino ela virtualiza-se de um modo peculiar.
A representação emerge como vontade, pesquisa, especulação, desejo, mais do que como instrumento de aplicação imediata, numa intensidade e frequência maiores, compondo o quadro atual de um papel das ‘comunicações arquitetônicas’ que, como nunca antes, apresenta-se qual um novo domínio.
Excede-se de diversas formas, por diversos motivos, dilata-se o tempo da ação projetual. Esta, de certo modo, distancia-se da ação construtiva, adiando-a, mas não em cada projeto em si, mas sim na instauração de um pensamento arquitetônico mais geral, que interpela diversos autores, e feito na representação, em sua reprodução, bem como na produção de imagens mais específicas, como as que temos no caso de Servino; cheias de um caráter próprio. Parece-nos que tudo isto transforma o ato de projetar de modo incontornável.
As várias línguas da arquitetura (palavra, desenho, modelagem, obra) servem ao problema irrefutável da simbiose entre a arquitetura e sua representação.
Sempre está envolvida uma busca por definições alternativas da arquitetura, que acompanhem as transformações de tudo o que a influencie. Com os meios digitais (softwares, parametrização, prototipagem) temos já algo assim, compondo aquele quadro de comunicações multiplicadas, pois existe a facilidade instrumental na representação tecnológica, também uma difusão de imagens. No entanto, com o exemplo de Servino, teríamos outro caminho, diante do que caracteriza a contemporaneidade?
Servino parece manter algo das tradições, mas também não se prende a elas e ainda se insere, ao menos em parte, no que temos de novo: ou seja, no mínimo, tem na intensidade da produção e divulgação de suas imagens, muito do que é próprio de hoje. De certa congestão que ultrapassa e inclui Servino, teríamos o que constitui o pensamento acerca da arquitetura atualmente?
Na produção de Servino, o desenho constitui um rico repertório; ele evoca suas memórias e desejos, mas também os leva adiante, nos oferece o que elaborou. Sua representação é a do pensamento, menos do que de cada desenho em si (pois uma imagem não se restringe, não configura um projeto). A arquitetura é autobiográfica pela sincronicidade do que se vê, do que se vê que se vê na contemporaneidade de sobreposições. Como ele afirma, a memória elabora imagens continuamente, produzindo pensamento.
Servino parte de fortes impressões/memórias de sua terra. Alimenta-se de imagens provindas das mais variadas fontes; em seu repertório as imagens se tocam, são corrompidas, corrompem, se misturam, são transfiguradas, não há purismo, mas sincretismo.
No uso intenso que faz Servino, o desenho é um aforismo, de comunicação rápida. Ele observa, fixa imagens e as usa indiferentemente na produção de suas próprias imagens. Muitas delas, em poucos traços, rápidas colagens, simples corrupções do pré-existente.
Desenhos sobre desenhos, muitos desenhos...
San Giuseppe vesuviano e seu territorio
A força da memória, que está também na sobreposição dos estratos acumulados na cidade (numa interessante relação arquitetura e urbanismo possibilitada pela interação entre imagens, constituindo o imaginário), comprime tudo em sincronia numa horizontalidade do presente. Assim, para Servino, a forma não segue a função, segue a si mesma. Com ela cabe buscar o monumental que expressa o entendimento coletivo, pois a autoria individual não difere, ela leva ao coletivo.
Trata-se de buscar monumentos sem função, que admitem atualização constante, defende Servino. Desse modo, o projeto não interpreta, mas intervém no lugar. A qualidade do projeto não estaria em sua capacidade de interpretação, mas na forma mesma. A nudez na arquitetura (explicando-a) seria um não possuir máscaras, contudo, ela tem peles.
Podemos destacar algumas expressões ou conceitos que sintetizam o trabalho de Servino, tais como: O antigo não existe: tudo se comprime no presente; A arquitetura é sempre autobiográfica; O desenho é um aforismo (comunica rapidamente); A necessidade do monumental na paisagem do abandono (finda a cidade de limites conhecidos, a monumentalidade é o recurso para o reconhecimento coletivo); A autonomia recíproca entre arquitetura e paisagem (o mimetismo é falso); O óbvio (aquilo que vem naturalmente fácil); A forma segue a ela mesma, não à função.
Servino reflete teoricamente de modo mais direto publicando vários livros, como: Intrecci. Note sul rapporto tra committente, progettista e esecutore nella produzione dell'oggetto architettonico (Priulla. Palermo, 1997; organizador); CE 900. Guida all'architettura del 900 in provincia di Caserta (Ordine Architetti Caserta, 1999; organizador); La Cittá Eccentrica. Esemplificazione del sistema urbano-territoriale della provincia di Caserta (Nuova Arnica. Roma, 1999; organizador); Elementare-Superficiale. album di architetture 2007-1985 (Skira, 2008); Architectura Simplex (Lettera Ventidue, 2012); Necessitá Monumentale/Monumental Need (LetteraVentidue, 2012) e Obvius – Diario [con poco scritto e molte figure] (LetteraVentidue, 2014).
O trabalho de Servino foi exposto, nas seguintes situações: na Bienal de Veneza dos anos 2002, 2008, 2010 e de 2014. No Pavilhão Italiano de 2008 apresentou Obus incertum, um monumento residencial extensível na paisagem italiana. No Pavilhão Itália da XII Mostra de Arquitetura 2010, apresentou L’Osservatore Veneziano, sobre a versatilidade do uso dos arquétipos.
Servino obteve as seguintes premiações: no Padiglione Per la casa a Pozzovetere recebeu o l’International Award architecture in Stone 2007, depois o Premio di architettura Arch&stone'08: architetture in pietra del nuovo millennio, e o The Special Honour del German Natural Stone Award 2011.
Antes de apresentarmos a entrevista com Servino, um pequeno extrato de seu último livro nos dá uma boa ideia do que alimenta sua produção representativa.
“I miei disegni/le mie immagini non sono delle visioni. I miei disegni/le mie immagini sono dei progetti. Anche quando la dimensione monumentale potrebbe far pensare a semplici speculazioni teoriche questi [i miei disegni/le mie immagini] sono dei progetti. Usano la forma e il linguaggio in misura definita. Non schemi. Quando intervengo sull’abbandono non lo faccio con il cinismo [e la distanza] del reporter. Lo faccio con un alto coinvolgimento emotivo dall’interno desiderando conservare le tracce e mostrando una via di riscatto dall’interno. La memoria non è euristica [non cerca prove alla sua oggettività]. La memoria fonda una vita parallela/possibile/verosimile. La memoria ci fa convivere con un nostro avatàr” Benaminio Servino, Obvius, p. 46.
Cava de tufo e reggia de caserta
notas
1 San Giuseppe Vesuviano é uma pequena cidade no interior de Nápoles perto do vulcão Vesúvio.
2 Caserta é capital de província da Campânia a região de Nápoles.
A inutilidade da função para a construção de um edifício
Sérgio Hespanha e Federico Calabrese: O senhor nasceu em San Giuseppe Vesuviano e mora em Caserta. O que quer dizer ter nascido nesta região? O que é ser um arquiteto nesta região da Itália (Campânia, Caserta, inclusive Nápoles)?
Benaminio Servino: Eu sou um homem desta terra [Campânia, o interior do Vesúvio, Campânia Felix – a planície entre Nápoles e Caserta]. Um homem, antes de um arquiteto. Assumo [desta terra] – mesmo inconscientemente, as maneiras, costumes, tiques. Eu descendo dessa cultura e, portanto, daqui que parto.
O antigo não existe
Meu repertório mnemônico que se torna repertório expressivo é construído selecionando fragmentos conhecidos [familiares, queridos]. Torno-me um rapsodo. Levo para os outros as historias que ouço.
SH/FC: Como vê a sua cidade e o seu território?
BS: Macabro e sublime, traços milenares imortais e sobras recém-nascidas de morte.
SH/FC: O que destacaria na história, na cultura, na urbanização/urbanismo desta região? Como vê a arquitetura produzida neste seu território (as três referências anteriores)? Quais relações julga serem interessantes entre arquitetura e urbanismo?
BS: Opostos e oposições. Registros reguladores e sobreposições. Promiscuidade. Complexidade.
A memória [minha memória] dá [me da] seus traços sincronicamente. É [se me apresenta] bidimensional.
A memória conserva o desejo
A cidade [a paisagem] se representa sincronicamente. É [a cidade/a paisagem] bidimensional.
Tudo chega à superfície e lá é que para. Flutua. Um lugar mostra-se em duas dimensões. É percebido bidimensional. Não há espaço para a atenção. Para a profundidade. Não há espaço para a terceira dimensão. Ele vai diretamente para a quarta. A do tempo. Um lugar e sua cultura são preservados reduzidos e comprimidos num plano bidimensional. E um plano é sobreposto a outro plano. Muitos planos, muitas cartas. Tantas cartas. E com tantas cartas um maravilhoso castelo de cartas.
O antigo não existe. O tempo, as pessoas e as coisas são comprimidas e achatadas juntas no presente.
SH/FC: No projeto, na projetualidade, como um pensamento arquitetônico, não caberia libertar o desenho da bidimensionalidade (liberá-lo do texto, termos, então, mais castelos que cartas ou podermos dobrar estas cartas no lugar de apenas sobrepô-las; embora, para isto, a sobreposição não seria excluída)?
BS: A dimensão sincrônica é aquela que corresponde à contemporaneidade.
Contemporaneidade significa que as coisas que cada um vê/toca vê/que toca você vive ao mesmo tempo.
Significa então algo horizontal.
A memória conserva o desejo
A inutilidade da função para a construção de um edifícioA inutilidade da função para a construção de um edifício
Sérgio Hespanha e Federico Calabrese: O que o levou a estudar arquitetura? Quais foram seus principais mestres e por quê? Seu trabalho decorre em alguma medida e de que forma daquilo que proveio desses mestres? Em quais aspectos a cidade ou o território em que vive teria contribuído para seu específico entendimento da arquitetura?
Benaminio Servino: Quando criança, muitas vezes eu fui à casa de meus avós, no interior perto do vulcão Vesúvio. Eu sempre fiquei entretido por horas fora de casa, em um longo pátio onde davam outras casas. Com um poço no centro. Muitas vezes, havia um homem, pequeno em estatura, mas forte com o baricentro baixo como um jogador de futebol que, com a sua equipe de 2-3 trabalhadores construíram muros de divisão e pequenas construções. Ele estava usando uma pedra vulcânica (tufo). Toda a área do Vesúvio, mas, em geral, toda a região, é rica desta pedra vulcânica (o tufo).
A inutilidade da função para a construção de um edifício
O tufo [a pedra vulcânica] é o material de construção mais familiar para mim. É [tufo, a pedra de tufo] o bloco de Lego com que são construídos os edifícios da minha memória [de criança, de adolescente]. Pedaços inteiros de cidades da área do Vesúvio antes e de Caserta depois, então, me apareceram através das superfícies do tufo. [Com uma variedade de acabamentos, tratamentos, tramas].
Reconstruo a parede de tufo da minha memória [que corresponde à parede de tufo que desejo]. A memória guarda os desejos.
O homem com o baricentro baixo era chamado de 'Ntonio' ou tzo-tzo [todos, aqui, tinham um apelido. Na maioria das vezes correspondia a uma característica física. Ele tinha, de fato, um problema de fala que o fez pronunciar as poucas palavras que ele usava como se tivesse uma almôndega ou mesmo uma rosquinha na boca]. Este homem foi o meu primeiro mestre: 'Ntonio' ou tzo-tzo.
SH/FC: Como foi sua formação nos aspectos que destacaria?
BS: O arquiteto aprende a gramática e conta sua história.
A planta não gera arquitetura
Autonomia recíproca da arquitetura e da paisagem
Autonomia recíproca da arquitetura e da paisagem
Sérgio Hespanha e Federico Calabrese: Em que fase do projeto nasce os seus desenhos e com que objetivo?
Benaminio Servino: A representação da arquitetura é a representação do pensamento da arquitetura que se faz para o projeto. Mais brevemente, a representação da arquitetura.
Não é, portanto, esta [a representação] um anexo da ideia do projeto. É a ideia do projeto. Como são as palavras para uma frase.
É incrível que quando você chega entender uma coisa, esta [a coisa entendida], parece óbvia.
A representação torna óbvia a arquitetura.
SH/FC: Em geral, como o senhor desenvolve seus projetos?
BS: Um projeto resolve as condições através de um repertório de formas pré-determinadas.
SH/FC: Existe uma produção gráfica independente da produção arquitetônica? Ou seja, esta produção independente não estaria relacionada diretamente com uma encomenda?
BS: Geralmente os desenhos são anotações de possíveis projetos. Eles constroem um repertório. Às vezes eu vou recuperá-los em um trabalho real.
SH/FC: Qual a relação entre esta produção independente e aquela encomendada?
BS: Muitas vezes, então, a segunda provém da primeira. Outras vezes, não.
Autonomia recíproca da arquitetura e da paisagemAutonomia recíproca da arquitetura e da paisagem
Necessidade monumental na paisagem do abandono
Sérgio Hespanha e Federico Calabrese: Em quais aspectos existiria uma independência entre ‘fabulação’ no desenho e concepção projetual (se distinguimos as duas)? Ou, se discorda dessa expressão ‘fabulação’, do que se trata, quando o senhor se liberta mais das respostas às questões programáticas e tecnológicas ou mesmo estéticas, se tidas como determinadas por critérios apriorísticos nas respostas de uma encomenda? Na busca de premissas teóricas que alimentem o pensamento subjacente ao projeto arquitetônico, como vê, na atitude de cada um, a oscilação talvez inerente ao trabalho do arquiteto entre ser mais autônomo e pessoal ou mais articulado e ‘universal’?
Benaminio Servino: Eu nunca tenho pleno conhecimento e certeza da ideia. A enfoco pouco a pouco. Como é o caso de um projeto. Para um desenho. Elaborando [o desenho] o pensamento se esclarece e se define.
É o pensamento [de que parece que você não tem consciência] que dirige a elaboração mecânica até parar no ponto em que [o pensamento estabelece que] o resultado pode se sobrepor [seja sobreposto] à ideia, até correspondê-la [à ideia].
A intuição é criacionista. A abordagem do desenvolvimento lento é darwinista. A primeira é mística e a segunda é laica [não-místico / antimístico / mundano / secular].
É o pensamento [de que parece que você não tem consciência] que orienta o desenvolvimento de uma imagem até pará-la [a elaboração] no ponto em que [o pensamento estabelece que] o resultado lhe possa corresponder [ao pensamento].
Arquitetura é autobiográfica. A arquitetura é autobiográfica não é a arquitetura da memória, da nostalgia.
É, portanto, arquitetura libertada do medo de escolhas impopulares, impróprias, politicamente incorretas. É arquitetura que mescla e confunde as fontes, que reproduz [faz como] os heróis, mantendo-os próximos uns dos outros, casualmente.
A Arquitetura autobiográfica se retém na superfície. É uma arquitetura individual com as inflexões de um dialeto. Cheia de erros, sabendo que está cheia de erros.
A arquitetura autobiográfica tende à leveza como desempenho, se esqueceu de Calvino ou talvez ela nunca o conheceu.
É elementar e superficial.
Mas então, no final, todas as histórias são semelhantes. E a arquitetura autobiográfica [da minha autobiografia] torna-se arquitetura coletiva.
Por uma utopia mínima
SH/FC: Qual a relação entre o pensamento como indagação autobiográfica, memória, sincronicidade e bidimensionalidade? Esta última imporia o limite da expressão da forma concebida, para o senhor? A bidimensionalidade nestes termos não estaria presa a uma cultura baseada no texto (história, memória, literatura) e o desenho aqui não seria um limite (se único) anacrônico hoje em dia? Pois a forma que se almeja com o projeto na arquitetura não pode ser buscada e expressa por diversos recursos de representação? Onde e como situar o desenho neste mundo mais diverso?
BS: A aproximação autobiográfica ao projeto significa colocar o si mesmo em primeiro lugar. Representa a libertação dos condicionamentos do correto, do justo, da autonomia respeito aos modelos.
A memória elaborou as imagens guardadas adaptando-as ao si mesmo. Os objetos da memória já são elaborações projetuais.
Aqui, na memória, não há profundidade. As coisas se dispõem em um plano bidimensional.
Aqui, na cidade, as coisas se dispõem em um plano bidimensional. Sincrônico.
Uma democracia [um equilíbrio democrático, sem hierarquias] de pesos e valores.
SH/FC:Seus desenhos, como todo desenho, não compõem e reforçam memórias? Não é algo de memorialístico? Como eles compõem algo de projetual que, projetado, lançado adiante e visando o futuro – do inexistente – em cada obra, seria inventivo? Não existe uma contradição aqui? Como superá-la na prática deste desenho enquanto projeto?
BS: A memória é uma database. Não é um sótão com as coisas guardadas e empoeiradas.
É [a memória] um elaborador contínuo, perpétuo, que produz pensamento.
SH/FC: Como vê desenhos feitos à mão frente à avalanche de formas de representação/elaboração da arquitetura (digitalização, prototipagem e parametrização com emprego de softwares) de que dispomos hoje e é crescente promessa para o futuro? Em que medida existe nestes desenhos algo de uma ‘realização’ de suas premissas teóricas (o que defende na arquitetura)?
BS: O desenho [ou melhor, a representação da arquitetura] é a ferramenta para enfocar o pensamento da arquitetura. Ele não vem depois. Nem vem antes.
E depois há o desenho autocelebrativo. Que reflete. Reflexivamente celebrativo.
SH/FC:Faria alguma defesa (a partir de sua experiência?) de uma generalização do emprego desse tipo de desenho especialmente? No ensino, por exemplo.
Quaisquer pensamentos de arquitetura precisa da sua representação. Caso contrário, tem o risco de esquecê-lo.
SH/FC:Como vê as relações entre a arquitetura e o virtual (a virtualização) e como se situa neste quadro de mudanças mais recentes? Se quiser, considere aqui como referencial ou mesmo se restrinja ao que Picon (3), por exemplo, aponta acerca do potencial impacto dos meios digitais e do projeto assistido pelo computador sobre a materialidade da arquitetura. Especificamente, como situa seu processo de projeto, com o desenho, diante da emergência desta virtualização? Incluindo a propalada mudança de paradigmas com a prototipagem.
BS: Os renders ilustrativos de um projeto não me interessam.
O desenho [a imagem da arquitetura] é apenas uma ferramenta de desenvolvimento do projeto.
SH/FC:O que o desenho lhe permite fazer especialmente em seu processo de projeto?
Os pensamentos tornam-se complexos se você tem as palavras para descrevê-los. Caso contrário, [se não o contrário] são pensamentos pobres.
O pensamento usa os tempos e as palavras de quem o descreve para assumir forma própria.
SH/FC: O emprego deste desenho mais livre vem desde sua formação?
BS: Ele vem da repetição.
SH/FC: Houve alguma influência neste uso do desenho em seu trabalho? De quem? Como isto tem evoluído (o uso do desenho)?
BS: As imagens que produzo são todas aquelas de que eu tenha me nutrido. Somente um pouco corrompidas.
[As imagens de que eu me tenho alimentado me corromperam].
As imagens que eu guardo se tocam [se contaminam] entre elas.
Sincretismo em vez [em lugar] de Purismo
Muitas imagens de arquitetura se misturam e são transfiguradas.
SH/FC:O senhor identificaria o emprego do desenho com certa importância relativa na arquitetura italiana? Se for assim, há aqui uma forma específica de pensar a arquitetura e haveria alguma relação com o peso das tradições e do patrimônio arquitetônico italiano?
BS: A construção da arquitetura [a sua prática] é o ambiente natural da sua experimentação.
Construir arquitetura é o melhor caminho para sua experimentação.
Os tempos da construção [mais ou menos longos] favorecem a contaminação inevitável do propósito original, mas também ajudam a defini-lo.
Ao contrário, a elaboração de uma imagem de arquitetura encurta muito o processo de variação-adaptação. Em ambos os casos [a construção de arquitetura a elaboração da sua imagem] o exercício da variação-adaptação é vital para o foco do pensamento arquitetônico.
A arquitetura é mais ou menos fiel espelho da história de seu autor.
Os espelhos e a dilatação do angusto.
O desenho é um aforismo.
O aforismo é uma ferramenta para uma comunicação rápida [de pensamentos lentos].
O desenho de arquitetura é um instrumento de propaganda. Política. E da forma da política.
SH/FC: Onde está o saber de ter no desenho um aforismo? Esta noção se refere à forma ou à função do próprio desenho? (não me refiro à forma que o desenho representa)
BS: O Aforismo [o desenho] é uma modalidade para representar [dar forma] ao pensamento.
SH/FC:Como o senhor se nutre de imagens, que imagens são estas, de onde elas vêm, como e por que o senhor as retém?
BS: Observo as coisas, reais e virtuais. As que gosto [as coisas que gosto/são afins a mim/me comovem/me divertem/...] as fixo na memória/ as fotografo/ as guardo em um arquivo.
E depois as uso. Indiferentemente.
SH/FC:Sob quais aspectos o que está já no desenho mais livre e especulativo contempla algo das resoluções de um projeto?
BS: O projeto é a soma de muitos desenhos.
SH/FC:A relação entre arquitetura e urbanismo como estaria presente em seus projetos? Pode exemplificar?
BS: A arquitetura pode reconstruir um novo equilíbrio entre as partes de uma cidade e entre ela e o território. Intervir com a arquitetura na cidade e no território é um ato político.
A correspondência direta entre a degradação urbana ou partes inacabadas da cidade e estratos sociais de aflição produz um desequilíbrio, que também é físico, morfológico.
O terrorismo simbólico da cidade dos subúrbios e das construções abusivas, da separação clara e instrumental entre o bem e o mal, precisa de uma fase de transição traumática igualmente simbólica para resolver o desequilíbrio da cidade contemporânea.
O equilíbrio da cidade prepara a sua beleza. Ele [o equilíbrio] a recupera [a beleza].
A beleza e a democracia são construídas no equilíbrio. [A estética do desequilíbrio reflete o desequilíbrio econômico e social].
Por uma utopia mínima
Necessidade monumental na cidade desequilibrada.
Para ser compartilhado e apoiado o monumento deve ser reconhecido como próprio. Deve ser representado [o monumento] em uma forma gerada a partir do seu próprio repertório linguístico. Deve mostrar orgulhosa a sua gênese, mas também tomar, também, uma dimensão gigantesca hipertrófica ciclópica imensurável. Mas ainda assim reconhecível. Uma anamorfose libertadora, criadora de imagem.
Só então o monumento gera maravilha e surpresa. Uma surpresa de contra-reforma. Uma surpresa que prepara um novo equilíbrio, uma maravilha que da legitimidade.
SH/FC:A sincronicidade e a bidimensionalidade que o senhor defende podem ser entendidas como sendo fundamentais na atualidade da ação projetual (algo como: o tempo do projeto é o presente)? Onde entra a perspectiva histórica, a memória, a noção de patrimônio aqui?
BS: A história não tem profundidade. A cidade não tem profundidade. Apresenta-se [a cidade] simultaneamente. Usamos [a cidade] simultaneamente.
SH/FC: A familiaridade na arquitetura seria ressaltar que as coisas se sobrepõem e se acumulam? Isto é o mesmo que promover o conhecimento histórico sobre a arquitetura?
BS: A familiaridade corresponde ao caráter do que é reconhecível. Que é de um léxico conhecido e seguro.
A familiaridade constrói uma margem. A maravilha, outra margem. No meio, se move a ideia de beleza.
SH/FC:O que é o peso e a leveza na constituição da beleza do mundo?
São atributos de quem observa a beleza. Quem a constrói [quem deseja construí-la/quem a busca] a pensa sem atributos. Somente necessária.
SH/FC: O que é a confusão da cidade? A que cidade o senhor se refere e quais seriam suas partes (ou peças), como elas se fundem e contém recordações? Esta seria uma atitude de aceitação, em contraponto a uma atitude de reforma?
BS: A cidade exemplifica a tectônica dos estratos. Às vezes os estratos se diferenciam [é possível reconhecê-los]. Outras vezes se confundem. Tornam-se um corpo único.
A cidade é definida na quarta dimensão [As cidades de fundação, sendo construídas num tempo horizontal, são não cidades, ou pelo menos não ainda cidades].
A cidade usa 4 dimensões [com a quarta que corresponde ao tempo] para sua construção, mas manifesta-se em uma sequência de planos bidimensionais. E aqui a assimilação com as lembranças [a memória].
SH/FC: Em que ponto está a contradição entre forma e superestrutura? A forma não seria valorizada justamente no âmbito da constituição das superestruturas?
BS: Superestrutura? A forma da arquitetura contém tudo. Não o contrário. Não são as partes que dão forma à arquitetura.
SH/FC:Sua menção ao arruinado, à ruína, o que resta abandonado, como plataforma para edificar uma paisagem ulterior e condição encontrada cotidianamente tem similaridades com os conceitos de Terrain Vague e de Junckspace? Se não, aponte-nos as diferenças?
BS: O abandono, quando o achamos, é a cota zero da qual começar.
Sanar/Restabelecer é só propaganda pitoresca. O pitoresco no tempo do digital.
SH/FC:Quais seriam e como estabelecer, no projeto, os limites entre dois extremos: não se exceder na busca do futuro ou não se exceder na fixação ao presente?
BS: O Visionário é uma maneira muito pessoal para imaginar o Presente redefinido com um vocabulário próprio [feito de termos da memória e do desejo]. O visionário não prevê [não vê antes] a cidade ou a paisagem do futuro.
O Visionário [Utopia autobiográfica] se move dentro de um intervalo muito instável delimitado de um lado pelo Irônico [a Paródia-Caricatural] e do outro pela Distopia [o Catastrófico]. O jogo sábio da sobrevivência é aquilo de se manter em um traço intermediário em que os extremos deste intervalo encontra-se em alguns momentos, mas são normalmente mantidos a uma distância de segurança.
Visionários não são pré-visionários. No sentido de que eles não podem imaginar um tempo futuro, imaginam, mas simplesmente um tempo presente escrito com seu vocabulário. Cada visão [utopia] é datável.
SH/FC: Sua díade visionária-irônica é um contraponto à tríade vitruviana? Ela traz para o autor certa autonomia na busca de respostas (programa, como perguntas?), por assentar-se na autobiografia? Também é antiutópica, por ser distópica e imediata? Explique (se possível, ilustre apontando produtos específicos) a relação entre utopia e distopia em seu trabalho.
BS: O visionário [que não é o pré-visionário, mas somente quem olha o mundo com os próprios olhos. E o olha hoje] se move na borda que de um lado tem a ironia [a paródia] e do outro a distopia [a catástrofe].
SH/FC:O que é a simplicidade nos termos em que o senhor a menciona quando fala em obra autobiográfica?
Autobiográfico significa feito com naturalidade.
SH/FC:Onde está uma necessidade de se contrapor à invenção? Ou se trata somente de habilitar (mais) a cópia?
Laicamente, a transposição de um texto de um tempo para outro [tradição], de uma língua para outra [tradução] de um corpo para outro [traição] conduz a descobrir espaços inesperados de escritura pessoal.
Serendipidade. (Serendipity)
SH/FC:Onde está a conexão entre memória e invenção? Não distinguir o lembrado do inventado é uma maneira de atualizar o que se faz? Não haveria distinção, no que é criado, no que se adota, se adapta, entre o que se reforça no conhecido e o que se reforça no que se busca e não seria conhecido ainda? Se não é possível inventar de todo, tampouco é possível manter como foi outrora, não? Onde está o grau dessa mistura?
BS: A memória não é um porta-joias onde se guardam as coisas. É um elaborador que transforma as coisas.
SH/FC: Explique-nos a relação entre tradição, tradução e traição como os coloca em seu trabalho.
BS: Quem não declara ser criativo e inventivo, quem não delira, então, usa – inevitavelmente - estas categorias [que não por acaso têm a raiz comum, do transportar] como necessárias para o reconhecimento de si.
SH/FC:A corrupção do/no desenho, como necessidade genética, mais do que lhe dar uma base na cópia, não lhe abre caminho para a invenção?
Corrupção/Contaminação/Transfiguração são passagens [não necessariamente nesta ordem] da prática de focar o pensamento na sua fase de elaboração através do desenho. Desenhar é uma operação de laboratório onde intenta-se reconstruir artificialmente o ambiente externo.
A construção da arquitetura acontece in vivo. LIVE. Apesar de usar uma partitura [o desenho/projeto] vive diretamente a oxidação da exposição aos agentes do caso.
A invenção aqui é o inesperado êxito da transferência do bidimensional ao tridimensional.
SH/FC:Corromper a fonte como condição para sua assimilação e uso instrumental não se equivale a inventar? Aqui não nos liberamos da carga relacionada à criação mística, que o senhor repudia?
BS: A invenção como resultado de um método científico, darwinistico. Não como pressuposto demiúrgico.
A invenção, então, como uma alteração, deformação, transfiguração. Em suma, adaptação ao si mesmo.
SH/FC: Para o senhor, existe (e qual seria) a diferença entre invenção e criação?
BS: Darwinismo versus criacionismo. Laico versus místico.
A tensão à criação é um ato impuro [luciférico], de substituição ao Criador, e produz impotência. Queda da libido.
A invenção corresponde a heterogênese dos fins.
SH/FC: Como lidar com a história, o presente e o futuro quando se está frente a um processo de concepção (projeto)? Como lidar hoje (especialmente na Itália) com o peso da tradição de uma teoria crítica da arquitetura e com o peso e possibilidade para uma possível retomada – de algum modo – do que se poderia entender como ‘historicismo’? (por exemplo, com Tafuri e Rossi, mais o patrimônio milenar)?
BS: O ambiente físico da cidade está comprimido, achatado sob um plano. Nos aparece bidimensional, como uma construção de superfícies contemporâneas [contemporâneas à mim]. A abordagem dela [a cidade, partes da cidade] é, então, sincrônica não diacrônica.
[Na complementação dos textos interrompidos].
A complementação de um texto interrompido não é o exercício de reconstrução filológica. É, em vez disto, uma digressão que envolve de um modo direto o novo autor, que é diferente do primeiro. [Ou é o mesmo autor em diferentes épocas]. Opera [a realização] no plano bidimensional [sincrônico] e não no diacrônico.
O resultado não é a recomposição da sua [o texto] forma original [se existisse] ou da forma desejada pelo seu primeiro autor. O resultado é uma nova forma que se anexa a primeira e se prepara para uma posterior [além de uma aparente conclusão].
SH/FC:Com a prototipagem o projeto se aproxima do design (produto reprodutível); neste quadro, como vê as relações da arquitetura com o seu lugar (história e memória, no presente, sem demolir)?
O projeto não interpreta e não compreende um lugar. O projeto intervém naquele lugar. O resultado bom ou ruim do projeto não depende da boa ou má interpretação ou compreensão de um lugar. Depende [o resultado] da forma do objeto arquitetônico.
Sobre a autonomia recíproca de arquitetura e paisagem.
A pirâmide no deserto é a exemplificação da autonomia recíproca da arquitetura e da paisagem.
A arquitetura mimética é falsa. É um engano com dolo.
SH/FC: Em que medida suas premissas teóricas e seus procedimentos de projeto se circunscrevem à realidade e aos limites italianos e especialmente napolitanos (em relação, por exemplo, ao vasto patrimônio construído e também natural a ser preservado - se comparado com o que ocorre no Brasil)? O arquiteto pode, deve poder atuar independentemente do lugar no qual formou a sua visão de mundo, a sua autobiografia? Ou ela é somente o seu modo de ver e entender, mesmo que se trate de realidades muito diferentes? Como vê isto diante de uma possível uniformização da cultura, com o alcance dos meios de comunicação que temos?
BS: O local de formação e crescimento de um autor lhe serve para desenvolver um vocabulário, um léxico, a ser utilizado para a sua história. Estes [vocabulário, léxico] são sempre espúrios, no entanto, incorporam, mesmo de maneira inconsciente, às vezes, imagens e textos de origem diferente, de muito longe.
A autobiografia dá ao autor meramente um ponto de vista, um ponto de observação.
SH/FC: O que é a nudez da/na arquitetura? O senhor atribui-lhe (à nudez) várias características, mas resta ainda algo de mais explícito, ela não estaria nua?
BS: A nudez refere-se à autobiografia. A arquitetura nua não tem máscaras. Não pele, mas máscaras.
O senhor é um arquiteto clássico? Ou moderno? Ou pós-moderno? Como lida com estes conceitos?
Os arquitetos se diferenciam em duas categorias. Aqueles vivos e aqueles mortos.
Por uma utopia mínima
nota
3 PICON, Antoine. A arquitetura e o virtual: rumo a uma nova materialidade. In SYKES, A. Krista (org.). O campo ampliado da arquitetura. São Paulo, Cosac Naify, 2013.
O projeto não busca a invenção
Sérgio Hespanha e Federico Calabrese:Por que o nome Obvius para o livro que acaba de editar/publicar?
Benaminio Servino: A definição de Obvius é: o que se apresenta espontaneamente e facilmente ao pensamento ou à imaginação, como coisa natural, normal, evidente.
De Elementar/Superficial a Natural/Normal/Evidente.
Monumental Need e Obvius são dois livros do mesmo volume. O primeiro trata um tema [A necessidade monumental da paisagem do abandono] de maneira extensa [e com digressões que retornam ao tema]; o segundo sistematiza uma teoria através da composição de fragmentos. Fragmentos de uma autobiografia quase autêntica, quase verdadeira.
SH/FC: Retomando a velha questão da relação forma-função, mas não necessariamente nos termos históricos, como o senhor desenvolve(rá), especificamente junto aos seus alunos, a questão da passagem ou da tradução das necessidades de espaço destinados às práticas da vida (ou o conteúdo ‘social’ do espaço), para as formas que o espaço deva ter, na satisfação dessas necessidades (formas estas a serem elaborados no projeto)?
BS: Sobre o Monumento e sobre a Memória.
A arquitetura constrói simbolos
[Eu / Ego] Desenho monumentos eternos onde você, dentro, pode colocar qualquer função e quando estas funções estiverem desatualizadas você pode mudá-las, mas o monumento permanece.
A forma segue a função leva consigo o funcionalismo - os programas - os organogramas.
A forma segue a ela mesma [e colocamos dento o que você quer]. O monumento é a representação física da memória transfigurada das pessoas. É a memória que as pessoas pensam conservar. Mas, entretanto, já se transformou ...
O monumento vem da memória e a devolve [a memória] assim como se pensava tê-la.
A memória é como a água, toma a forma do recipiente que a contém.
A arquitetura constrói símbolos
…
Depois
o monumento
se torna um pedaço de você
Um pedaço que você ainda possui, mas que você acha que sempre teve.
Uma arquitetura nunca nasce para uma função. Nasce para definir [determinar fixando os limites] um lugar.
SH/FC: Quando o senhor fala de forma, de seu valor simbólico, o que é esta forma? Esta palavra, mesmo no âmbito das artes e da arquitetura é meio controversa, não?
BS: A forma é associada ao descomprometimento. A autoreferencialidade, a superficialidade. A tradição. A linguagem. Ao solipsismo narcisístico.
SH/FC:O que significa ‘a forma não segue a função, a forma segue ela mesma’? Isto significa que há realmente uma contraposição inconciliável entre programa - como expressão das funções/atividades a serem acomodadas num edifício - e uma possível flexibilidade da forma? Ou quando diz que a forma segue a si mesma o senhor usa de uma metáfora, ou cria um slogan, para referir-se mais exclusivamente à forma e, na verdade, não à função?
BS: Se a arquitetura se modelar sobre a função, sobre o uso previsto pela sua construção, teremos muitas arquiteturas não usadas. Felizmente a arquitetura resiste à função que a gerou.
A forma segue a si mesma
Metade casa, metade igreja
Sérgio Hespanha e Federico Calabrese: O que diria sobre a arquitetura e o urbanismo que se encontra no Brasil (para não dizer que sejam ‘brasileiros’; se quiser, fale desta questão de uma identidade da arquitetura brasileira para o senhor)? O que acha de Brasília?
Benaminio Servino: Fascina-me muito a experiência da cidade de fundação. Interessa-me verificar cada vez o aparato plástico e a distância que ele tem da cidade histórica que cresce sobre si mesma.
SH/FC: Comentaria as manifestações (4) que recentemente ocorreram nas ruas de cidades brasileiras e as relacionaria com o espaço urbano e a arquitetura? (teríamos da ‘cidade que se rebela’ algo que possa repercutir na arquitetura e no urbanismo?) Vê possíveis correlações entre esta rebeldia e uma democratização da beleza? A ‘cidade que se rebela’ pode repercutir na arquitetura e no urbanismo?
A forma segue a si mesma
BS: Os sinais de sofrimento social não podem ser transcurados.
A beleza e a democracia são construídas no equilíbrio. [A estética do desequilíbrio reflete o desequilíbrio econômico e social].
SH/FC: Conhece a obra de Lina Bo Bardi? Seus desenhos? Pode falar dela e especificamente acerca de possíveis correlações com sua maneira de projetar e sua visão da arquitetura?
BS: Eu conheço algumas obras de Lina Bo Bardi. De algumas eu gosto muito. A tal ponto que alimentaram meu repertório de signos.
Arquitetura autobiográficaMetade casa, metade igreja
nota
4 Entre junho e julho de 2013, inicialmente protestando contra o aumento da tarifa de transporte público, estas manifestações ganham corpo, disseminando–se por várias cidades brasileiras, principalmente na forma de passeatas. Estes protestos passaram então a incluir outras demandas, na medida em que houve repressão e a inclusão de diversos interesses e interessados, referindo a gastos públicos em eventos esportivos internacionais, a má qualidade dos serviços públicos (saúde e educação, principalmente) e a indignação com a corrupção no exercício da política representativa.
Metade casa, metade igreja
Beniamino Servino
Nascido em 1960, vive em Caserta. Arquiteto formado em 1985, em Nápoles, publicou recentemente Monumental Need [Letteraventidue 2012], sobre a cidade e sobre a não-ainda-cidade, sobre a paisagem deixada ao seu próprio destino e sobre como o monumento popular poderá reconstruir um novo equilíbrio; também publicou o livro OBVIUS [Letteraventidue 2014], uma teoria da arquitetura sobre a forma de diário.
Construir
Sérgio Hespanha
Arquiteto-urbanista e professor.
Federico Calabrese
Arquiteto e professor napolitano sócio fundador do escritório Fondarius architecture em Barcelona. Atualmente reside em Salvador.
Construir
Entrevista
Sérgio e Federico entrevistaram Servino no segundo semestre de 2013.