Maycon Sedrez.
“A forma não importa”.
Vitruvius entrevista, ed. 15.058. 2014.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/15.058/5208
Arnold Walz
Arnold Walz é arquiteto e sócio fundador da empresa designtoproduction (www.designtoproduction.com) gerenciando o escritório em Stuttgart. Ele estudou arquitetura na Universidade de Stuttgart e foi um pioneiro no desenvolvimento de modelos CAD paramétricos para o planejamento da construção. Ele ajudou a melhorar o trabalho da mão de obra e a precisão na execução de alguns dos edifícios mais comentados nos últimos anos como o Museu Mercedez Benz em Stuttgart, Zentrum Paul Klee em Berna, P&C Weltstadthaus em Colônia, Museu Porsche, a Sede da Lufthansa Frankfurt entre outros.
O trabalho realizado por designtoproduction - definido pelos seus diretores como organizar, otimizar, simplificar e materializar - surgiu como um novo tipo de habilidade em arquitetura que é fundamental para a produção da arquitetura contemporânea. Atualmente, alguns dos escritórios de arquitetura e engenharia líderes na Europa e América do Norte têm criado internamente grupos especiais de projeto ou grupos especiais de modelagem, formados por programadores, matemáticos, arquitetos e engenheiros trabalhando especificamente para encontrar soluções para o projeto e a construção de geometrias complexas. As empresas que não possuem este grupo interno têm a opção de contratar consultores especializados como a empresa designtoproduction.
Arnold Walz
Walz veio ao Brasil em maio de 2014 para palestrar e participar de discussões sobre a fabricação digital no Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção (LAPAC - lapac.fec.unicamp.br) na Universidade de Campinas (Unicamp) com auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Durante uma das discussões com os pesquisadores de diferentes universidades uma interessante questão surgiu: se o escritório tem que, muitas vezes, recriar completamente a geometria em determinados projetos, ou interferir na seleção de materiais, como eles lidam com a questão da autoria? De acordo com Walz, a maioria dos arquitetos nunca irá reconhecer a contribuição dele para o projeto. Contudo, isto trouxe uma interessante discussão sobre o fim do conceito moderno de autoria, baseado na ideia do arquiteto como um criador solitário, e não como um membro de uma equipe cada vez maior de especialistas.
A entrevista a seguir é subdividida em dois blocos. Na primeira parte, Walz explica o tipo de trabalho realizado na desingtoproduction e seus aspectos técnicos, como o tipo de programas computacionais usados e o nível de interferência no projeto dos arquitetos. Na segunda parte, a discussão fica mais teórica e a relação entre aspectos técnicos e intenções arquitetônicas é estabelecida. Walz termina cogitando o que virá a seguir na arquitetura.
Gabriela Celani: O que é designtoproduction?
Arnold Walz: Designtoproduction, primeiramente, é uma empresa de arquitetura, porém nós não fazemos projetos. Nossos clientes são arquitetos que querem construir estruturas com geometrias complexas. Eles chegam à conclusão de que não precisam um grupo especial de projeto interno em seus escritórios. Por exemplo, Renzo Piano às vezes constrói projetos com formas livres (freeform), mas a maior parte de seus edifícios possui um desenho pouco complicado, então ele não precisa de um grupo de geometria especial e opta por trabalhar em parceria com a designtoproduction.
O que nós fazemos é auxiliar a produzir essas estruturas complexas de duas maneiras. A primeira etapa é dar suporte na fase inicial do projeto; nós escrevemos códigos para criar as formas. Os códigos são bastante flexíveis e nós podemos experimentar diferentes formas para fachadas, vigas, sistemas de posicionamento, qualquer aspecto que quisermos testar para otimizar o projeto como um todo. A etapa seguinte é quando o projeto parece estar pronto e a equipe concorda com o resultado, mas você chega ao momento de incorporar todos os aspectos de engenharia estrutural, aspectos físicos do edifício. Esses aspectos também causam mudanças que devem ser manejadas. Nestes edifícios complexos uma pequena mudança pode ter uma reação em cadeia por todo o projeto. No museu Mercedes, uma vez nós mudamos o núcleo central e isso afetou até mesmo a fachada. Do ponto de vista de um planejamento convencional, estas alterações teriam se tornado uma catástrofe. Para nós não é um grande problema porque tudo está elaborado de uma maneira que você pode atualizar o projeto apenas mudando um parâmetro.
Maycon Sedrez: Quais são os arquivos que os arquitetos enviam para a designtoproduction? Qual a documentação que você recebe? Quais as análises que você faz nesses arquivos?
Isto varia muito. Por exemplo, para a fachada em Davos, nós recebemos uma maquete de argila que apresentava a intenção do projeto. Normalmente recebemos arquivos 3D, em Rhino (1) na maioria das vezes. Mas geralmente a qualidade desses arquivos não é boa o suficiente para sobrepormos nossa programação sobre esses dados. Por exemplo, para o Centro Pompidou em Metz (Arq. Shigeru Ban), o que nós tínhamos era basicamente uma malha triangular. O que nós precisamos como base é uma superfície contínua. Então se é muito complexo, como neste caso, nós temos outras pessoas com as quais frequentemente trabalhamos, da indústria automotiva, que nos auxiliam a criar essa superfície. Eles possuem ferramentas computacionais específicas para gerar essa superfície de alta qualidade. Então, se você faz um teste de reflexão, a superfície se apresenta totalmente regular, não há distorções. Se você tem uma superfície com descontinuidades, que foi feita a partir de diferentes partes, você sempre terá um problema nessas junções. Se você projetar algo nela, você irá obter linhas descontínuas, então antes de prosseguir com o projeto você deve unir as superfícies. Portanto é sempre uma ótima ideia iniciar com dados tridimensionais de alta qualidade.
Shigeru Ban, Centro Pompidou em Metz, 2010
Você tem que levar em consideração que [em nosso escritório em Stuttgart] nossos clientes são arquitetos. Eles nos procuram bem cedo, talvez com um projeto para concurso apenas, o que é bastante esquemático. Nesses casos nós desenvolvemos o modelo geométrico inicial juntamente com eles, para obtermos uma superfície contínua, que de certa forma poderá prosseguir até a fase de produção.
[Em nosso escritório em Stuttgart] nós não fazemos a programação (G-code) das fresadoras de 5 ou 6 eixos, por exemplo. Isso é algo que Fabian [que gerencia o escritório em Zurique] faz. Lá, nós finalizamos os modelos dos nossos clientes, e geralmente isso é problemático. Primeiramente por causa da questão da qualidade mas, também, algumas vezes por conta dos detalhes - pode funcionar no modelo CAD, mas não funciona na realidade. Nós geralmente temos problemas de montagem. Claro que você pode desenhar e tudo se encaixa perfeitamente, mas não há maneira de montar. Então isso é parte do nosso trabalho em colaboração com engenheiros estruturais. Isso é o que nós às vezes chamamos de "normalizar" o projeto.
MS: Quando você precisa fazer alguma mudança no projeto, como você procede?
AW: Existem diferentes tipos de arquitetos. Alguns são bastante rigorosos, por exemplo, o arquiteto italiano Maximiliano Fuksas, eles fazem um tipo de forma e eles querem que seja construído exatamente igual. Claro que eu não quero mudar o projeto, mas eu quero encontrar um equilíbrio entre aspectos estéticos, aspectos de projeto estrutural e aspectos de produção para tornar razoável o desempenho geral. Você pode teoricamente fazer qualquer forma, mas eu tenho que admitir que não faria alguns trabalhos. Por exemplo, Frank Ghery, do meu ponto de vista tem um trabalho mais escultórico. Não há uma linha geral ou o que chamamos na Alemanha de linha vermelha condutora [lógica subjacente], é apenas fazer coisas aleatoriamente e isso afeta a maneira como os projetos são trabalhados. Normalmente esses projetos são feitos no CATIA (2), no qual você ainda pode usar alguns aspectos de modelagem paramétrica e associatividade, mas não é uma ideia de projeto fluída, é algo como um monte de recursos agrupados. Claro, é uma maneira muito cara de fazer arquitetura, embora possua certas qualidades. Eu acredito que você jamais poderia descrever esse tipo de projeto em forma de script [ou programa de computador] de maneira eficaz, mas existem outras ferramentas para a realização desses projetos.
MS: Quais os programas de computador que você usa?
AW: Nos interessam programas que possuem muitos recursos geométricos, funções e coisas parecidas, e que são programáveis. Então, se você precisa da linha de intersecção de duas superfícies de dupla curvatura no espaço, eu jamais seria capaz criar os fundamentos matemáticos para conseguir isto, mas existe uma função que faz isto e é o que precisamos. Com essas ferramentas básicas nós produzimos o projeto.
Existem bons programas arquitetônicos, com muitos botões e bibliotecas e você pode fazer a arquitetura que deseja. Mas você tem que estar ciente que estará limitado. Eu não quero estar limitado por uma ferramenta de jeito algum. Mas entre essas duas situações há exceções, por exemplo, como resolver uma escada. Se você quer programar um código de escada que pode criar qualquer tipo de escada, poderia pensar em todas as diferentes configurações. Seria muito complexo, primeiramente para programar e posteriormente para usar o código, pois para muitas pessoas haveria inúmeras opções que não teriam nenhuma utilidade. Portanto, essa não é a maneira de fazer isso. Quando você se afasta de padronização, então você percebe que é melhor escrever seu próprio código para a sua escada específica. Isso não é complicado, você consegue exatamente o que quer e está com o controle total. Eu não quero estar limitado, porque para mim ferramentas computacionais padronizadas sempre serão conservadoras e antiquadas. Elas levam muito tempo para serem desenvolvidas e é preciso um longo tempo antes que novas influências sejam parte delas. Eu já havia percebido isso desde os anos 80. Naquela época em Berkeley eles trabalhavam em ferramentas para otimizar a distribuição de ambientes, mas eu desconheço qualquer programa CAD que tenha essa ferramenta incorporada - por quê?
GC: Você acredita que seria muito chato o computador fazer isso por você? Há algo mais além da otimização?
AW: Talvez não seja possível... muitas pessoas diriam que o computador fez o projeto. Eu não acredito que surgiria algo interessante. Talvez você encontre algum tipo de algoritmo que produza algo. Mas sempre parte de você, você direciona o processo. O computador para mim é uma ferramenta, e você é responsável pelos resultados, pois você desenvolveu o algoritmo. É a sua decisão. Mesmo que você não tenha entendido o algoritmo, você ainda o escolheu.
MS: Quais são os desafios de trabalhar com empresas que não estão acostumadas produzir elementos arquitetônicos?
AW: Normalmente, nós chegamos a projetos que resultam em uma estrutura incomum, com a qual a indústria da construção civil não está preparada. Você não tem uma empresa que tenha feito isto anteriormente, então você procura uma empresa que seja próxima do que você quer produzir ou ao menos tenha as máquinas certas ou tenha experiência com o material. Às vezes nós temos empresas que são perfeitas para fabricar o projeto, mas eles não têm equipe para montagem no canteiro de obras, geralmente eles entregam o produto e é problema de outra pessoa a montagem. Uma boa dica é trabalhar com empresas de fachadas, pois elas geralmente possuem boa experiência em lidar com vidro, aço e metal e eles têm experiência em montagem na obra. Mas é sempre uma busca por empresas, e um aspecto muito importante para nós é sentir que a empresa está interessada e motivada. Algumas empresas concordam com o trabalho, mas eles não param para pensar sobre os detalhes do projeto antes de terem um contrato em mãos e isso é um grande risco para o cliente. Assim que elas assinam o contrato e começam a pensar sobre o projeto, elas podem perceber que é mais complicado do que haviam pensando, então começam os problemas orçamentários. Há uma grande responsabilidade em escolher os parceiros certos. Você tem que realmente confiar na empresa e acreditar que estão motivados para finalizar totalmente o projeto.
Shigeru Ban, Haesley Nine Bridges Golf Club, 2008Shigeru Ban, Haesley Nine Bridges Golf Club, 2008Shigeru Ban, Haesley Nine Bridges Golf Club, 2008
GC: Qual é o seu papel em escolher a empresa para o cliente? Você sugere uma empresa ou diz que isto só pode ser feito por tal empresa? É promovida uma licitação?
AW: Você está correta, eu faço sugestões. Eu posso dizer ao cliente: é melhor você optar por esta empresa, caso contrário eu não irei mais trabalhar neste projeto. Por que eu já sei o que pode acontecer. Eu estou apenas garantindo qualidade para o meu cliente e evitando o tipo de empresa "projeto interessante, vamos fazer, será uma boa publicidade". Isso não é suficiente. Muitas empresas, apesar de terem capacidade, não estão acostumadas a trabalhar com projetos com forma livres [freeform], eles não possuem experiência suficiente. Nós frequentemente avançamos bastante em termos de propor como fabricar de uma maneira eficaz. Por outro lado nós estamos cientes de que não podemos assumir a responsabilidade final pela execução. Nós propomos uma maneira de executar para a empresa e temos que sentir que eles entenderam e desenvolverão ainda mais, então ficamos muito satisfeitos e tranquilos. Nós encontramos um parceiro com o qual podemos trabalhar e então eles acrescentam a sua experiência, pois nós somos arquitetos, outros especialistas de certa maneira. Eu posso ir até certo ponto e então eu tenho que sentir que eu posso passar o problema adiante em mãos responsáveis que irão continuar a trabalhar nele.
MS: O que faz um projeto complexo ser mais caro para produzir?
AW: Se é possível executar com fabricação digital não será realmente mais caro. É difícil de dizer, pois quando um projeto é mais complexo, significa que você não pode construir com ângulos retos. Você pode encontrar uma maneira de produzir que é muito mais cara caso você não pense em certas coisas ou você direcione as pessoas para problemas que não são esperados por eles e isso pode realmente prejudicar um projeto. Se você está atuando nestes projetos, você sabe que muitos deles não funcionaram da maneira que foram planejados. Muitos deles levaram anos para serem finalizados, o custo foi muito alto. Eu posso dizer, pelos projetos em que estamos envolvidos, que podemos realmente evitar isto. O museu Mercedes e a fachada em Davos foram entregues dentro do cronograma e do orçamento estabelecidos. No caso do museu, apenas uma empresa envolvida não obteve um lucro real, mas isso acontece também às vezes. Mas nós ficamos muito satisfeitos quando a empresa entrega o trabalho e recebe seu pagamento e o produto é bom. Algumas vezes você tem que dizer: não, eu não quero estar envolvido nisto, eu não acredito que será um projeto com êxito.
MS: Você discute sobre materiais e efeitos produzidos por eles com os seus clientes?
AW: Há dois aspectos, primeiro é apenas o visual. Alguém precisa uma superfície metálica de certa aparência. É muito raro que haja aspectos estruturais, em termos de que você seja forçado a optar por certo material caso contrário não funcionará. A fachada em Davos foi, por um longo tempo, pensada em ser executada em alumínio, pois nós pensamos que seria mais leve e também poderia ter um efeito estrutural. Mas no final eles escolheram aço porque é um material muito mais barato que o alumínio e isso teve outro efeito. Quando a fachada já estava planejada e em produção eles aumentaram a espessura das placas em alguns milímetros, o que causou vários problemas adicionais para a empresa de concretagem, que teve que adicionar mais concreto e mais armadura. Eu não sei se essa decisão foi realmente tomada com o objetivo de economizar. Eles apenas transferiram o dinheiro da fachada para a estrutura de concreto, o que pode ter sido por razões políticas, ou pode também ter sido uma estratégia, eu não sei o motivo. Outra questão é que no começo do projeto o orçamento não é levado em conta. Eu já vi inúmeros projetos que começaram com fibra de carbono e terminaram com aço comum (perfil de aço padrão). Muitas pessoas gostariam de ter esses materiais extravagantes, claro em termos de custo e produção não há muitas empresas, especialmente no setor da construção, que estão acostumadas a usar esses materiais. Se você for, por exemplo, para o indústria naval é uma coisa totalmente diferente.
Shigeru Ban, Centro Pompidou em Metz, 2010Shigeru Ban, Centro Pompidou em Metz, 2010
notas
1 Rhinoceros é um programa CAD para modelagem 3D.
2 CATIA é um programa de CAD para modelagem 3D desenvolvido originalmente para projeto de aeronaves.
Maycon Sedrez: Você poderia falar um pouco sobre o interesse dos arquitetos em projetar e fabricar formas complexas?
Arnold Walz: Primeiramente, eles querem ser especiais, e existem diferentes tipos de arquitetos. Por exemplo, a sra. Hadid. Ela tem um estilo pessoal e ela quer resolver qualquer problema com isso. Se você ouvir uma palestra do Patrick Schumacher (seu sócio), ele gostaria de planejar cidades inteiras no estilo Hadid, o que acho particularmente um exagero. No outro extremo temos Renzo Piano, pois eu acho que ele tem uma atitude totalmente inocente em cada novo projeto. Ele tem uma abordagem diferente para cada novo projeto.
Falando de maneira geral, eu acho que isto que chamam de arquitetura Blob, como foi chamado no começo desta fase, que teve início aproximadamente no final do século passado, foi um tipo de reação à rigidez do projeto de arquitetura. Nós queremos algo totalmente diferente. E eu também acredito que esta fase terá um fim, pois agora nós temos não apenas edifícios de alta qualidade, mas também um monte de edifícios mal projetados. Se você olhar o skyline de uma cidade, está indo nessa direção... para que? Onde está a qualidade desse tipo de perfil na cidade? Eu acho que isto irá diminuir e agora é um problema nosso direcionar essa experiência para uma arquitetura mais cotidiana. Como eu disse, aumentar a liberdade do projeto; você não é obrigado a projetar edifícios em forma de caixas por conta de aspectos financeiros ou de produção. Eu tenho a sensação que muitos arquitetos se rendem à indústria da construção civil, pois adotando essa tipologia eles podem construir de uma maneira mais econômica, rápida e confiável. Mas para escapar disso, se você deseja projetar algo especial, se torna muito difícil. Nós devemos tentar usar essa experiência e aproximá-la da arquitetura comum; isso significa que nós temos que desenhar novos processos construtivos e novas maneiras de fabricar elementos construtivos e então montá-los em um edifício.
Gabriela Celani: Você já mencionou Renzo Piano, quem mais são seus clientes?
AW: Bem, nos últimos anos nós trabalhamos com Zaha Hadid, Foster and Partners, Herzog and De Meuron...
GC: Apenas arquitetos celebridades [starchitects]?
AW: A maioria, mas nem sempre, por exemplo, a fachada do hotel InterContinental em Davos. O edifício foi originalmente projetado por Matteo Thun, mas por alguma razção ele deixou o projeto. O arquiteto que finalizou este projeto não era muito conhecido, mas ele veio com uma boa ideia para a fachada.
OIKIOS GmbH, Hotel Intercontinental, Davos, 2013
GC: Você mencionou que a maioria dos seus clientes são arquitetos celebridades. Por que nós, ou um arquiteto comum, ou um arquiteto no Brasil, devemos nos preocupar com a fabricação digital de edifícios?
AW: Se o arquiteto quer continuar a construir arquitetura Blob, certamente essa não é uma razão. Eu gosto de ambientes intensos, quando eu entro em um novo espaço e fico impressionado pela atmosfera, pela luz, pela acústica, as cores ou o que seja. Há muitas casas com uma fachada muito interessante, mas quando você entra é apenas um espaço comum, com quartos comuns e janelas comuns. Para mim é muito tedioso. Se você voltar na história da arquitetura, na cultura da construção, havia muita coisa fantástica acontecendo. A questão que nós devemos apontar agora para a geração mais jovem é: como você quer viver? Estamos olhando para a arquitetura como um investimento de curto prazo? Você constrói uma casa e, 10 ou 15 anos depois, todos dizem vamos construir algo novo. Ou nós deveríamos tentar desenvolver um estilo de arquitetura com melhor qualidade, que tenha a chance de durar algumas gerações? Veja todos estes edifícios do final do século XIX, que ainda são as habitações preferidas no centro das cidades grandes. Os apartamentos são um pouco maiores, têm pé-direito e janelas maiores. E você pode fazer o que quiser, você pode fazer um escritório, estudantes podem dividir o espaço, alguém pode ter seu próprio negócio nesses apartamentos. Por quê? Apenas porque eles são um pouco maiores e não são altamente otimizados como eles pensam que a arquitetura deve ser hoje. E outro aspecto é que apesar desses edifícios serem individualmente diferentes eles se encaixam, eles formam um conjunto, e eles criam uma atmosfera única, uma atmosfera forte. Nós temos muitos desses edifícios em cidades europeias que não foram destruídos durante a guerra. As pessoas gostam de ir lá, pois é muito intenso caminhar nestas calçadas apesar das casas serem diferentes. Há uma limitação de material, cores a coisas desse tipo, mas hoje em dia você tem uma seleção infinita de materiais, cores e texturas... Essas cidades não são homogêneas, cada casa é basicamente algo único. Claro que você pode ter um ponto de vista e perceber que elas têm algo em comum, depende da maneira como você olhar para elas.
GC: Como você acha que podemos obter esse resultado na cidade, com esse tipo de linguagem arquitetônica subjacente, que não é monótona e ao mesmo tempo não é confusa... É uma questão de regulação urbana ou formação dos arquitetos?
AW: Certamente ambos, eu gostaria de separar. Eu diria, primeiramente os arquitetos fazem o interior do edifício como o cliente deseja, mas quanto chega na fachada e nas proporções externas eles têm uma responsabilidade com a vizinhança. Este é o motivo pelo qual eu gosto de trocar experiências com a nova geração, pois é o futuro deles, não o meu, descobrir se eles têm alguma ideia ou visão de como eles querem viver no futuro. Se eles dizem que querem isto ou aquilo, eu certamente encontro uma maneira de produzir que seja economicamente justa no futuro. Mas eu não sei o que poderia ser. O que deveria ser diferente de como é hoje?
Arnold Walz
Nascido em 1953, em Stuttgart. É sócio fundador da designtoproduction e lidera o escritório da empresa em Stuttgart. Estudou arquitetura na Universidade de Stuttgart e foi um dos primeiros a desenvolver modelos paramétricos para planejamento de construções. Ajudou a melhorar processos de produção e precisão de alguns dos edifícios mais discutidos dos últimos anos, tais como o Museu Mercedes Benz em Stuttgart, o Centro Paul Klee em Berna, P&C Weltstadthaus em Colônia, o Museu Porsche, a sede da Lufthansa em Frankfurt e muitos outros.
Maycon Sedrez
Arquiteto e urbanista pela Universidade Regional de Blumenau (2002) e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (2009). Atualmente desenvolve seu doutorado, com bolsa Capes, no programa de pós-graduação em Arquitetura, Tecnologia e Cidade na Universidade de Campinas e trabalha como pesquisador no LAPAC - Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção. Maycon pesquisa o uso da geometria fractal no projeto arquitetônico, abordando temas como sistemas generativos, fabricação digital e métodos de projeto.
Gabriela Celani
Arquiteta e urbanista (1989) e mestre (2007) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), e doutora (2002) em Architecture: Design & Computation pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É atualmente Professora Associada da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Campinas (Unicamp), Brasil. É o fundadora do LAPAC, Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção da Unicamp. Seu trabalho se concentra no design generativo, prototipagem rápida, fabricação digital, digitlização 3D e automação do processo de projeto arquitetônico. É vice-presidente do SIGRADI, a Sociedade Ibero-americana de Gráfica Digital, e pertence aos comitês científicos de várias conferências de CAAD, como ECAADE, CAADRIA e DCC, e de periódicos como IJAC e Automation in Construction.
Entrevista
Esta entrevista foi gravada em 03 de junho de 2014, na Universidade de Campinas, Brasil. Os autores agradecem à FAPESP pelo apoio a este projeto (proc.#2012/10498-3). Transcrição e tradução: Maycon Sedrez.