português Nuno Portas terá sua obra apresentada na mostra entitulada "O ser urbano no caminho de Nuno Portas". Nicolas Braga e André Luiz Pinto conversaram com o arquiteto português sobre sua atividade e sua visão sobre o Brasil e o Rio de Janeiro atuais.
como citar
Nicolas Braga.
“Entrevista com urbanista português Nuno Portas”.
Vitruvius entrevista, ed. 14.054. 2013.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.054/4773
"O ser urbano no caminho de Nuno Portas" no encontro mundial de artes Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura
O português Nuno Portas, um dos mais influentes urbanistas contemporâneos da Europa, terá sua obra apresentada na mostra entitulada "O ser urbano no caminho de Nuno Portas", que abrange os 50 anos da vida profissional do urbanista e foi produzida para o encontro mundial de artes Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura. Já exposta ainda no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a exposição pode ser vista na Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer, sede do departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).
Portas nasceu em Vila Viçosa, Alentejo, em 1934. Frequentou o curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes e Lisboa (Esbal), obtendo o seu diploma de arquiteto na Escola Superior de Belas-Artes do Porto (1958-1960). Professor agregado da Esbal, onde ensinou entre 1965 e 1971, e professor catedrático da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Portas fundou o mestrado em Planejamento e Projeto do Ambiente Urbano da Universidade do Porto e tem exercido a crítica de arquitetura em várias revistas portuguesas e estrangeiras, que lhe permitiram receber o Prêmio Fundação CalousteGulbenkian de crítica de Arte em 1965. Em 2004, foi agraciado com a Grã Cruz de Ordem do Infante D. Henrique, Ordem honorífica Portuguesa que visa a distinguir a prestação de serviços relevantes a Portugal, no país ou no estrangeiro, ou serviços na expansão da cultura portuguesa, da sua história e dos seus valores.
"O ser urbano no caminho de Nuno Portas" no encontro mundial de artes Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura
Nicolas Braga / André Luiz Pinto: Como foi seu primeiro encontro com o Rio de Janeiro e o debate em torno da cidade informal no início da década de 1960? Como esta experiência influenciou no seu trabalho?
Nuno Portas: Quando cheguei ao Brasil, na primeira metade dos anos de 1960, em especial ao Rio, as minhas preocupações eram as políticas de housing – o alojamento do maior-número. Pensamos que seria mais útil, para Portugal, conhecer os países da América Latina ou do Norte de África do que ficar na experiência dos países mais ricos do hemisfério Norte e os modelos dos Mestres, que também influenciaram os do “Brasil Builds” que correu o mundo.
Entre as favelas e os bairros como a Cidade de Deus – e a inauguração de Brasília com as extensões mais pobres – o que mais me interessava era discutir com colegas locais, que procuravam “soluções” alternativas que não se transformassem em novos “problemas”, como tem acontecido. A nossa preocupação nesses últimos anos 60, era a participação ativa das populações mal alojadas ou que chegavam à cidade.
NB / ALP: Nos anos 1990, houve um novo encontro com o Rio. Desta vez trazendo o tema do "Projeto Urbano" para a cidade que iniciava um novo ciclo de intervenções marcantes. Como vê aquele período? O que ficou de mais importante desse momento?
NP: De 1975 a 1990 a democracia e o municipalismo em Portugal e, mais tarde, no Rio, com a gerência de Luiz Paulo Conde, fizeram-se ensaios interessantes não só na habitação do maior número mas também na qualidade de vida e do ambiente urbano que segui com atenção: Favela Bairro, Rio Cidade, renovação do Centro Antigo. Talvez, esses tenham sido os ensaios mais significativos do país, mas que não tiveram seguimento posterior, apesar dos financiamentos externos e do desenvolvimento interno do país - sobretudo no que respeitava ao já referido “maior número”. Foi nesse período que tive a oportunidade de vir com frequência ao Rio, encontrando e apoiando os excelentes técnicos municipais.
"O ser urbano no caminho de Nuno Portas" no encontro mundial de artes Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura
Nicolas Braga / André Luiz Pinto: Como vê o momento atual da cidade do Rio em relação a realização aos megaeventos esportivos previstos?
Nuno Portas: Espero que o Rio (e não só) aproveite a oportunidade para melhorar a cidade para além dos “jogos” (e do que eles arrastam), mas também que o tal “maior número” não seja só alvo da segurança, mas possa melhorar os seus habitats sem os empurrar para longe.
NB / ALP: Observa-se constantemente críticas às decisões tomadas em relação aos investimentos destes megaeventos. Considera que pode existir um descompasso grande entre o que se pretende fazer e o que a cidade efetivamente precisa?
NP: A única precaução que vos posso deixar é a que em situações semelhantes, o pós-evento desta dimensão tem deixado marcas negativas por excesso de “novidades” ou de demolições evitáveis, para além dos gastos desproporcionados.
NB / ALP: Considera que talvez falte uma perspectiva mais alargada, metropolitana? Aliás, como a experiência europeia pode contribuir com este tema no Brasil?
NP: A questão “metropolitana” é insatisfatória, há muitas décadas, nas regiões de maior atração demográfica, desigualdade social, dispersão de atividades e, em consequência, dispersão territorial. Os municípios que compõem essas áreas metropolitanas (AMs) não têm as mesmas características das restantes: os seus habitantes não habitam, trabalham, estudam e desempenham outras atividades, viajando entre os municípios da AM, embora só voltando a um deles. Aqueles que governam os sistemas de transporte que os ligam, as questões ambientais e econômicas, os serviços públicos de que se servem, etc., precisam desempenhar uma governança em dois níveis, a dos que ligam e as dos municípios. Esta é a razão administrativa; as outras são as das desigualdades gritantes que não se reduzem… Mas na Europa são ainda poucas as experiências de governo metropolitano.
"O ser urbano no caminho de Nuno Portas" no encontro mundial de artes Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura
Nicolas Braga / André Luiz Pinto: Em um de seus textos, o senhor fala sobre possíveis catálises ou metástases como consequência das decisões de projeto. Uma decisão supostamente estudada e planejada não deveria nos levar a resultados positivos?
Nuno Portas: É verdade que costumo usar termos de outras disciplinas: catálises, metásteses e outras como hipertexto que chamam a atenção para a necessidade de se seguirem e avaliarem os resultados econômicos, sociais e ambientais, e não só as inovações de autores por mais famosos que sejam; a arquitetura não é só arte!
O urbanista – arquiteto, engenheiro, geógrafo ou outros -, deve ter em conta o “fator tempo” dos diversos elementos que constroem em uma cidade, grande ou pequena. O contrário é responsável por labirintos, resorts de ricos e pobres, etc., que complicam a vida urbana.
NB / ALP: Falando um pouco do Professor Nuno Portas, arquiteto e urbanista reconhecido internacionalmente. O senhor costuma dizer que gostaria de ser conhecido como "arruador". Pode nos explicar este desejo?
NP: Considero-me “arruador” – termo usado há séculos – pela importância que tenho vindo a dar aos elementos mais duradouros do urbanismo: as redes de espaço público que se devem antecipar às construções que duram menos, como todos percebemos.
NB / ALP: Como imagina que a sua experiência como arquiteto e urbanista, apresentada na exposição "O Ser Urbano: nos caminhos de Nuno Portas", pode contribuir para a formação dos jovens? Qual a mensagem que fica para quem está começando?
NP: Creio que a exposição que o meu colega e amigo Nuno Grande organizou por sua própria iniciativa pode mostrar a alunos e professores a trajetória da “arquitectura” ao “urbanismo”. As diferenças dos problemas e dos métodos dos que (não só no meu caso) não são só questões de dimensão dos projetos, mas também de conhecimento que tive de aprender noutras disciplinas e praticar com outros atores – políticos, geógrafos, economistas, sociólogos, ecologistas, engenheiros da mobilidade… Os arquitetos são necessários no urbanismo mas o desenho (ou traçado, se quiserem) não é o mesmo que praticam na arquitectura da edificação ou do design.
"O ser urbano no caminho de Nuno Portas" no encontro mundial de artes Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura
Nuno Portas
É Professor Emérito da Universidade do Porto – Faculdade de Arquitetura, onde ensinou História e Teoria Urbanística e Projeto Urbano e coordenou o Centro de Estudos (campus de Aveiro, consultoria, de PDMs, etc.) e a Unidade de Investigação I&D/FCT.Participou nos três primeiros Governos pós-25 de Abril e foi Vereador da Câmara Municipal de Gaia 1990-94.
Coordenou vários projetos-urbanos como o Campus da U. Aveiro, a Área da Expo em Lisboa (1ª versão) e a frente urbana do Rio de Janeiro (com O. Bohigas, não implementado). Integrou a equipa vencedora do concurso Masterplan de Romanina (Roma), 2005.
Nicolas Braga
Jornalista, formado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), com especialização em Comunicação Empresarial pelo Centro de Ensinos Superiores de Maceió (CESMAC) e em Análise Econômica pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE).
André Luiz Pinto
Arquiteto e urbanista, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre e doutorando pela Universidade do Porto.
Entrevista
A entrevista foi realizada no dia 13 de junho por e-mail.