português Paulo Case, 80 anos, é um dos mais importantes arquitetos de sua geração. A ousadia formal e sua capacidade em articular coerentemente estética e funcionalidade em seus projetos arquitetônicos e urbanos são características marcantes de sua obra.
como citar
Antônio Agenor Barbosa.
“Entrevista com o arquiteto Paulo Casé”.
Vitruvius entrevista, ed. 13.049. 2012.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/13.049/4185
Paulo Casé
Nascido no Rio de Janeiro, em 1931, Paulo Casé é um importante arquiteto brasileiro da segunda metade do século 20 devido à ousadia formal de seus projetos e pela sua capacidade de organizar estética e funcionalidade de uma forma coerente em muitos de seus projetos arquitetônicos e urbanos. Muito influenciado pela arquitetura de Frank Lloyd Wright, Paulo Casé procura refletir em sua arquitetura a luz modernista, racional e formal da sua visão de mundo, sempre buscando uma relação orgânica e positiva entre a cidade e o edifício.
Nos últimos anos tem tido grande atividade no setor hoteleiro em todo Brasil e nos disse, categoricamente, que prefere fazer projetos de hotéis a hospitais, já que nos primeiros “as pessoas deverão estar mais felizes do que nos últimos”. Destacam-se trabalhos desenvolvidos como os dos Hotéis Hilton, Marriot Rio e Meridien, no Rio de Janeiro, o Hotel Porto do Sol em Guarapari e o Caesar Tower em Recife. Dentre as principais premissas de seus projetos, está a sua grande preocupação em considerar as características climáticas e topográficas de cada local. Sua atividade profissional, sempre intensa até os dias de hoje, tem se voltado, nos últimos anos, para o urbanismo e a arquitetura que ele chama “de intenções, de projetos simples, mas que oferecem opções de lazer e esportes aos bairros carentes do Rio de Janeiro, como no caso do Projeto Favela Bairro na Mangueira”.
Obelisco de Ipanema. Croqui de Paulo Casé
Escritor, autor de vários livros na área de arquitetura e urbanismo, foi colunista e articulista do Jornal do Brasil onde escreveu durante muito tempo sobre arquitetura e cidade sempre com o interesse de divulgar este campo para o grande público. No ano em que está completando oitenta anos de idade, a publicação de uma grande entrevista com este importante arquiteto pode servir ao mesmo tempo como uma homenagem ao entrevistado, mas também como uma possibilidade de uma revisão crítica do seu trabalho, do seu pensamento e da sua atuação profissional desde a década de 1950, quando se formou, e até os dias de hoje em que mantém, junto com seus sócios (Hamilton Casé, Gustavo Cotrim e Miguel Prestes), um ativo escritório de arquitetura no Bairro de Botafogo, na Cidade do Rio de Janeiro. Durante mais de três horas de boa conversa, Paulo Casé nos recebeu em seu escritório, onde nos passou informações a respeito da sua vida, da sua infância e do seu período de formação, da sua maturidade profissional e sobre o que ele pensa ser a profissão do arquiteto e do urbanista nos dias de hoje.
Arcos da Lapa, Rio de Janeiro. Croquis de Paulo Casé
Residência João Dalmácio, Vitória. Arquiteto Paulo Casé, 1976
Antônio Agenor Barbosa: Inicialmente eu queria que o senhor fizesse uma narração, da maneira que for mais adequada, como foi sua infância, sua juventude e quais os fatos e pessoas deste tempo, anterior a sua formação de arquiteto, que o senhor considera os mais relevantes e que foram importantes na construção da sua personalidade e da sua sensibilidade.
Paulo Casé: Para responder à sua pergunta, eu parto da seguinte afirmação: a vida é uma coincidência inenarrável. Meu pai é de Caruaru (Pernambuco) e minha mãe carioca e neta de portugueses. O papai desceu as escadas nordestinas até chegar aqui no Rio, conheceram-se, casaram-se, tiveram três filhos e perderam outros. Se eu pegar a ovulação de minha mãe e os espermatozóides de meu pai, são trilhões de possibilidades, meu caro.
A vida, portanto, como eu disse é uma aventura e quem está vivo agora tem que considerar que a vida é esta aventura, é um momento mágico, é uma sorte você estar vivo agora e eu também para poder lhe dar esta entrevista. Por isso que morrer é uma coisa que eu nunca vou experimentar. Aí eu desenvolvo esse decreto para a minha vida, ela é só uma coincidência, só uma coincidência e mais nada.
E mais, eu fui nascer aqui no Rio de Janeiro, ou seja, outra sorte que tive, fui nascer na Tijuca; eu sou um carioca da gema. Já a coincidência de nascer é uma aventura, essa aventura se extrapola quando você nasce no Rio de Janeiro, na Tijuca e depois vai morar na Zona Sul no início dos anos 30 (do século XX). Eu nasci em 1931 na Tijuca, depois fui morar em Copacabana, depois em Ipanema e moro hoje na Lagoa onde eu tenho uma seleção de amigos de alta estirpe, tenho quatro filhos maravilhosos, estou casado com uma mulher sensacional, e eu sou uma pessoa beneficiada e privilegiada. E, sobretudo, pelo fato de ser carioca.
Ademar Casé (1902-1993)
AAB: Quem era o seu pai?
PC: Meu pai era Ademar Casé, foi o homem que tinha uma coisa fantástica que era uma grande criatividade. A criatividade dele rompeu com tudo, todos os trabalhos, em diversas áreas, ele foi quem inventou. Ele criou o Rádio no Brasil, por exemplo, foi pioneiro do Rádio, teve o Programa Ademar Casé, e foi um homem que ficou conhecido na América Latina inteira. Não me lembro bem de certos detalhes, mas ele foi da Rádio Nacional, depois foi da Rádio Mayrink Veiga, depois teve na Rádio Tupi e depois entrou para a fábrica da televisão no Brasil com o meu irmão mais velho, Geraldo que morreu recentemente, morreu não, pois para mim ele ainda está vivo. Geraldo Casé, meu irmão, um sujeito extraordinário, de grande caráter e talento. Também esses genes Casé, esses genes da família Casé que herdamos do papai, eu vejo isso pela minha geração, meus filhos, meus netos, todos eles são criativos, todos eles têm esta grande criatividade que meu pai e meu irmão também tinham. Porque eu acho que a coisa mais importante do homem, é que ele sendo criativo você enfrenta as dificuldades da vida de uma forma melhor.
AAB: E aonde o senhor estudou?
PC: Eu estudei primeiro no colégio público, em Copacabana, que era ali na Praça Serzedelo Correia e depois fui para o Colégio Santo Inácio. Depois fui servir ao exército e depois do exército, por diversos episódios absolutamente inexplicáveis fui ser arquiteto, e logo eu que não tinha nenhuma referência de arquitetura na minha família.
Antiga Faculdade Nacional de Arquitetura, Praia Vermelha, Rio de Janeiro
AAB: Ainda nessa linha de memória, em que momento o senhor foi despertado para a arquitetura?
PC: Você não vai acreditar, é um negócio interessante. Para não ficar na caserna, para não ser um Casé na caserna (risos), pois eu era um menino que gostava muito da vida de jovem, tinha uma vida muito boa, tinha o CPOR, você tinha que passar dois períodos de férias do colégio, para mim isso não era possível. Mas, ainda assim, eu larguei o segundo e o terceiro ano do colégio e, acredite, fui para o exército, e só depois que eu voltei para o colégio. E nesta época conheci um amigo, muito mulherengo, aí ele me perguntou; “você vai fazer vestibular?” Cara, tomei meio que um susto, eu tava numa fase da vida de muita alienação e nem sabia o que era um vestibular, para você ver o tamanho da minha alienação. Aí eu perguntei para ele: “e você? Vai fazer esse vestibular aí que você ta falando?” E olha só que curioso, ele respondeu: “Ah! Vou fazer arquitetura, pois a arquitetura fica do lado da escola de educação física, e lá tem cada menina linda” (risos). Era o Maurício Paiva. Ele que me levou para arquitetura, mas ele nem se formou arquiteto, ela era um bon vivant, um homem bonito pra caramba. E aí, eu fiquei com aquela coisa na cabeça.
Depois eu fui então encontrar o Ronaldo Cumprido, era engenheiro e que eu acho até que ele faleceu faz pouco tempo, e ele era levantador de peso na época. E quando eu o encontrei na Rua Santa Clara, em Copacabana, descendo em direção à praia, eu perguntei a ele: “Você tá fazendo o que?” E ele me respondeu: “Eu me formei em engenharia.” Então eu pensei com os meus botões, um homem que levanta peso já está trabalhando na engenharia. Aí eu respondi em seguida à pergunta dele sobre o que eu estava fazendo: “eu vou fazer arquitetura.” Então ele me disse: “Se você vai fazer arquitetura então você tem que conhecer um cara genial, indescritível! Chama-se Baiense.” Era um professor que ensinava geometria descritiva, que tinha uma didática fantástica! E eu me apaixonei por este professor e ele por mim! Eu tinha a cabeça criativa e já entendia a lógica espacial. Quando eu via a descritiva espacial, tinha uma vibração, e comecei a ver através deste professor os planos se entrecortando, e toda a lógica espacial e fiz o vestibular para arquitetura e passei em quarto lugar. Aí comecei a estudar, e a levar a sério. Foi quando realmente houve uma mudança, entrei na FNA (Faculdade Nacional de Arquitetura) de 1950 para 1951 e me formei em cinco anos, na Praia Vermelha, naquele belíssimo prédio.
O mais interessante, quando nós entramos na faculdade, jovens todos, já levávamos a bandeira do modernismo contra todo um corpo docente que era em sua maioria eclético, todos acadêmicos, ecléticos. Não havia nenhum tipo de comunicação, então nós formamos grupos de estudos entre nós mesmos, para ler livros que chegavam por cima dos muros da faculdade, livros ingleses e franceses, então nós criamos uma espécie de graduação e de uma faculdade paralela, e isso deu uma força muito grande para nós todos.
AAB: E quem era esse grupo?
PC: Marco Vasconcelos, Bernardo Tunio que já morreu, José do Nascimento Ribeiro, e vários outros. Éramos um grupo de pessoas interessadas em arquitetura e fizemos um grupo paralelo dentro da própria escola, enquanto a gente não tinha nenhuma forma de comunicação com o corpo docente na época. Agora, por que eu estou falando isso pra você? Para lhe dizer uma coisa que acho muito importante: o idealismo é uma forma de ver o mundo que pode ser muito perigosa! Adotando um certo idealismo de forma obsessiva e cegamente você não vê mais nada em sua volta. Então, aquele prédio da reitoria, ali na Praia Vermelha é, em si, uma aula de arquitetura, como se faz arquitetura, como você se coloca em relação à água, à temperatura, ao clima, ao sol, os azulejos colocados até certa altura, os rodapés, mas nós não observávamos isso, achávamos o prédio careta na época. E o idealismo teve na política, teve nas artes, em todas as áreas, que seria negar os valores que fazem parte do seu próprio passado.
Edifício Asahi (Banco de Tokyo), Avenida Paulista, São Paulo. Arquiteto Paulo Casé, 1972
Favela-Bairro Mangueira, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1998
Antônio Agenor Barbosa: Então agora a gente já está entrando numa segunda parte desta nossa entrevista que é o que eu chamo de período de sua formação. O senhor já falou que o seu processo de escolha pela escola de arquitetura foi completamente aleatório, mas como era o contexto político e social do Brasil naquela época? O senhor e seu grupo estavam interessados em outros temas, ou era uma questão apenas da formação em arquitetura que interessava? Como era o ambiente acadêmico dentro desse contexto mais amplo, que era final dos anos cinqüenta, certo?
Paulo Casé: Exatamente. Era a época de Getulio Vargas. Sempre que o arquiteto tem uma visão muito aberta para o mundo, e ele sempre estará do lado da justiça, do princípio verdadeiro. O arquiteto que não for verdadeiro não é arquiteto, o que interessa é a verdade o caminho certo, as coisas limpas, as coisas claras. Se você é um arquiteto, você é um gênero de espécie e a sua obra de arquitetura tem que representar a realidade política, social e cultural. Então você tem na arquitetura um instrumento do saber, e você tem que se considerar nessa missão, ler muito, ter cultura geral, tudo é importante, e isso faz com que você veja mais claramente o mundo em sua volta e perceba as injustiças do mundo.
Então não é aquele negócio de ser esquerdista porque isso já é um carimbo. Não é disso que estou falando. O que passava dentro de todos nós era que alguma coisa tinha que ser feita para que nós fossemos instrumentos de transformação da sociedade como um todo e não estivéssemos interessados apenas em nos relacionar com aquele grande proprietário que tinha a condição de pagar um projeto de arquitetura e etc.
Aliás, isso eu fui sentir na pele quando fui fazer o Favela-Bairro, fiz o Projeto na Mangueira. Eu fui o primeiro arquiteto a fazer um projeto numa favela grande, e logo na Favela da Mangueira. Foi um concurso, ganhei o concurso, e fiz o projeto e escrevi sobre isso, escrevi um livro. Minha satisfação era que pela primeira vez eu tinha um cliente que era pago pela prefeitura, para fazer arquitetura para eles. Eles tinham um padrinho, um mecenas que era o Estado. Isso me deu um sabor maravilhoso de fazer este projeto. Eu subi o morro, conheci gente espetacular, me preocupei com a memória da favela. Fiz reuniões lá no meu outro escritório com todas essas associações de bairro, aquele Ivo Meireles ficou meu amigo, todos eles vinham fazer a memória da favela. No meu livro tem a transcrição dessas reuniões que eu gravei lá na Mangueira e você vai ver que é interessantíssimo, pra observar que eles têm toda a noção da importância das pessoas que viveram ali com eles na naquele espaço da Mangueira. Então cabe a nós, tidos como intelectuais, mostrar a todo mundo que isso é importante, que esta memória é importante na sobrevida de uma comunidade. Então desde jovem eu já tinha esse sentimento, que a arquitetura é também um instrumento da transformação, e que na realidade era um conflito com uma ideia maior, ou seja, de o arquiteto ser um homem do bem, um homem capaz de promover a transformação de uma comunidade.
Favela-Bairro Mangueira, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1998
AAB: E depois que o senhor se formou arquiteto já entrou efetivamente no mercado, tinha já segurança que essa faculdade te ofereceu uma boa formação, ou essa segurança, essa qualidade só foi sendo conquistada com a execução dos seus primeiros trabalhos? Fale um pouco dessa transição da faculdade para o mercado.
PC: Eu não tinha a menor dúvida de que eu seria um arquiteto, não digo no sentido de fazer sucesso, mas no de ser um arquiteto atuante. Meu pai foi assim, ele não deixou as coisas acontecerem, ele fez acontecer. Então, eu vou acontecer na arquitetura, eu já pensava assim na época. Era hábito ou até uma norma que os arquitetos do quarto ano procurassem um escritório de arquitetura no qual ele iria adquirir experiência profissional. Sobretudo numa escola na qual o corpo docente não estava dentro da nossa linguagem. Então não havia razão nenhuma para você buscar formação profissional dentro daquela escola e com aquelas condições. Tinha que ir pra fora.
AAB: E onde o senhor trabalhou inicialmente?
PC: Eu fui fazer assim: eu fui procurar dentro daquela paisagem, e via aqueles prédios todos falsos, cheios de uma arquitetura de má qualidade, e comecei a procurar qual era a Imobiliária ou a Construtora que eu sentisse nos seu edifícios, uma tentativa de produzir alguma qualidade, e uma delas era a Sisal. Eu via o Edifício Vésper ali na Santa Clara, era da Sisal, tinham algumas coisas, eu já tinha um espírito crítico, aliás em geral o estudante de arquitetura tem um espírito critico aguçado. Eu tinha feito um concurso dentro da faculdade, de uma capela, eu ganhei esse concurso, com Arthur Lins Pontual, nós dois fomos representar num congresso em Belo Horizonte os dois trabalhos. Na volta, (eram 20 painéis que eu fiz), eu soube que um dos diretores da Imobiliária Sisal era amigo de um vizinho.
Então eu bati lá, chamei o Jadir que era amigo do meu vizinho, e ele disse: “vai lá dentro procurar um italiano chamado Gambardela” Uma peça rara! Aí é que é o guru que eu encontrei. Porque ele desenhava igual o Portinari, fazia escultura que nem o Brecheret. Aí o Gambardela me aprovou, entrei, e comecei no dia seguinte. Um mês depois, eu fiz meu primeiro projeto, e está lá até hoje em Copacabana, era um edifício residencial, dois apartamentos. Mudou tudo na minha arquitetura, já mudei toda a maneira de fazer arquitetura. O importante era que as plantas antigamente tinham o salão, uma varanda, você pode procurar e vai ver varanda, sala no meio, biblioteca de um lado e sala de jantar do outro. Tudo com portas e arcos. E eu já com influências do modernismo e do Mies Van der Rohe, não queria viga, queria planos e tetos livres, e aí eu comecei a fazer as paredes soltas, plantas livres, foi um sucesso! Ainda estava na escola, foi em 1954, estava saindo da escola, mais ou menos, e minha experiência foi dentro do mercado de trabalho. Lá na Sisal tinha alguns desenhistas maravilhosos, e o Gambardela era quem fazia as fachadas.
Edifício Estrela de Ouro, Copacabana, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1959
AAB: O Gambardela não era arquiteto então?
PC: Não, era um artista que fazia pilotis e fachadas (risos). É tão engraçado, porque não havia uma consciência de projeto como atualmente. Era uma planta legal e em cima da planta trabalhava todo mundo, muitas vezes não tinha uma planta executiva, não tinha o que era o detalhe. E eu comecei na Sisal a tentar introduzir certas coisas como o calculista que fazia planta de execução que era na tela, tudo feito com tela. Era um tecido para a prefeitura guardar e não deteriorar. Coisa antiga.
E um dia eu percebi que queria fazer detalhes, mas a escola não me deu nenhum conhecimento de como trabalhar na obra. Eu sei que quando o Luiz Ozil viajou, eu peguei minha prancheta e coloquei lá na obra. Medir, olhar, medir, olhar de novo e fui detalhando, detalhando as coisas dentro da própria obra. Essas várias coisas ricas, eu tenho outro livro que eu falo mais dessa reação do mestre de obra, que ele vê o arquiteto como “doutorzinho”. Ele coloca lá um diminutivo para te colocar na sua devida posição, então você tem que ter uma esperteza muito grande para que ele não te envolva. São coisas incríveis estas experiências de obra.
AAB: Então isso foi um grande aprendizado para o senhor?
PC: Sem dúvida, um aprendizado, um início da minha vida profissional.
Cidade das Crianças, Itaguaí, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 2004
Rio Cidade Ipanema, Rio de Janeiro, Obelisco de Ipanema. Croqui de Paulo Casé
Antônio Agenor Barbosa: Que coincidiu com o final de faculdade e entrada no mercado de trabalho dentro de uma grande imobiliária, então se pode dizer que o senhor foi um arquiteto que desde cedo viu os seus projetos se materializarem?
Paulo Casé: Certo. Isso mesmo.
AAB: Havia crítica de arquitetura naquela época? Em caso afirmativo, como que os seus primeiros projetos foram recebidos pela crítica? E até por seus colegas de faculdade? Quer dizer, quando o senhor começou a empreender, quando começou a executar essas obras, como esses colegas de faculdade te olhavam na época e como avaliavam esta sua produção inicial? Conta um pouco pra gente.
PC: Primeiro que não existe até hoje crítica de arquitetura no Brasil. Eu forcei todo o meu processo de deslocamento do formalismo, que é niemeyriano, para uma arquitetura não racional, mas uma arquitetura que tivesse relação com o contexto cultural. Eu levei dez anos para sair do formalismo. Mas como é que eu fiz, usei a premiação anual do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), que era o único momento que os arquitetos achavam que tinham obrigação de julgar os projetos, eles tinham que fazer uma ata de julgamento de projetos avaliados. E foi através dessa discussão minha com a ata que eu fui descobrindo o que meus colegas diziam. Dez anos se passaram em dez anos eu tomei consciência do que eu fiz. Ganhei primeiro prêmio, ganhei num prédio e depois numa casa, depois um edifício ali na Rua do Ouvidor, que foi premiado com uma simples escrita. Toda a minha obra é a materialização de um pensamento, portanto.
Rio Cidade Ipanema, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1996
Então eu não acredito em arquitetura de fotografia, eu tenho o resultado num pensamento, a coerência não está no objeto, a coerência está na formulação de um pensamento, de um conceito que vai sendo amadurecido. A tal um ponto que, por exemplo, olha esta entrevista você está me fazendo falar sobre muita coisa da minha vida, é uma vida muito rica. A crítica não existia até que eu comecei a fazer crítica quando eu fui escrever no Jornal do Brasil. Você veja, as pessoas não percebem, há um medo de falar sobre os projetos e não pode haver perseguição. Mas o crítico deve falar em nome da sociedade, em nome da comunidade, e não a sua opinião apenas. Eu estava no Jornal do Brasil como arquiteto e não apenas como Paulo Casé, pois a minha ambição ali era falar em nome de todos. Mas você está falando em crítica, ninguém percebe a importância desse tema polêmico.
E agora estamos vivendo um momento que pela primeira vez, o pessoal está discutindo a cidade, ele não percebem que foi com esse objetivo, de discutir a cidade, que o que eu fiz em Ipanema, no Projeto Rio Cidade, foi contestador. Então ali, no meu Projeto Rio Cidade em Ipanema, eu entortei os olhos de todo mundo, eu fiz desenhos no chão, dando visão urbana com os pequenos postes e etc.
Este meu projeto então também foi colocando a cidade em pauta, até nos botequins. Num botequim, que eu ia, eu escutei: “vieram aqui para eu assinar um abaixo assinado para derrubar este Obelisco do Paulo Casé aqui de Ipanema”. Aí uns me diziam: “eu não assino não, isso aqui é importante, sabe por quê? Eu fico ali do lado do obelisco de Ipanema, aí eu falo que vou encontrar alguém ali do lado do obelisco, tem um ponto de referência, compreende!” Opa! Um taxista falou isso para mim, ele também começou a perceber essas coisas. Aí eu faço a brincadeira assim, se quiserem derrubar, derrubem (risos). Mas virou referência da cidade! É a referência de Ipanema, referência de um momento da cidade.
Então eu fico triste por que como nunca houve crítica, não vai ser agora que vai nascer a crítica. Vai ser a pichação, a luta contra o outro. De querer demolir a obra do outro. Mas esse negócio no fundo é o exercício da defesa da sua maneira de ver a cidade. Porque há tantos absurdos nas nossas cidades, porque você não vê ninguém se mover com o um mau prédio, um prédio feio. A paisagem das nossas cidades se faz pela qualidade da arquitetura é que é a cidade. Se você tirar a natureza do Rio de Janeiro, ia ser uma merda! As pessoas não têm preocupação com a paisagem da cidade feita pela arquitetura.
Agora, como a natureza do Rio é tão exuberante, que aquilo (a arquitetura) funciona como uns objetos branquinhos ali, em contraste com a natureza maravilhosa da cidade. Mas a questão da crítica é, sou insistente, eu a procurei através da premiação do IAB, eu tive dez prêmios, doze prêmios, pelo IAB, quase que consecutivos.
Rio Cidade Ipanema, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1996
AAB: Desde o inicio da sua formação?
PC: Eu entrei, numa premiação inicial do IAB, com um prédio naquela Praça Eugênio Jardim, não sei se você conhece aquele redondo, ali na subida da Lagoa. E era formalismo puro, e eu não tive prêmio ali, mas os caras escreveram que o formalismo era um período da arquitetura e etc. Aquilo me fez um mal porque eu sabia que aquilo era bonito. Aliás, a arquitetura na época tinha que ser bonita, mais nada se falava. Ele era lindo e até hoje é bonito, o prédio é muito bonito.
Então eu parecia, para mim mesmo, que tinha alcançado uma qualidade, e me negaram isso na premiação deste projeto. Então eu passei um ano muito complicado, e comecei a estudar, estudar e estudar muito. Coisas brasileiras, Monteiro Lobato, Oswald Andrade, Villa Lobos, passava o dia todo tentando entender porque eles conseguiram na literatura e na música serem brasileiros, e eu me perguntava se eu também não poderia ser brasileiro na arquitetura? Não vou fazer o modelo estrangeiro aqui não, eu decidi.
Dez anos depois eu consegui inserir os meus projetos dentro dessa visão. Escrevi e desenvolvi o que é fazer arquitetura no Brasil, são palavras que servem para mim até hoje, até hoje é a minha cartilha. Respeito ao meio, respeito ao meio, respeito ao meio, isto para mim sempre foi o mais importante.
AAB: E fora do âmbito da arquitetura, o senhor tinha ou ainda tem outras áreas de interesses e aptidões? A gente sabe que o senhor tem vários livros publicados, e teve essa vertente crítica exercitada com a experiência como colunista de arquitetura no Jornal do Brasil, mas desde jovem, o senhor teve outras aptidões, outros interesses além do âmbito da arquitetura?
Edifício Estrela da Lagoa, Lagoa de Freitas, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1970
PC: Sabe que tem uma coisa engraçada. Eu penso que o arquiteto não pode ter hobby. Por que ela (a arquitetura) preenche tudo, tudo, tudo. Eu sempre fiz as brincadeiras de escultura de madeira, mas nunca levei aquilo a sério, e sempre foi muito mais um exercício formal. Sempre era muito mais arquitetura que escultura.
Não existe arquiteto com hobby. Se for hobby não é arquiteto, ou ainda não se encontrou. Eu estou em permanente procura, porque o mundo muda, muda tudo. E eu fico sempre dizendo, ninguém percebe, se você ficar alerta, você há dez anos era outro homem. Essa comunicação, essa coisa que se dá as suas relações de amizade, as relações com os seus pais mudaram, as festas são outras, mudaram sem você perceber. Mas eu estou sempre querendo perceber estas mudanças em mim e em minha volta. Porque eu preciso desse instrumento, dessa marcha que muda o tempo, para materializá-la. Eu tenho essa pretensão de atualizar essa arquitetura através destas mudanças e também desfazer, eventualmente, as besteiras que provavelmente eu estou vendo que estão sendo feitas. Os reforços e as energias que não significam avanços são meras estrapolações do tempo, que não dão em nada e depois tem que voltar. Tem que voltar e rever tudo.
Eu li um negócio muito interessante, agora quando eu estava viajando, sobre comida que dizia: “enquanto os cozinheiros novos continuam a tentar agradar a sua clientela com criações bizarras, eles (os clientes) irão valorizar ainda mais a cozinha clássica”.
É mais ou menos isso, essa coisa, essas arquiteturas todas. O próprio Museu Bilbao é um deles que eu acho do cacete, mas aquilo não vai representar história para arquitetura, vai representar um capítulo se muito for, que vai voltar, vai voltar. Porque o homem é igualzinho, o homem e os seus anseios, a sua essência, não mudam, são perenes, não adianta você vai viver, você vai cagar, você vai comer, você vai ter amores, você vai fazer sexo, são coisas que não se modificam nunca. E a arquitetura, até que ponto ela pode colocar isso em pauta, eu me pergunto. Esta ideia de atualizar as coisas que são perenes e essenciais do homem.
AAB: Então o senhor vem falando dessa ideia, dessa tentativa de atualizar a arquitetura com essa mudança dos tempos. Mas o senhor também falou em algo que é perene, algo que permanece...
PC: Sempre permanece, é permanente. Não adianta que o homem tem que se sentir bem dentro da casa, dentro do lar, ele tem que ter frescor, tem que ter essa intimidade. Essas arquiteturas de muito vidro, você perde a noção de ter um canto.
Tem até uma crônica do Rubem Braga, que ele estava na casa de um amigo, e chegou um arquiteto falando: “vou derrubar essa parede, vou derrubar essa parede,” Ele sentou em um canto e ficou petrificado; “não! Eu quero a minha casa com muros grossos! Com uma pequena janela para eu poder ver a lua! Quero poder gritar alto o quanto eu tenho o amor da minha mulher sem ter ninguém do lado de fora para me ver e para me ouvir!”
Você esta entendendo? Essas coisas todas que não deixam de ser perenes. Essa moda de lofts, essa arquitetura clean eu até já escrevi uma vez assim: “arquitetura clean é o mesmo que conversar com um imbecil.” Não tem volta. O clean não tem referência, ela não te instiga a olhar e a perceber e a buscar. Quem teve o barroco como nós, que tivemos toda aquela arquitetura importante, não dá para fazer agora o clean. Você buscar pela luz, pela sombra, pelas texturas, a luz entrando, esse mistério do ambiente e do espaço que é a arquitetura.
Então eu até não sou muito ortodoxo e acho que o Rio merece em certas situações algumas transparências. Eu acho que a grande herança que deixou a arquitetura moderna foi a ideia de transparência.
Edifício Leonel Miranda (Banco Mercantil do Brasil), Centro, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1969
AAB: E aí temos, por exemplo, o Projeto do MAM do Affonso Reidy, o próprio Projeto do Ministério da Educação e Saúde, certo?
PC: Perfeitamente!Transparência em todos os sentidos que estou falando, você poder ver, visual, ser transparente, sair do chão. O vidro também, usar o vidro como um elemento da arquitetura.
AAB: O senhor acha que estes exemplos foram acertados?
PC: Acertados. O movimento moderno trouxe coisas importantes, agora a coisa terrível foi você não querer levar em conta a tradição. A ponto de Le Corbusier, isso eu coloquei no Jornal do Brasil, propor no Museu d’Orsay, ali era uma estação de trem, e ele propôs um prédio de trinta andares sendo que dez em baixo eram escritórios e os vinte de cima eram para um hotel, com a seguinte memória, você vê que idealismo, os hóspedes do hotel teriam a oportunidade de ver a beleza de Paris.
E os outros prédios, não iam subir nunca?Então, esse é o ponto cego do moderno, o ponto cego que me levou a entrar por um caminho que não era bom. O caminho de negar o que estava sendo feito, negar o Prédio da Reitoria onde eu estudei na Paria Vermelha. A Reitoria era uma merda de um projeto, eu pensava na época. Eu cheguei a fazer um projeto para colocar no lugar do Copacabana Palace. Eu não tinha nenhum remorso. Outro dia eu vi uma entrevista que eu dei faz muitos anos aqui, e eu fico pasmo, eu não sentia nenhum remorso, porque eu estava carregando a bandeira do idealismo moderno naquela época.
AAB: Então isso que o senhor está fazendo aqui é uma autocrítica que é rara, no meio da arquitetura, dizendo que errou em alguns pontos ou que era prisioneiro de um idealismo, certo?
PC: Eu era prisioneiro de uma visão comum. O formalismo é o abandono das referências, sejam religiosas, sejam culturais. Um homem novo, arquitetura nova, tem que parar ali e fazer tudo de novo. Tem que parar ali e fazer tudo de novo. Eu acreditava nisso.
AAB: E imbuído desse espírito o senhor chegou a fazer um projeto para ocupar o lugar que seria do Hotel Copacabana Palace?
PC: O que seria um absurdo. Um absurdo. Aquele prédio é uma referência também. Porque aí entra a memória. Ninguém falava em memória naquela época porque não havia discursos de memória como temos hoje. Olha, eu tenho a impressão que eu vivi um dos momentos mais bonitos da cultura brasileira. Como arquiteto então, você sente muito mais, porque você tem a visão mais ampla. Não é só desenho, ou a escultura, é a visão do mundo da arquitetura, visão das pessoas.
Edifício-sede do Banco Safra, Centro, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1983
AAB: É, a gente até ia falar um pouco disso, mas como o senhor puxou esse tema, com eu falei , não quero fazer desta entrevista um roteiro fechado. Quer dizer, o senhor nasceu no Rio de Janeiro nos anos 30, se formou nos anos 50, período que a cidade era capital do Brasil, aí o Rio perde essa condição de ser capital, mas basicamente nem é essa questão política administrativa que me interessa, mas a questão urbano arquitetônica. O Rio de Janeiro certamente da sua juventude, vamos dizer assim, juventude física, porque o seu frescor intelectual ainda continua, quer dizer, nesse sentido, a juventude do corpo, vamos dizer assim, (risos) é uma cidade que, embora eu não tenha vivido, mas que pelas representações da literatura e pela música, parece que tinha certo equilíbrio, certa harmonia. Creio que ainda não éramos prisioneiros do rodoviarismo, e de outras questões. Eu não estou nem falando das outras mazelas sociais da Cidade. Mas queria que o senhor, na sua visão mais de arquiteto e urbanista, falasse desse processo de como foi a passagem desse Rio de Janeiro, entre aspas, não sei se é uma boa palavra, quase que provinciano, para uma metrópole. Cosmopolita em certo sentido até sempre foi, mas essa coisa da metropolização da cidade, como é que o senhor viu isso? Nesse sentido, como o senhor atuou como profissional nesta cidade em mudanças?
PC: É na verdade acho bom poder voltar nisso. Eu não tinha muito essa visão, eu estava muito preso a fazer arquitetura moderna. A minha matriz era Frank Lloyd Wright, e meus gurus eram Oscar Niemeyer e Sergio Bernardes. O Oscar era o formal e o Sergio era o detalhista. Então eu descobri um caminho entre eles dois. O Frank Lloyd Wright lá no fundo era o mais completo de todos eles. Ele era formal, mas era um homem de um rigor muito grande. Eu caminhei para fazer uma arquitetura formal com uma deixa Lloydiana (Frank Lloyd Wright). Fiz vários prédios, inclusive esse da Praça Eugênio Jardim, é a expressão pura do formalismo. Mas quando eu perdi o prêmio do prédio redondo, e aí tem uma passagem formidável, eu comprava livros do Villa Lobos, Guarnieri. Meus filhos iam dormir e eu ficava ouvindo e lendo os livros importantes do movimento moderno.
Caesar Tower Recife, Recife. Arquiteto Paulo Casé, 1990
Você ouvir uma música brasileira e moderna, Marlos Nobre eu adorava. Era música contemporânea, mas brasileira. Foi naquele momento que eu fui ler e o que ele dizia era exatamente o que eu estava buscando, ele escreveu na música o que podia ser dito em arquitetura. Aí acabou. Foi naquele momento que, opa! Já sei o que eu vou fazer! Comecei a caminhar, caminhar com passos pequenos, porque é difícil você se descondicionar, você está condicionado a tal coisa que você não pode tirar um dia, não tem psicólogo que dê jeito, você realmente tem que fazer um esforço, e fiz, grande, e graças a Deus, isso está tudo nos meus projetos um a um. Você vai vendo a mudança da própria arquitetura em si, até chegar ontem, que eu estabeleci como esse projeto de agora, e agora vamos em frente. É muito bonito, o negócio é muito bonito.
AAB: A gente percebe que, só para não perder o fio da meada, a gente estava falando desse Rio de Janeiro, como é que o senhor viu o Rio de Janeiro se desenvolver.
PC: Eu sou um cara muito Copacabana, né? Teve o início dos anos 40 de belíssimos edifícios, eram feitos por portugueses que faziam uns prédios muito bons porque eles alugavam. Ali na Praça do Lido tem cada prédio belíssimo. De repente entra o que nós estamos vendo hoje no mundo. É a visão do lucro simplesmente. Não que eu ache que arquitetura não possa dar lucro, ser uma arquitetura pra ter um mercado. O homem de mercado é que está preocupado com a cidade. E o arquiteto deve ser um instrumento dele. Porque nos Estados Unidos, se você pegar Manhattan, nada mais comercial do que Manhattan. Em todos os níveis, do chão até o último andar, tudo querendo capitalizar, capitalismo puro. Mas por que a arquitetura lá é boa? Porque eles têm consciência de seu papel na cidade. Como gestor da materialização da vida do homem. Outra é a mentalidade do homem que quer ganhar dinheiro a qualquer custo. E esses babacas que só pensam apenas no lucro são o maior exemplo do que não deve ser feito, pois não pensam na qualidade da arquitetura e nem da cidade.
AAB: Inclusive às custas do mau gosto arquitetônico, é isso?
PC: Às custas do mau gosto, você está certo. A não preocupação com a qualidade. Copacabana começou a ser feita assim prédio a prédio. Agora, interessante, ninguém percebeu, agora é que se fala no absurdo da comercialização de Copacabana mas, paradoxalmente, a transformou em um bairro extraordinário. O único espaço democrático verdadeiro que nós temos no Brasil é Copacabana. E do lado de um apartamento de 600m² tem um quarto e sala. Quando desce no nível do chão você está todo misturado, e a favela ali ao lado junta. Copacabana é um espetáculo! Cada esquina ali há o que nos ensinar, tem o padeiro, o açougueiro o porteiro, eles se conhecem. Eu digo que eu até vibro com um desastre. O desastre junta. As pessoas começam a discutir: “quem foi? O que aconteceu? O que houve?.” Isso é urbanidade!
É gente falando com gente, é a fatalidade, o assalto, isso é a cidade rapaz. As cidades sem isso são uma merda. O que temos na Barra da Tijuca afasta o homem, com aquelas grandes avenidas, isto não é cidade. Porque o urbanismo verdadeiro é o que promove o encontro espontâneo. Não é aquele que você marca. É aquele que você passa e: “Oi tudo bem?”, “Oh, meu camarada, quanto tempo que eu não te vejo!”
Qual é o papel do arquiteto, é você criar condições, estimular com que as pessoas se encontrem. É por isso que eu gosto desse Projeto Rio Cidade que a Prefeitura fez, aquilo era uma coisa extraordinária! As pessoas falavam em maquiagem, eu ficava louco quando me falavam em maquiagem. Não entendem que a cidade tem que provocar o encontro. Cada um tem que procurar atrair com os instrumentos que tem. Claro que ali também fizeram umas merdas, fizeram umas coisas ruins. Mas eu fiz conscientemente o que tinha que fazer, eu tinha que criar um fato para as pessoas irem para a rua e falarem da cidade. Esse que era o meu papel ali.
Edifício Rio Metropolitan, Centro, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1994
Union Church, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1969
AAB: O senhor tem ideia de quantos projetos e obras suas foram executadas? Uma ideia, uma ordem de grandeza.
PC: Eu tenho aí no currículo, eu tenho aí umas duzentas. Agora eu tenho umas dez a quinze prediletas. Engraçado, que você sabe que quando eu encontrei aquela casa e o prédio, eu parei de participar da premiação do IAB. Porque eu tinha encontrado uma saída, eu escrevi sobre as duas experiências. Porque chegaram a anotar que eu não tava querendo medalha, que eu era o cara que não tava querendo medalha. Eu não estava querendo me exibir, mas sim queria mostrar as qualidades que tinham o meu projeto e ninguém sabia o que eu estava discutindo com eles, ninguém percebeu que eu estava discutindo com a sociedade inteira através dos arquitetos que ali estavam representados nas premiações do IAB. Então eu estava fazendo um diálogo surdo, você esta entendendo? Parei ali. Eu só fui voltar em 1982, com aquela capela na Barra da Tijuca, (da Union Church) a pedido: “Manda esse Projeto aí, me falavam”. Eu mandei e foi premiado de novo. Depois me chamaram de novo: “entra com o seu projeto do Edifício da Fininvest” eu entrei e acabou.
AAB: Bem, eu quero entender melhor isso aí, então o senhor não se inscreveu nas premiações?
PC: Porque eu usava exatamente as premiações do IAB como um exercício de crítica. No momento em que eu me achei, encontrei o meu caminho, eles que critiquem a mim. Eu não preciso mais deles.
AAB: Foi uma estratégia deliberada sua para tentar ter os canais de diálogo com a classe e com a sociedade?
PC: Exatamente. É isso tudo está no meu livro que escrevi. Ele nasceu assim. O Museu de Arte Moderna fez uma exposição com o Oscar Niemeyer, feita com o Sergio Bernardes, aí me mandaram uma carta. Eu tenho as cartas aí. Convidando-me para fazer isso, em 80, 79. Mandaram-me uma carta-convite. Eu aceitei, mas disse: “olha, arquitetura não é fotografia, você não pode aprisionar quatro dimensões em duas”. É frustrante. Se você não tem ideia porque você fez aquilo então é pior ainda.
Union Church, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1969
Aí eu decidi fazer o seguinte, eu comecei a escrever a minha experiência e as obras que eu apresentei na exposição seriam as seqüências do livro. Então, comecei a escrever. Levei dois anos, não tinha muito tempo, não sabia escrever bem, tinha imensas dúvidas. Fui aprendendo a escrever que é a arquitetura no seu estado mais puro. A ideia, o exercer é igualzinho. Inclusive eu fico até assustado. Como é a mesma coisa você fazer arquitetura e você escrever um texto. Fiz e mandei para o Maurício Roberto, mandei para o Moriconi, que era um arquiteto italiano, mas um teórico. Tinha também um conhecimento com o Millôr Fernandes, mandei para ele também. Todos me responderam, e eu tenho as cartas. O único que não me respondeu de imediato foi o Millôr. Eu sei que ele é um homem fechado nele mesmo. Mas um dia ele me ligou: “Casé, eu quero conversar com você.” Aí ele foi lá para casa. Ele foi lá para casa, aquele cara sensacional. Mostrou o que estava errado em termos de colocação do português. E achou bom o livro. E ali efetiva toda minha história acadêmica, não fizemos a exposição, nem importa. Para mim. Eu fico triste das pessoas não poderem ver essa história bonita, contada e materializada.
Eu uma vez escrevi um texto que falava entre o arquiteto e o artesão, entre o filósofo e o estudioso. Se você pega a vida de um filósofo, ele trabalha conceitos, então ele desenvolve conceitos que são incapazes de serem comprovados. É metafísica. O filósofo fica numa cultura, então o filósofo trabalha em pensamentos conceituais. O arquiteto também é um artesão, pois além do pensamento, ele tem que ter a capacidade de transformar o seu pensamento em matéria. E quando se transforma em matéria, você vê a crítica, você vê o que você acertou e o que errou. Então eu digo, as vidas em paralelo são mais confortáveis para o arquiteto. Se ele tiver capacidade de em vários projetos aprimorar os seus conceitos. À medida que você vai aprimorando, a matéria sólida vai respondendo. Então é muito mais interessante você conseguir ser um arquiteto com pensamento, um filósofo, com capacidade de realizar e de materializar conceitos. Basta isso. O arquiteto ser o filósofo e ao mesmo tempo ser o artesão, isso é uma coisa extraordinária.
AAB: O senhor foi presidente do IAB. Eu queria que o senhor falasse principalmente dessa sua experiência com presidente do instituto, e também se teve atuação como docente, como professor de arquitetura a despeito de eu achar que essas suas ações como escritor, como colunista do Jornal do Brasil, são atitudes pedagógicas, sem dúvida nenhuma. Mas sobre a sua presidência no IAB o que o senhor acha que deixou como legado para o instituto? E fale também um pouco sobre a sua experiência como docente.
PC: Com a presidência do IAB foi até um fato interessante. Havia, mais ou menos em 1971, um grupo de arquitetos fazedores de arquitetura que dominavam o Instituto. Os que circulavam no IAB, eram arquitetos de projeto. Maurício Roberto era um dos principais. Depois começou a aparecer outro tipo de arquiteto que ele não era o fazedor, ele era o funcionário público que estava sempre em busca de uma oportunidade de fazer. E tinha uma tendência, não era só ser de esquerda, mas era ser contra. Criou-se outro grupo que era do contra. E na época esse grupo chamou a atenção por que queria fazer uma chapa, para a eleição do IAB. Aí eu falei. Eu topo, acho que é uma coisa boa para a gente. E tinha outra, com todos os meus amigos, na primeira reunião disse assim: “Escuta, somos tão poucos, a vida é tão difícil para o arquiteto, nós vamos rachar isso? Será que vale a pena”? Aí me falaram: “ah! Casé, não vem com esta conversa”. E eu respondi: “então vocês querem saber de uma coisa, se vocês não quiserem unir a classe vão para a puta que os pariu!”
Capas de livros de autoria de Paulo Casé
E saí, fui embora. Aí aconteceu um monte de estalo na minha cabeça. Deu tudo certo. Quem tava ali querendo fazer política era outra coisa. Eu estava querendo pensar a arquitetura no esquema social e buscar soluções, esse é o nosso papel e por isso tínhamos que estar unidos.
E o Crea? O Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, aquilo lá era uma merda! De repente, resolveram fazer uma coalizão. Henrique Mindlin como Presidente e eu como Vice-Presidente. Foi a minha primeira vitória dentro do meu papel, que foi unir a classe dos arquitetos. Depois desuniram de novo. Aí o Henrique Mindlin morreu e eu passei a ser o Presidente. Eu acho que na escola eu pude contribuir mais do que como presidente do IAB. Eu não tenho uma visão muito boa de administrar nada, eu sou meio personalista nesse campo. Para você ver como eu sou fechado para essas coisas. Mas uma coisa eu me lembro perfeitamente, é que o Zanine que era meu amigo, um cara extraordinário, um maquetista que de repente passou a fazer uma arquitetura de qualidade, e os arquitetos ficavam putos porque ela não tinha diploma na escola de arquitetura. Aí começou essa luta com o diploma. Aí eu fiz um artigo criticando esta visão contra o Zanine. O Le Corbusier não era arquiteto, não era diplomado em arquitetura!
AAB: Então o senhor sempre foi a favor que o Zanine desenvolvesse a produção dele?
PC: Lógico, claro!
AAB: Sem ter uma visão corporativa que o Crea tinha, por exemplo?
PC: De maneira nenhuma! Isso é burrice.
AAB: Podemos dizer tudo do Zanine, menos que ele não era arquiteto. O senhor concorda com esta afirmação?
PC: Tudo menos isso.
AAB: Embora ele não tivesse diploma.
PC: Mas era um cara muito melhor que muitos outros diplomados. Sempre apoiei o Zanine. Não só isso como também ia visitar as obras que ele fazia. E ao mesmo tempo, tenho uma visão crítica do seu trabalho, eu faço a visão crítica do trabalho do Zanine porque ele não cria escola, a escola é ele. Ele usa materiais mortos. Ele não avança porque ele usa o baú velho, a madeira velha, a coisa velha, que também confere sabor à obra dele. O tempo é a coisa mais importante. A ruga é uma coisa importante. A arquitetura que traz o tempo junto é uma coisa maravilhosa, mas o difícil é você fazer arquitetura contemporânea que tenha a capacidade de trazer essa história e essa memória. Você tem que estar na história. E tem que ter representação histórica para ser compatível com a comunidade. E o Zanine tinha grandes qualidades, mas também um grande defeito. Como ele usava muitos materiais artesanais e quando isto entrava junto com blindex, com as coisas modernas, o aço, e criava um choque até mesmo na própria construção, problemas com vazamentos, infiltrações e etc. Puro conflito de tempo na obra dele. Mas o Zanine ia muito bem, muito bem, melhor que muita gente.
AAB: E a sua atividade docente?
PC: Ai é uma coisa interessante. Quando apareceu para eu fazer a casa do Arnaldo Wright no Leblon, um terreno bonito para eu fazer. Tem até no meu livro, tem fotografia. Ai eu botei na premiação do IAB e ganhei menção honrosa. Porque o que eu fiz era uma casa que estava dentro dos princípios desconstrutivistas.
Edifício Fininvest, Botafogo, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1979
AAB: A casa foi construída?
PC: Não foi construída. Mas todos os princípios do desconstrutivismo estão lá, eu fiz a casa há mais de vinte anos. Eu pensei o seguinte, para que a casa não se desgaste, o meu quarto, eu posso imaginar como é meu quarto, ele é um prisma de paredes paralelas. Isso em 99% dos casos. Então eu queria fazer um projeto que rompesse com este princípio por dentro. As paredes, os tetos, não têm uma ortogonalidade. Foi premiado. Com a premiação deste projeto um professor da faculdade, encontrei com ele e me perguntou: “você não quer ir lá para a faculdade?”
AAB: E como foi esta experiência?
PC: Sabe como é que faziam na época? Casa, você escolhe o local e o terreno. Mas eu já tinha uma grande experiência profissional. Isso não existe antes de tudo você tem que ter programa, eu falava na época. Primeiro eu adotei o programa. Mas eu não fazia só o programa, exigia o lado conceitual de buscar o livro para ler. Por exemplo, eu fiz um negócio extraordinário, que eu acho extraordinário. Quando eu estava na escola, na Ilha do Fundão, eu percebi que aquela Catedral do Rio de Janeiro é a coisa mais horrorosa que tem lá na Avenida Chile, feita por um engenheiro. Então eu dei como tema, um projeto naquele local, como se não existisse aquela catedral. Mas eu queria que os alunos fizessem um trabalho sobre o Gótico e uma análise de programa religioso.
Eles faziam o histórico, o que era o Gótico, o Romântico na arquitetura religiosa toda. Faziam o programa, o terreno já existente para apresentar. Apareceu um projeto de um Dominicano, de um aluno que até bem pouco tempo ele me escrevia, que ele me fez um projeto espetacular. Aí falei com o Walmir Ayala, que trabalhava na crítica de cultura do Jornal do Brasil. E falei para o aluno: você vai publicar no Jornal do Brasil o seu projeto. Ai saiu a foto do projeto e etc. Passados dois anos, eu estou no escritório na Sisal e entra um argentino: “Que coisa incrível! Eu estava lá em São Domingos e quando eu desci tinha uma banda de música tocando e os jornais falavam: arquiteto Dominicano se destaca com um projeto no Brasil”. Por que tem coisa mais bonita que isso? Saiu no jornal uma critica sobre a Catedral, e dei a oportunidade para um jovem rapaz ser publicado, e ganhar uma festa na cidade dele, no país dele.
Edifício Estrela de Ipanema, Ipanema, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1967
AAB: E o senhor ficou como professor quanto tempo?
PC: Eu fiquei como professor até 1969, durante uns cinco anos, mais um pouco talvez. De repente eu tive que fazer meu escritório. Eu trabalhava na Sisal, mas já era hora de eu fazer meu escritório. E era professor na faculdade, Presidente do Instituto de Arquitetos, enfim muitas atividades. Meu escritório particular e a Sisal e aí eu não tinha tempo. Então eu pedi ao Vice-presidente do IAB para mandar uma carta para a faculdade dizendo que eu ia viajar. Eu ia fazer um salto desses, deixar de ser empregado que eu já tinha experiência para fazer um escritório de arquitetura. Eu vou viajar, vou viajar, e sai para viajar. E quando eu chego o Banco do Brasil já tinha me enviado várias correspondências porque eu não estava indo lá buscar os meus salários, então a faculdade suspendeu o meu contrato de professor.
AAB: O senhor foi expulso da faculdade?
PC: Expulsaram não, o Banco, o Banco que determinou. Aí o Diretor da Concremat, Mauro Viegas, me chamou: “Ô, Casé, os estudantes estão pedindo para você voltar” E eu falei: “Ué, eu não saí, vocês que me tiraram da faculdade, eu acho também uma coisa importante pra mim”
Não Casé, inclusive você pega a turma do quarto e vai até o quinto ano. Então eu digo: Maravilha, melhor ainda! Então vou recomeçar! Aí fui e chegou lá pro meio do ano, Vladimir Alves de Souza, assume a direção e me chama com a mesma historia: “você é importante” E eu digo: “eu não tenho duvida, já estou ai” ai passava de vez em quando lá na faculdade e perguntava: “como que esta minha situação ai?”
Tinha a grana que era pouca, mas o que eu queria era formalizar minha situação lá na faculdade. Um dia eu estou num daqueles corredores compridos quando eu ouço: “Doutor Casé!”. Vem um bedel com um livro enorme na minha direção e fala “Doutor Casé, o senhor foi reintegrado. O senhor pode assinar aqui? Agora com uma condição, o senhor não vai receber nada daqui para cá, esses meses, o retroativo”.
Aí eu falei pra ele: “você diga a todos os seus patrões que todos vão para a puta que os pariu”. Fechei o livro e nunca mais voltei lá. Que coisa para mim desagradável. Para entrar os caras mandaram me chamar com honras e etc. e agora para me mandar embora eles botam um Bedel no meio do corredor. Que coisa mesquinha, e queriam me reintegrar sob condição. Imagina se vou entrar lá sob uma condição. Então esse é o Paulo Casé que você está conhecendo, sabe. Eu me chamo assim, um leão manso, tá entendendo? Depois eu fico mais calmo, mas eu tenho esses rompantes, que é muito do papai. Papai que era muito assim, não admitia coisa que te desonra de maneira nenhuma.
AAB: Mas isso de alguma forma, é como se o senhor estivesse expressando a sua verdade interior, certo?
PC: Não sei pode ter gente que não gosta de mim por essas razões. Agora, sabe que eu tenho razão. Eu tenho uma vida que eu nunca atravessei ninguém, nunca pulei em ninguém, nunca afastei ninguém. Eu estou sempre levando a minha vida profissional, sem disputa. Não quero disputar com ninguém porra nenhuma.
Mas a escola que foi importante, não só o programa, quando eu levava livros e lia junto com os alunos em sala de aula. Cheguei por lá a ver o absurdo de a escola ter cátedra. Na medida em que o professor está na cátedra, então você é hierarquicamente superior aos alunos, você está acima deles. Um dia eu falei, sempre detestei isso, seja mais pela visão, mas como eu falo mais que escrevo, então tem uma besteira aqui outra ali, como um orador no púlpito. Então eu vou fazer um seguinte eu vou propor uma aula diferente. O Fausto Wolf, que morreu a pouco, eu, Millôr Fernandes e acho que o Moriconi, cada um vai ficar em um canto, vocês vão sentar, e não podem se mexer. Você vai ouvir, mas você não vai ver. Ouvir te desperta outras coisas, você vai ouvir uma pergunta e a resposta vem por aqui ou por aqui. Isto que é a forma de você aprender.
AAB: O senhor levou o Millôr na escola de arquitetura?
PC: Não cheguei a levar, mas a ideia que eu tive, eu ia fazer, ia ser uma experiência fantástica e única. Eu não gostava da ideia da cátedra, compreende? Queria propor uma conversa anárquica, todo mundo sentado no chão, não tinha cátedra. Mas tudo era concebido sobre um conceito, eu criei em cima de uma ideia. Não era nada por acaso. Porque, uma cátedra não é boa, o chão é pra todos, e o cruzamento das conversas, isso criava um clima de entendimento muito mais amplo.
Hotel Marriott, Copacabana, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 2001
Antônio Agenor Barbosa: O senhor tem uma atuação muito grande no setor de hotéis, pelo menos na pesquisa que eu fiz eu vi vários hotéis. O senhor acha que se tornou um arquiteto especialista no setor de hotelaria, ou isso não existe. Como pode nos falar sobre isso?
Paulo Casé: Isso não existe. Eu sou especialista em espaço.
AAB: E toda essa questão dos hotéis como é que surgiu?
PC: Foi um acaso, não foi nenhuma perseguição minha para nada. Uma coisa que eu não queria fazer era um hospital. Nunca vou projetar um hospital. Porque uma coisa que eu não quero é transar com a morte. (risos) Eu quero fazer é com a vida.
AAB: Então não fazer projetos de hospitais é uma opção deliberada também? O senhor nunca fez um projeto de Hospital?
PC: Não, não. Porque me faz mal ter que localizar a saída do caixão para um defunto. Nunca fiz e nem quero fazer. Já fiz até um projeto sim na área de saúde. Fiz pro Paulo Niemeyer, um grande médico neurologista, que é outra coisa. O cara era um gênio, eu o ajudei. O Niemeyer pai, irmão do Oscar. Mas esse projeto eu nem posso considerar um hospital. Aquilo era um recuperador, uma coisa maravilhosa. Não era aquela coisa de hospital que eu não gosto. Então podemos falar que num aeroporto e num hotel são lugares que você aperfeiçoa qualquer espaço onde as pessoas estão felizes. Você quase não vê no aeroporto gente triste. Pode até ter claro, mas noventa por cento tem alguma expectativa de ver outras coisas, de ver o mundo, de ver outro espaço. Isto vale para os hotéis também.
Hotel Marriott, Copacabana, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 2001
AAB: O senhor acha então que o hotel tem este caráter também?
PC: Sim, certamente.O lobby do hotel? É uma fantasia. É fantasia pura. Você está indo para uma casa que não pode ter defeitos. O hotel não pode ter defeitos. Porque o defeito pode tirar você de um sonho. Você está em um hotel onde tudo tem que acontecer com perfeição. Isso eu não sei por que, faz parte mesmo da doutrina dos hoteleiros, mas nada pode dá errado num hotel. Quando você entrar no quarto, você tem que aceitar psicologicamente que é a primeira pessoa que vai estar naquele quarto. Então o quarto tem que estar limpo, tem que estar perfeito. Então o hotel que tem retoques, acabamentos ruins, cocô no vaso, não presta. Então é um momento de fantasia, você entrar em um hotel. É descobrir um novo mundo, com novas pessoas.
AAB: Então o senhor pode definir que a sua relação de arquiteto com esse programa, que é o programa de hotel, sempre partiu dessa premissa?
PC: Da premissa de otimizar a vida. Eu acho que é um momento lindo. O lobby do hotel tem também essa missão de melhorar as condições. Quer dizer aquele momento de prazer tem que ser maravilhoso.
AAB: E no caso do Hotel Méridien em Copacabana, ele ficou durante anos como símbolo da cidade por causa da cascata de fogos que acontecia descendo por sua fachada na festa do Réveillon. Como é que o senhor vê o que aconteceu ali, o que exatamente isto significa?
Hotel Méridien, Copacabana, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 1973
PC: Ali é um símbolo de Copacabana e até do Rio de Janeiro. É um projeto atemporal. Isso deu certo porque o projeto de arquitetura do Hotel Méridien tem verdade. Não tem mentira nenhuma. Não tem nada que não seja estrutura a esquadria, a entrada, a marquise, tudo tem uma razão de ser e de estar ali. Então toda arquitetura que é atemporal, ela é verdadeira. Porque o formalismo, ele é perigoso. Porque você precisa descobrir, por quê? No diálogo com a arquitetura, você começa a ver os porquês. Por que isso, por que aquilo?
Também não sou daqueles que não defendam uma fantasia. Claro, com licença poética. Perfeito, você fazer alguma coisa como o Oscar Niemeyer faz é uma licença poética porque a gente precisa daquilo. A forma, ali tem uma função: a função de agradar. E agradar as pessoas é um papel fundamental da arquitetura.
AAB: Eu vi que nos seus livros o senhor fez algumas réplicas às criticas que foram feitas ao seu projeto Rio Cidade de Ipanema. Um dos mais ácidos críticos na época que eu lembre que o senhor respondeu a ele foi o Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista. O senhor chegou a criar uma relação de inimizade com ele por causa disso? O Arnaldo Jabor é um cara que sempre tem essa coisa do deboche, do brincalhão, que é uma coisa bem típica do carioca. Fala um pouco sobre isso.
PC: Eu o acho um pouco ácido. Mas, o Arnaldo Jabor. Eu fico pensando na intelectualidade de um homem contemporâneo como ele, se assombrar com um poste inclinado é porque ele também não está no mundo de hoje. Você vai para a Europa, você vê que a arquitetura contemporânea toda ela é desconstruída, fragmentada, descontínua, ela é toda assim. Não há um determinismo da ortogonalidade, da linha reta. O Jacque Derrida já falou: “acabou o centralismo”. O centro não é mais importante. Era pura hierarquia determinista do centralismo que já acabou. Deleuze falava dos rizomas. Então eu fico pensando como ele reagiu de forma anacrônica. Puro anacronismo.
AAB: E o senhor se deu ao trabalho de dialogar com ele? Como foi esse embate?
PC: Ele evidentemente tem televisão, tem a Rede Globo e escreve no jornal O Globo. Eu tive que recolher minha indignação pelas críticas dele e deixar correr. Eu já encontrei uma vez com ele no Gero, um restaurante aqui em Ipanema. Eu passei por ele, e ele sempre fica um pouco assustado quando me encontra. Ele sabe que não tem tanta razão nas suas críticas por que ele é uma pessoa inteligente. Não pode brigar com as coisas que estão escritas, tudo ali tem uma razão de ser, está tudo escrito. Tudo escrito, e conceitualmente marcado. Eu lembro que um dia eu passei por ele e disse: “Oi Jabor, Eu sei que vou te amar! Eu sei que vou te amar!”
Hotel Porto do Sol, Guarapari. Arquiteto Paulo Casé, 1975
Eu passei outro dia lá perto do obelisco em Ipanema e tinham quatro americanos fotografando. Se não fosse importante na paisagem da Cidade ninguém estaria fotografando. O cara vai lá fazer uma fotografia porque, não importa se é bonito nem feio, mas o que importa é que é uma referência, você compreende? Então eu fico triste com o cara fazer lista, abaixo assinado para derrubar as coisas Se tirar, se derrubar vão sentir falta.
AAB: O senhor acompanha a produção da arquitetura contemporânea tanto no Brasil quanto internacionalmente?
PC: Eu já fui muito mais interessado em ver as novas conquistas da arquitetura. Mas quando o computador entrou na vida do homem, ele tira muitas coisas das verdades que eu defendo. Para você ver, as formas a coisas, são desdobramentos, a facilidade de você criar absurdos e construir absurdos. Eu uma vez cheguei de uma viajem assim, poxa, a estética na arquitetura tem que ser estática? A arquitetura pode brigar com a gravidade? Eu sei que ela pode porque a tecnologia permite, mas por quê? Por que se ela está em pé, a gravidade é uma só ela te puxa para o centro da terra. Eu digo isso em um edifício. Num poste é outra coisa, mais simples, mas um edifício todo torto não acho adequado. O que é essa Xangai? Eu passei lá muito tempo atrás, escrevi até contando para um arquiteto amigo meu. Primeiro não há nenhuma participação da cultura chinesa, nada. Segundo, uma competição entre arquitetos, e ainda entre empresas. É Uma demonstração clara de que num futuro próximo o homem não terá mais um país e sim uma empresa. Xangai é a demonstração clara desses pequenos países que nasceram grandes corporações que mandam e desmandam e cada um com sua arquitetura absolutamente extravagante. Por quê? Eu fico perguntando sempre por que tem que ser assim? Não se vê ali a verdade.
AAB: Então o senhor é cético com essa contemporaneidade velada na arquitetura?
PC: Sim, por que ali eu não vi conquistas. Não havia dimensionamento, não havia conquista, isso sim que tem que se desenvolver cada dia mais. Como fazem arquitetos como o Álvaro Siza, o Tadao Ando, o Rafael Moneo. São os arquitetos que conseguem fazer o moderno, mas com atualidade. Em Sevilha, aquele aeroporto do Moneo é uma coisa linda, aquelas obras do Álvaro Siza são irretocáveis.
AAB: Tem uma obra dele em Porto Alegre agora, a Fundação Iberê Camargo, o senhor conhece? A única obra dele no Brasil e, se não me engano, talvez até na América do Sul.
PC: Nunca fui, mas conheço a obra dele. Que coisa linda pura como somos nós. Branco, sol, cor, é isso! Aliás, uma das coisas que o Arquiteto Luiz Paulo Conde nos mostrou, quando ele trouxe os arquitetos catalães pra cá, é que eles fazem tudo com muito tijolo, uma coisa muito fechada, muito ranzinza. Puro fogo, o catalão não é fácil. São muito brabos. E na arquitetura quando ia por este caminho eu disse ao Conde: “Mas por que não procuraram a Escola do Porto?” O Álvaro Siza fala muito mais a nossa língua que a dos catalães. Catalão é tijolo!
Termas de Mossoró Hotel, Mossoró. Arquiteto Paulo Casé, 1981
AAB: O senhor é muito requisitado para proferir conferências, palestras em faculdades de arquitetura?
PC: Fujo um pouco destes convites quando eles aparecem.
AAB: Quando te chamam o senhor não vai?
PC: Toda vez que for possível arranjar um pretexto para não ir eu prefiro.
AAB: Por quê?
PC: Porque o papai teve trinta e cinco anos no rádio. Ele teve o rádio nas mãos. E nunca falou no microfone. A única vez foi em Recife, quando ele saltou em Recife levando a gente para conhecer um carro que ele tinha comprado. O Tico Tico, para irmos de carro até Caruaru, e aí levou os filhos a mulher, e quando chegou lá, para ser entrevistado ele perguntaram pra ele: “Por que você não gosta de falar?” E ele respondeu: “Sabe por que? Porque eu já vi tanta gente importante dizer besteira falando no microfone que eu não vou correr esse risco”.
Então te conto esta história para dizer que é puramente por autodefesa que fujo destes convites para palestras. Papai era assim e eu também tenho um pouco disso. Eu sou pop, minha cabeça é pop! Eu não tenho uma linearidade de pensamento assim como tem, por exemplo, o Barack Obama. O Obama é um orador fantástico. Ele entra falando e começa aqui e sai lá. Eu não sou assim, o meu pensamento é muito fragmentado.
AAB: Mas isto tem lá suas virtudes, o senhor não acha?
PC: Mas não tenha a menor dúvida de que tem virtudes. Mas que é sempre a falta de memória, a onda de memória às vezes nos trai e não tenho um tipo de memória capaz de guardar as coisas. De guardar textos, citações, referências, estas coisas eu não sei. Então, eu só estou falando aqui com você com a maior tranqüilidade porque não tem auditório. (risos)
AAB: Então aqui nesta nossa conversa o senhor está se sentindo plenamente à vontade, certo?
PC: Claro eu gosto de conversar. Gosto de conversa. E tudo fica mais a vontade conversando. E com gente inteligente é melhor ainda, porque senão eu já tinha corrido daqui desta conversa.
Park Hotel, Nova Friburgo. Arquiteto Lúcio Costa
Antônio Agenor Barbosa: Então com base neste seu pensamento dito fragmentado eu faço uma proposta. Eu vou mencionar o nome de algumas pessoas e proponho que o senhor fale o que lhe venha à cabeça em relação a essas pessoas. Vamos lá? Primeiro: Lucio Costa.
Paulo Casé: Esse homem é o pai de todos. É o único intelectual da arquitetura brasileira. Eu o vi falar coisas que eu uso até hoje. Porque ele foi um meridiano. Ele falou uma coisa que é o seguinte: ele estava sempre discutindo homem x natureza. O homem é natureza. Ele é o braço racional da natureza, mas ele é natureza. E o que ele fizer é a natureza que o fez fazer e, por isto, ele está em equilíbrio. Está em equilíbrio. Então não tema o que o homem fizer; bomba atômica, não tema. Porque o homem que fez e ele vai se equilibrar com os seus feitos, faz parte da história do mundo. Então ele era um sábio que nos falava sobre estas coisas todas.
Palácio do Planalto, Brasília. Arquiteto Oscar Niemeyer
AAB: Oscar Niemeyer.
PC: Ah, esse é antológico! Eu escrevi várias coisas sobre ele. Mas o mais importante é que ele força a flutuar a matéria. Ele faz mágica! A curva não tem peso, a arquitetura não tem peso.
Instituto de Resseguros do Brasil, Rio de Janeiro. Escritório MMM Roberto
AAB: E os irmãos Roberto?
PC: Ah! Aí é uma coisa fantástica. Naquela época que eu estava querendo procurar emprego na Sisal Imobiliária, eles já faziam prédios fantásticos. E não é uma arquitetura de modelo, é uma arquitetura urbana. Eu, por exemplo, nunca tive, infelizmente, grandes liberdades espaciais num terreno. Eu faço a minha arquitetura toda ela condicionada em legislações urbanas, que são horríveis, e consigo com algum esforço tirar alguma qualidade da mesmice desse ambiente, dessa babaquice, da legislação ruim, porque não é só a lei ruim, mas como os caras ainda querem te julgar etc. E os irmãos Roberto tinham essa qualidade de fazer uma arquitetura urbana de altíssima qualidade aqui no Rio de Janeiro. O prédio do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) ali no Castelo é uma beleza, aquele edifício residencial ali da Rua Farani, em Botafogo, tudo muito bom. Você está entendendo. Fala a verdade, é eterno. Aquilo é atemporal.
Museu de Arte Moderna MAM, Parque do Flamengo, Rio de Janeiro. Arquiteto Affonso Eduardo Reidy
AAB: O Afonso Eduardo Reidy?
PC: É eu não o conheci, infelizmente. Muitos arquitetos da minha geração o conheceram. Pela obra dele deve ter sido uma pessoa fantástica. Eu tenho um ex- sócio, o Rangel, que trabalhou com ele. Sei que o Luiz Paulo Conde também trabalhou com ele e ele foi muito importante para o Conde. O Reidy, eu sei que ele puxou para ele uns ajudantes e fez deles um grupo muito bom de grandes arquitetos que trabalharam com ele.
Jardins do MAM, Parque do Flamengo, Rio de Janeiro. Paisagista Roberto Burle Marx
AAB: O Burle Marx?
PC: Esse é paisagista! Eu tenho as minhas dúvidas com relação ao trabalho dele. Eu estive na China em 93 eu fui visitar três jardins japoneses, com arquitetos japoneses. Na China, no interior daqueles palácios, e tudo no jardim tinha um significado. Tudo. A pedra que está na água, o gramado, a pedrinha. Aí eu olho trabalho do Burle Marx e, infelizmente, não vejo isso. E como eu acho que tem que ter a ideia antes, é muita colocação de conhecimento profundo que ele tinha, que respeito esse aspecto dele, mas é muito chumaço de vegetação aqui, outro chumaço ali, uma coisa excessivamente formal, pictórica demais. Falta a meu ver, nos jardins dele, a razão de ser das coisas. Eu até trabalhei com ele. Fiz dois ou três trabalhos com ele, mas ele era vedete!
AAB: César Maia, Ex-Prefeito do Rio.
PC: César Maia é uma das pessoas que mais me impressionou na minha vida, ele tem uma cabeça extraordinária. E agora ficou na moda meter o pau nele já que ele não está mais no poder. Ele é um homem que ficou 16 anos à frente da Prefeitura dessa cidade e ainda se encanta com a cidade. Agora, política é um suicídio, política é um suicídio, e quando você tem que confrontar a sua ideia com os outros pra se afirmar, não adianta, acaba. Eu por exemplo, eu tenho as minhas ideias, depois que eu recolhi as minhas críticas que achei mais importante eu peguei meu caminho e fui seguir o meu caminho. Eu não quero saber de discutir com ninguém. Mas o político ele tem que discutir com todo mundo e isso desgasta muito.
Chrysler Building, metáfora do castelo medieval. Croqui de Paulo Casé
AAB: O senhor trabalhou muito para a Prefeitura durante as gestões dele. E então, qual a principal virtude que o senhor viu no César Maia com relação a essa questão da Cidade?
PC: O trabalho. Trabalha, trabalha, um homem interessante tem uma cabeça rica pra cacete, muito inteligente. A última vez que eu estive com ele, foi junto a um hoteleiro português que ia fazer um hotel aqui, e o projeto era meu. Então ele marcou um encontro e eu fui lá. Ele tava terminando o governo. Ele já estava há dezesseis anos, ele já deveria estar em outra, mas não, de tudo ele fazia. Eu já trabalhei muito com ele e eu sempre falava: “Cesar, vamos fazer uma coisa? Vamos terminar este seu governo e vamos abrir um gabinete de conversa”. Gênero, ele é gênero tá entendendo. Eu tenho vários amigos intelectuais, completamente diferentes dele, mas ele é um gênero diferente, um homem de uma sagacidade. Eu tenho por ele um apreço. Uma vez eu escrevi na minha coluna do Jornal do Brasil, uma das primeiras colunas foi sobre o pós modernismo. Foram dois números de pós modernismo. Então escrevi sobre a arquitetura, sobre o moderno, como é que nasceu a arquitetura moderna e etc. Aí, ouça só, eu estou em casa um dia e toca o telefone: “Alô, Paulo Casé? Aqui quem fala é o Deputado Cesar Maia”. E eu falei: “Pois não, Deputado”. E ele, que é economista, me falou: “Eu acho que a economia tem muito a ver com aquilo que você escreveu no Jornal do Brasil sobre arquitetura e pós-modernidade. Você pode vir conversar comigo?”
AAB: O senhor nunca tinha falado com ele antes?
PC: Nunca. Falar com Político? Aí fui lá depois que ele me ligou e esta conversa que tive com ele me marcou. Fui lá nove horas da noite e saí duas horas da manhã de lá. Quando saí, eu pensei, não é possível esse cara deve ser um maluco. É um cara fora do normal. Aí eu disse: “Ô Cesar, eu posso marcar outra conversa com uns amigos e você”. Então fiz um grupo, Geraldinho Carneiro, Silvio Tender, uma porrada de gente interessante, tinha também o Conde. O Conde então ele conheceu o Cesar Maia lá em minha casa. Aí eu disse, “Ô Cesar, aconteceu isso, isso e isso depois daquela nossa primeira conversa e eu reuni esses amigos aqui para você falar pra eles o que você disse párea mim, porque eu estou impressionado com a sua visão da Cidade, do mundo e etc.”. E todo mundo saiu de lá também com boas impressões dele. Então é isso, pra mim o César Maia é essa história que te contei agora.
Edifício-sede da Confederação Nacional do Comércio, Brasília. Arquiteto Paulo Casé, 1997
AAB: O senhor falou muito aqui do arquiteto Luiz Paulo Conde, ex-prefeito do Rio. Ele é mais ou menos um arquiteto da sua geração, não é? E vocês sempre estiveram em alguns momentos muito próximos. Como é que o senhor vê a passagem do Conde da arquitetura para a política e os caminhos que ele seguiu depois aqui na Cidade já como Prefeito e etc?
PC: Foi aprimeira visão urbana de um prefeito sobre a cidade nos últimos anos. Ele pensou a Cidade, fez os Programas Rio Cidade o Favela Bairro e etc.
AAB: Foi o senhor que apresentou o Luiz Paulo Conde ao César Maia?
PC: Não apresentei exatamente, mas eu que trouxe o Conde para aquela reunião com o César Maia. Eu soube depois, que ele foi quem levou o César Maia para casa, pois o Cesar morava na Barra da Tijuca e eles foram conversando e o Conde já gostava de política. Ele foi Diretor da Escola de Arquitetura só fazendo política, fazendo política. Falando com funcionário aqui com outro funcionário ali. Eu não ia fazer isso nunca tem que ter essa tendência e esse talento. E o Conde é um cara inteligente e culto. Quando teve a chance dele de ser o Secretário de Urbanismo do César Maia ele foi embora e fez realmente o negócio andar e muito. Então ele tem essa virtude de ter trazido o debate urbano para a prática cotidiana do cidadão. Que muitos não tenham entendido o que ele queria fazer aí é diferente. Também a gente não está aqui para as pessoas sempre nos entenderem. Infelizmente.
AAB: O senhor acha que tem ainda alguma coisa que queira mencionar e que ache importante ser publicado como um perfil seu?
PC: Aí seria interminável. (risos). Agora mesmo estão me chamando para falar sobre estacionamentos. Para mim qualquer tema é tema para se desenvolver o conceito em cima daquilo. Porque estão se empilhando as garagens? Primeiro que eu acho que o carro, filosoficamente, ele dá mobilidade à paisagem urbana, senão vira paisagem pura. Gente andando e carro se movendo é que faz a excitação da cidade. Mas até que ponto esse carro é um móbile? No momento que ele rompe isto para se tornar um estorvo, aí danou-se. E o que está acontecendo é que o carro virou o desejo de todas as pessoas. Todas as pessoas têm o desejo de ter um carro. E o financiamento, que faz parte desse novo mundo, cada dia mais longo, vem facilitando, e o desejo das pessoas é ter o melhor.
Nós estávamos conversando outro dia, que a vida que nós estamos levando é a busca do melhor. Cada carro, a cada dia tem mais coisas, cada dia tem mais coisas. Pura competição, que é importante a competição, e nós estamos todos no meio dessa jogada. E você vai desejar ter um, dois, três carros, mas as ruas têm uma dimensão. Eu acho e que o carro deve ser um instrumento é da despolarização. As cidades sendo criadas à distância das metrópoles. E seria a saída para a metrópole. Em vez de o cara ir para o centro da cidade trabalhar. Agora você se afasta da produção. Antes você queria estar perto da produção, agora o computador é a produção. Você tem a fábrica com você. Você trabalha aqui, você está fazendo a produção. E resolvendo todos os problemas da sua vida, o de comprar o de produzir sem se deslocar muito. Então com isso você pode diminuir os deslocamentos e o carro virar um objeto de lazer apenas.
Parque Aquático Maria Lenk, Barra da Tijua, Rio de Janeiro. Arquiteto Paulo Casé, 2007
AAB: E o senhor acha que a sociedade brasileira, por exemplo, está preparada para entender dessa forma?
PC: Não dá nem para criticar a sociedade, pois ela é levada a agir desta forma, a ausência de transportes coletivos seguros e de qualidade, o sistema de transporte é muito ruim. Ainda tem muita marola para correr. E a questão do computador. Você tem em casa o mundo. Agora, os riscos disto quais são? É que as mensagens todas são universalizantes. Então qual é a importância do arquiteto e do urbanista? Atrair ele para fora de casa, falar a língua dele e não ser universalizante compreende? Porque a única coisa que é verdade e que resiste à opressão da cultura é a sua vizinhança. Você falar de um jeito seu, poder conhecer as pessoas próximas em sua volta, o jeito sua da vizinhança. Então você tem que ir para a rua, a cidade tem que ter esse papel de juntar e de atrair gente. O marco completo na dimensão do homem é a cidade.
AAB: Muito obrigado pela entrevista.
PC: Também agradeço, foi muito boa.
Auto-retrato de Paulo Casé
Paulo Casé: Nascido no Rio de Janeiro, em 1931, Paulo Casé (80 anos) é considerado um importante arquiteto devido à ousadia de seus projetos e pela sua capacidade de aliar estética e funcionalidade, características que o colocam como um dos maiores expoentes da arquitetura brasileira do século 20. Muito influenciado pela arquitetura de Frank Lloyd Wright, Paulo Casé procura refletir em seus projetos a luz modernista, racional e formal da sua visão de mundo, sempre buscando uma relação orgânica e positiva entre a cidade e a arquitetura.
Nos últimos anos tem tido grande atividade no Setor Hoteleiro em todo Brasil. Destacam-se trabalhos desenvolvidos como os dos Hotéis Hilton, Marriott Rio e Meridien, no Rio de Janeiro, o Hotel Porto do Sol em Guarapari e o Caesar Tower em Recife. Dentre as principais premissas de seus projetos, está a sua grande preocupação em considerar as características climáticas e topográficas de cada local. Sua atividade profissional, sempre intensa, tem se voltado, nos últimos anos, para o urbanismo e a arquitetura que ele chama “de intenções”, de projetos simples, mas que oferecem opções de lazer e esportes aos bairros carentes do Rio de Janeiro, como no caso do Projeto Favela Bairro na Mangueira.
Piazza de San Marco, Veneza. Croqui de Paulo Casé
Antônio Agenor Barbosa
Com40 anos de idade,atualmente é Professor no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF - MG), onde também é membro do Colegiado do Curso de Arquitetura e Urbanismo, sendo o representante da área de Teoria e História. É Conselheiro Titular no Conselho Municipal de Habitação (CMH) da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora onde compõe a Mesa Diretora na função de Segundo Secretário. Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Santa Úrsula (1995) e mestrado em Urbanismo pelo Programa de pós Graduação em Urbanismo (PROURB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000). Entre 2004 e 2007 exerceu o Cargo de Coordenador Acadêmico do curso de Graduação em Paisagismo e o de Coordenador Acadêmico de Pós-Graduação em Paisagismo e Recuperação Ambiental na Universidade Veiga de Almeida (UVA - RJ). Também na Universidade Veiga de Almeida já foi Coordenador Acadêmico da Pós-Graduação em Turismo e Patrimônio. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU - UFRJ) já foi professsor de Projeto de Urbanismo e de Evolução Urbana do Rio de Janeiro junto ao Departamento de Urbanismo e Meio Ambiente (DPUR) de 2001 a 2004 e também na FAU - UFRJ já foi Professor de História da Arquitetura e do Urbanismo e de Arquitetura no Brasil I e II, junto ao Departamento de História e Teoria (DHT) de 2009 a 2010. Foi professor do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Plínio Leite (UNIPLI) onde lecionou as disciplinas de Projeto de Arquitetura e Urbanismo, Planejamento Urbano e História e Teoria da Arquitetura e do Urbanismo. Foi professor do Curso de Graduação em Turismo da Universidade Veiga de Almeida onde atuou como docente na disciplina de Turismo e Patrimônio Cultural. No portal Vitruvius tem publicadas várias entrevistas que já realizou com importantes personalidades da arquitetura e do Urbanismo no Brasil tais como: Marcos Konder, Fernando Chacel, Maria Elisa Costa, dentre outros.
Entrevista
A entrevista com o arquiteto Paulo Casé aconteceu em novembro de 2010. A transcrição desta entrevista foi feita pela aluna do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Luisa Feyo Peixoto, a quem eu reitero o meu agradecimento. Faço ainda um agradecimento especial ao Arquiteto Miguel Prestes que, não fosse a sua contribuição, esta entrevista não poderia ter sido realizada. Quero ainda informar ao leitor que esta entrevista foi toda gravada em áudio e que na transcrição da gravação procurei não perder a espontaneidade e a informalidade da fala do entrevistado e a maneira nem sempre cronológica e linear com que ele enumerava as suas respostas às minhas perguntas. Cabe esta informação para que o leitor possa ler a entrevista sabendo destas intenções que foram previamente acordadas com o entrevistado.
Conjunto habitacional da CBMM, Araxá. Arquiteto Paulo Casé, 1980
Errata
Nota do editor – A presente entrevista com o arquiteto Paulo Casé me permitirá fazer uma necessária correção pública. Em exposição recente, da qual fui curador – Arquitetura brasileira: viver na floresta, curadoria de Abilio Guerra: Instituto Tomie Ohtake, 15 junho a 01 agosto 2010; Palácio das Artes, Belo Horizonte, de 08 de abril a 08 de maio de 2011–, cometi o equívoco de atribuir a autoria do Conjunto habitacional da CBMM ao escritório Rino Levi Arquitetos Associados. O lamentável erro – infelizmente reproduzido no catálogo da exposição (1) – foi induzido por uma informação equivocada em listagem existente no escritório paulista, que indicava o projeto como construído. O projeto em questão, elaborado por equipe coordenada pelo arquiteto Carlos Arcos, mantém grande semelhança na implantação, o que me levou a procurar o projeto construído no acervo Rino Levi Arquitetos Associados depositado na FAU USP. Lá encontrei além dos desenhos do escritório, as pranchas do projeto paisagístico, assinado por Fernando Chacel, ambos os conjuntos de pranchas referentes a versão não construída. Como não encontrei o projeto construído, o julguei extraviado. Somente após a publicação do livro sobre a obra do arquiteto Paulo Case (2), ocorrida em 2011, é que me dei conta que o projeto foi posteriormente encomendado ao arquiteto carioca. Contudo, o erro já havia sido cometido. Vale salientar que o projeto foi selecionado por sua excepcional qualidade e a associação que fiz na ocasião entre este projeto e o pensamento de Lucio Costa fica mais evidente em se tratando de um arquiteto carioca. Minhas desculpas ao arquiteto e a todos que viram a exposição e leram o catálogo.
notas
1 GUERRA, Abilio. Arquitetura brasileira: viver na floresta. Catálogo de exposição. São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, 2010, p.104-109.
2 BRITTO, Alfredo. Paulo Case. 80 anos: vida, obra e pensamento. Textos de Regina Zappa, Alfredo Britto e Roberto Segre. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011, p. 128-131.