português Os arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, titulares do escritório paulista Brasil Arquitetura, destacam-se nos últimos anos com sólido trabalho, em especial na área de intervenção em edifícios de interesse histórico.
como citar
Beatriz Carra Bertho.
“Conversa com Francisco Fanucci e Marcelo Carvalho Ferraz”.
Vitruvius entrevista, ed. 12.045. 2011.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/12.045/3725
Solar do Unhão, Salvador BA. Reforma arquiteta Lina Bo Bardi
Criado em 1979 pelos arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz o escritório Brasil Arquitetura é destaque na arquitetura nacional pela qualidade de sua produção, premiada e amplamente publicada, no Brasil e exterior. Formados no final dos anos 1970, seus fundadores representam uma geração singular de arquitetos da FAU USP, pois não partilharam do frescor das discussões políticas do início dos anos 1970 ou mesmo da retomada dos valores de uma “tradição moderna” que viria a dar o tom à geração dos anos 1990. Nesse intervalo, conheceram a arquiteta Lina Bo Bardi, com quem trabalharam em importantes obras do período, como o Sesc Pompéia.
Com mais de trinta anos em atividade, o escritório conquistou uma certa autonomia em relação às suas referências mais marcantes, entretanto, o vínculo com os entraves teóricos formulados nos anos 1980 parecem recrudescer a medida que seus projetos afirmam conexões com a própria trajetória de suas obras e de seus colaboradores. É notória a aproximação a estruturas mais orgânicas da cultura brasileira, tanto pela busca de um repertório autóctone, quanto nas relações entre arquitetura e cidade. E esse parece ser um tema essencial para entender suas propostas.
No campo da arquitetura, em meio à desorientação dos anos 1980, entre influências “pós-modernas” e críticas ao Moderno, a leitura de uma modernidade “em contexto” ensaiada pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi desde os anos 1960, surpreendeu um território acadêmico, já enfraquecido, que procurava reavivar o moderno sem o lastro de um processo de modernização. Embate que fazia oposição às formulações caricatas das modas internacionais, ditadas por segmentos do mercado ou mesmo por arquitetos em busca de alternativas aos modelos oficiais da arquitetura nacional. Nesse cenário, Lina destaca-se por desenvolver a forma radical da arquitetura paulista (como no Masp) e assegurar o entendimento de uma tradição popular local (Igreja do Espírito Santo do Cerrado, Museu de Arte Moderna da Bahia). No Sesc Pompéia, essas duas vertentes atuam em convergência.
Ao compreender e ampliar esse caminho singular criado na “década perdida”, o escritório Brasil Arquitetura revela uma das mais promissoras estratégias de projeto da arquitetura brasileira contemporânea.
Igreja do Espírito Santo do Cerrado, Uberlândia MG. Arquiteta Lina Bo Bardi
Sesc Pompéia, São Paulo SP. Arquiteta Lina Bo Bardi
Beatriz Carra Bertho: Um dos valores mais importantes ensinados por Lina é percebido na “ação arquitetônica” da obra de vocês, pois traz no seu centro o homem, sua vida e sua cultura, porque o maior interesse é a vida que acontece nos espaços projetados. Como essa herança da Lina ainda se renova no trabalho de vocês?
Marcelo Ferraz: Eu acho que essa chamada herança da Lina é na verdade uma leitura que se faz, ou um ponto de vista que se toma da obra da Lina. Porque no período em que trabalhamos com ela o que havia era muito trabalho e não sobrava muito tempo livre para parar e pensar no que fazíamos; estávamos dentro. Hoje, essa distancia no tempo nos dá mais condições de análise. Depois de fazer as exposições e o livro da Lina que giraram o mundo, vira e mexe, temos que pensar sobre isso, assim como pensamos a obra do Lucio Costa, do Oscar [Niemeyer], e então passamos a ter uma visão mais crítica, ver o que é que eles tinham de mais interessante. E, ao fazer essa leitura, identificamos e explicitamos coisas em suas obras que, talvez, sejam nossas. É difícil dizer que se tem uma herança, pois não se trata de uma apropriação direta. Nem direta e nem tão clara a ponto de uma afirmação contundente. Acho que você, ou os que olham de fora, podem até fazer isso, mas para nós é muito difícil. Trata-se do nosso modo de fazer arquitetura, como encaramos as questões, e isso é muito simples de ver: estamos, desde o princípio de nossas carreiras, envolvidos com as obras e com as pessoas, com a luta por realizar o projeto, isso desde o primeiro concurso que ganhamos. Está em nossa dinâmica de trabalho. Eu vejo assim, e é claro que a preocupação humanista, (aliás, eu acho que deveríamos retomar essa palavra e começar a usar mais, pois está tão em desuso, tão fora de moda, e é tão boa) é parte da nossa formação. Hoje não conseguimos mais, como nos tempos da universidade, dizer que somos comunistas ou mesmo socialistas. Tudo ficou muito misturado e confuso. Mas que temos uma preocupação humanística, temos, sem dúvida. Não é mesmo Chico?
Francisco Fanucci: É, e também com relação à “ação arquitetônica”, eu acho, na verdade, que cada projeto é uma renovação, cada projeto é um universo completamente novo, um universo de relações a ser desvendado, traduzido e apropriado, cada experiência é sempre diferente da anterior. Quer dizer, não nos sentimos presos a nenhuma herança no que diz respeito a formas, técnicas ou a materiais. Na dinâmica do trabalho lidamos principalmente com elementos relacionados ao próprio universo com o qual interagimos.
MF: E talvez o tempo que já temos de trabalho, pouco mais de 30 anos de escritório, desenvolvendo, praticando, fazendo de uma certa maneira, com um certo approach, que resultou num jeito de olhar para as coisas: como encarar cada projeto de maneira diferente; um jeito de olhar, de tentar relacionar, buscar ligações que muitas vezes não são tão óbvias, não são simplesmente formais. Apesar da arquitetura sempre resultar em forma, para nós, no nosso modo de projetar, ela não começa pela forma.
BCB: Além dos ensinamentos da Lina, é possível perceber outras influências, comuns aos arquitetos da mesma geração, a qual o Brasil Arquitetura pertence, como a de Villanova Artigas, Corbusier, Mies Van der Rohe, Alvar Aalto e Luis Barragán. E o Lelé (1) aponta também a presença dos ensinamentos de Lucio Costa na obra de vocês. O que ou quais características, em sua opinião, fazem deles referências frente à arquitetura?
FF: Acho que não há uma característica de cada um ou mais de uma: são nossos mestres, mestres a quem a gente sempre se reporta. É um conjunto de coisas, eu não saberia identificar o que é em cada um. Esses e outros mestres são o nosso norte, nossa base. É como se eles é que nos instrumentalizassem, vamos dizer assim, para encarar a realidade e o sonho. Às vezes é até possível dizer que algo vem deste ou daquele, especificamente.
MF: Em nossa formação, na FAU, basicamente estudamos os clássicos, Le Corbusier, [Alvar] Aalto, Mies [Van der Rohe], Frank Lloyd Wright. Acho que isso era assim a nossa “velha guarda”, situação diferente da de hoje, em que há uma enorme gama de arquitetos-estrela; nossas estrelas ainda eram aqueles, mesmo os que já tinham morrido, eram as nossas referências. Vilanova Artigas e seu jeito de projetar com grande rigor técnico veio também em nossa formação porque estudávamos na FAU, que era, por assim dizer, a sua casa. Lucio Costa para mim foi uma descoberta até um pouco posterior, pois na FAU não estudamos sua obra. Entendo que o Lucio Costa é justamente um humanista, muito ligado às questões brasileiras, que lutou por uma nação com uma cultura própria, original. E isso para nós é muito importante. Eu sei que é um risco, pode parecer “O Marcelo é muito nacionalista”, o nosso escritório tem nome “Brasil”, mas não é assim, não é uma coisa retrógada. Nós tivemos agora essa discussão lá na Itália (2), e foi muito interessante. Porque é muito perigoso isso de dizer: “nacionalismo é uma coisa retrógrada, coisa que puxa para trás”, ou, ao contrário, dizer “só o que é brasileiro é bom, nossas tradições, isso e aquilo”, mas ter uma idéia de nação, afirmativa, importante, é legal. Impor-se como nação, como uma cultura a mais e não ser subjugado ou submisso a outros povos é bom.
notas
1 LIMA, João da Gama Filgueiras Lima. Apresentação 1. In FANUCCI, Francisco; FERRAZ, Marcelo. Brasil Arquitetura. São Paulo, Cosac Naify, 2005, p. 9.
2 Referência à exposição A tradução do novo – La traduzione del nuovo, realizada em Roma, Itália, no período de 26 de fevereiro a 2 de maio de 2010.
Parque Hotel, Nova Friburgo RJ. Arquiteto Lúcio Costa
CESA Jardim Santo André, Santo André SP. Escritório Brasil Arquitetura
Beatriz Carra Bertho: O mundo atual é percebido por muitos como algo caótico, desordenado e mesmo hostil. Não menos importante é a desorientação causada por problemas urbanos (insuficiência de habitação, ausência de desenho, proliferação de espaços que negam a cidade) e que contribuem para cidades organizadas de maneira confusa, sem hierarquia clara, povoadas por uma esmagadora maioria de edifícios equivocados na sua concepção, cuja aspiração à monumentalidade e notoriedade só agrava a sensação de se estar em nenhum lugar. Como deve se posicionar o arquiteto diante do caos das cidades contemporâneas?
Francisco Fanucci: Eu acho que trabalhamos com uma consideração muito grande em relação ao lugar do projeto. E acreditamos muito – creio que o Marcelo também - em ações pontuais e na capacidade de contaminação que elas têm, talvez mais que em planos gerais para a cidade contemporânea, planos que pretendem abarcar toda sua complexidade e dinâmica. A gente vê a cidade mais como uma construção em permanente processo de desenvolvimento. E cada ação, cada ponto, cada coisa que a arquitetura tem capacidade de provocar num lugar pode contribuir para a mudança de conduta das pessoas, pode orientar para uma direção que se deseja. É lógico que esse “caos” demanda uma ordem, uma visão global deste processo, uma compreensão da cidade e seu território. Visão que se rebate, mas também se constrói no interior do tecido urbano, ali, em cada ação. A vida de muitas pessoas é alterada com a construção de um edifício em uma rua qualquer. Sua presença pode ser definidora, vamos dizer assim, de um processo de reurbanização. Acreditar nisso é acreditar na responsabilidade nossa em cada ação arquitetônica, que tem, necessariamente, essa dimensão urbana.
Marcelo Ferraz: Isso poderia ser até uma defesa da nossa ação, da nossa ação de projetar, de trabalhar e acreditar no que estamos fazendo, uma justificativa para podermos continuar trabalhando, mas não. Acho que podemos alterar coisas, melhorar a vida ou o conforto das pessoas em nossas cidades. Os grandes planos falharam. As cidades são feitas por muitas mãos e por muitas ações, não só de arquitetos. Então, acho bom pensar que o tempo em que se fazia um grande plano que deveria mudar tudo não está mais aí. Podemos atuar em partes e mudar nossas cidades a partir de projetos pontuais, irradiadores de transformação. Claro que, sempre amparados em leituras e visões globais, abrangentes.
BCB: O arquiteto finlandês Juhani Pallasma (3) critica que a arquitetura contemporânea está cada vez mais “retiniana”, pois, segundo ele, um mesmo grupo de arquitetos constrói os mesmos edifícios em vários lugares diferentes do mundo, o que reforça a idéia do arquiteto como um criador de imagens, colocando a composição formal como o fator mais fundamental no projeto, e dispensando qualquer referência externa. Já alguns arquitetos, como Tadao Ando (4), defendem que a criação arquitetônica não é um método para soluções de questões técnicas, ela deve ser acompanhada de uma ação crítica, e pede a contemplação das origens e da essência dos requisitos funcionais de um projeto, conjuntamente à identificação dos problemas essenciais. Como vocês entendem essas duas perspectivas tão distintas, uma que se concentra na própria lógica voltando-se para dentro, correndo o risco do isolamento perpétuo; e outra que se esforça no desenvolvimento de relações externas, mas corre o risco de perder a coerência.
MF: Eu acho que o Ando tem razão e é coerente em sua obra; quando se olha para o Japão com sua forte cultura e para o Tadao Ando, você diz: só podia ser ele. Tudo em sua obra passa a ter sentido e eu concordo muito mais com a arquitetura dele do que com a dessa turma da “fórmula 1”, mesmo com seu forte apelo formal – o Japão tem um lado formal forte, não é?.
Mas eu queria dizer algo um pouco diferente de um e de outro. Por exemplo, no museu do pão, restauramos um moinho antigo e projetamos um conjunto novo, (do qual se pode dizer “é arquitetura paulista, é a nossa origem FAU USP, é miesiano em planta, é assim e assado...”). Para nós isso não importa tanto, o mais importante é o efeito transformador que esse projeto provocou na comunidade - e esse é o caminho mais difícil. Isso não está expresso em sua forma, em sua cara, não está claro quando você visita. Então, recuperar e transformar o significado de um moinho velho abandonado, lembrança de um passado pobre, sofrido, de tempos duros dos imigrantes pioneiros, é muito importante e pode ser legal. Fazer esse conjunto – moinho, museu, escola de panificação – viver na atualidade é o efeito objetivo de um projeto de arquitetura. É muito bom, é uma satisfação enorme poder atuar nesse sentido. Hoje, a comunidade local que já via no moinho um motivo de vergonha, orgulha-se dele. Essa foi a conseqüência de um projeto arquitetônico (e de um programa, que para nós é uma coisa só): fazer mudar o comportamento, mudar a visão das pessoas, mudar uma comunidade. Então, eu acho que não estamos nem com o Pallasmaa e nem com o Ando exatamente, é outra coisa. Atuamos politicamente e nossa ferramenta é a arquitetura. Em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, foi a mesma coisa, ter trabalhado com os índios e criar um lugar confortável, um espaço novo, que tem forma, tem a nossa planta racional do Mies, tem Artigas e tudo o mais, mas tem também um elo forte com a comunidade no aproveitamento da técnica local e, mais ainda, na maneira de utilizar e compartilhar os espaços. Projetar é criar uma historia com nexos, efeitos, e fazer viva essa história, como se fosse um filme.
Pense, por exemplo, no Sesc Pompéia: que cara tem? Não importa. Temos lembranças de situações vividas ali, festas, tardes bonitas, encontros com amigos... um projeto que causa efeitos, ações, que faz diferença na fantástica vida da cidade.
notas
3 PALLASMAA, Juhani. Toward an Architecture of Humility: On the Value of Experience. In SAUNDERS, William S. Judging Architectural Value. Harvard, Harvard Design, 2007.
4 ANDO, Tadao. Por novos horizontes na arquitetura. In NESBITT, Katte (org.). Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica (1965-1995). São Paulo: Cosac Naify, 2006, p. 495.
Museu Oscar Niemeyer, Curitiba PR. Arquiteto Oscar Niemeyer, reforma Escritório Brasil Arquitetura
Museu Rodin, Salvador BA. Reforma Escritório Brasil Arquitetura
Beatriz Carra Bertho: Muitos críticos de arquitetura acreditam que após a inauguração de Brasília houve uma perda gradual na qualidade da arquitetura brasileira e uma decadência dos valores “que possibilitaram uma arquitetura de tal qualidade que foi tão aclamada no exterior”. De acordo com Roberto Segre (5), atualmente, procura-se para as edificações, um mínimo de funcionalidade aliada a um custo baixo e a imagem das cidades está mais vinculada às construções especulativas anônimas do que a iniciativas de desenvolvimento urbanístico. E vocês, como posicionam a arquitetura contemporânea brasileira? E qual é o caminho por uma arquitetura brasileira mais promissora?
Marcelo Ferraz: Eu não tenho clareza sobre uma perspectiva para a arquitetura brasileira. Mas creio que o Brasil nos apresenta questões muito próprias, de um país ainda muito pobre, de cidades muito pobres, um país com carências de infra-estrutura brutais, uma sensação de ter muito por fazer. E isso nos diferencia muito de vários lugares do mundo, e nos aproxima de outros, onde a história da formação da cidade ainda está em curso, muito pouco consolidada. A gente ainda está nesse esforço de resolver problemas básicos, e isso, coloca aos arquitetos brasileiros, pelo menos em tese, uma nova noção de movimento, muito maior, com muito menos restrição, muito menos enquadramento, enfim. Pelo menos em conteúdo, isso se apresenta assim.
Francisco Fanucci: A gente vê jovens arquitetos fazendo coisas muito importantes. Há uma geração de jovens de muito valor, uma geração diferente da nossa, em que poucos, percentualmente, depois que saíram das escolas se dedicaram à arquitetura propriamente dita, por falta de oportunidades.
MF: Se você olhar para os concursos de arquitetura, tem muitos projetos bons. Esse é um lado que compensa outro: grande parte do capital é investida na cidade em construção de péssima qualidade. Às vezes de boa qualidade construtiva, mas totalmente equivocada, como os neoclássicos. Por outro lado, também tem uma média que melhora, num nível geral, temos bons arquitetos jovens. Agora, eu acho também difícil avaliar porque nos sentimos um pouco isolados, talvez pela nossa maneira de fazer arquitetura. Um pouco sós, num plano mais geral, não porque queremos ser isso ou aquilo. Um pouco sós no modo de fazer arquitetura. Continuamos insistindo em fazer assim, ou talvez a gente não saiba fazer de outro modo, não sei. Partindo do envolvimento com o tema, com o programa. Se for casa, se for um museu, se for uma escola; sempre tratamos da questão de modo a tomar todas as variantes para poder projetar. E é claro que muita gente não precisa nem tocar no tema, colocar- se no lugar do cliente. Eu senti isso quando lecionei nos Estados Unidos: lá é o oposto, eles são em sua maioria técnicos extremamente capazes de realizar os projetos, resolver estruturas e resolver espaços, sem maior envolvimento com o tema; a encomenda vem e sai um projeto. Aqui, conosco, é um pouco diferente.
nota
5 SEGRE, Roberto. Arquitetura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro, Viana & Mosley, 2004, p. 16.
Teatro Polytheama, Jundiaí SP. Reforma Escritório Brasil Arquitetura
Centro Cultural KKKK, Registro SP. Reforma Escritório Brasil Arquitetura
Beatriz Carra Bertho: Carlos Alberto Maciel propõe que se pense o projeto como o trabalho do arquiteto na compreensão, interpretação e transformação dos dados do problema arquitetônico, fundamentais ao seu trabalho e admite que “... no processo de projeto, a compreensão e interpretação de cada aspecto colocado como premissa exigem por parte do arquiteto a tomada de sucessivas decisões” (6). Para vocês, quais são essas premissas e como são elaboradas e traduzidas em desenhos? A partir daí, como programa se desenvolve e como é feita a definição do partido arquitetônico?
Marcelo Ferraz: Essa é uma pergunta difícil.
Francisco Fanucci: A questão do programa, da interpretação do programa, do chamado partido arquitetônico, esse roteiro, de certa maneira, para nós, não acontece com linearidade, talvez sejamos um pouco mais caóticos, um pouco menos disciplinados. Não há como falar exatamente: “assim é nosso método de trabalho”. Não há uma seqüência padronizada de ações. Tentamos não distinguir programa e projeto. Gosto muito do Louis Kahn, quando ele fala em reprograma, ou seja, em arquitetura, programa é muito mais que uma lista de áreas e de funções, é a interpretação daquilo que se deseja, é imaginar, como uma antevisão, a relação entre os espaços e as pessoas. Se for fazer uma escola, aquela escola é única, ela é a melhor escola que podemos imaginar, diante das condições gerais para determinado lugar. Assim, o programa é um olhar para aquela lista com outros olhos: um refeitório não é um retângulo de 7(m) por 4(m), é uma vivência, é um encontro, o refeitório é a coisa mais importante; e quando você vai para a sala de aula, ela é mais importante ainda, e depois, o corredor, também é importantíssimo. Então, com tudo isso, trabalhar com o programa é, de certa maneira, já estar fazendo arquitetura, é assim que a gente tenta fazer.
MF: Eu concordo com o Chico, eu acho que nós tentamos reinventar o programa, trabalhamos num vai-e-vem constante, cada decisão tomada no próprio projeto altera outras, volta atrás: “se eu for por aqui, não dá para ir por ali”. É tudo muito dinâmico. Não usamos o termo “partido arquitetônico” Partido é um termo pesado, apesar de ser muito usado pelos arquitetos, por nossos professores na faculdade. Eu não sei se é o partido ou se é um monte de partidos, um monte de idéias, um monte de coisas que vão se apinhando, criando certa unidade, uma personalidade, uma cara, um jeito. Acho que entra técnica, entra material, é tudo junto, não tem uma seqüência; hipóteses experimentadas, transformadas e abandonadas; certas decisões arbitrárias que ganham força e acabam se sustentando. Então o projeto vai ganhando um monte de “regras”, vai se construindo numa história, num enredo que ordena as coisas. Nós não sabemos projetar de outra maneira. Por isso, não dá para dizer “o partido é assim”. Não pode ser tão rígido.
Museu Afro, Parque Ibirapuera, São Paulo SP. Arquiteto Oscar Niemeyer, reforma Escritório Brasil Arquitetura
Museu do Pão, Ilópolis RS. Reforma Escritório Brasil Arquitetura
Beatriz Carra Bertho: Em entrevista à revista AU, Marcelo afirma que a formação de vocês foi baseada na imposição de modelos e que o ensino de um modo geral está sempre vinculado a regionalismos, internacionalismos e escolas. E que, além disso, jovens arquitetos estão “desesperados por alguma âncora... com um monte de revistas estrangeiras querendo copiar o que está feito lá fora” (7). Ou seja, arquitetos recém-formados aparentemente desorientados e sem referência. Hoje professores (8), como vocês interpretam o papel da escola na formação do arquiteto?
Marcelo Ferraz: A escola tem que fazer o estudante ser curioso, ser reflexivo, tem que fazê-lo pensar, tentar construir coisas, pois essa é uma profissão que constrói. E que crie nexos nessas coisas. Além disso, essa é uma profissão humanista, é para servir mesmo a comunidade e a sociedade, mais do que muitas outras profissões, é uma profissão bastante pública, ela tem uma interferência enorme na vida das pessoas.
É impressionante a capacidade que a arquitetura tem de interferir na vida das pessoas, mudar trajetos, mudando comportamentos numa cidade. E esse grande poder deve ser tomado com muita responsabilidade. Não é com medo, é com responsabilidade. Projetar é tentar olhar ao máximo para frente e ver o que pode acontecer adiante, isso é projetar, não é só desenhar, é olhar e ver no futuro. Acho que cinema é um pouco assim, uma coisa parecida. Você faz o roteiro, e aí vai olhando lá na frente, vai construindo uma história. Em arquitetura, a gente faz isso, mas não fica na tela, fica na vida das pessoas, nos espaços vividos. E eu acho que a escola tem que ser um laboratório de provocação, para sensibilizar os estudantes, para fazê-los abraçar a profissão com muito gosto; uma profissão que pode ser praticada com muita poesia, com muita criatividade, coragem e liberdade, principalmente. Porém, sabendo que envolve uma grande responsabilidade civil. Eu acho também que a formação de um arquiteto deve ser ampla, abrangente, não deve se restringir ao campo da arquitetura, criar fanáticos monotemáticos (e olha que existem muitos).
Francisco Fanucci: Eu acho que uma escola de arquitetura não é uma escola muito fácil de fazer, fácil no sentido de que a arquitetura não pertence exclusivamente ao universo da ciência, mas também não é algo que pertence, exclusivamente, ao universo da arte. A própria origem das escolas de arquitetura no Brasil, ora das belas artes e ora das politécnicas e escolas de engenharia refletem o caráter complexo desta disciplina, que migra entre muitos domínios. No Brasil há uma distorção no sistema educacional, que faz com que um dos melhores negócios da praça seja a educação privada. Boa parte das grandes fortunas no Brasil hoje está ligada, de certa forma, aos proprietários das grandes universidades privadas. Ficou muito fácil fazer escolas de arquitetura medíocres, formando um enorme número de arquitetos. E o problema nem é o número de arquitetos que se forma, o país necessita de muitos profissionais, mas é o baixíssimo nível de formação que se oferecem nessas universidades. Uma boa escola tem que ser, necessariamente, um lugar de embate de idéias. Um ambiente que explore as diferenças, onde se tem acesso a diversas maneiras de pensar. É difícil fazer uma boa escola de arquitetura com essas características. Nesse aspecto, talvez seja mais fácil fazer uma escola de medicina, por exemplo, em que há um conhecimento que precisa ser passado do que uma escola de arquitetura, onde o que tem que passar, na verdade, é uma multiplicidade de visões.
MF: E as pessoas que deverão agir fortemente depois, essas pessoas têm que estar preparadas para esse tipo de coisa, devem estar encorajadas. Com a certeza da dúvida. É um jargão, mas é verdade. É necessária a certeza da dúvida.
FF: Por falar em jargão,tem um que eu acho que numa escola de arquitetura importa muito: “qual é a pergunta e não qual é a resposta”, sabe? Se você formula uma pergunta real, sem se perder em academicismos, historicismos, em falsas questões, se você tiver as perguntas corretas, você já está se encaminhando para uma resposta. É diferente de uma escola em que o que se espera dos professores são respostas.
MF: E isso é que faz da arquitetura essa coisa bonita que é. Podem existir múltiplas respostas, não um só caminho, se você olha projetos de seis arquitetos para um concurso, todas as seis respostas são diferentes. Então essa individualidade, essa diferença, é justamente o caminho interessante da arquitetura.
notas
7 FERRAZ, Marcelo. Preservação da vida. Entrevista concedida a Simone Sayegh. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, n. 130, jan. 2005, p. 48-51.
8 Marcelo e Francisco são professores fundadores da Escola da Cidade, São Paulo.
Rodoviária, Santo André SP. Escritório Brasil Arquitetura
Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz
Arquitetos formados pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em 1977 e 1978, respectivamente.
São sócios fundadores do escritório Brasil Arquitetura, onde têm realizado vários projetos com premiações no Brasil e exterior. Dentre eles destacam-se: o ‘Bairro Amarelo’, em Berlim-Alemanha, a ‘Villa Isabella’, na Finlândia, o ‘Teatro Polytheama de Jundiaí’, o ‘Museu da Imigração Japonesa’ (Conjunto KKKK), em Registro-SP, o ‘Museu Afro Brasil’, em São Paulo. São também sócios fundadores da ‘Marcenaria Baraúna’, onde desenvolvem projetos de mobiliário, desde 1986.
Publicaram em 2005 o livro ‘Brasil Arquitetura – Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz’ contendo uma seleção de obras de seu escritório e apresentaram a exposição de projetos selecionados ‘Brasil Arquitetura – A Tradição do Novo’, no Tokyo Art Museum, Japão, em 2008; no Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, em 2009; no Museo Andersen, Roma, e Settimo Torinese, Turin, em 2010.
Beatriz Carra Bertho
Arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas – FEC Unicamp. Realizou a entrevista como parte da pesquisa de Iniciação Científica, financiada pela FAPESP, com o título “A Teoria e Metodologia na Arquitetura Paulista Contemporânea. Estudo do Escritório Brasil Arquitetura”, sob orientação do Prof. Dr. Leandro Medrano, também coordenador do grupo de pesquisa “Arquitetura Contemporânea e o Brasil”, que tem apoio do CNPq.
Entrevista
Entrevista realizada em 11 de março de 2010 no escritório “Brasil Arquitetura” em São Paulo SP.