português Leia a entrevista concedida por Álvaro Santos a Felipe Contier de janeiro e julho de 2009, em que o geólogo formado na FFLCH-USP fala sobre a relação da geologia com a arquitetura e o urbanismo
english Read the interview by Alvaro Santos to Felipe Contier between January and July 2009, in which the geologist from the USP-FFLCH talks about the relationship between geology, architecture and urban planning
español Lea la entrevista concedida por Álvaro Santos a Felipe Contier de enero a julio de 2009, en donde el geólogo formado en la FFLCH-USP habla sobre la relación de la geología con la arquitectura y el urbanismo
como citar
Felipe de Araujo Contier.
“Álvaro Rodrigues dos Santos”.
Vitruvius entrevista, ed. 10.039.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/10.039/3279
Exemplo de boa implantação em encosta. Conjunto residencial da CBMM, escritório Rino Levi Foto Abilio Guerra
O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos se formou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em 1968. Em seguida iniciou sua carreira no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, onde teve a oportunidade de trabalhar com os mais diferentes tipos de obras e ações de uso e ocupação do solo, colaborando especialmente para o desenvolvimento da Geologia de Engenharia aplicada a Obras Viárias, Estabilidade de Taludes de Corte e Encostas e Problemas Urbanos. Dedicou especial atenção à formulação conceitual e metodológica da Geologia de Engenharia brasileira, pleiteando seu entendimento como uma Geociência Aplicada, com plena e intrínseca vinculação ao universo científico e analítico da Geologia.
Nesta entrevista, Álvaro dos Santos fala sobre a relação da geologia com a arquitetura e o urbanismo. São questões que vão desde uma abordagem ampla a respeito da condição humana sobre o território até as minúcias técnicas do bom projeto, passando por desastres naturais, preservação ambiental e interesses econômicos.
Ocupação desordenada em encosta. Favela da Rocinha, Rio de Janeiro [fonte: Acervo Toledo & Meinhofer]
Felipe Contier: Seu novo livro, Diálogos geológicos, aponta para a necessidade de conversar com a terra. Afinal, o que podemos esperar deste contato com a terra para o desenvolvimento da engenharia e da arquitetura?
Álvaro Rodrigues dos Santos: Não há intervenção humana no meio físico natural que não provoque algum tipo de desequilíbrio. O corte em uma encosta, o peso de uma barragem, o vazio provocado pela escavação de um túnel, a impermeabilização do solo causada pela cidade, o rebaixamento do lençol d’água subterrâneo por seu bombeamento, o desmatamento de uma região, enfim, ao modificar as condições naturais pré-existentes o homem está interferindo em um estado de equilíbrio dinâmico natural. Como resposta à ação do desequilíbrio há uma mobilização de forças naturais orientadas, como reação, a buscar um novo estado de equilíbrio. Caso esse empenho de busca de um novo equilíbrio se dê isoladamente pela própria Natureza, as conseqüências para o homem costumam ser catastróficas. Escorregamentos, rupturas de fundações, colapso de obras subterrâneas, violentos processos erosivos, etc. Para que essas conseqüências negativas não aconteçam é necessário que o homem entenda perfeitamente as características e processos naturais do meio geológico em que está interferindo e consiga perceber quais as decorrências possíveis da interrelação das solicitações impostas pela intervenção que está promovendo com essas características naturais. Com o domínio desse conhecimento, fruto de um esforço de investigação e de um diálogo com a Terra pelo qual se apreende suas leis e comportamentos naturais, é então possível agir no sentido do alcance controlado do novo equilíbrio, o que se consegue através de expedientes de engenharia, no projeto e na obra. Por exemplo, ao se retirar a sustentação de um morro através de um corte em sua encosta é necessário substituir o papel daquela sustentação anterior por algum tipo de contenção.
FC: Muitos dos exemplos citados em seus livros tratam de obras que representam importantes interesses econômicos e sociais. É sabido que este tipo de pressão não favorece o desenvolvimento técnico e ambiental. De que modo as inovações técnicas em geologia podem favorecer os projetos de engenharia e arquitetura?
ARS: Entendo que os preceitos da conservação ambiental e do desenvolvimento sustentável serão absorvidos e implementados pela humanidade em dois grandes níveis: o comportamental e o material. Ao nível comportamental referem-se as mudanças culturais necessárias a transitar de um modelo vivencial altamente consumista e individualista (fonte das mais graves ameaças ambientais) para um modelo assentado em valores mais espiritualizados e humanistas, portanto ambientalmente harmônicos. Insere-se também nesse nível os avanços jurídicos (legislação) e a firme disposição de recuar a patamares ambiental e socialmente aceitáveis as atuais taxas de crescimento populacional. Ao nível material, referem-se a busca e a produção de conhecimentos científicos e tecnológicos que tornem possível a compatibilização entre o desenvolvimento econômico socialmente necessário e a decisão de conservar o ambiente e respeitar também o direito das gerações futuras ao pleno gozo de suas vidas.
Especificamente em relação a esse último aspecto, qual seja a necessidade de um desenvolvimento científico e tecnológico voltado a viabilizar ambientalmente o desenvolvimento necessário, os desafios estão colocados desde já, são imediatos, estão na ordem do dia. E assumi-los e resolvê-los é uma tarefa intransferível e inadiável. Com um profundo conteúdo ético, uma vez que o sonho civilizatório de dar fim à miséria e à fome, e que em última instância significa incluir bilhões de seres humanos a padrões dignos de qualidade de vida, implica na produção de mais energia, mais alimentos, mais habitações, mais bens de consumo, mais estradas, etc; ou seja, em uma mais intensa intervenção do Homem no planeta, ocupando espaços, utilizando recursos naturais, gerando resíduos e efluentes. De tal sorte que a realização desse sonho só será possível caso tecnologicamente a sociedade humana consiga gerar esse plus produtivo respeitando os limites ambientais do planeta, os quais já estão muito próximos de seu total esgarçamento.
FC: Na sua opinião, de que forma as políticas públicas do governo impactam a técnica e o território no que diz respeito à geologia?
ARS: Infelizmente as ações de governo, ou a falta delas, têm revelado uma enorme despreocupação com suas conseqüências sobre o meio físico geológico, como sobre o meio natural como um todo. Vivemos ainda a cultura do progresso pelo progresso, a sensação da inesgotabilidade de recursos e território, cultura que tem resultado tantos prejuízos para a sociedade brasileira, pela degradação de ambientes e recursos naturais. O governo deveria ser o exemplo, o paradigma a ser seguido pela ação privada, mas infelizmente isso não acontece em nosso país. Vivemos a mística do desenvolvimento pelo desenvolvimento, algo ainda na linha do bandeirantismo.
Ocupação desordenada em área de risco. Jardim Gaivota,Represa Billings, São Paulo Foto Nelson Kon
Felipe Contier: Mike Davis, em seu livro Ecologia do medo, apresenta um impressionante painel da história natural do território norte-americano, cuja paisagem se vê modificada ao longo dos séculos e milênios por constantes enchentes, incêndios e terremotos. Sob a ótica humana, estas ocorrências naturais são percebidas como desastres naturais. Como explicar e ultrapassar esta dicotomia?
Álvaro Rodrigues dos Santos: Toymbee, em seu excelente A humanidade e a mãe terra, nos dá uma visão mais ampla das relações do homem com a Terra e do significado catastrófico decorrentes de uma visão utilitária que o homem vem tendo, ao longo de suas diversas civilizações, do planeta. Há uma relação direta entre a forma como o homem vê seu próprio semelhante e a forma como lida com a Natureza. A atitude pessimista e catastrofista, no entanto, não nos leva a nada. Pior, leva-nos à inação. Entendo que, com mil dificuldades, a consciência ambiental vem se impondo até como saída econômica para empresas e países. E como não acredito em uma vocação coletiva suicida de nossa atual civilização, penso que teremos chance de nos livrarmos de catástrofes gerais via cuidados e ações preventivas. Ainda que muitos venham a aderir a esses cuidados por interesses econômicos mediatos, infelizmente.
FC: Jared Diamond, em seu livro Colapso, nos mostra como a interação inadequada entre fatores humanos e ambientais produziu o colapso econômico de diversas civilizações ao longo da história. Há alguma saída para a atual civilização globalizada?
ARS: Essa questão está abordada na anterior. O fato é que os limites ambientais do planeta apresentaram-se à espécie humana antes que essa atingisse um estágio civilizatório espiritual maior. Em essência ainda nos comportamos como tribos que disputam mortalmente territórios necessários à sua sustentação. E ainda o homem se comporta como o lobo do homem. Mas fazer o que? Esse é um fato que nos é dado, imutável a curto e médio prazos. Ou seja, o esforço em garantir que o planeta continue sendo capaz de prover a sustentação da espécie humana tem as cores de uma odisséia civilizatória, e deverá ser vitorioso mesmo antes do amadurecimento espiritual pleno da Humanidade. Aliás, esse esforço será, ele próprio, elemento precioso para esse pretendido amadurecimento.
[fonte: Acervo Toledo & Meinhofer]
Felipe Contier: No caso das enchentes de Santa Catarina, que causaram mortes e desabrigaram milhares de pessoas, onde o homem errou? Foram falhas da engenharia das cidades ou os problemas são globais? O que poderia ter evitado a tragédia?
Álvaro Rodrigues dos Santos: É preciso ficar claro a todos que a tragédia de Santa Catarina, como outras tragédias similares, não tem absolutamente nada a ver com problemas ambientais planetários, como o aquecimento global. Os que fazem essa associação estão agindo de má fé, procurando uma forma de esquivar-se de suas responsabilidades frente a esses eventos.
Invariavelmente em nosso país as expansões urbanas têm se pautado pela completa ausência de planejamento e qualquer critério técnico mais adequado às características geológicas dos terrenos ocupados. Não por outro motivo, como verdadeiras e ostensivas agressões à Natureza, têm composto o cenário de graves acidentes geológicos associados a escorregamentos e enchentes. Os milhares de cidadãos brasileiros que em tempos passados e contemporâneos já morreram soterrados por essas avalanches de lama e rocha deveriam ao menos representar para todos o eloqüente aviso que a própria Natureza nos passa já há séculos: em nossas regiões tropicais e subtropicais úmidas de relevo acidentado há encostas que não devem ser ocupadas de forma alguma e há trechos de encostas que podem ser ocupados, mas desde que obedecidos rígidos critérios técnicos a elas adequados.
Ou seja, tragédias como a de Santa Catarina ocorrem por culpa exclusiva da ação humana, não há nada de errado com as chuvas e a geologia, o crime é exclusivamente humano. É um crime comandado pela incompetência e pela irresponsabilidade com que nossas administrações públicas lidam com as ações urbanas de uso e ocupação do solo.
FC: A engenharia da época poderia prever os resultados que conhecemos nos edifícios do litoral de Santos? E o caso do desabamento do metrô de São Paulo? O que mudou na tecnologia de prospecção do solo no último século no Brasil?
ARS: Especialmente da década dos anos 60 do século 20 para cá a Geotécnia brasileira, promovida pela Geologia de Engenharia e pela Engenharia Geotécnica, tiveram um avanço revolucionário de conhecimentos. Nesse campo temos no país competência técnica e científica que em nada fica a dever à competência instalada nos países adiantados. Os acidentes que ocorrem em obras civis em nosso país têm sua explicação em fatores fora da área técnica, muitas vezes associados a um objetivo empresarial em se conseguir margens de lucro desmesuradas. Há outros fatores que colaboram para a ocorrência desses acidentes, mas todos fora da componente técnica.
FC: No quesito transporte, a engenharia enfrenta grandes desafios não apenas para o problema do trânsito nas grandes cidades, mas também para a integração nacional de um território vasto como o brasileiro. Quais as soluções de transporte mais adequadas para nossa realidade geográfica e geológica, levando em consideração os fatores técnicos e econômicos?
ARS: O total abandono da estratégia ferroviária foi um dos maiores erros cometidos pelo país. Francamente não saberia dizer se há como corrigir esse erro, com toda uma logística de transportes rodoviários já implantada e toda uma estratégia de transportes de carga baseada em caminhões. Confesso que a mim parece que as decisões brasileiras em transportes foram se dando como decorrências de grandes jogadas de interesses privados. Veja que com toda a extensão de costa que temos, e com os grandes centros econômicos quase todos junto ao litoral, nosso transporte de cabotagem ainda é uma vergonha. Como explicar isso senão como uma conseqüência de grandes tramas comerciais?
FC: Conte-nos um pouco de sua pesquisa sobre Cubatão e a rodovia dos Imigrantes. Qual o papel do fator geológico no desenvolvimento histórico e econômico de cidades?
ARS: Formei-me em 1968. No início de 69 já estava contratado pelo IPT para trabalhar na definição do traçado da Rodovia dos Imigrantes. Nessa ocasião internei-me por 2,5 anos na Serra do Mar. Conheci-a em seu âmago, em todas suas belezas, em seus segredos. Daí a paixão e reverência com que dediquei boa parte de minha vida profissional ao entendimento de suas leis naturais próprias, de sua história e de seu comportamento geológico. Conhecimento que registrei em meu livro A grande barreira da Serra do Mar – da trilha dos Tupiniquins à Rodovia dos Imigrantes.
Do ponto de vista das transposições viárias da Serra do Mar, como das obras civis a elas similares, a segunda pista da Rodovia dos Imigrantes implantou um referencial de conceitos de projeto e planos de obra de excelência ímpar, totalmente adequado às sensíveis características geológicas naturais da Serra, particularmente à sua extrema suscetibilidade a escorregamentos. Esse referencial constitui hoje um paradigma tecnológico, uma garantia para que eventuais novas obras viárias, ou similares, de transposição da região não cometam os graves erros do passado e também se pautem por inspirar seus projetos no próprio comportamento natural da Serra e suas encostas.
Ocupação irregular em área de preservação,Serra da Cantareira, São Paulo Foto Nelson Kon
Felipe Contier: O que um arquiteto-urbanista precisa saber sobre fundações, impermeabilização e compactação do solo para evitar desastres técnicos e ambientais na hora de projetar?
Álvaro Rodrigues dos Santos: De um modo geral me parece que a maioria de nossos arquitetos ainda, infelizmente, acha que suas responsabilidades técnicas somente se relacionam com a parte aérea das edificações. E assim são muito comuns os projetos de prancheta que desconhecem a natureza dos terrenos onde vão ser implantados, sua geologia, seu relevo, seu comportamento geotécnico, e jogam para a engenharia a tresloucada responsabilidade de adaptar a natureza ao seu burocrático projeto (haja terraplenagem...) ao invés de, criativamente adaptar seu projeto à natureza.
O fato é que os conceitos orientadores de como vão se dar as relações de um determinado empreendimento com o meio natural com o qual interfere são definidos primeira e originalmente nas concepções arquitetônicas que lhe são propostas. É essa concepção arquitetônica, determinante da disposição espacial e do ajuste do empreendimento ao terreno e suas características fisiográficas, que também influenciará, por decorrência conceitual, a escolha dos procedimentos construtivos e as futuras regras de operação e manutenção; todos esses, elementos essenciais nas inter-relações com o meio natural.
Ou seja, será a concepção arquitetônica de partida que determinará o êxito ou o fracasso do empreendimento naquilo que se refere às suas relações com o ambiente geológico-geotécnico, ou de uma forma mais ampla, naquilo que se refere à sua sustentabilidade ambiental. Do que pode se concluir que será essa concepção arquitetônica que, na maioria dos casos, definirá o êxito ou o fracasso financeiro e funcional do empreendimento.
FC: No caso de ocupações em terrenos acidentados, quais os recursos técnicos com que os arquitetos podem contar para adequar seu projeto sem recorrer à soluções caras e pesadas, muitas vezes indisponíveis em terrenos afastados?
ARS: Obviamente há soluções arquitetônicas mais adequadas a cada tipo de edificação considerado, seja uma grande empresa, seja um edifício de apartamentos, seja um conjunto habitacional para baixa renda, etc. Mas de uma maneira geral deve-se trabalhar com uma estratégia guia de não se promover grandes cortes no terreno. O corte é o fator desestabilizador mais notável em um terreno acidentado. Ao mesmo tempo que implica em uma grande movimentação de terra e sua exposição a processos erosivos de superfície. Nesses termos eu convidaria nossos arquitetos, por exemplo, a recuperarem o histórico uso, para esses casos, das lages lançadas sobre pilotis (ou colunas). Entendo que expedientes criativos dessa natureza darão base a projetos de muito maior êxito técnico e estético em relevos acidentados.
Claro, lembrando que terrenos com declividade muito acentuada, acima de algo como 57%, 30º, sumariamente não devem ser ocupados, independentemente da concepção arquitetônica que se escolha para tanto.
FC: A utilização de técnicas simples, como a pintura a cal no tratamento de encostas, não parece um contrasenso em tempos de desenvolvimentismo e tecnicismo? Porque muitas técnicas como esta, simples e baratas, não constam no repertório de arquitetos, engenheiros e suas escolas?
ARS: Nessa questão as coisas se passam como se a engenharia brasileira (engenharia, arquitetura, geologia, agronomia) tivesse passado a associar o conceito de obras simples, ou, em um sentido mais abrangente, de soluções simples com a imagem de tecnologias ultrapassadas e/ou ineficientes. Esse fenômeno técnico certamente tem alguma associação com a lógica empresarial de auferição de lucros máximos, para a qual obras mais sofisticadas e de maior porte melhor se prestam.
Obviamente, não se trata de se pretender ingenuamente que obras tecnologicamente complexas possam ser em qualquer situação substituídas por obras simples, ambas evidentemente têm seu lugar e hora. E, diga-se de passagem, podem e devem conviver em um mesmo empreendimento. No entanto, o fato real é que pela perda da memória decorrente da falta de devido registro bibliográfico e pelo já falecimento de quase toda última geração de engenheiros e mestres de obra que dominaram, em grande parte empiricamente, o uso de obras simples no país, assim como pelo desprezo com que hoje escolas de engenharia tratam a questão, ou simplesmente não a tratam, a engenharia brasileira está na prática deixando progressivamente de contar com a possibilidade real de ter essa alternativa como solução de tantos de seus problemas, mesmo nas situações (e são inúmeras) em que ela, a obra simples, constitua a alternativa de engenharia mais adequada técnica e economicamente para a solução pretendida.
Serra do Mar Foto Nelson Kon
Felipe Contier: Em seu texto “Uma estratégia de Governo para a Serra do Mar”, publicado na editoria Minha Cidade do Portal Vitruvius, uma proposta chama a atenção porque destoa da abordagem técnica tradicional. Qual seria a importância estratégica da Universidade da Serra do Mar?
Álvaro Rodrigues dos Santos: Esse é um de meus sonhos mais acalentados. Um Centro de apoio à pesquisa e ao ensino de temas relacionados à Serra do Mar. Essa região é de tal importância cultural, ambiental e estratégica para a sociedade brasileira, especialmente de sua região sudeste, que justificaria plenamente esse projeto. Veja, ele não demandaria muitos recursos, pois que com a bela e espetacular infraestrutura já instalada na Usina Henry Borden, no sopé da Serra em Cubatão, hoje em sua maior parte sub-utilizada, esse Centro apenas se dedicaria a atividades de apoio à pesquisa, treinamento e debates relacionados a todos os aspectos relativos à Serra do Mar, ou seja, abrigaria e receberia atividades e grupos de pesquisa relacionados à Serra, como também promoveria eventos expositivos e educativos sobre a região, como cursos, palestras, simpósios, exposições, etc. Enfim, constituiria um elemento institucional de grande impacto para consolidar a imagem de importância da Serra do Mar para a sociedade e para promover seu intenso e respeitoso desfrutamento. Único caminho para ter essa sociedade imbuída da importância de sua defesa e de sua conservação.
FC: E qual deveria ser a política para a ocupação da serra? Do ponto de vista geológico não haveria solução para uma ocupação humana adequada?
ARS: A grande ameaça à Serra do Mar não vem hoje mais das obras civis e do desmatamento predatório, mas sim das expansões urbanas que estão a atingir suas encostas a partir dos municípios litorâneos. Nesse sentido, penso que vale reafirmar aqui as propostas que tenho feito a respeito:
proibição drástica de qualquer tipo de ocupação urbana ou agrícola acima da cota 100 (altitude em relação ao Nível do Mar), limite legal do Parque Estadual da Serra do Mar;
somente permitir-se a ocupação urbana ou agrícola de áreas da Serra do Mar que estejam abaixo da cota 100 e ainda assim uma vez respeitadas as determinações de Cartas Geotécnicas e Códigos de Obras específicos. Esses documentos devem indicar os setores que, mesmo dentro das áreas liberadas, de maneira alguma poderão ser ocupados e os setores que poderão ser ocupados mediante a adoção de cuidados técnicos rigidamente definidos;
as ocupações urbanas e agrícolas já instaladas acima da cota 100 que, por suas dimensões, não recomendem, em uma análise custo-benefício, a total remoção, deverão ser caracterizadas em seus riscos geológico-geotécnicos de forma a se definir uma área consolidável geotecnicamente e urbanisticamente, fora da qual todas as instalações já implantadas deverão ser removidas. A área a ser consolidada será demarcada e “congelada”, ou seja, não poderá se expandir para fora dos limites demarcados;
as ocupações já instaladas abaixo da cota 100 deverão ser objeto de programas de reurbanização em que serão definidos os setores não ocupáveis, os setores ocupáveis e o Código de Obras que deverá regular a ocupação permitida;
com participação das Secretarias de Estado envolvidas na questão, deverá ser constituído um Comitê Estadual de Avaliação Tecnológica de Projetos, à análise do qual obrigatoriamente terão que ser submetidos e obter aprovação os projetos de todo e qualquer tipo de empreendimento que de alguma forma possa vir a interferir nas condições naturais das encostas da Serra do Mar.
Álvaro Rodrigues dos Santos
Geólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 1968, pesquisador Sênior V pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, instituição na qual ocupou diversos cargos diretivos. Foi Diretor Geral do DCET – Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. É consultor de geologia e geotécnia e autor dos livros Geologia de engenharia: conceitos, método e prática (2002), A grande barreira da Serra do Mar: da trilha dos Tupiniquins à rodovia dos Imigrantes (2004), Cubatão (2005) e Diálogos geológicos: é preciso conversar mais com a Terra (2008).
Felipe Contier
Estudante de arquitetura e urbanismo da FAU-USP, foi bolsista da FAPESP e atualmente é editor-assistente do Portal Vitruvius.
Entrevista
A presente entrevista foi realizada por email durante os meses de janeiro a julho de 2009 e disponibilizada no Portal Vitruvius em setembro de 2009.
Exemplo de boa implantação em encosta. Casa na Praia Tijucopava, Guarujá, 1996. Arquiteto Marcos Acayaba Foto Nelson Kon