português Nesta entrevista, Alfredo Sirkis, ex-Secretário de Urbanismo da Cidade do Rio de Janeiro, fala de questões como sustentabilidade urbana, política ambiental para as cidades, e as ações da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro nessa área
english In this interview, Alfredo Sirkis, former Secretary of Urban Planning of Rio de Janeiro, talks about issues such as urban sustainability, environmental policy on cities, and the City Hall of Rio de Janeiro in this area
español En esta entrevista, Alfredo Sirkis, ex Secretario de Urbanismo de la Ciudad de Río de Janeiro, habla de cuestiones como sustentabilidad urbana, política ambiental para las ciudades, y las acciones de la Prefectura de la Ciudad de Río de Janeiro en esta ár
como citar
Roberto Anderson M. Magalhães.
“Alfredo Sirkis”.
Vitruvius entrevista, ed. 09.033.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/09.033/3290
Alfredo Sirkis em Tóquio, Japão [fonte: Website Alfredo Sirkis ]
Nesta entrevista, Alfredo Sirkis, ex-Secretário de Urbanismo da Cidade do Rio de Janeiro, fala de questões como sustentabilidade urbana, política ambiental para as cidades, e as ações da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro nessa área. O entrevistado faz, também, um balanço de sua atuação, apontando entraves ao maior desenvolvimento dessas questões. São abordados temas como a revitalização do Centro do Rio, os projetos para os Jogos Pan-americanos, a expansão para a Barra da Tijuca, e os projetos de cunho ambiental/ecológico.
A entrevista foi realizada como parte da pesquisa para Tese de Doutorado em desenvolvimento no PROURB/UFRJ, entre os anos de 2004 e 2007, em que é discutida a relação entre cidades e sustentabilidade. Sendo assim, as perguntas visaram entender como as propostas ambientais podem tornar-se políticas públicas na Cidade do Rio de Janeiro através das Secretarias Municipais de Meio Ambiente e Urbanismo da Cidade do Rio de Janeiro, dois órgãos já dirigidos pelo entrevistado.
Ciclovias do Rio Foto César Duarte [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Grupo liderado por Sirkis visita o terreno das futuras Cidade do Samba e Vila Olimpica da Gamboa [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Roberto Anderson M. Magalhães: O que você compreende por sustentabilidade? Você percebe algum interesse ou funcionalidade nesse conceito?
Alfredo Sirkis: Basicamente a idéia da sustentabilidade é não só a tentativa de conciliar a preservação ambiental com a atividade econômica e os assentamentos humanos, como, eventualmente, até tentar conjuminar essas duas coisas na forma de um círculo virtuoso. Uma das coisas claras na relação entre o espaço construído e o meio ambiente ou ambiente natural é que não são duas coisas completamente diferentes. Na verdade, o espaço construído se assenta sobre o berço do ambiente natural, subtraindo dele uma série de elementos, que são utilizados no processo de construção, e estabelecendo um tipo de relação entre os dois que pode se dar para o bem ou para o mal. Pode se dar exemplos na escala micro, arquitetônica, ou na macro, urbanística. Na escala micro, gosto de dar o exemplo do iglu, que é uma casa de gelo, que protege o esquimó do frio. É uma solução perfeita para aquele contexto. O mesmo se dá com a tenda nômade, ou mesmo, mais perto de nós, com a arquitetura colonial portuguesa. Então, ao longo da história, no plano arquitetônico e no plano urbanístico, você tem tanto soluções integradas com o ambiente natural, como soluções conflitantes com o mesmo. As conflitantes, nós sabemos: ocupação das encostas, que gera desmoronamentos, ou desmatamentos, que por sua vez gera a falta d’água, entre outras coisas. Gera, também, a impermeabilização de áreas gigantescas, que provocam inundações, erosão, vossorocas, enfim, os exemplos abundam. Assim, ao longo da história, você tem soluções que são soluções de verdade, e outras que produzem problemas piores. Nesse sentido, acho que a sustentabilidade urbana está numa ocupação inteligente dos espaços, que permita uma inter-relação harmônica entre o ambiente natural e o ambiente construído.
RAMM: Alguns autores têm tratado essa questão da sustentabilidade urbana como uma metáfora, um ideal, algo a ser atingido longinquamente. Você vê a possibilidade dela ser uma questão objetiva, de se constituir um programa, de se ter ações concretas?
AS: O autor que melhor desenvolve esta problemática é Anne Whiston Spirn, que em seu livro O jardim de granito trata da relação entre ambiente construído e natural. Ela me chamou a atenção para o fato de que a cidade está dentro da natureza, ao contrário do senso comum em nossa cultura, que pensa a cidade desassociada da natureza, como uma não natureza. Mas a cidade está dentro da natureza e junto com ela cria uma nova síntese. Por outro lado, a cidade é um ecossistema complexo, tão ou mais complexo do que a Amazônia. É um ecossistema por todos os pontos de vista, no sentido em que é uma teia intrincadíssima de inter-relações. O processo de urbanização mundial e brasileiro é irreversível, a humanidade caminha, cada vez mais, para as cidades, o que nos leva a ter que encontrar formas sustentáveis de sobreviver nas cidades. O sustentável é você poder sobreviver preservando a saúde física e mental, oferecendo uma qualidade de vida melhor ou mais prazerosa do que aquela anteriormente desfrutada.
É um erro relacionar a urbanização com flagelos como o latifúndio, a falta de reforma agrária, que são verdades, mas o primeiro motor da urbanização é o desejo da juventude rural de ter vivências e ter acesso a coisas que só a cidade oferece. Nas cidades, os desejos se realizam com mais facilidade. Você tem acesso a uma variedade gigantesca de contatos que podem lhe aproximar daquilo que você quer. Então, é simplista relacionar o processo de urbanização apenas com questões econômico-sociais na área rural. Há um motor cultural muito forte. O processo de urbanização quer na China, como no Brasil, ou na Índia é um fato da realidade que não vai ser revertido. Quando se tentou fazer o contrário, em geral havia uma visão totalitária, como no Camboja, onde o Pol Pot resolveu desurbanizar o país. Deportou três milhões de pessoas, toda a população urbana para o campo. Nos anos 70, uma vertente ingênua do ambientalismo tinha aquela idéia da Refazenda, de se morar em comunidades rurais, com seu arrozinho integral, etc., mas está claro que o futuro da humanidade está nas cidades. Então, a vida urbana tem que estar associada à idéia de uma sustentabilidade. É uma sustentabilidade que tem aspectos ambientais, culturais, sociais, de saúde, etc. Em última análise, eu diria que sustentabilidade é você poder viver nas cidades de forma decente. E as atividades econômicas se desenvolverem de forma a não degradar e comprometer a possibilidade disso acontecer.
Hong Kong [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Paisagem [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Roberto Anderson M. Magalhães: Qual o papel do poder público nessa questão? E o papel da esfera privada? Como vê a estratégia de criação de Secretarias e do Ministério do Meio Ambiente? Isto não criaria uma setorização da compreensão desses problemas?
Alfredo Sirkis: A ação do poder público tem que ter aspectos de regulação e de controle, comando e controle tradicionais, mas também tem que ter um engajamento no sentido de tentar estimular o desenvolvimento da economia na direção da sustentabilidade. Isto difere da visão clássica que vê os setores público e privado separados, em lados opostos do balcão, cabendo ao poder público apenas fiscalizar, licenciar, etc. De um lado estaria a atividade dinâmica, de investimento e do outro a burocracia que tenta adequar os investimentos às normas legais, que ao longo do tempo vão sendo criadas. Mas acho que isto é insuficiente. Vejo, também, o poder público como um indutor, um parceiro, um estimulador das coisas boas, ou inibidor das coisas ruins em termos de investimentos econômicos.
Acredito que as secretarias de meio ambiente e o Ministério do Meio Ambiente correspondem a uma certa etapa intermediária da consciência ambientalista transformada em ação de governo. É uma primeira etapa. O ideal seria que a sustentabilidade e a preocupação ambiental perpassasse todas as secretarias e todos os ministérios, e que todos fossem do meio ambiente. Se analisarmos de forma bem concreta, veremos que as grandes decisões ambientais, que afetam o meio ambiente, não passam pelo Ministério do Meio Ambiente e sim pelos ministérios econômicos – Indústria e Comércio, Agricultura, Conselho Monetário Nacional, etc. No âmbito municipal, o Rio de Janeiro é um bom exemplo, e posso falar por ser a pessoa que implantou a Secretaria de Meio Ambiente no Rio. Há decisões ambientais fundamentais que passam completamente ao largo da Secretaria de Meio Ambiente. No Rio, por exemplo, há o problema do lixo e o problema da água, que são duas questões fundamentais. A Comlurb é uma companhia diretamente ligada ao Gabinete do Prefeito e as águas são ligadas a uma companhia jurássica estadual, a CEDAE. Por outro lado, constantemente são tomadas decisões pelas outras secretarias que afetam o meio ambiente. Então, acho que as secretarias de meio ambiente correspondem a uma época em que a consciência ambiental estava penetrando e se expandindo na esfera pública e a Secretaria foi organizada como uma espécie de baluarte, um reduto, a partir do qual os ecologistas podiam começar a travar as atividades mais predatórias e a estimular os projetos mais interessantes do ponto de vista ambiental. Mas acho que isso é uma fase. O ideal mesmo é que futuramente todas as esferas de governo tenham como base a questão ambiental e a sustentabilidade, o que faria com que no futuro não fosse necessário estas estruturas exclusivas. Mas isso ainda é um objetivo que não foi alcançado e ainda há uma caminhada para chegar lá. Na atual fase essas estruturas ambientais são importantes.
RAMM: Você vê hoje em dia alguma alteração na mentalidade da iniciativa privada, do capital imobiliário aqui do Rio? Seja por força do interesse dos consumidores, seja por outros motivos, já há a incorporação das questões ambientais?
AS: Bom, eu diria que o empresariado brasileiro, de uma forma geral, foi um segmento que evoluiu de maneira positiva a partir, basicamente, da Rio-92. A partir daquele momento, começou a haver uma mutação interessante dentro do empresariado. Em relação à construção civil, acho que alguns descobriram o valor agregado de incorporar áreas verdes e vender a idéia de um empreendimento em harmonia com o meio natural. Isso passou a ser um conceito, até para a promoção de vendas. Alguns fizeram isso de forma mais competente, outros não, mas de uma forma geral passou a ser um elemento de valorização do empreendimento o fato dele ser ecológico, por assim dizer.
Em relação ao empresariado do Rio de Janeiro, no entanto, existe uma outra questão que é uma certa limitação em termos de diversificação do investimento. Ele está muito voltado para a Barra da Tijuca, para a alta classe média, para um modelo de negócios que vem dando certo e, portanto, vem se repetindo. São aqueles empreendimentos da Barra da Tijuca ou, então, em certos nichos da Zona Sul. Tanto isso é verdade, que os investimentos que têm ocorrido no centro da cidade têm sido de investidores de fora do Rio de Janeiro, que nós convidamos, trouxemos, trabalhamos para que viessem para o mercado do Rio, porque os daqui só queriam saber de Barra da Tijuca. Uma das minhas grandes discussões com o setor imobiliário do Rio de Janeiro é que eles estão viciados em Barra da Tijuca e, mais dia, menos dia, aquilo vai “micar”. Eles vão ficar com um “micasso” na mão. Essa é uma fórmula que tem dado certo, mas ela não é infinita. Quanto mais classe média você pode trazer para lá? Nem toda a classe média se identifica com esse estilo de vida. Eu acho, inclusive, que a tendência dos produtos imobiliários que não sejam de primeiríssima qualidade na Barra da Tijuca é começar a “micar” em breve, se é que isto já não está ocorrendo.
Já o Centro, por exemplo, tem recebido empresas como a Klabin Segall, a Tishman Spyer, Heinz e outras, que são de fora do Rio. Há também a Cyrela que começou a investir no Rio de Janeiro, em associação com a RJZ. Então, acho que hoje há uma mudança no mercado, que aponta para um setor mais jovem do empresariado, com idéias que são mais compatíveis com a idéia de preservação ambiental e inclusive tira partido desses valores. Falta, no entanto, um direcionamento maior para uma diversificação de investimentos dentro da cidade como um todo. Acho que a questão da Barra da Tijuca é um problema que muito brevemente vai começar a doer no bolso.
Paisagem e problemas de sustentabilidade [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Cidade do Samba [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Roberto Anderson M. Magalhães: Como você vê a sua passagem na SMAC e depois na SMU? O que você conseguiu alterar na SMU a partir da sua visão ambiental?
Alfredo Sirkis: A SMU tem mais poder que a SMAC. É mais abrangente. Em tese, você pode fazer mais coisas pelo meio ambiente na SMU do que na SMAC. No entanto, quando se compara os dois governos, o primeiro governo do prefeito César Maia foi mais realizador, e como reflexo, eu emplaquei, relativamente, mais projetos na SMAC do que eu consegui na SMU. Fizemos as ciclovias, o mutirão de reflorestamento, a criação, depois desfeita, de uma gerência de despoluição, que pela primeira vez passou a mexer com a questão da poluição hídrica dentro da SMAC. Essa gerência foi depois retirada da SMAC e colocada na RioÁguas. Foi um momento muito dinâmico. Mas a Secretaria em si é uma secretaria com menos abrangência do que a Secretaria de Urbanismo. A Secretaria de Urbanismo, sobretudo quando acumulada com a presidência do IPP, como eu exerci e que foi uma condição que coloquei na época para assumi-la, ela tem um poder mais abrangente sobre a cidade. Ela realmente mexe com os fundamentos, com o desenvolvimento urbano e, portanto, com conseqüências ambientais extremamente importantes.
O próprio pensamento vai evoluindo, de uma ecologia muito associada à idéia de áreas verdes, parques e praças, arborização, etc. para a questão da sustentabilidade urbana pensada como integrada com a questão econômica. Que tipo de investimento imobiliário num determinado bairro é o mais conveniente? Qual é o modelo urbanístico a ser adotado, se é um modelo de segregação de usos, como é o caso do Plano de Lucio Costa na Barra da Tijuca, ou se são conceitos de usos múltiplos integrados, como defende, por exemplo, a recém falecida Jane Jacobs e todas as pessoas que seguem o seu pensamento, o que é o meu caso. Então, fica claro que no urbanismo, em transportes, eventualmente, na fazenda, em obras, em educação, há muito o que fazer pelo meio ambiente. Então, volto a repetir: o ideal seria que no futuro a idéia de sustentabilidade e a consciência ambiental perpassassem de tal forma o conjunto da administração, que todas as secretarias fossem do meio ambiente também.
RAMM: Que ações desenvolvidas na SMU você ressaltaria como contribuindo para as questões ambientais?
AS: Em primeiro lugar ter emplacado aos trancos e barrancos, contra ventos e marés a noção de revitalização do Centro da cidade e da Área Portuária. Não se desenvolveram exatamente como eu queria, houve vários problemas. Houve o problema do Guggenheim, por exemplo. Mas de qualquer maneira, se olharmos para o centro da cidade hoje e olharmos a cinco anos atrás, podemos perceber claramente um processo de revitalização em curso: o Circo Voador, o Centro de Convenções da Cidade Nova, o Rio Cidade da Rua do Lavradio, o Rio cidade da Rua do Riachuelo, e os investimentos privados que foram induzidos. O grande projeto residencial Cores da Lapa, na Lapa, modernos prédios de escritórios no Centro da Cidade, como é o caso da Torre Almirante e agora da torre Tishman Spyer, o Hotel Ibis Fórmula 1, dois hotéis que estão sendo feitos na Avenida Marechal Câmara, a Sala Vivo-Rio no anexo do Museu de Arte Moderna, ou seja, o Centro está se revitalizando, a Área Portuária também. Tem ainda a Cidade do Samba. O primeiro grande empreendimento para a revitalização da Área Portuária, a Vila Olímpica da Gamboa, isso tudo não tinha. Em 2000 o Centro era considerado uma área esvaziada, decadente, que estava condenada a morrer, e aí o novo centro surgiria na Barra da Tijuca, como teorizavam alguns empresários (1).
Houve, também, a criação de duas estruturas na SMU, que a longo prazo vão ter um efeito extremamente importante. Do ponto de vista do controle, a Gerência de Operações Especiais, já que no passado a SMU não exercia uma ação punitiva, e as transgressões aos seus embargos ficavam impunes. Nesta administração isso acabou. Fizemos uma porção de demolições administrativas, algumas de prédios inteiros. Uma outra questão importantíssima foi a criação da Gerência de Regularização Urbanística, o Pouso, com a possibilidade de se passar a trazer favelas e loteamentos para a legalidade urbana. A urbanização como primeiro passo através do Favela Bairro e Bairrinho, complementados por uma ação específica de regularização, inclusive com a criação de regras para poder construir legalmente no que é hoje essa cidade informal.
Então, eu diria, passando assim como gato sobre brasas, que essas foram as realizações mais importantes. Acho que poderíamos ter feito mais se não tivesse havido alguns problemas, sobretudo com relação à revitalização do Centro. A questão das ciclovias, por exemplo, foi uma bola dividida. Eu tentei trazer o planejamento e a execução cicloviária para o IPP, mas não consegui. Ficou no Meio Ambiente (SMAC) e deixou de ser prioridade, mas enfim, acho que deu para avançar e acho que a minha ação na Secretaria de Urbanismo foi mais abrangente. O poder da Secretaria de Urbanismo é maior.
RAMM: Mas o que mais foi feito em termos de normatizações, como o Decreto das Águas Pluviais?
AS: Uma das coisas que se criou foram as APACs que foram concebidas na SMU, como a do Jardim Botânico e a de Botafogo, e a ampliação da APA da Lagoa, que na prática é uma APAC. Elas foram conduzidas dentro de um processo participativo, onde os moradores opinaram, através de várias audiências e reuniões triangulares entre a Prefeitura, as associações de moradores e os construtores. Conseguimos soluções que, ao contrário da APAC do Leblon, não são contestadas por ninguém. Não se vê gente com problemas em relação à APAC do Jardim Botânico. Ou em relação à ampliação da APA da Lagoa. Enquanto isso, com relação às outras, eu mesmo soube pelo Diário Oficial. Como é o caso da APAC do Leblon. E até hoje ela tem gerado conflitos.
Então, o que conseguimos basicamente em termos de política urbanística foi conter o ritmo da construção civil na Zona Sul, nas áreas de classe média, onde o ritmo demasiadamente aquecido e o volume demasiadamente grande criava um certo comprometimento da qualidade de vida. Por outro lado, induzimos a um investimento maior no centro da cidade, e em outras áreas como o Grande Méier, por exemplo. Então, acho que houve um reequilíbrio do investimento. E no caso da Barra da Tijuca, o investimento continua indo para lá. Eu acho que a infra-estrutura ambiental da Barra da Tijuca e Jacarepaguá não melhorou. E isso se deu, sobretudo, em função do bloqueio do empréstimo do G-Big, que o Governo Federal bloqueou. E isso é um problema, porque essa vertiginosa expansão da Barra da Tijuca está chegando a um limite de sustentabilidade, muito mais em função de um modelo urbanístico do que do volume que você tem lá. A Barra da Tijuca tem o paradoxo de ao mesmo tempo ter uma baixa densidade e, no entanto, existir a sensação de super saturação, dada pelos impasses no sistema de transportes. A Avenida das Américas foi quadruplicada, a Avenida Airton Sena foi duplicada, construiu-se a Linha Amarela, que supostamente seria a solução para todos os problemas, e hoje aquilo continua um engarrafamento só. Por que? Porque existe uma dependência total em relação ao automóvel. E não existe a densidade suficiente para você viabilizar economicamente, com facilidade, o transporte de massa sobre trilhos. Então, é um paradoxo, você ter uma área de baixa densidade com absoluta super-saturação, por causa do modelo de segregação de usos. Na Barra da Tijuca, para você comprar uma caixa de fósforos, você precisa pegar o carro e ir para o shopping.
RAMM: Falando, então, de Barra da Tijuca e desse modelo de expansão da cidade para novas áreas, de alguma forma, vocês tentaram conter essa expansão? Houve tentativas de adensar áreas já ocupadas para impedir a ocupação de novas áreas?
AS: Sim, um caso típico foi o do PEU Vargens. O PEU Vargens, no caso da sub-zona A-17, no lado direito da Avenida das Américas, na direção do Recreio, acabava com aquela visão de conjunto de torres isoladas, e estabelecia um tecido urbano do padrão do Jardim Oceânico, ou mesmo da Zona Sul, que é o padrão de densidade boa, com gabarito mais limitado, com a possibilidade de se ter um tecido urbano contínuo, com calçadas, lojinha no andar térreo, com a possibilidade de um espaço público ocupado pelos pedestres e não uma não-cidade nas dimensões do automóvel, como é a Barra da Tijuca. O problema é que, quando na macroeconomia você comete certos erros, você demora cinco anos para consertar, enquanto no urbanismo, quando se comete certos erros, você demora cem anos para poder consertar. Então, um dos grandes desafios intelectuais que existem é como desmodernizar o modelo econômico da Barra da Tijuca. Até hoje, ninguém deu uma solução satisfatória para isso. Na verdade, isso é praticamente impossível. Você vai ter que conviver com aquilo. Que jeito? Aquilo foi feito de forma a bloquear a criação de um tecido urbano normal. Mesmo naqueles lugares bem horrorosos, logo no início da Avenida das Américas, onde você tem um verdadeiro paliteiro de espigões, cada espigão é isolado do outro. Você tem uma grade, você não tem uma vida urbana ali embaixo. A vida se dá intra-muros. Então, eu acho que em relação às áreas já ocupadas da Barra da Tijuca, muito provavelmente, Inês é morta, não tem jeito. Agora, em áreas novas de expansão, como o Recreio, a Sub-zona A-17, Vargem Grande, Vargem Pequena, algumas áreas em Jacarepaguá, etc., você pode ainda mudar esse modelo e adotar um modelo normal, de prédios, mais ou menos ao lado um do outro, comércio lojista embaixo, calçada, pracinha, as pessoas circulando, uma densidade boa... Muitas vezes, as pessoas criticam a densidade, ou têm medo de densidade, e elas não percebem onde está o verdadeiro problema. Não é a densidade. A densidade não é problema. A densidade pode ser solução. Mas o problema é a forma de você trabalhar essas coisas.
nota
1 Apesar de se referir à Revitalização do Centro como um projeto instalado a partir de 2000, é importante lembrar que esse processo é mais anterior, iniciando-se com o Corredor Cultural da década de 1980 e continuando na década seguinte através de intervenções de diversos níveis de governo.
Reflorestamento do Morro Dois Irmãos, Rio de Janeiro [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Reassentamento, Rio de Janeiro [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Roberto Anderson M. Magalhães: E no caso do projeto Veneza Carioca? Para a SMU, ele representava um projeto modelo?
Alfredo Sirkis: Veneza Carioca representava uma coisa que estaria muito conjuminada com as novas normas do PEU Vargens, abrangia uma área onde, ao contrário, se diminuía a taxa de ocupação, por razões eminentemente ambientais. Você tem aquela área toda de Vargem Pequena, de propriedade do Pasquale Mauro, onde pode ter prédios de seis andares, o que é uma dupla bobagem. Primeiro, que ali é uma área tão complicada em termos de solo, que não é só inconveniente fazer prédios, mas também é muito caro. É necessário estaquear esses prédios, com um custo adicional brutal. Então, havíamos pensado para aquela área a criação de um parque e áreas com ocupação por casas. Chegamos até a pensar numa tecnologia de casas sobre blocos de concreto flutuante. A idéia era fazer um parque, recriar uma laguna que existia ali no passado, mas o essencial do projeto Veneza Carioca era você poder dragar todos aqueles canais, dar condições de navegabilidade a todos, e permitir que você pudesse ir do canal da Joatinga ao canal de Sernambetiba usando barco. A idéia de Veneza Carioca era justamente a possibilidade de você usar os canais, as lagunas e os rios, como meio de transporte. Isso é perfeitamente factível, é uma questão de dragar aquilo tudo, liberar as faixas marginais de proteção, realocando as favelas que estiverem dentro dessas faixas marginais de proteção dos canais e dos rios. É um projeto muito factível. Tivemos até, preliminarmente, estudando com a COPPE. Fizemos uma análise das dinâmicas hidrológicas. É um projeto que poderia ter sido executado se tivéssemos tido acesso ao empréstimo do G-BIG, de 152 milhões de dólares. Mas a Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda fez o favor de negar o aval, alegando questões referentes ao limite de endividamento, ao limite de capacidade de pagamento da Prefeitura do Rio, ao mesmo tempo em que dava a mesma coisa para São Paulo, com um perfil de dívida duas vezes e meia pior do que a do Rio de Janeiro. Isto na época do Governo da Marta Suplicy. Então, ainda acho que o Veneza Carioca um dia vai ser feito.
RAMM: Você citou a Anne Spirn. Ela e seus seguidores dão uma série de sugestões sobre o que se pode chamar de “desenho urbano ecológico”. De alguma forma, houve tentativas de aplicar isso nas ações do setor público do Rio de Janeiro? Nos projetos para a Área Portuária, por exemplo, não se percebe muito a aplicação de novas técnicas de desenho de projeto para a cidade.
AS: É a tal história, é uma questão de correlação de forças e de como as coisas são feitas. De fato, se dependesse do meu gosto, nós teríamos, além dos depósitos de águas pluviais, teríamos painéis solares, teríamos todo um outro conceito de aproveitamento de energia elétrica, etc. Sobretudo, eu considero uma derrota terrível, que, embora tenhamos tentado, não tenhamos conseguido emplacar que em todos os equipamentos dos Jogos Pan-americanos, além dos componentes de retenção de águas pluviais, houvesse experimentos com energias alternativas. Mas a verdade é que o Pan-americano está sendo feito de forma atabalhoada e vai deixar um legado para a cidade infinitamente menor do que se imaginava na partida. A esta altura do campeonato, estamos apenas rezando para que tudo corra bem, e que se possa fazer os jogos de maneira adequada do ponto de vista esportivo. Mas todas as grandes expectativas que se tinha em relação a usar os jogos para criar um legado para a cidade foram por água abaixo, por uma série de circunstâncias.
Eu tive constantemente essa preocupação, mas de fato, não foi possível, dado a questões como não conseguir convencer outras instâncias da Prefeitura e não ter as necessárias parcerias com a instância federal, que são necessárias para financiar essas coisas, considerando-se que a SMU é uma Secretaria completamente sem recursos de investimento. Você planeja as coisas e tenta fazer através de outros órgãos. Às vezes você consegue, outras não. Nos últimos anos eu não consegui. E esta tem sido a tônica. Então, eu concordo com você. Acho que poderíamos ter avançado muito mais, em termos de incorporação desses elementos, que são elementos, inclusive, que dão charme, que dão valorização. Eu tentei fazer isso via iniciativa privada, mas o problema é que o não cumprimento de compromissos, os problemas que a iniciativa privada teve com o setor público como um todo, reduziram muito a margem de disponibilidade que os agentes privados poderiam ter para investir nesse tipo de coisa. Ou seja, na verdade o que se fez e o que se está fazendo é o mínimo, minimorum para se poder fazer os jogos (pan-americanos) e não aquilo que deveria ser a preocupação de uma cidade, que é aproveitar um evento desses para constituir um legado.
RAMM: Como você vê a possibilidade de utilizar as bacias hidrográficas como bases territoriais para o planejamento urbano?
AS: Com certeza, acho que o planejamento deveria se dar em função de bacias, mas primeiro é necessário equacionar o problema da gestão das águas. Elas não podem continuar sendo geridas por esse dinossauro que é a CEDAE, de forma totalmente dissociada dos municípios e completamente hostil em relação aos consumidores e à sociedade civil. É um problema encruado na Cidade do Rio de Janeiro que se chama CEDAE. Acho que um outro modelo, com gestão por bacias hidrográficas, é importante. Mas ainda estamos longe disso em função de problemas que ainda existem com o Governo do Estado, com a própria CEDAE.
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Alfredo Sirkis, Secretário de Urbanismo na ocasião, em obras da Cidade do Samba, em 2004 [fonte: Website Alfredo Sirkis]
Alfredo Sirkis
Jornalista, autor de 8 livros sobre política e meio ambiente, participou do movimento estudantil e da resistência à ditadura militar, é fundador do Partido Verde e Presidente do PV-RJ, foi Secretário Municipal de Meio Ambiente (SMAC) e, recentemente, foi Secretário Municipal de Urbanismo (SMU) da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Presidente do Instituto Pereira Passos – IPP.
Roberto Anderson M. Magalhães
Arquiteto, mestre em Urbanismo pelo PROURB-UFRJ com a dissertação “A Requalificação do Centro do Rio de Janeiro na Década de 1990”, coordenador do projeto Distrito Cultural da Lapa no INEPAC, da Área de Urbanismo do Centro de Arquitetura e Artes da Universidade Santa Úrsula e do curso Espaços do Rio.
Entrevista
Realizada no escritório de Alfredo Sirkis no Rio de Janeiro em 30 de junho de 2007 e disponibilizado no Portal Vitruvius em janeiro de 2008.
Alfredo Sirkis, na Prainha, em 1994 [fonte: Website Alfredo Sirkis]