português Abilio Guerra entrevista o arquiteto paisagista José Tabacow, que fala de sua formação e trabalho com Burle Marx, de sua experiência como diretor do Museu de Biologia Professor Mello Leitão em Santa Teresa/ES e sobre ecologia e meio ambiente no Brasil
english Abilio Guerra interview landscape architect José Tabacow, who talks about his training and work with Burle Marx, from his experience as director of the Museu de Biologia Professor Mello Leitão in Santa Teresa/ES and on ecology and environment in Brazil
español Abilio Guerra entrevista al arquitecto paisajista José Tabacow, que habla de su formación y trabajo con Burle Marx, de su experiencia como director del Museo de Biología Profesor Mello Leitão en Santa Teresa/ES y sobre ecología y medio ambiente en Brasil
Norte de Roraima. Relevo da região perto dos tepuis com riacho
Entrevista com José Tabacow Abilio Guerra
Quando, ainda nos anos 60, os jovens estudantes de arquitetura José Tabacow e Haruyoshi Ono pediram estágio para o paisagista Roberto Burle Marx certamente não tinham idéia que este seria um fato determinante na vida dos dois. Além de ocuparem lugar de destaque como colaboradores e, posteriormente, como co-autores de projetos do mais famoso paisagista brasileiro de todos os tempos, tornaram-se eles próprios também protagonistas dessa área específica de atuação do arquiteto e testemunhas oculares de um dos momentos mais preciosos da arquitetura brasileira. Viram de perto arquitetos de primeira linha e a gênese de projetos que tornaram-se, depois de desenvolvidos e construídos, obras de referência de nossa arquitetura.
Se Haruyoshi Ono continuou ao lado do mestre até seu falecimento e tornou-se o herdeiro do seu legado, José Tabacow partiu para uma carreira solo, após 17 anos de muitos projetos e aprendizado prático. Depois de montar escritório próprio, foi inesperadamente convidado, em 1986, para dirigir o Museu de Biologia Professor Mello Leitão, logo após o falecimento de seu fundador, o famoso naturalista Augusto Ruschi.
Ficou 9 anos em Santa Teresa, no Estado do Espírito Santo, dirigindo o museu, pertencente à rede de museus do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Após sair da direção do museu e de fazer uma especialização em ecologia e recursos naturais, mudou-se para Florianópolis, aonde se encontra há quase uma década. Nesse novo ciclo de sua vida profissional, passou a dedicar-se à docência e à consultoria ambiental, além de manter-se atuante como arquiteto paisagista.
Autor de livros para crianças e adultos, sempre dentro de suas áreas de especialidade, José Tabacow é hoje um dos mais sólidos pensadores brasileiros sobre a relação entre os ecossistemas e sua ocupação pelos estabelecimentos humanos, o que fica patente em suas reflexões na entrevista a seguir.
Dunas do Jalapão
Faculdade Nacional de Arquitetura, UFRJ, Rio de Janeiro RJ, 1957. Atualmente o prédio abriga também a Escola Nacional de Belas Artes e toda a Reitoria da Universidade. O projeto arquitetônico é de Jorge Machado Moreira. Os jardins, atualmente muito altera
Abílio Guerra: Você poderia nos contar como foi sua formação acadêmica e o início de sua atividade profissional? Quais foram os professores e profissionais que mais o marcaram?
José Tabacow: Achei muito curiosa a primeira parte da pergunta, pois as duas coisas aconteceram juntas, profundamente relacionadas, e em circunstâncias muito especiais: Entrei na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ em 1964, em um momento tumultuado da história do País. Em meio a rumores e intranqüilidades, o Presidente João Goulart havia determinado que o número de vagas das universidades federais fosse duplicado. Assim! Sem mais nem menos! Minha turma, no primeiro ano tinha cerca de 400 alunos e o Curso não tinha infra-estrutura nem professores para suportar tanto.
Um mês depois do início das aulas aconteceu o golpe militar que derrubou o Presidente e instaurou a ditadura. Começavam os “Anos de Chumbo”.
Diante da situação, os alunos se deram conta que o curso teria deficiências estruturais incontornáveis e, conseqüentemente, sua qualidade comprometida. Os professores faziam um esforço sobre-humano. Muitos deles terminavam as aulas afônicos, nas enormes salas de aulas teóricas, logo apelidadas de Maracanãs. Nos laboratórios e maquetaria não havia materiais para todos. Por outro lado, confinados em pequenas salas com oito ou dez alunos nas práticas de projeto, ficávamos isolados dos colegas, muitos dos quais passávamos semanas e mesmo meses sem ver. Quase não havia troca, interação e sinergia.
Uma das soluções para contornar tais problemas era procurar estágios em escritórios de arquitetura ou empresas construtoras, tentando complementar o aprendizado fora da Escola. Muitos colegas fizeram isso. Eu mesmo trabalhei um mês em um escritório, desenhando formas e ferragem para concreto armado. Mas não gostei e saí.
Já no segundo ano, voltando da Faculdade com Haruyoshi Ono, meu colega de turma, vimos uma placa de obra de Burle Marx & Cia. Ltda. no Parque do Flamengo, àquela altura em final de implantação. Anotamos o endereço e fomos lá bater à porta a procura de estágio. A circunstância de o paisagista ter dissolvido a sociedade que mantinha com quatro arquitetos poucas semanas antes foi uma espécie de bilhete premiado. O escritório era um deserto e ele precisava de mão-de-obra. Havia apenas um desenhista que logo se foi. Quase não havia trabalho, mas o fato de termos sido aceitos significava muito para nós. Na falta do que fazer, começamos a organizar o escritório, que era um aglomerado caótico de rolos de papel vegetal (originais dos projetos já concluídos), em tubos sem qualquer identificação externa. Antes de nossa organização, procurar um projeto significava abrir tubo por tubo, rolo por rolo, até encontrá-lo.
Depois organizamos as informações sobre plantas ornamentais, originalmente manuscritas em cartões. Criamos um fichário impresso e datilografado que permanecia em uso e em atualização até minha saída, dezessete anos depois! E assim fomos ficando até que começaram a surgir trabalhos numa curva ascendente que parecia não ter fim. O escritório cresceu, o número de arquitetos e desenhistas que entravam e saíam também.
Quanto à segunda parte da pergunta, certamente o melhor professor que tive foi o próprio Burle Marx, com quem meu aprendizado só teve fim pouco antes de sua morte, em 1994. Mas, mesmo considerando as circunstâncias, houve nomes importantes no curso de Arquitetura: Ernani Vasconcellos, Ricardo Menescal, Augusto da Silva Telles, Paulo Casé, Flávio Marinho do Rêgo, Roberto Thompson Motta , entre outros. Na época, a arquitetura brasileira era valorizada mundialmente e estávamos ainda sob o impacto do modernismo, da projeção de Oscar Niemeyer no exterior e da construção de Brasília.
Outro aspecto digno de registro foi que, através dos trabalhos do escritório de Burle Marx, tivemos contato com arquitetos importantes nas décadas de sessenta e seguintes. A convivência com Jorge Machado Moreira, Ary Garcia Roza, Carlos Leão, Jorge de Souza Hüe, Alcides da Rocha Miranda, Sérgio Bernardes, Maurício Roberto e muitos outros significou uma oportunidade ímpar de aprender e acumular uma cultura arquitetônica, urbanística e paisagística que a Faculdade de Arquitetura não poderia nos dar.
AG: Mesmo supondo que sua formação essencial tenha sido sob a tutela de Burle Marx, é de se supor que pessoas e situações dentro e fora da escola também tenham tido importância em sua formação intelectual mais ampla. Você poderia nos falar um pouco sobre isso?
JT: Graças à minha mãe, que me levava a concertos desde quando eu tinha sete ou oito anos, e a uma vizinha que, um pouco mais tarde, me ensinou o gosto pela leitura, iniciando-me em Dostoievski e em Graciliano Ramos, desde cedo já estava antenado em música e literatura. Mais tarde surgiu minha atração pelo cinema. Mantenho estas três atividades até hoje, de forma mais ou menos contínua. Mas nunca a atividade intelectual foi tão intensa como nos anos em que cursei a arquitetura, a esta altura já na ilha do Fundão.
Acho que, ironicamente, devemos tal anseio de produção intelectual àqueles anos de repressão extrema, como uma reação. Todo mundo tinha medo de tudo. Pessoas denunciavam. Pessoas desapareciam. Ou apareciam mortas! Na época, intelectual era quase sinônimo de comunista. Paradoxalmente, esta situação estimulou a produção intelectual de forma extraordinária. Um exemplo inesquecível foi a peça “Liberdade, Liberdade” de Millor Fernandes. Com um elenco que reunia Paulo Autran, Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), Nara Leão e Tereza Rachel, a peça fazia sucesso quando o Teatro de Arena foi depredado por forças paramilitares ou militares mesmo, não lembro bem. O fato chamou tanta atenção que a peça permaneceu em cartaz por muito mais tempo que o previsto, acho que três anos, sempre com a casa cheia.
Outro exemplo emblemático foi O Pasquim, freqüentemente recolhido das bancas de revistas pelos censores da ditadura. O jornal estampava, a cada edição, uma espécie de logomarca acompanhada do aviso “Enquanto você ver este selo, o Pasquim está sob censura”.
Em 1965, quarto centenário do Rio de Janeiro, o ainda Governador Carlos Lacerda (logo depois seria deposto pela ditadura) promoveu um ano de programação cultural intensa e inesquecível. Naquele ano, assisti Stravinsky reger seu “Pássaro de Fogo”. Fui para o Teatro Municipal às 5h da manhã. A bilheteria abria às 10h. Meus colegas da arquitetura foram chegando, me viam no terceiro lugar da enorme fila que se formara e me pediam para comprar seus ingressos. Quando a bilheteria abriu joguei pela portinhola 17 carteiras de estudante e comprei quase toda porção central da primeira fila da galeria. No mesmo ano ainda assisti a Orquestra de Philadelphia com Eugene Ormandy, no Maracanãzinho, Sir John Barbirolli com a Philarmonia Orchestra de Londres, a primeira audição completa (com ballet) da “Carmina Burana” nas Américas, o compositor Aaron Copland regendo sua música, executada pela Orquestra Sinfônica Brasileira e muitos outros nomes que depois vieram a ser “figurinhas fáceis” nos selos da Deutsche Gramophone. Durante meu curso, assisti a quase todos os concertos da Orquestra Sinfônica Brasileira, para os quais tinha uma assinatura de camarote em sociedade com Haruyoshi Ono.
Na música popular surgiram Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, Maurício Tapajós, o Clube da Esquina, Nara Leão, Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, os irmãos Caymi. Um pouco depois os nordestinos: Geraldo Azevedo, Gonzaguinha, Alceu Valença, Raymundo Fagner.
Nós éramos conhecidos como a “Geração Paissandu”, por causa de um “cinema de arte” com esse nome, que havia no Flamengo. Na época brilhavam diretores como Alain Resnais, Philippe Goddard, Ingmar Bergman, Buñuel e, naturalmente os italianos Federico Fellini, Antonioni, Pier Paolo Pasolini.
Era rara a semana em que o grupo do escritório, estudantes, desenhistas, arquitetos e estagiários, não ia a algum show de música popular: Cartola, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Elton Medeiros, o Época de Ouro, Candeia, Beth Carvalho em início de carreira, MPB-4 começando, Paulinho da Viola surgindo.
Havia ainda as inesquecíveis peças no improvisado Teatro Jovem, no cantinho do Mourisco. Todo em madeira e papelão, foi um milagre não ter se incendiado. Ali toda a estudantada se encontrava. Ainda lembro o nome de algumas peças: “A Moratória”, “João Amor e Maria”, com Fernando Lebeis, MPB-4 e Beth Faria, pasmem, cantando! Se pensar mais um pouco, posso lembrar muito mais. Mas 40 anos se passaram...
Enquanto isso, no escritório e por conta das relações de Roberto, convivíamos com nomes como Clarival Valladares, Aluísio Magalhães, Carmen Portinho, Carlos Leão, Fayga Ostrower, Edith Bhering, Zélia Salgado, Wit Olaf Prochnik. É difícil mencionar todos, tantos que eram!
É possível que tenha cometido algum equívoco cronológico, mas, em suma, foi neste ambiente em que me formei. Considero-me um privilegiado por ter vivido aqueles momentos. Embora com os horrores da ditadura, com o medo em cada esquina, foi uma época extremamente fértil de cultura para nós, que iniciávamos.
Koiti Mori, José Tabacow e Haruyoshi Ono no Escritório Burle Marx
Centro Cívico de Santo André, projeto arquitetônico de Rino Levi, paisagismo de Burle Marx
Abílio Guerra: Você já comentou como conseguiu seu estágio no escritório de Burle Marx e gostaria de conversar um pouco sobre sua longa relação com nosso mais famoso paisagista. Quais foram os primeiros trabalhos nos quais participou? Qual sua participação nos mesmos e qual sua relação profissional, nesses momentos iniciais, com Burle Marx?
José Tabacow: Quando o único desenhista do escritório foi embora, alguns meses depois de entrarmos, Haruyoshi Ono e eu pedimos para ocupar seu lugar. Burle Marx aceitou e passamos a ser desenhistas, além de estagiários. Até então, nos trabalhos de faculdade, prevaleciam a régua “T” e os esquadros. Predominava a reta, quase não se usava a curva. Mas em paisagismo era diferente.
O primeiro projeto que desenhei foi um acréscimo ao projeto anterior para a fazenda da família de Olivo Gomes (hoje área pública com o nome de Parque Roberto Burle Marx), em São José dos Campos. A composição era toda em arcos de círculo que se concordavam sucessivamente. A ele seguiram-se o Ministério das Relações Exteriores e a Embaixada da República Federal da Alemanha, em Brasília, a residência Candido Guinle de Paula Machado, com uma ampla escadaria gramada e um belo painel feito com granito lavrado, de demolições de velhas construções do Rio de Janeiro, o Parque Siqueira Campos, o terraço do Edifício Itália e o Parque Anhembi, os três últimos em São Paulo, o edifício-sede da Petrobrás no Rio de Janeiro e o Centro Cívico de Santo André.
Trabalhamos por cerca de três anos nesta condição e chegamos a fazer uma divisão de tarefas nos mesmos desenhos, segundo as habilidades de cada um. Desenhávamos a nanquim com a velha e excelente caneta Graphos, normógrafo LeRoy, pantógrafo, planímetro, cintel e diversos instrumentos que hoje caíram em desuso. Às vezes havia quatro ou cinco desenhos nas pranchetas e apenas nós dois como desenhistas. Andávamos de mesa em mesa, cada um fazendo o que sabia fazer melhor. Haruyoshi desenhava concordâncias de curvas a nanquim com perfeição, eu normografava com rapidez.
Pouco a pouco fomos mudando o padrão de apresentação de projetos do Escritório. Passamos a pintar o papel vegetal no verso, com tinta a óleo e graxa para sapatos. Com a prática, a qualidade dos desenhos melhorou de forma significativa. O mesmo aconteceu com o detalhamento, pois incorporávamos aos conteúdos dos projetos, algo do que aprendíamos na Faculdade ou em obras.
Paralelamente, e na condição de estagiários, íamos aprendendo as técnicas de composição, aumentando nosso conhecimento sobre as plantas e suas associações e com os diversos substratos, terra, areia, pedra, água. E acompanhávamos as visitas do Roberto às obras de execução, suas broncas nos clientes quando mudavam algum detalhe do projeto. Lembro até hoje de meu constrangimento quando, a uma cliente que havia mandado fazer à revelia, uma fonte pseudocolonial, com direito a volutas e tudo mais, ele disse: “Se eu precisasse de colaboração, certamente não seria a você que eu iria pedir!”.
Outras atividades extremamente enriquecedoras e fundamentais em minha formação foram as excursões de coleta de plantas com potencial uso paisagístico em diversas partes do território brasileiro. Mas este é um capítulo à parte, sobre o qual gostaria de falar com mais profundidade.
Esses três anos foram importantes pelo contato com um mundo totalmente novo, para mim muito enriquecedor. A cada dia, novas descobertas, novos conhecimentos. Roberto não fazia segredos. Muitas vezes ele ia rabiscando e explicando o quê e porquê estava fazendo daquela forma. Como se fosse um narrador ao vivo de seu próprio mister. Nessas ocasiões formava-se um grupo ao redor da prancheta e tínhamos verdadeiras aulas sobre técnica do projeto de paisagismo, arte, história da arte, composição.
No período que se seguiu, pleiteamos o status de Colaboradores, pedido que também foi aceito. Aliás, é curioso como nunca fomos promovidos por iniciativa de Roberto. Mas ele nunca negou um pedido de promoção partido de nós. A esta altura faltavam cerca de dois anos para concluirmos o Curso e o trabalho no Escritório já adquirira maior intensidade. Aumentamos a quantidade de desenhistas, porém admitindo sempre estudantes de arquitetura ou de artes. Muitos entravam como estagiários, aprendiam a desenhar e passavam a ganhar com os desenhos que realizavam, como ocorrera conosco. Projetos de destaque desta época são os Parques São Lourenço e Barigui, em Curitiba, O Tribunal de Contas da União e o Parque Sarah Kubitschek, em Brasília, o Parque Ecológico do Tietê em São Paulo e o Aterro da Baía Sul, em Florianópolis.
Com a conclusão do Curso, passamos naturalmente à condição de Arquitetos Colaboradores e nossas atividades de desenho foram caindo gradativa e paralelamente ao aumento de encomendas de projetos. Por esta época o Escritório já contava com oito ou dez desenhistas trabalhando intensamente. Fizemos muitos projetos para Brasília, São Paulo e para a Venezuela. Seria cansativo enumerar todos, mas destaco o Jardim Botânico de Maracaibo, na Venezuela, o Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, O Banco Central do Paraguay, em Assunción, a sede da Xerox do Brasil e o Jockey Club Brasileiro, ambos no Rio.
Em todas estas etapas, Roberto foi delegando a nós, cada vez mais, a tarefa de coordenar e desenvolver os projetos. Nos últimos anos, ele dava apenas os riscos iniciais. Nós desenvolvíamos e ele revisava. A partir daí, passávamos aos estudantes e controlávamos a elaboração dos desenhos finais.
AG: O Sítio Santo Antônio da Bica, de propriedade de Burle Marx, é uma lenda dentre arquitetos e paisagistas. Como foi sua origem e formação? Como se deu sua doação para o Governo Federal?
JT: A idéia do Sítio nasceu na famosa estufa de Dahlem, em Berlim. Tendo conhecido plantas brasileiras que não eram usadas em jardins, Burle Marx decidiu adquirir uma área onde pudesse colecioná-las e, sobretudo, testar seu potencial para uso em paisagismo. Isso significa analisar não apenas sua beleza intrínseca, mas sua relação plástica com outras plantas e com o entorno, seu comportamento ou docilidade sob cultivo, avaliar suas possibilidades e exigências, relacionadas com variáveis tais como solo, umidade, iluminação.
Para tanto, ele necessitava de um terreno que oferecesse grande diversidade de ambientes, que pudessem acolher plantas oriundas de locais com as mais diversas conjugações dos fatores acima mencionados.
Após uma procura que durou mais de ano, finalmente foi localizada e adquirida, em sociedade com seu irmão Siegfried, uma área que reunia tais pré-requisitos. Assim, passava ele a dispor de espaço para suas experiências com vegetação a introduzir nas composições paisagísticas.
Iniciou-se, para não mais terminar, uma febril atividade de colecionamento de espécies que conseguia através de diversas estratégias: permutas com outros colecionadores institucionais ou particulares, compra em viveiros comerciais e, principalmente, excursões de coleta pelo interior do País.
Um mês depois de eu ter entrado no Escritório, realizou-se a fatídica excursão ao Morro do Chapéu – BA, quando faleceu o arquiteto Rino Levi, amigo de Roberto que costumava acompanhá-lo em algumas dessas viagens. Passou-se então um longo período até que Roberto se animasse a voltar a este tipo de atividade.
As coleções foram crescendo sem parar. Quando Roberto ia fazer alguma viagem a trabalho, usava um artifício curioso: preparava sua mala com coisas pessoais, e colocava esta mala dentro de outra maior, que invariavelmente voltava repleta de mudas e sementes. A cada viagem, uma grande quantidade de espécies era acrescentada. Pouco a pouco, o Sítio foi se tornando uma enorme coleção de plantas, com destaque para as autóctones do Brasil, como resultado das cada vez mais freqüentes excursões que voltou a realizar. Para abrigá-las, Roberto foi comprando terras vizinhas dos posseiros da região. Em termos fundiários, o Sítio constituía-se de um mosaico de pequenos terrenos de posse difusa, sem titulação forte e, em conseqüência, sem registro de propriedade.
Paralelamente a esse processo, o paisagista ia acumulando obras de arte: cerâmica popular brasileira, imaginária barroca, conchas, arte popular do nordeste, cerâmica do vale do Jequitinhonha, objetos antigos de cristal, carrancas e mobiliário popular da região do São Francisco, talhas de artistas então desconhecidos, cantaria de antigas construções, que ele adquiria em demolições no Rio de Janeiro, entre outras, transformaram-no em verdadeiro colecionador de coleções! E o Sítio atingiu proporções que começaram a trazer problemas sérios de manutenção. A necessidade de pessoal aumentava constantemente. A área cultivada se expandia e os cuidados que as plantas demandavam aumentaram de forma vertiginosa. Uma seca um pouco mais prolongada ou uma ventania eventualmente mais forte provocavam enormes prejuízos, com perda, muitas vezes irrecuperáveis, de valiosas espécies das coleções.
Diante de tal situação, Burle Marx começou a pensar em doar o Sítio a alguma instituição que pudesse arcar com as despesas de sua manutenção. Era seu desejo que o Sítio a ele sobrevivesse e que, além da manutenção de suas coleções, se transformasse em centro de estudos relacionados com paisagismo. A princípio, ele buscou organizações estrangeiras mas, as que se interessaram, desistiram ao tomar conhecimento da confusa situação fundiária do Sítio. E o assunto ficou engavetado...
Por esta época, Robério Dias, atual diretor do Sítio, e eu procuramos a Fundação Nacional Prómemória (atual IPHAN), buscando financiamento para um projeto que propunha refazer parte da viagem de Von Martius, cento e setenta anos depois, e comparar o ambiente que ele viu e o que existe hoje. Quando acabamos de tratar do assunto, João Leite, funcionário que participava da reunião, perguntou sobre como estava o Sítio. Relatei as dificuldades por que passava e ele sugeriu que Burle Marx fizesse o mesmo que fizera Augusto Ruschi, com seu Museu, poucos anos antes: doar ao Governo Federal, através da própria Fundação, à qual ficaria vinculado.
Levamos, Robério e eu, a idéia ao paisagista que, quase sem pensar, como era seu feitio, encarregou-nos de negociar a transferência. Esta foi feita com grande dificuldade, em razão da oposição e das exigências do sócio, seu irmão Guilherme Siegfried. Mas após pouco mais de um ano, a doação concretizou-se.
Algum tempo depois, conversando com Roberto sobre o assunto, ele se manifestou amargamente arrependido. Havia criado a expectativa de contar com muitos recursos e não considerara os entraves burocráticos, que retardam a liberação de verbas, que predestinam o uso dos recursos (conhecido, no Governo, como ”dinheiro carimbado”), entre outras dificuldades. Tampouco valorizava a ajuda efetiva que o Governo dava e dá até hoje. Antes da doação, Roberto mantinha 17 empregados cuidando de tudo. Depois de doado, o quadro aumentou para 54 funcionários. Mas ele estava tão contrariado, que não enxergava o lado positivo. Comecei a me sentir culpado, eu que fui um dos que o estimularam. Mas depois de sua morte, vi que havíamos feito a coisa certa. Se o Sítio tivesse passado a mãos particulares, provavelmente não existiria mais. Seria, para qualquer um, quase impossível manter suas coleções. No entanto, ele sobrevive e está bem mantido. Suas coleções de obras de arte estão catalogadas, a biblioteca organizada e as plantas saudáveis e bem conservadas.
Casa Olivo Gomes, São José dos Campos. Projeto arquitetônico de Rino Levi, paisagismo de Burle Marx
Jardins de Casaforte, Recife PE, paisagista Roberto Burle Marx. Desenho dos jardins de Casaforte, onde Burle Marx , pela primeira vez, usa vegetação amazônica como critério de valorização da flora autóctone do Brasil
Abílio Guerra: Em um depoimento de 1977, Burle Marx comenta sobre o período em que viveu em Berlim, no final da década de 1920. Afirma ter sido muito importante para sua vida o que encontrou no Jardim Botânico de Dahlem: “vi pela primeira vez, uma grande quantidade de plantas brasileiras, usadas pela primeira vez com objetivos paisagísticos. Nós, brasileiros, não às usávamos, por considerá-las vulgares. Compreendi então que, em meu país, a inspiração deveria se basear, sobretudo, nas espécies autóctones” (1). É muito curioso que a consciência sobre a importância do uso de plantas autóctones tenha sido despertada justamente em um contexto onde a vegetação brasileira era usada de forma “exótica”. Parece ser mais plausível que o uso de espécimes de nossa flora tenha sido uma opção ideológica influenciada pelo íntimo contato com Lucio Costa, que advogava a necessidade de um contato maior de nossa arquitetura moderna com o passado colonial. Em sua opinião, o quanto esse encaminhamento da obra de Burle Marx é tributário de um despertar isolado ou de seu relacionamento com Costa?
José Tabacow: Sob este aspecto não houve influência de Lúcio Costa, cujo maior mérito foi perceber, lá naquele quintal do Leme o potencial de Burle Marx como paisagista. Ambos moravam na mesma rua Araújo Gondim, (hoje rua General Ribeiro da Costa) e Lúcio convidou Roberto para fazer o jardim da primeira casa modernista do Rio, que projetava em Copacabana, juntamente com Grigori Warchavchik. Esta casa não existe mais, mas Roberto, com muito humor, contava que por inexperiência quis colocar naquele primeiro projeto tudo que conhecia. “O resultado foi como um peru no pires!”, comentava, acrescentando que Lúcio teria dito “ficou muito bom, meu filho”. Mas ele tinha a consciência que era muito mais o professor animando o aluno, que o crítico analisando de forma imparcial.
Quanto ao passado colonial, é curioso que a planta com imagem mais fortemente associada a nossa arquitetura, embora de introdução tardia, a palmeira-real (Roystonea regia), seja exótica. O exemplo significativo de uso de vegetação indígena anterior a Burle Marx, a alameda das sapucaias (Lecythis pisonis) de Glaziou, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, é isolado e circunstancial. A diferença e o valor de Burle Marx, é que ele foi o primeiro a coletar sistematicamente espécies da flora brasileira, a estudar seu potencial como plantas para uso paisagístico e a introduzi-las através de seus projetos. Uma relação seria longa e cansativa. Menciono, apenas para exemplificar, os filodendros, as helicônias, marantáceas, veloziáceas, orquídeas e diversas palmeiras.
Por outro lado, o despertar isolado foi fruto de um processo complexo, longo e em etapas. A decisão tomada nas estufas de Dahlem, na década de 20, prende-se muito mais a uma necessidade de ampliar suas possibilidades de expressão, através do componente vegetal em suas composições paisagísticas, que propriamente por uma preocupação ecológica ou conservacionista. Muito mais importante que a ironia de ter descoberto a flora brasileira em Berlim, freqüentemente mencionada, foi a percepção de seu potencial uso em projetos de paisagismo. Estas plantas, por aqui, eram consideradas “mato” sem valor.
Posteriormente, no Recife de 1935 ele escolhe, pela primeira vez, vegetação brasileira, o que já significa um critério, embora ainda distante do que se possa chamar de autoctonismo: em Casaforte, usa a flora amazônica, na Madalena, plantas da caatinga, biomas com fitofisionomia bem distinta da mata atlântica onde se assenta a capital pernambucana! Mas já havia aí os germes de uma atitude de incorporar elementos de nossas paisagens naturais. Só muito mais tarde, no Parque do Araxá (1943) é que o contacto e os ensinamentos do botânico Henrique Lahmeyer de Mello Barreto vão despertar, no paisagista, a consciência da importância de valorizar a flora indígena não por si mesma, isolada, mas relacionada com o substrato, considerando suas associações com outras plantas e com os ambientes circundantes. Só então pode-se falar numa preocupação ecológica, na acepção etimológica do termo.
Trazer espécies carismáticas das paisagens locais passa a ser uma forma de integrar projeto e ambiente natural, à maneira dos parques românticos ingleses do século XIX, que Burle Marx aplica, para não citar todos, em dois exemplos maiores de sua obra: Correias-RJ, no jardim de Odette Monteiro (hoje Luiz Cézar Fernandes), onde destaca acácias (Senna multijuga), quaresmeiras (Tibouchina granulosa) e mulungús (Erythrina speciosa), e em São José dos Campos-SP, na fazenda da família Gomes (hoje, parque público municipal com o nome de Parque Roberto Burle Marx), onde cria grandes grupos com palmiteiros (Euterpe edulis) e guapuruvús (Schizolobium parahyba).
AG: Em resposta anterior, você menciona as “excursões de coleta de plantas com potencial uso paisagístico em diversas partes do território brasileiro”. Tais excursões se assemelham muito às incursões de intelectuais modernistas para várias regiões brasileiras, sempre em busca das “raízes do Brasil”, das manifestações culturais autóctones do folclore, da música, da arquitetura, matéria prima a ser usada depois em obras de arte. Mário de Andrade, Raul Bopp, Tarsila do Amaral, Villa-Lobos, Lucio Costa e muitos outros artistas produziram obras significativas manipulando o material coletado em viagens de conhecimento do país. Tal comparação faz sentido? Como se deu esse processamento no âmbito específico do paisagismo de Burle Marx e qual seria a importância das coletas de espécimes locais para sua obra?
JT: A comparação é válida e mais, feliz. As viagens significaram muito mais do que um simples colecionamento de plantas. Em um texto de apresentação, Lúcio Costa diz que “a obra do botânico, do jardineiro, do paisagista se alimenta da obra do artista plástico, do desenhista, do pintor, e vice-versa, num contínuo vaivém”. O contato com as paisagens, com os costumes do interior, com as cores de cada região eram fontes permanentes de idéias, de inspiração, de invenção. Estas idéias não eram aproveitadas de forma seletiva, apenas para os trabalhos de paisagismo. Ao contrário, serviam a qualquer de suas inúmeras atividades no campo das artes. Como ninguém, ele percebia a possibilidade de transposição para a tela, para um pano pintado, uma escultura ou um projeto de paisagismo, de um aspecto qualquer que, aos outros, passava despercebido.
Nessas viagens os aspectos paisagísticos apareciam, naturalmente, com maior peso, tendo em vista que o material coletado tinha aplicações imediatas neste campo e que a observação de novas paisagens, o contato permanente com os botânicos que o acompanhavam, a observação das transições e enclaves ensejavam um enriquecimento em sua maneira de ver e transpor para os projetos novas geometrias de composição. “Fazer jardins não é imitar servilmente a natureza”, dizia. Mas sabia buscar nela suas sugestões, transpunha para sua obra não apenas as plantas coletadas, mas toda uma série de informações e aspectos das paisagens a elas associadas. Neste sentido poder-se-ia dizer que Roberto Burle Marx foi o último naturalista do século XIX, pois pelas suas atividades de viajante coletor, ele pode ser irmanado a Saint-Hilaire, Von Martius ou Gardner, entre tantos outros.
AG: Muitos críticos já salientaram que a obra de Burle Marx busca uma síntese entre demandas naturais e artísticas. Vera Beatriz Siqueira, por exemplo, afirma que as “formas ondulantes” do paisagista carioca “ora se aproximam das curvas da paisagem local, ora se integram comodamente ao pensamento abstrato moderno” (2). Como se daria, em sua opinião, o encontro dos conhecimentos de botânica e de artes plásticas no paisagismo de Burle Marx? O esteticismo flagrante de tal atitude era uma vantagem ou desvantagem?
JT: O crítico de arte Clarival Valladares via no paisagista o pintor que usava o terreno como tela e as plantas como tinta. Por algumas conferências antigas, pode-se deduzir que Burle Marx comungava com esta idéia. Entretanto, mais maduro, ele passa a rechaçar o equívoco de misturar expressões tão distintas. Como bem observou Lúcio Costa, Roberto bebia nas fontes do passado, mas sabendo eleger qual melhor se adaptava a cada forma de expressão. Assim, podemos distinguir claramente conceitos dos jardins barrocos de Le Nôtre no desenho do Centro Cívico de Santo André ou a estrutura de concepção dos jardins renascentistas italianos na Fazenda Vargem Grande, em Areias – SP. No primeiro exemplo, o terraço ao lado do edifício da Prefeitura Municipal era chamado, no escritório, de “parterre” e Roberto explicava que a concepção daquele espaço apenas diferia dos originais franceses porque permitia que o observador caminhasse em seu interior. Há aqui uma nova proposição em que os pisos, com seus desenhos, não cumprem apenas um papel funcional, mas interagem com as superfícies coloridas das plantas de cobertura dos canteiros adjacentes. Já no segundo caso, pode-se distinguir nos terraceamentos sucessivos, na forte presença da água em fontes e cascatas que a busca de inspiração tem raízes nas composições renascentistas de Pirro Ligorio na Villa D’Este.
Por outro lado, o conhecimento que acumulou em botânica aplicada ao longo da vida, permitiu que as especificações vegetais fossem definidas com perfeito domínio das técnicas de chegar aos resultados desejados. E esta sempre foi sua intenção, “aumentar o elenco de plantas disponíveis”, como um pintor que procura matizes inéditos, um arquiteto pesquisando materiais de construção ou um fotógrafo em busca de novas luzes.
Não há dúvidas de que há unidade na obra multifacetada de Burle Marx. É certo que as experiências de pintura alimentaram o paisagista ou o escultor e vice-versa. Mas ele procurou conscientemente valorizar, em cada forma de manifestação as linguagens a ela peculiares. “Quando faço pintura, penso em pintura. Quando faço jardins, penso em jardins!”, afirmava enfaticamente, sempre que alguém sugeria alguma semelhança em formas distintas de sua expressão como artista. Era neste sentido que a preocupação plástica se traduzia em sinergia, certamente uma vantagem que ele soube aproveitar em suas produções.
notas
1 BURLE MARX, Roberto. ”Depoimento”. In BAYÓN, Damián. Panorâmica de la arquitectua latino-americana, Barcelona, Editorial Blume, 1977, p. 40-63. Republicado em Arquitetura moderna brasileira – depoimento de uma geração, org. Alberto Xavier, co-edição ABEA/FVA/PINI, Projeto Hunter Douglas, 1987, p. 305-313, com tradução de José Tabacow.
2 SIQUEIRA, Vera Beatriz. Burle Marx. Coleção Espaços da Arte Brasileira. São Paulo, Cosac & Naify, 2004, p. 11.
Viagem à Amazônia. Roberto Burle Marx e o botânico Paul Hutchinson preparando material herborizado para identificação
Parque Costa Azul, Salvador BA, ainda sem a vegetação. Paisagismo de José Tabacow
Abílio Guerra: Quando e como foi sua saída do Escritório de Burle Marx? Quais foram os principais motivos? Quais foram os seus primeiros trabalhos? Quais foram seus novos parceiros?
José Tabacow: Em 1982 resolvi que era hora de voar solo. Talvez eu tenha ficado muito tempo e acredito que foi uma decisão acertada, pois a intensidade dos trabalhos do Escritório e o envolvimento com prazos, contratos, controle de pagamentos, toda a parte técnica e administrativa estava com Haruyoshi Ono e comigo. Meu envolvimento naquela estrutura impedia-me de perceber que, sozinho, eu teria novas possibilidades de exploração e poderia me dedicar a pesquisa, que sempre me atraiu mas para a qual não havia tempo. As viagens constantes para entregas de projetos, visitas a clientes, negociações e funções administrativas me afastavam da prancheta. Sem perceber, eu me transformava cada vez mais em administrador e passava grande parte de meu tempo útil em aeroportos ou aviões.
Saí do escritório, mas aluguei uma sala na mesma casa que este ocupava. Foi um período muito bom, pois eu tinha independência, mas mantinha o contato. E ainda restara um vínculo que muito me agradava: Burle Marx e Haruyoshi Ono pediram que eu continuasse a participar do projeto do Jardim Botânico de Maracaibo, na Venezuela. Eu já tinha todos os contactos e este foi um projeto feito quase inteiramente in loco, o que me mantinha naquele País por dez, quinze dias a cada dois meses. Pelos meus passaportes contei quarenta e seis entradas na Venezuela! E como se tratava de um jardim botânico, o trabalho não se restringia a um projeto de paisagismo, mas incluía viagens de coleta para as coleções botânicas, palestras na escola de horticultura que havia dentro da instituição e muito trabalho de campo, em conjunto com os botânicos, alunos e operários. Foi muito enriquecedor. Tive, neste trabalho, duas experiências inesquecíveis. A primeira foi projetar o crassuletum, coleção de plantas crassas (com folhas gordas pelo acúmulo de água como reserva) com área de 32.000 m2, em escala 1:1! Criávamos no próprio terreno os desenhos dos caminhos e áreas de estar com mangueiras de jardim com trinta metros, sobre as quais era jogada cal para desenhar a forma e para podermos retirar a mangueira e seguir adiante. Aproveitávamos os grupos de árvores já existentes para criar áreas de estar e a rede de caminhos era traçada tendo em vista os conjuntos de pedras que haviam sido previamente importados e arranjados pelo espaço. Assim foram criados os locais para as futuras coleções. Desenhei toda a área com cal, mas não tinha muita noção de como estava ficando o conjunto. Um helicóptero resolveu o problema. Subi algumas vezes e, do alto, pude avaliar se havia unidade na composição, como se estivesse olhando para a prancheta.
A outra experiência interessante, também em 1:1, foi traçar um grande lago usando um trator como lápis! Um garfo de arar ia marcando no terreno plano as formas desejadas. Depois de definido o perímetro, iniciou-se a escavação da área a uma profundidade de 50cm. Como o trabalho de escavação era muito lento, peguei meu trator/lápis e desenhei duas ilhas, para diminuir o espelho d’água e, conseqüentemente, o movimento de terra.
Fatos como estes foram possíveis pela riqueza que havia no País, oriunda do petróleo. Quando a OPEP decidiu reduzir a produção mundial do petróleo, a Venezuela, como país membro, teve que acatar. Em conseqüência, o choque econômico e repentino do dia 18 de fevereiro de 1983, conhecido como “el viernes negro”, provocou a interrupção dos trabalhos, o posterior abandono da Instituição e a extinção da escola de jardinagem. Terminava assim, melancolicamente, meu período na Venezuela.
De volta à realidade, abri uma empresa de projetos, paralelamente iniciando minhas atividades de pesquisa. Adquiri um computador (8 bits – 48k de RAM! Um foguete, para a época!) no qual armazenei meu primeiro banco de dados digitais sobre Palmeiras do Brasil, compilados e organizados por meu amigo Ricardo Cytryn, já falecido. São informações a respeito de mais de quatrocentas palmeiras com dados taxonômicos, biométricos, distribuição geográfica, etmologia dos nomes populares e científicos, usos que o povo faz e descrições morfológicas em geral. Ainda tenho este trabalho inédito e seria uma bela homenagem a ele publicá-lo.
Durante muito tempo tive poucos trabalhos de paisagismo mas, pouco a pouco, o escritório que abri foi se consolidando e passei, além de projetos, a prestar consultoria na área ambiental.
AG: Você esteve radicado por 9 anos no Espírito Santo. Como foi parar lá ? Como foi a experiência? Qual o motivo de ter mudado para outro lugar?
JT: Após a doação à Fundação Nacional PróMemória (hoje, IPHAN – MinC), Roberto convidou-me a ajudá-lo na direção do seu Sítio Santo Antônio da Bica, que passou a se chamar oficialmente Sítio Roberto Burle Marx. Por esta razão, entramos os dois para o quadro de funcionários do IPHAN e voltamos a trabalhar juntos.
Cerca de um ano depois (1986) deu-se o falecimento de Augusto Ruschi, o famoso naturalista que estudava colibris em Santa Teresa – ES. O então presidente da Fundação, Joaquim Falcão, convidou Burle Marx a acumular a direção do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, que havia sido doado à Fundação alguns anos antes, mas ele não aceitou. Eu fui a segunda escolha e, como o cargo era provisório, por cerca de três meses, aceitei. Fiquei nove anos.
Foi uma experiência extremamente enriquecedora. O Museu funcionava como instituição particular, sem visitação, sem acesso franco de pesquisadores. As coleções científicas não estavam catalogadas de acordo com os padrões e havia sérios problemas de conservação física do patrimônio científico e bibliográfico, e das instalações. A grande umidade da região, aliada ao microclima criado pelo bosque que circunda o Museu fazia estragos por toda parte.
Requalificar o Museu não era tarefa que eu pudesse fazer sozinho. Mas eu contei com a ajuda inicial e permanente dos biólogos Hélio Boudet Fernandes, atual Diretor, e Ségio Lucena Mendes, pesquisadores, de Cintia Chamas, arquiteta do IPHAN, e dos demais funcionários. Através deles e de seus contactos, começamos a contar com ajuda externa de nomes importantes da área biológica. O professor Jacques Vielliard, da Unicamp passou algum tempo no Museu e organizou toda a coleção ornitológica (cerca de 8.000 peles de aves). Apoios importantes, fundamentais mesmo, foram dados por Keith Brown Jr., também da Unicamp, Luiz Soledade Otero, do Museu Nacional, Antônio Claudino de Jesus, Sub-Reitor da Universidade Federal do Espírito Santo, entre muitos outros. O Museu voltava-se predominantemente para a zoologia, embora desenvolvesse coleções botânicas. Havia um herbário com cerca de quatro mil registros. Com a doação do herbário pessoal da botânica Bárbara Weinberg, atingimos o número mínimo e demais exigências para incluir o Museu no Index Herbariorum, índice oficial dos herbários internacionais.
Foi um período fértil de aprendizado em novas áreas, principalmente em ecologia, pelo contacto com os pesquisadores do Museu e visitantes, com muitos dos quais saía a campo, acompanhando-os em suas coletas e observações. Mas também pelos eventos que promovemos, exposições, encontros, seminários e diversas atividades na área de educação ambiental. Por convênio, estudantes de biologia passaram a monitorar a visitação e a desenvolver seus trabalhos acadêmicos no Museu ou em suas reservas, duas áreas de mata atlântica de encosta em razoável estado de conservação.
O paisagismo passou para plano secundário. Fiz alguns projetos esparsos, mas meu interesse estava muito mais focado na consolidação do Museu como instituição pública. Abri o Museu à visitação assim que reunimos as condições mínimas. Produzimos uma exposição itinerante sobre colibris que percorreu as principais capitais e muitas cidades do Brasil. Com apoio financeiro de uma indústria local, produzimos um jogo infanto-juvenil, “Ecomemória” que teve aceitação bastante expressiva. Preparamos uma exposição sobre morcegos, que não chegou a acontecer, mas transformou-se no meu livro “A Vida dos Morcegos”, que ganhou a chancela de “Altamente Recomendável” da Câmara Internacional do Livro Juvenil.
Considero que minha participação foi fundamental para que o Museu pudesse passar de sua condição de instituição de caráter particular, inteiramente submetida à vontade e veleidades de seu fundador, a um órgão público, de acesso aberto a todos, sob as mesmas condições. O mérito que tenho nesta consolidação foi o de ter me cercado de pessoas competentes, sem as quais não poderia ter feito qualquer destas ações. Foi um trabalho de coordenação, no princípio tão intenso e produtivo, que se passaram os três meses previstos e muitos mais, e, sem que eu percebesse, desapareceu a condição de cargo provisório que, burocraticamente, ainda constava em minha nomeação.
Assim, chegamos ao momento do “entretanto”: Quando começou o Governo Collor, o Museu entrou em profunda crise política motivada por facções oportunistas que, estimuladas pela fragilidade que as medidas levianas e imediatistas de Brasília estabeleceram, perceberam possibilidades de se apossar do seu comando. A Prefeitura local, a Universidade e outros grupos do Estado passaram a usar de todos os recursos, éticos ou não, para conseguir seu intento. A imprensa participou ativamente da disputa, alimentando a fogueira das ambições.
Trocou-se assim a parte boa, aquela de consertar, arrumar, produzir, por outra, de defender, justificar, discutir, desmentir. Eu já estava há seis anos na direção e me percebi na condição de um patético Dom Quixote, enfrentando dragões contra os quais eu não sabia oferecer resistência. Decidi que era hora de sair da Direção e solicitei minha demissão. Mas continuei como funcionário por mais três anos, trabalhando na área de educação ambiental ou desenvolvendo alguns projetos técnicos, à parte das aguerridas disputas que, então, se estabeleceram. Por esta época, fiz minha especialização em Ecologia e Recursos Naturais na UFES – Universidade Federal do Espírito Santo.
Concluído o Curso, eu já não tinha qualquer razão para permanecer morando numa pequena cidade do interior. Havia chegado o momento de procurar outro local para morar e trabalhar.
Hoje o Museu segue seu caminho. Como todas instituições governamentais, ele é extremamente sensível às circunstâncias e sofre pela pouca importância que os Governos, em geral, dão à cultura e à ciência no Brasil. Mas está lá, realizando suas pesquisas, recebendo seus visitantes e produzindo ciência, definitivamente na condição de órgão público.
AG: Você já está radicado em Florianópolis há praticamente uma década. O que o motivou a se mudar para a capital catarinense? Como têm se desenvolvido suas atividades profissionais e acadêmicas desde então?
JT: Após nove anos de isolamento cultural, numa pequena cidade do interior, minha família e eu precisávamos “recarregar as baterias”. Estávamos desesperados para sair, mas sem referências e na iminência de apontar o dedo, por sorteio, para um local qualquer no mapa e se mudar para lá. Na época, quando íamos a São Paulo ou Rio, nosso programa predileto era ir aos shoppings, ver gente, barulho, luzes e movimento. Houve vezes em que assistimos a três filmes no mesmo dia. Ou que saímos diretamente do cinema para o teatro ou algum concerto.
A escolha de Florianópolis foi o que chamo de um caso de amor à segunda vista. Eu já havia estado rapidamente na cidade, a trabalho, duas ou três vezes em 1977. Havia ido com Roberto levar o projeto do aterro da Baía Sul, mas, entre reuniões e visitas à obra, pouco tempo sobrou para que eu conhecesse razoavelmente o lugar.
Em uma viagem de férias, em 1996, saímos do Espírito Santo para conhecer a serra Gaúcha, em especial, a cidade de Antônio Prado, uma pequena jóia na montanha, que tem vinculações históricas com Santa Teresa por conta da imigração italiana. No caminho, entramos em Florianópolis, sob o sol poente. Foi um momento mágico. Aquela ilha, a paisagem banhada por uma luz avermelhada, a nossa esquerda a Ponte Hercílio Luz e a baía Norte, à direita, a baía Sul, o continente atrás. Fez-se um silêncio unânime no carro. Todos estávamos pensando a mesma coisa: “Vai ser aqui!”. E foi!
Em Santa Catarina não há muito a tradição de contratar paisagistas para tratar os espaços públicos. Desde que me mudei para cá, fiz projetos na Bahia, no Rio Grande do Norte, no Rio de Janeiro, mas somente há pouco fiz um primeiro projeto para um pequeno parque em Florianópolis, na cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz. E no momento, estou fazendo um trabalho muito interessante de revitalização de toda a beira-mar de Laguna, no sul do Estado. Trata-se de uma paisagem única, com dunas, muito vento e os molhes de pedra protegendo o canal da lagoa.
Ali ocorre a tradicional pesca com a ajuda dos golfinhos, cuja presença quase permanente empurra os cardumes para as margens, diretamente para as tarrafas dos pescadores. A cidade tem um expressivo centro histórico tombado, onde predominam construções ecléticas, luso-brasileiras e art déco.
Além de projetos de paisagismo, participo de estudos e elaboração de relatórios de impacto de vizinhança, à luz do Estatuto das Cidades, planejamento de unidades de conservação, elaboração de EIA-RIMA, encarregando-me, nestes estudos interdisciplinares, da componente Paisagem. Trata-se de uma nova possibilidade de participação do paisagista, e tenho alertado para isso em palestras e artigos, desde que passei a me aprofundar em Ecologia da Paisagem, ainda no Espírito Santo.
Para tanto, fiz especialização em Ecologia e Recursos Naturais e doutorado em Geografia, com tese voltada para a fragmentação da paisagem na Ilha de Santa Catarina. Somando-se minhas atuais atividades como professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina, este é o caminho que venho seguindo e no qual, por enquanto, pretendo continuar.
Atual Parque Roberto Burle Marx em São José dos Campos (antiga propriedade da família Olivo Gomes). Play-ground acrescido ao jardim, primeiro desenho de José Tabacow no escritório Burle Marx
Ponto de ônibus em Curitiba. Como inovações, o acesso de deficientes a qualquer ônibus (sem adaptações especiais), o cobrador nos pontos e não dentro dos veículos e a possibilidade de baldeação sem pagar nova passagem
Abílio Guerra: Como todos fenômenos culturais, o paisagismo sofre influência direta das crenças e princípios de cada época. O paisagismo brasileiro da primeira metade do século 20, sob a tutela direta de Burle Marx, incorporou princípios estéticos da pintura abstrata vanguardista. Na segunda metade do século pudemos observar uma crescente invasão de preceitos ecológicos em todas as áreas do conhecimento. Creio que o paisagismo tenha sido diretamente atingido em cheio por esse fenômeno histórico e gostaria de saber sua opinião sobre isso.
José Tabacow: Olhei no dicionário o verbete ecologia, pela primeira vez, em 1968. Na época, pouquíssimas pessoas sabiam seu significado. Estranhamente, até hoje poucas sabem. Mas esta palavra, ao lado de outras como sustentabilidade e biodiversidade dão status a quem as pronuncia ou escreve. Elas estão prostituídas por acepções espúrias e deturpadas. Ou, mais simplesmente, emprestam seus significados como se fossem etiquetas que pudessem aumentar o valor daquilo que rotulam.
Veja, por exemplo, a misteriosa expressão “paisagismo ecológico”, tão comum hoje em dia. Nunca consegui saber o que vem a ser isso! As nebulosas explicações resumem-se a mencionar algo sobre uso de vegetação local. Ora, Burle Marx já propunha isso há muitos anos atrás, não como uma estratégia conservacionista, mas buscando relacionar visual e plasticamente sua composição com a paisagem circundante. Quando ele projetava o espaço urbano, nunca passava pela sua cabeça trazer a natureza para dentro da cidade. Comprova esta afirmativa seu conceito de paisagismo como “natureza ordenada pelo homem e para o homem”.
Cidade é habitat humano. Em conseqüência, deve ser entendida à luz da ecologia humana e da ecologia urbana. Nós, como muitas outras espécies animais, alteramos o meio em que vamos viver de acordo com nossas conveniências. O que deve ser discutido é de que forma estamos fazendo isso, se é boa ou não para os habitantes e para o ambiente.
A essa pseudo-preocupação com uma volta à natureza chamo de “pânico no galinheiro”. Por alguma razão, uma galinha se assunta e todas começam a correr em todas as direções, sem ao menos saberem o que está ocorrendo. Elas correm porque parece que, naquele momento, é a melhor coisa a fazer. Mas correm para onde se não sabem por quê, para quê e como sair?
Nas incontáveis reuniões que participei e participo a respeito de conservação nas cinco últimas décadas, um fato quase constante me chama a atenção: enquanto a discussão está num plano subjetivo, teórico, todos têm entusiásticas opiniões e posições. Entretanto, quando é chegada a hora de decisões, das definições que devem transformar toda aquela teoria em resultados concretos, poucos se arriscam a qualquer atitude, a qualquer proposta. Prevalece a idéia romântica de uma teórica volta do homem à natureza, como se fosse possível colocar os bilhões de habitantes do planeta em habitações “sustentáveis” – seja lá o que isso queira dizer – em lindas cidades onde prevalecem o verde, os passarinhos e as borboletas. Todos gostaríamos de uma situação assim, mas quantos Parques da Gleba E ou Parques do Flamengo existem? Os dois são exceções, verdadeiros bilhetes premiados que Fernando Chacel e Roberto Burle Marx conseguiram e, diga-se, souberam aproveitar.
Nenhuma das propostas que ouvi até hoje considerou, de forma abrangente, as dificuldades em que a humanidade se meteu. Não podemos parar de produzir automóveis sem gerar um enorme contingente de desempregados, mas cada vez temos menos espaço nas ruas, enquanto a frota cresce assustadoramente. Chegamos a uma situação tal que, se fôssemos atender às reais necessidades de estacionamentos para um parque urbano, a área disponível seria toda ocupada por vagas e o parque perderia o espaço e o sentido. Isso já acontece na maioria de nossas universidades, em que os campi são enormes estacionamentos onde os pedestres se esgueiram por entre os automóveis, numa situação em que não há convivência, não há convergência, não há cultura comunitária!
A verdade é que, em nossos dias, o automóvel prevalece sobre a pessoa. Decepam-se praças ou parques, para “melhorias nos sistemas viários”, como viadutos, túneis e outros que, em conjunto com os espaços ocupados por estacionamentos, encorajam cada vez mais o cidadão a usar seu automóvel e a ocupar, somente ele, 25m2 de preciosa área livre. E os espaços ainda desocupados são encarados como estoque de terrenos para usos estranhos aos seus objetivos. Usam-nos para colocar escolas, museus, postos de saúde e outros equipamentos, como se as praças e parques de uma cidade fossem necessidades secundárias, não espaços de lazer, de respiração, de criação de micro-climas ou de controle de adensamento e impermeabilização do solo.
Como paisagista, não acho que se deva conceber a cidade como uma oportunidade de contato do homem com a natureza. Acho patético ficarmos medindo quanto de área verde por habitante há numa cidade, se não temos sequer claro o conceito do que seja área verde. O número mágico de 12m2 por habitante, atribuído a uma recomendação da OMS – Organização Mundial de Saúde, nunca foi confirmado por alguma referência confiável. E ainda que o fosse, não seria aceitável por se constituir numa generalização. Será admissível aceitar que São Paulo, Manaus, Florianópolis ou Brasília têm as mesmas necessidades de áreas verdes, traduzidas por um número?
Acho que precisamos, com urgência redefinir as formas de organização urbana, não pensar apenas em generalizar soluções para velhos e persistentes problemas, mas encarar de frente fatos como a saturação de veículos, aos quais, estamos fechando os olhos como fazem os avestruzes.
A cidade de Curitiba foi um bom exemplo de uma proposta inovadora em transporte urbano. Mas isso se deve a uma proposta que levou em conta suas singularidades, procurando soluções específicas e não copiando modelos alienígenas. Do mesmo modo, não podemos pensar em resolver os problemas de outras cidades importando ou adaptando as soluções ali usadas.
Para que seja possível pensarmos novas propostas, uma primeira medida seria diminuir drasticamente o poder dos Prefeitos nas decisões que envolvem problemas urbanos. Ouvimos sempre o argumento de que as Prefeituras dispõem de técnicos em seus órgãos de planejamento. Mas na prática, eles têm papel meramente consultivo, sendo descartadas suas propostas quando elas não vêm de encontro aos interesses circunstanciais ou casuísticos dos níveis superiores de decisão, que são políticos como um fim e não como um meio. Por exemplo, é inaceitável que um prefeito como o do Rio de Janeiro tenha poderes para lotear parte do Parque do Flamengo, indo contra tudo e contra todos, contra a vontade dos moradores e contra o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, valendo-se, para isso, apenas de artifícios jurídicos, de uma obsessão insana e de suas prerrogativas quase ilimitadas que podem destruir, com uma canetada, esforços e investimentos de décadas.
Talvez minha indignação pareça não responder ao que me foi perguntado. Mas quando examino meus projetos e os de quase todos os paisagistas, vejo que as obras são extremamente sensíveis à insensibilidade, a maioria sendo deturpada e vilipendiada de forma rápida e sem uma avaliação mais séria de quanto custaram em termos econômicos e sociais ou porque foram feitas.
Penso que a situação que expus explica razoavelmente o processo de deterioração urbano-cultural que vivemos. Gostaria de reforçar minha convicção de que a cidade deve ser encarada como a morada dos homens. Aos habitantes deve ser dada prioridade, para que possam se deslocar, trabalhar e viver seus momentos de lazer em áreas abertas, sob a forma de praças, parques, esplanadas. No entanto, se alguém quiser contato com a natureza em seu estado original ou próximo, sugiro que faça como tantos, inclusive eu, que vamos lá em vez de pensar que seja possível trazê-la até nós.
AG: Um argumento muito utilizado por economistas e políticos, alguns deles com bons serviços prestados ao país, é que há uma certa injustiça histórica no fato de os países mais desenvolvidos terem destruído suas florestas quando não existia uma pressão da opinião pública impulsionada pelos grupos ecológicos. Puderam assim dinamizar suas economias e tornarem-se países ricos e hegemônicos no cenário político-econômico internacional. Desse ponto de vista, o movimento ecológico atual se constituiria – voluntária ou involuntariamente – em uma força de manutenção do atual status quo, inviabilizando o desenvolvimento das nações mais pobres. Trata-se de um argumento ideológico ou há algum fundo de verdade nisso?
JT: Talvez, mais do que ideológico, um pouco panfletário! É evidente que as diferenças de referências e épocas de destruição têm que ser consideradas nesta análise. A Europa e os Estados Unidos tiveram seus ambientes destruídos, cada qual a seu tempo, numa situação histórica em que os padrões de conservação eram diferentes das atuais e, principalmente, por uma população mais homogeneamente distribuída pelo território. Enquanto isso acontecia, aqui no Brasil destruímos as florestas atlânticas, porque estávamos comprimidos pela serra do Mar, concentrados no litoral durante os séculos da colônia e do império. Ainda não havia começado a exploração do hinterland propriamente. Os grandes biomas interioranos ainda expressivos (amazônia, cerrado, caatingas) restaram porque não havia então quem os destruísse, a não ser os índios, cujo poder de alteração ambiental sempre foi cultural e materialmente muito menor. Ainda reforçando esta idéia, o biólogo Jared Diamond mostra, em seu livro Colapso (3), que alguns países, como o Haiti, Ruanda e o Iraque, destruíram seus recursos naturais e chegaram a níveis de pobreza e conflitos políticos insuportáveis. O mesmo aconteceu no Brasil, durante o ciclo do café, que nos legou desolação e decadência sócio-ambiental no vale do Paraíba.
Mas as idéias de conservação hoje, são outras! Alguns pequenos exemplos podem ilustrar bem o que quero dizer. Veja a Casa da Cascata, ícone da arquitetura de Frank Lloyd Wright, à luz do Código Florestal Brasileiro: ilegal, porque fere o princípio de proteção das matas ciliares! Examine a coleção de plantas autóctones do Sítio Roberto Burle Marx: também ilegal, por desconsiderar toda a legislação de coleta e tráfico de germoplasma! Claro, estou forçando em nome da compreensão de meu argumento. Mas não vejo sentido em comparar o que se fez de destruição em outros locais, em outras épocas e sob outras circunstâncias com o que se faz hoje, quando se deve considerar, aqui no Brasil ou em qualquer outro país, o desenvolvimento da ciência e do conhecimento e, principalmente a experiência aprendida com os erros do passado.
Mas também estou longe de dizer que tal situação deva significar uma condenação a permanecer no status atual! O homem tem inteligência e conhecimento científico para traçar um caminho que leve ao desenvolvimento sem ter que pagar um custo ambiental tão alto quanto o que vinha ocorrendo, em função de estratégias imediatistas e inconseqüentes, que emanavam de circunstâncias casuísticas e não da ampla base que a ciência pode proporcionar, consubstanciando decisões políticas. Mais exemplos? O saudoso biólogo José Márcio Ayres, de incontestável competência, realizou estudo que mostra, na Amazônia, uma coincidência alarmante entre as curvas de desenvolvimento econômico e da destruição florestal. Em outras palavras: historicamente, a cada surto de crescimento econômico ali, correspondeu um incremento na velocidade de destruição do ambiente!
Paralelamente, a heterogeneidade dos grupos ecológicos punha em cheque a credibilidade da chamada maioria silenciosa, indecisa ou omissa, em função de alas catastrofistas que, por pouca razão, vaticinavam, de forma leviana ou precipitada, previsões não comprováveis! Tornava-se, assim, difícil separar o joio do trigo, confundindo a opinião pública. Ao contrário, juntava-se a sopa com o mel, prato feito para a imprensa, que precisa permanentemente de líderes e de catástrofes! Mais exemplos: Chico Mendes, líder seringueiro cuja única aproximação com o movimento ambientalista foi procurar apoio financeiro em um evento de conservação, virou símbolo da luta pela natureza, embora suas atenções estivessem muito mais voltadas para as causas sindicalistas. Envolvido de roldão pelo “ecologismo” de plantão então vigente, acabou tendo sua participação distorcida, sendo hoje freqüentes as cidades que têm um “Parque Chico Mendes” vinculado à temática conservacionista. Não se trata aqui de retórica iconoclasta, mas de simples constatação de como se criam e se consomem as famas.
Outro exemplo: Por volta de 1992, a imprensa anunciou, com grande alarde, que o El Niño, naquele ano, traria conseqüências terríveis. Em Florianópolis, onde vivo, falava-se que os turistas não viriam no verão em função das fortes chuvas previstas. O prejuízo seria enorme, levando à falência tantos quantos se prepararam para a estação. Haveria enchentes e os efeitos eram imprevisíveis! Bem, além de não ter ocorrido qualquer coisa de mais séria, todos os argentinos vieram e, adicionalmente, a safra de maçãs do Planalto Catarinense, na época foi maior que a normal, em função do aumento das chuvas. Mas não foi dado grande destaque a esta notícia , provavelmente porque a imprensa já se ocupava da catástrofe seguinte! A conseqüência daquela gritaria estéril foi apenas descrédito.
Felizmente, esta linha leviana de atuação vem perdendo força, restringindo-se a pequenos grupos dispersos, enquanto ONGs de cunho científico e agindo com seriedade vão invertendo, pouco a pouco, a situação, fato comprovado pela própria mudança de paradigmas que menciono acima.
nota
3 DIAMOND, Jared. Colapso. Rio de Janeiro, Record, 2005.
Parque do Flamengo, projeto original de Burle Marx. O que era, no projeto, um simples trapiche, tornou-se marina por uma canetada do General Figueiredo, atropelando o IPHAN e o intituto do tombamento. Atualmente, nova canetada, desta vez do Prefeito Cézar
Viagem à Amazônia
Abílio Guerra: Em seu livro Paisagismo e ecogênese (4), Fernando Chacel menciona em sua introdução o Congresso de Estocolmo, de 1972, aonde foram estabelecidos os primeiros compromissos de redução do impacto econômico sobre o meio ambiente. De lá para cá muitas reuniões aconteceram e outros protocolos foram elaborados e assinados por instituições e governos. Qual sua opinião sobre esse processo?
José Tabacow: Na Suécia, o Ministro do governo militar João Paulo dos Reis Veloso disse “Venham poluir o Brasil!”, uma forma nada sensível de estimular o aporte de capital estrangeiro. Em outra ocasião, na mesma Conferência, declarou que “no Brasil há muitos rios para poluir”. Na época, havia permissão legal e incentivos fiscais para substituir o que chamavam – de forma quase pejorativa – de florestas heterogêneas por florestas homogêneas com eucaliptos ou pinheiros-do-caribe, na metade da área das propriedades rurais. Desta forma era oficialmente permitida e incentivada a derrubada de matas originais em qualquer bioma.
Poucas vozes se levantavam contra tais aberrações. Os que protestaram, segundo minha memória, foram José Lutzemberger, no Rio Grande do Sul, Augusto Ruschi, no Espírito Santo e Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro. Os três, cada um à sua maneira, desenvolveram um trabalho pioneiro ao despertar a consciência dos brasileiros para os desmandos de então. Hoje, a situação melhorou muito, por pressões populares e de organizações conservacionistas. Mas os Governos nunca cumpriram obrigações assumidas em eventos como o Congresso de Estocolmo, Rio 92, Agenda 21 e assemelhados. Até onde é de meu conhecimento, nenhum tostão foi destinado ao cumprimento destes compromissos oficiais.
No âmbito dos governos, há irresponsabilidade, reforçada pelo fato de que os dividendos políticos colhidos por um compromisso futuro funcionam como um pagamento adiantado, do qual não se recebe contrapartida, porque o devedor original já teve seus benefícios e o devedor atual não honra compromissos anteriores, que ele julga não serem dele. Não é apenas o que penso, mas o que a história tem mostrado.
Fatos importantes corroboram minhas afirmativas: eventuais aportes de recursos para conservação diluem-se na percolação pelas diferentes camadas político-burocráticas até que cheguem, carcomidos, ao beneficiário final. Como no exemplo que vem do Governo Collor de Mello, quando o Banco Mundial emprestou ao Brasil recursos para serem aplicados na mata atlântica. O Espírito Santo, onde eu morava na época, deveria receber dois milhões de dólares. Estes recursos, sobre os quais eram cobrados juros, foram retidos no Tesouro Nacional durante muito tempo, para que a ministra Zélia Cardoso pudesse anunciar à nação, orgulhosa, que havia um superavit no caixa do Tesouro, depois de muitos anos no vermelho. Este desonesto expediente contábil fez com que os recursos ficassem congelados durante vários meses e, quando liberados, foram convertidos para moeda nacional pela taxa do dia em que chegaram ao Brasil, erodidos pela diferença cambial que, obviamente, teve destino desconhecido!
Resumindo, paralelamente ao despertar da consciência para a conservação ambiental, os governos comprometeram-se e cumpriram alguma medida de proteção quando isso não significou abrir mão de crescimento econômico, numa atitude imediatista e inconseqüente. Nas raras vezes em que medidas oficiais de proteção foram tomadas, as razões foram as pressões populares e de organizações não governamentais, em geral, em períodos eleitorais ou simplesmente porque a medida de proteção não provocava impacto significativo na economia. Acho ainda importante levar em consideração que as agências oficiais internacionais que financiam ações conservacionistas são oriundas de países que destruíram quase completamente seus ambientes.
AG: Quais seriam os mecanismos institucionais, dentro de um mundo cada vez mais globalizado, que poderiam mitigar as injustiças que vêm de contrabando com as pressões internacionais de preservação? Como o tão propalado “desenvolvimento sustentável” pode ser uma realidade que transforme estruturalmente a relação da humanidade com o meio ambiente e não apenas uma coletânea de situações pontuais e esporádicas, sem implicações no destino do planeta?
Parafraseando Millor Fernandes (5), pergunto: “mas afinal de contas, o que é a sustentabilidade?” Antes de tudo, é preciso definir claramente o que significa este termo tão em voga, ao mesmo tempo com significação tão obscura. Pelo que vemos veiculado, trata-se de um conceito ainda não limitado e que sofre variações e interpretações as mais diversas. Em 1993, foi criada a instituição USGBC (6), com o objetivo de reunir parâmetros de definição dos green buildings, que tentam se aproximar da idéia de sustentabilidade. Em muitos casos, notadamente na indústria da construção como seria óbvio, as propostas e idéias do Conselho foram importadas para o Brasil como se aqui pudessem ser adotadas sem considerar critérios culturais e peculiaridades brasileiras. Pior, sem discussão, como se não dispuséssemos de massa crítica para uma análise de adequação mais consciente e em consonância com nossas condições. Foi o retorno do inesquecível “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.
Mas se é tão difícil definir o conceito, isso se deve ao fato de que nós estamos procurando soluções novas em velhas estruturas convencionais, já ultrapassadas ou inaplicáveis porque distantes de um enfrentamento realista em relação à conservação de fontes de energia e materiais disponíveis e em estoque. Voltemos ao exemplo dos automóveis. As cidades acham-se saturadas por uma frota que aumenta exponencialmente, na medida em que os veículos se tornam acessíveis a camadas menos favorecidas da população. Ao aumento das facilidades de aquisição, como financiamentos longos e produção de veículos populares, não corresponde um planejamento urbano e viário que possa absorver esta nova grande demanda. A este respeito, vi dois exemplos opostos, ambos muito impressionantes: a cidade de Palmas, capital de Tocantins, com apenas vinte anos de idade segue um modelo sob medida para o automóvel, desconsiderando a escala da pessoa humana e suas possibilidades e necessidades de deslocamento. Imensas avenidas são desertos de asfalto, entremeadas por extensos gramados com ilhas de escombros paisagísticos atestando falta de critérios e de planejamento. Os cerrados pré-existentes foram eliminados da paisagem porque se tentou importar modelos adotados no sudeste do País. Não há prefeitura que possa ter capacidade de manutenção de um sistema tão equivocadamente concebido.
No reverso da medalha, encontra-se Brasília, com a mesma proposta viária, porém já saturada após seu meio século de existência. Tornou-se um tormento circular pelo Plano Piloto, em razão das deformações, improvisações e medidas improfícuas que, longe de resolver, agravam o problema ao incentivar mais e mais a circulação de veículos.
Pelo que posso perceber, estamos ainda engatinhando na questão. As iniciativas que conheço, sem entrar no mérito de sua validade, acabam esbarrando na questão da escala. Acho aceitável como parte do processo que se procurem meios a partir de pesquisa experimental. Entretanto, há uma tendência forte em nossos dias de considerar mais a experiência realizada que propriamente seus resultados. Parece confortável pensar que estamos resolvendo o problema quando, na realidade, estamos apenas tentando discuti-lo. E nos enganando! Lembro-me da primeira vez que vi o famoso símbolo das três flechinhas que se apontam. Ele foi criado para designar embalagens ou materiais reciclados. Hoje, enganosamente, estampam materiais recicláveis, o que é muito diferente.
Resumindo esta questão, não consigo aceitar esta estratégia de, como na frase atribuída a Carlos Drummond de Andrade, “pretender salvar no varejo o que destruímos no atacado”. Talvez seja possível resolver os problemas de construir habitações sustentáveis, em meio a aglomerados urbanos na escala das necessidades como habitat humano, cujo substrato (geomorfologia, vegetação, águas, subsolo) também esteja garantido, mas a solução deve poder ser aplicável pelo menos na escala regional. Devemos pensar numa proposta para o conjunto e não, como você bem colocou em sua pergunta, numa soma de situações que, analisadas em seu conjunto, não constituam proposta significante em termos de escala, de abrangência e, em especial, de aplicabilidade significativa.
notas
4 CHACEL, Fernando. Paisagismo e Ecogênese. Rio de Janeiro, Fraiha, 2004. ISBN 85-85989-14-95 FERNANDES, Millor. “Mas...afinal de contas, o que é a Liberdade”. In FERNANDES, Millor; RANGEL, Flavio. Liberdade, Liberdade. Porto Alegre, LP&M, 2002.6 United States Green Building Council <www.usgbc.org>.
Lago no vale do rio Tocantins
Primeiras ravinas na região do Monte Roraima. No vale, as linhas verdes mais escuras marcam o início de veredas de buritis ao longo dos córregos
Abílio Guerra: Você acaba de voltar de viagem pelo Brasil, aonde pôde constatar a situação de parques e reservas nacionais. Essas regiões merecem ainda a denominação de “Santuários Ecológicos” ou a ação humana já as violou de forma significativa? O que tem que ser feito nessas áreas e o que cabe ao governo e à sociedade?
José Tabacow: Viajar pelo interior do Brasil é uma das experiências mais gratificantes que um paisagista pode querer. Aprendi a olhar as paisagens brasileiras com Burle Marx desde muito jovem e mantenho meu interesse aceso, pois sempre há o que descobrir. Este ano estive em Roraima, ajudando o fotógrafo Luiz Cláudio Marigo a fazer um levantamento fotográfico dos ecossistemas associados à água, na bacia do rio Branco. Chegamos às fronteiras com a Venezuela e a Guiana, nas cabeceiras dos rios formadores, onde tudo começa com algumas pequenas ravinas, aquelas primeiras aguinhas que vão ter ao rio Negro e juntar-se ao Amazonas.
Estivemos também no Jalapão, em Tocantins, local de beleza indescritível, com fantásticas dunas amarelo-avermelhadas contidas por um coleante riacho de água cristalina. Fomos a São Félix do Araguaia, em frente à grande ilha do Bananal, cuja paisagem, pelo menos no local, acha-se seriamente alterada. Estivemos na Chapada dos Veadeiros, também com paisagens que palavras não conseguem descrever.
Contornamos a Chapada pelas encostas do divisor de águas entre o Tocantins e o São Francisco e ainda fizemos uma rápida escala na Estação Ecológica das Águas Emendadas, nas imediações de Brasília. Em todos esses lugares fotografamos fartamente, em especial, águas e palmeiras. Mas também paisagens e detalhes, vegetação e rochas, veredas e campos.
Ainda existe muito por descobrir e cada novo local é uma revelação distinta, uma emoção diferente. Sugiro aos que me lêem que considerem a possibilidade de visitar locais como estes mais freqüentemente. Se assim fizerem, verão que não há exagero em minhas palavras. Ao contrário, há um frustrante sentimento de não conseguir mobilizar as pessoas a partilhar tanta beleza comigo.
Acho que ainda há muita natureza em bom estado, no Brasil. As unidades de conservação têm suas dificuldades, decorrentes de nossa formação sócio-cultural. Falar da falta de verbas, ausência de planos de manejo e outros seria redundante. Todos sabemos o que está faltando. Prefiro tentar mostrar que há algo pelo qual ainda vale a pena lutar, guardar e usufruir. E posso afirmar que há gente que luta! É emocionante ver que há pessoas, muitas vezes humildes funcionários que vestem a camisa, que se dedicam, que sofrem e que se entregam. Lutam contra a burocracia instalada nos gabinetes e contra os que aceitam cair de pára-quedas em áreas que não as suas, apenas pelos postos e gostos do poder. Lutam contra a falta de recursos e contra os anos eleitorais. Mas continuam acreditando.
É importante também mencionar que as comunidades que vivem nas proximidades de reservas e parques têm hoje, uma consciência diferente. Percebem que, nas paisagens de suas regiões, há toda a carga natural e cultural subjacente que forma sua própria identidade, algo que deve e merece ser guardado, ainda que sob a forma de fragmentos.
Muitas áreas apresentam sinais de alterações. Alguns alarmantes, outros, nem tanto. Otimistamente entretanto, prefiro continuar acreditando nas palavras de Thiago de Mello: “Apesar do próprio homem, ainda é tempo!”.
AG: Eu estive recentemente na cidade de Morretes, no Paraná. Pude observar lá e nas imediações uma paisagem maravilhosa, com uma preservação do meio ambiente surpreendente para uma área com urbanização significativa. Riachos e cachoeiras com água limpa, vegetação exuberante, permeabilidade muito grande do solo, construções respeitosas dos lugares... O fenômeno turístico é bem presente, o que torna ainda mais significativa a preservação ambiental. Eu acredito que há algum segredo aqui. O que você pensa da preservação ambiental de áreas com urbanização significativa, aonde os mecanismos legais que pressupõem uma maior separação homem-natureza não fazem sentido? Você conhece bons exemplos no Brasil de uma relação minimamente harmoniosa entre comunidade e meio ambiente?
JT: É interessante estabelecer o que entendo por relação harmoniosa, já que se trata de um conceito subjetivo. Por isso, começo minha resposta pela parte final da pergunta: se um caboclo mata um animal para se alimentar, considero o fato uma relação harmoniosa. Aquele mesmo animal poderia matar outra espécie qualquer, pelos mesmos motivos. Trata-se da relação natural predador-presa. Se um caçador esportivo mata um animal por prazer, então não existe harmonia. Existe uma deformação que consiste em sentir prazer com o sofrimento inútil e o desaparecimento de outro ser vivo. Estes exemplos estão na escala do varejo. Infelizmente, no atacado acontece o mesmo, porém com resultados mais perturbadores. Como exemplo: a população do Jalapão desenvolveu uma cultura artesanal que usa as hastes florais do capim-dourado (uma sempre-viva do gênero Singonantus) produzindo peças de grande beleza e de forte identidade regional. A produção e comercialização são feitas localmente. Entretanto, os produtos já começam a aparecer em algumas cidades maiores, e a preços que podem ser quatro vezes superiores aos das fontes. Em algum momento do desenrolar deste processo, com o aumento da produção, tende-se a um ponto de reversão em que a harmonia se converte em predação, aquela espécie entra para o rol das ameaçadas e pode desaparecer, pois os processos de reprodução são sistematicamente interrompidos pela coleta maciça das flores. Entretanto, no caso do Jalapão, a legislação impede que o capim saia do estado em estado bruto, garantindo a produção local e limitando a coleta à capacidade da comunidade de processamento. Em uma viagem na década de 80, vi venda de hastes florais de Paepalanthus, outra sempre-viva, por quilo no portão de entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Eram fardos e mais fardos de flores que eram coletadas e vendidas. Não havia um beneficiamento, uma atividade qualquer que as utilizasse como ponto de partida, agregando-lhe valor e fazendo baixar naturalmente o ritmo de coleta, como acontece no Jalapão. Acaba-se a sustentabilidade quando a velocidade de exploração do recurso é maior do que a possibilidade de reprodução da espécie, levando-a à extinção local. Por isso, é fundamental definir qual a capacidade de tolerância do recurso à exploração. Só assim se pode garantir a continuidade da exploração sem aquela conotação autofágica da cobra que engole o próprio rabo.
Esta e muitas outras atividades com convivência saudável entre as comunidades e seu meio são extremamente sensíveis a fatores exógenos. Mas, de maneira geral, a relação não predatória ou mesmo sustentável, se isso existir, costuma decorrer de suas características intrínsecas e não propriamente de uma preocupação ou objetivo primário de conservação. Muitas destas culturas subsistem há bastante tempo. Os caiçaras de uma grande extensão da costa sudeste, em especial, a região de Peruíbe, Iguape, muitas pequenas colônias de pescadores espalhadas pelo litoral de Paraná e Santa Catarina, os seringueiros e muitos outros grupos que, pela natureza de suas atividades, não esgotam os recursos que exploram, têm sua contrapartida nos garimpeiros, que destroem as margens e poluem as águas, caçadores clandestinos de peles, coletores de palmito, alguns colecionadores de orquídeas e bromélias, entre outros.
Um caso digno de menção é Mamirauá, na região de Tefé – AM. Há um acordo entre os pescadores e os pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Mamirauá-MCT, a Sociedade Civil Mamirauá e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá pelo qual, a cada ano todos se reunem e discutem em quais das dezenas de lagos existentes haverá pesca naquela temporada. São interesses conflitantes (exploração x conservação) em longas discussões, às vezes com grandes dificuldades para se chegar a um acordo. Mas, uma vez este estabelecido, as partes respeitam. Isso vem acontecendo há alguns anos, sendo importante mencionar que a pesca do pirarucu, antes proibida, é feita de forma controlada, com benefícios como o aumento de sua população em razão da rotatividade da pesca nos lagos, dando tempo para que os níveis de viabilidade populacional se mantenham.
Existem estes e diversos outros exemplos de convivência saudável entre homem e ambiente. Certamente há muitos outros de que sequer tenho notícia. Mas seria uma omissão injusta não mencionar o papel que o IBAMA e muitos órgãos estaduais de proteção ambiental vêm tendo, no sentido de melhorar, implantar e incrementar estas ações. Desde a formação e treinamento de criadores das borboletas azuis (Morpho sp.), no Rio de Janeiro, que baixou a pressão sobre a população das espécies, hoje recuperadas na natureza, até o visível aumento da eficiência fiscalizadora que, nos mais remotos pontos do território inibe, nas suas mais diversas modalidades, as ações predatórias do ambiente.
Completando agora a resposta, a região de Morretes, a serra da Graciosa, algumas encostas da serra dos Órgãos, do Itatiaia, do litoral sul do Rio de Janeiro e norte de São Paulo são paisagens de exceção. Por alguma circunstância, elas permaneceram com sua cobertura vegetal íntegra, mas correspondem a menos de 10% da floresta atlântica primitiva. Foi o que restou por razões como fortes declividades, acesso difícil, ocupação lenta do território e mais recentemente, implantação de unidades de conservação. Felizmente, o valor destes remanescentes foi percebido a tempo e medidas de proteção eficientes foram tomadas. Temos, assim, não apenas amostras e testemunhos do que foi a mata atlântica, como também bancos de germoplasma que podem fornecer matéria prima destinada à recolonização de áreas degradadas. Vamos tomar emprestados alguns conceitos de ecologia da paisagem para constituir um quadro em que tanto estes restos de floresta atlântica quanto as áreas urbanizadas são olhados como fragmentos de paisagem com origens, formas, tamanhos, quantidades e configuração espacial próprios e interagentes. Como estamos avaliando aspectos ecológicos, o que entra em jogo são as relações entre estes fragmentos, ou seja, como se dá a interação entre as áreas urbanizadas e os remanescentes florestais, considerando-se ainda outros fragmentos que os permeiam, como pastagens, reflorestamentos homogêneos, áreas agrícolas e os corredores – estradas, linhas de transmissão e rios, para exemplificar alguns. É a compreensão destas relações e sua aplicação quando identificadas como benéficas que explica resultados positivos de convivência entre as cidades e as florestas, como no caso de Morretes. A evolução da consciência ambiental nos deu instrumentos como os EIA-RIMA e os EIV que, em última análise, procuram compatibilizar as necessidades de acomodar a crescente população e concentração humana nas cidades com a importância de se manter remanescentes que significam as últimas oportunidades de reconstruirmos ambientes mais próximos de suas qualidades originais. A compreensão destas relações tem ainda mostrado aos habitantes e administradores que o valor de ambientes em bom estado de conservação ou regeneração são também fontes de recursos quando trazem turistas atraídos não apenas pelos valores culturais e naturais, mas adicionalmente pelo benefício conjunto que deles resulta.
José Tabacow no Vale da Lua, na Chapada dos Viadeiros. Erosão provocada pela água sobre a rocha facilmente friável pela riqueza em carbonato
José Tabacow
José Tabacow
Arquiteto paisagista, professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina, atual editor do Jornal da Paisagem (www.jornaldapaisagem.unisul.br) e Coordenador Editorial da revista ArKitéktón (www.arkitekton.unisul.br), é especialista em Ecologia e Recursos Naturais pela UFES – Universidade Federal do Espírito Santo e doutor em Geografia pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, na área de concentração de Geoprocessamento. É sócio-gerente de Tabacow Chamas & Associados, escritório de projetos de paisagismo e consultoria ambiental.
Abílio Guerra
Abílio Guerra, arquiteto, professor da FAU Mackenzie, editor do Portal Vitruvius.
Entrevista
A presente entrevista foi realizada por correspondência eletrônica durante os meses de maio, junho e setembro de 2006. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em novembro de 2006.