português Roberto Segre entrevista o arquiteto e urbanista cubano Mario Coyula, vice-presidente do Grupo de Desarrollo Integral de la Capital – GDIC, de Havana, Cuba, e um protagonista das transformações ocorridas em Havana na segunda metade do século XX
english Roberto Segre interviews the architect and cuban urban planner Mario Coyula, vice president of the Grupo de Desarrollo Integral de la Capital - GDIC in Havana, Cuba, and a protagonist of the changes taking place in Havana in the second half of the twenti
español Roberto Segre entrevista al arquitecto y urbanista cubano Mario Coyula, vicepresidente del Grupo de Desarrollo Integral de la Capital – GDIC, de La Habana, Cuba y protagonista de las transformaciones ocurridas en La Habana en la segunda mitad del siglo XX
Castelo do Morro, século XVII, Havana, Cuba Foto Jupira Corbucci
Meio século de urbanismo havanês. Entrevista com o arquiteto Mario Coyula por Roberto Segre
O professor venezuelano Arturo Almandoz publicou em dois fascículos da revista Ciudad y Territorio. Estudios Territoriales – CyTET (135/2003 e 139/2004), as entrevistas realizadas a Roberto Segre e Ramón Gutiérrez. Ambos estudiosos da arquitetura e do urbanismo latino-americanos se referiram a suas experiências teóricas e práticas em escala continental, desenvolvidas nas últimas décadas. O interesse despertado por estes testemunhos, motivou a entrevista ao arquiteto e urbanista Mario Coyula (Havana, 1935), sem dúvida, um protagonista das transformações ocorridas em Havana na segunda metade do século XX. Apesar do embargo norte-americano, das dificuldades que enfrenta atualmente o sistema socialista cubano, das complexas relações com os países capitalistas (tanto europeus como latino-americanos), esta mítica cidade amada pelos espanhóis, que a chamaram "A pérola das Antilhas", segue atraindo o interesse de profissionais, docentes e pesquisadores urbanos. Isso se deve não só por ser a maior cidade caribenha – quase uma metrópole –, mas também por sua forte personalidade e seu indelével caráter arquitetônico e urbanístico, que apesar dos embates do tempo e dos sistemas políticos, não conseguiram arruinar a excelência de seu passado histórico que se conserva quase intacto – nesta etapa recente, quase detida no tempo e no espaço –, desde suas origens até o século XXI.
Nosso diálogo nasce de quatro décadas de contínua amizade e de identidade de olhares em defesa de seus atributos culturais, urbanísticos e arquitetônicos, que se concretizaram no trabalho em equipe para escrever o livro Havana, two faces of the antillean metropolis, editado nos Estados Unidos pela North Carolina University Press (2002), no qual também participou o professor norte-americano Joseph Scarpaci. Mas o que considero importante neste testemunho é a expressão da complexa e contraditória realidade que coube a esta cidade viver desde a chegada do sistema socialista. É um processo difícil, que Coyula viveu com intensidade na própria carne, no tenso e nada fácil compromisso cotidiano. Proveniente de uma tradicional família havanesa, foi o único membro que não imigrou para Miami, integrando-se à luta clandestina estudantil contra a ditadura de Fulgencio Batista. Apesar de sua origem "burguesa", não teve dúvidas em assumir plenamente as transformações do governo socialista, o que lhe valeu a militância política e a designação para ocupar cargos "dirigentes" dentro do sistema: desde Diretor da revista Arquitectura/Cuba (a quem acompanhei como chefe de redação) e da Escola de Arquitetura, até Diretor de Arquitetura da Cidade Havana.
Mas, como demonstram suas respostas, nunca foi um técnico submisso às imposições (nem sempre acertadas) da estrutura política piramidal dominante, mas que com os escassos graus de liberdade disponível, manteve uma atitude crítica diante decisões que afetariam os futuros destinos da cidade. Ademais, teve o mérito de percorrer todas as escalas do "desenho ambiental", tanto na prática como na teoria, o que lhe permitiu converter-se em um dos principais pensadores e escritores sobre a cidade de Havana. Reconhecimento obtido, não só em Cuba, com os prêmios e condecorações locais, mas também no exterior: o demonstra sua seleção como professor convidado para ensinar durante um semestre de 2002 na Universidade de Harvard, e dirigir uma oficina de urbanismo sobre o Malecón, o quebra-mar havanês.
Tenho a certeza que esta entrevista esclarecerá múltiplas duvidas e permitirá assumir a densa complexidade da historia de Havana no último meio século, muitas vezes analisada desde óticas parciais, tendenciosas, reducionistas e esquemáticas. Considero também de grande utilidade, para os pesquisadores dedicados a esta cidade e ao processo urbano cubano, a compilação de uma bibliografia dos principais escritos de Coyula sobre a arquitetura e o urbanismo da ilha caribenha.
Sorveteria Coppelia no bairro do Vedado, Havana. Arq. Mario Girona, 1966 Foto Jupira Corbucci
Roberto Segre: Você estudou arquitetura na década convulsa dos anos cinqüenta. Como se enfocava o tema do urbanismo na Faculdade de Havana? Quais eram os professores? Existia algum vínculo entre a teoria que se oferecia e a pratica que se desenvolvia na cidade?
Mario Coyula: Iniciei os estudos de Arquitetura em 1952, pouco depois do golpe de estado de Batista, ao que os estudantes da Universidade se opuseram desde o primeiro dia. A verdadeira vanguarda política na Escola de Arquitetura – certamente, não afiliada a partidos tradicionais de nenhum tipo – coincidia em general com a vanguarda arquitetônica e cultural. Foi uma grande diferença com o que sucedeu na União Soviética, onde a direção política era culturalmente reacionária. Quem sabe essa tenha sido uma das causas do penoso fracasso daquele experimento, que durou o mesmo que a vida de um ser humano, apenas uma lápida no cemitério da História: 1917-1989.
No plano de estudos vigente naquela época – seis anos de duração – havia somente um semestre dedicado ao Urbanismo, apropriadamente chamado Arquitetura de Cidades. Seu enfoque e até seu nome levavam o perfume Beaux Arts, combinando alguns princípios funcionais com a retórica compositiva que Andrés Duany, León Krier e o Príncipe Carlos tratariam de reivindicar quarenta anos depois. Oferecia a assinatura o velho professor Pedro Martínez Inclán, que entre 1919 e 1925 havia proposto um plano diretor para Havana, queixando-se sempre de que o urbanista e paisagista francês Jean-Claude Nicolas Forestier havia se apropriado de algumas de suas idéias. Olhando para trás aos crimes feitos em nome do Movimento Moderno, que nos encheram de conjuntos anônimos para o horror dos carteiros, sinto falta daquele urbanismo que então desdenhamos por pomposo e antiquado, mas que era definitivamente muito mais cívico.
Não recordo de projetos nas oficinas de desenho que enfocassem a escala urbana mais além de um clube de iatismo, mas me vêm à memória que em 1955 os estudantes Jorge Del Río, Serafín Leal, Isaac Sklar, José de la Torre e Mario Lens ganharam o Primeiro Prêmio no concurso internacional para estudantes de Arquitetura na III Bienal de Arte Moderna de São Paulo. O projeto foi um conjunto para as férias de 3 mil operários com suas famílias em Pasacaballos, Cienfuegos. Ninguém pensava então na contaminação dessa formosa baía. Alguns estudantes com maior preocupação social ou mais curiosidade por uma escala desconhecida, como Eduardo Granados, Osmany Cienfuegos, Reinaldo Estévez, Daniel Taboada, Hugo D’Acosta-Calheiros, Henry Gutiérrez e Emilio Fernández terminaram nesse mesmo ano seu Trabalho de Graduação, dirigido por Alberto Prieto, com um estudo para o planejamento do desenvolvimento urbano do povoado de pescadores Surgidero de Batabanó, na costa sul da província de Havana, perenemente afligido por inundações.
A carreira naquele tempo estava completamente orientada para o desenho e construção de edifícios, para não dizer casas; mas um grupo de estudantes e o professor Pedro Cañas Abril haviam posto em discussão o tema do planejamento urbano, muito associado a outro debate em moda naqueles tempos sobre a função social do arquiteto. A excelente revista Espacio, da Associação de Estudantes de Arquitetura, teve um papel muito importante nessa tomada de consciência.
O súbito despertar ao planejamento deu origem a uma situação agradável: os estudantes de Arquitetura tomaram a dianteira aos de Engenharia, e no pequeno porém moderno local de nossa Associação, adjacente ao velho edifício que compartiam arquitetos e engenheiros, colocaram as letras AEAP – Associação de Estudantes de Arquitetura e Planejamento. Reagindo tardiamente, os estudantes de Engenharia protestaram contra o que consideravam o monopólio do Planejamento; e em várias ocasiões arrancaram o "P", que depois era resgatado com uma ou outra trombada pelos da Arquitetura.
RS: Ao se elaborar o Plano Diretor pela equipe dirigida por Sert com a participação de profissionais cubanos, teve alguma repercussão entre os arquitetos e na Faculdade? Discutiram-se suas propostas entre alunos e professores?
MC: Esse plano foi encomendado pelo ditador Fulgencio Batista através da Junta Nacional de Planejamento que seu governo havia criado em 1955 para ordenar o forte desenvolvimento turístico previsto em Havana, Varadero, Cojímar e na Ilha de Pinos, muito ligado à entrada de capital mafioso pelos Estados Unidos. Meyer Lansky e Santos Trafficante chegaram a investir aqui com os hotéis Habana Riviera e Capri, respectivamente, como parte de uma estratégia para converter Havana na Las Vegas do Caribe. Trinta anos antes outro ditador, Gerardo Machado, havia solicitado também outro plano diretor, encomendado então a Forestier, para converter-la na Niza do Caribe. Em pouco tempo o modelo a seguir havia passado da Europa aos Estados Unidos.
Certamente, o urbanista Mario González conta uma anedota pouco conhecida: o projeto para o hotel Riviera havia sido inicialmente encomendado a Philip Johnson. Para apresentar sua proposta a Lansky, Johnson apareceu todo vestido de preto, levando na mão uma pequena mas perfeita maquete em branco e preto do edifício. Fez uma explicação curta, enfatizando o cuidado que havia tido com as proporções. Lansky gostou do projeto, mas pediu que lhe adicionasse vários andares mais para fazê-lo mais rentável. Johnson se pôs de pé e exclamou: Gentlemen, please, don’t be vulgar! Think about proportions! . Em seguida recolheu sua maquete e abandonou a sala. No final o projeto que se construiu foi feito por outro Johnson, associado com Polevitzky, conhecido arquiteto de Miami. Penso às vezes em qual teria sido a reação de Philip Johnson quarenta anos depois (quem sabe não tão altivo).
A JNP estava dirigida por um bom arquiteto, Nicolás Arroyo, ministro de Obras Públicas do governo golpista; e nela trabalharam profissionais cubanos modernos de prestígio reconhecido como Nicolás Quintana – quem agora, desde Miami (2004) – se propõe a ingente tarefa de prognosticar o futuro de uma Havana democrática. Também participavam dela os arquitetos Jorge Mantilla, Eduardo Montoulieu e (lamentavelmente por seu prestígio) Mario Romañach. Este último foi o mais criativo e experimental da geração do pós-guerra, que deu figuras do tamanho de Max Borges, Antonio Quintana e Frank Martínez, entre muitos outros.
Resulta interessante comparar os conceitos e soluções formais adotados no Plano Sert (1955-58) e nos da Praça Cívica, inaugurada em 1953. Como era se de esperar, Sert estava completamente afiliado ao urbanismo do Movimento Moderno e dos CIAMs. Seu projeto sobrepunha as Cinco Vias de Le Corbusier sobre Havana e criava centros direcionais modernos como os que seu amigo e mestre gostava. O urbanismo da Praça era convencional e de estilo fascista, mas sem o refinamento característico de qualquer desenho italiano. Batista aprendia rápido, mas também o fizeram alguns arquitetos modernos que esqueceram o compromisso social do Movimento quando surgiu nos anos 20.
A Praça Cívica foi imediatamente questionada na revista Espacio (1952-1956) editada pelos estudantes de arquitetura – entre os que participava o líder estudantil José Antonio Echeverría – e no Fórum sobre a Praça que o Colégio de Arquitetos convocou. Para maior escárnio, um estudante descobriu que o monumento ao herói nacional de Cuba José Martí (rapidamente apelidado pelo povo como "a raspadura"), era praticamente uma cópia de um reclame comercial do whisky Schenley na Feira de Nova York de 1939. Na Escola se repudiava automaticamente tudo o que se relacionava com a tirania, mas as atividades principais da JNP e do Plano Sert coincidiram precisamente com o fechamento da Universidade, e a prioridade então era a luta clandestina armada, ainda que não poucos preferiram um refúgio cômodo e seguro.
O Plano Sert foi muito criticado pela intervenção traumática que propunha sobre a trama colonial; e sobre tudo por sua famosa ilha artificial em frente ao quebra-mar tradicional, cheia de cassinos e hotéis. Também propunha uma franja de uma quadra de largura cheia de arranha-céus que correria de norte a sul como em uma vértebra pelo velho recinto amuralhado. E então criava parques no interior de cada novo quarteirão de habitações que substituía os originais. Mas sendo honestos, é preciso reconhecer que nós estudantes, não teríamos feito algo muito diferente em 1959, porque isso era o que tínhamos aprendido. Havana se salvou do Plano Sert, mas também de nós.
RS: Como se assimilaram as operações especulativas que começavam a desenvolver-se na Havana do Leste como nova área de expansão da cidade? Participaram alguns dos arquitetos locais de prestígio?
MC: Nos dois últimos anos da ditadura batistiana foi fechada a Universidade de Havana, ainda que a Universidade Católica de Santo Tomás de Villanueva, que era privada, se manteve por um tempo aberta. Os estudantes da universidade estatal se dispersaram, trabalhando como desenhistas ou projetistas em escritórios privados de arquitetos. A própria revista Espacio, que havia tido um forte protagonismo como porta-voz das preocupações profissionais e políticas dos estudantes, desapareceu em 1956. Em resumo, os alunos de Arquitetura tinham perdido sua voz. Para alguns, essa atividade em escritórios de arquitetos era paralela à luta clandestina que culminaria no assalto ao Palácio Presidencial em 13 de março de 1957. Esse dia morreu em combate José Antonio Echeverría, estudante do quarto ano de Arquitetura e presidente da Federação Estudantil Universitária, eleito em 1954. Isso ratificou o fechamento definitivo da Universidade de Havana, que já havia suspendido suas atividades quando desembarcou o iate Granma em dezembro do ano anterior.
A promulgação da Lei de Fomento de Hipotecas Asseguradas (FHA) em 1954 acelerou a construção de uma grande quantidade de repartições ou novas subdivisões em toda Havana, como Fontanar, Altahabana ou o Parcelamento Zayas. Alguns arquitetos importantes como Miguel Gastón ou Emilio del Junco (que desenhou com Mario Romañach a Repartição Santa Catalina, provavelmente o melhor daquele tempo) projetaram algumas destas urbanizações; e em seus escritórios trabalharam arquitetos recém formados, como Mario González, que depois do triunfo da Revolução teria um papel destacado no planejamento da capital.
Nicolás Quintana havia feito também nos ‘50 uma pequena obra maestra com o conjunto de habitações junto ao Hotel Internacional de Varadero, organizadas ao longo de um extenso cul-de-sac e seguindo seu particular estilo arquitetônico praieiro com paredes de pedra a vista e tetos inclinados de madeira e telhas. Já havia empregado esse repertório antes nas cabanas do hotel Kawama, também em Varadero. Mas a maioria daquelas dezenas de urbanizações foram executadas por companhias sem mais interesses que o especulativo. Recordo uma delas, onde só trabalhei três dias, que desenhava as plantas das habitações a 1:50 e colocava o mobiliário a 1:80…
Tudo referente à Havana do Leste foi um dos maiores negócios sujos de Batista. Conhecendo (obviamente) a próxima construção do Túnel da Bahia e a Via Monumental, inaugurados no final de 1958, ele e seus sócios se haviam beneficiado com a enorme mais-valia que essas inversões produziriam em terrenos até então praticamente incomunicáveis. Existe um filme rodado recentemente aqui pelo diretor espanhol formado em Cuba, Mariano Barroso, que trata sobre isso: Formigas na Boca, baseada num thriller do irmão do diretor, Miguel Barroso.
O Plano Sert propunha um novo desenvolvimento ao leste de Havana, incluindo um centro direcional político-administrativo com um Palácio Presidencial que seria o maior do mundo – e possivelmente o melhor resguardado –, depois do susto que passou Batista em 1957. Também convidaram outro arquiteto de fama mundial, Franco Albini – que deixou um testemunho na revista Espacio –, projetista das unidades residenciais entre o Castelo do Morro e Cojímar. Mas devido ao fechamento da Universidade e à dispersão (e em ocasiões, perseguição) dos estudantes, a maioria veio a conhecer essas propostas depois do triunfo da Revolução.
Apoiando-se nessa custosa infra-estrutura paga pelo Estado – Túnel da Bahia, Via Monumental – foram feitas ao leste de Havana as urbanizações de Alamar, Via Túnel, Colinas de Villarreal e Belvedere, para só mencionar as mais próximas ao centro da capital. O triunfo da Revolução deixou esses planos não concluídos, e a urbanização de Alamar seria utilizada a partir de 1971 para receber um enorme e amorfo crescimento em edifícios de cinco plantas construídos pelas "Microbrigadas", onde se diluíram as poucas casinhas que ocupavam o parcelamento original.
Prédio do Reitorado no Instituto Superior Politécnico “José Antonio Echeverría”, Marianao. Arquitetos Humberto Alonso, Fernando Salinas e equipe, 1962-1975. Foto Jupira Corbucci
Palácios do século XVIII na Praça da Catedral, Havana Foto Jupira Corbucci
Roberto Segre: Uma vez iniciado o Governo Revolucionário, suas experiências profissionais iniciais foram arquitetônicas. Ainda não se sentia atraído pela escala urbana?
Mario Coyula: Realmente não. Sentia-me atraído por volumes e espaços mais tangíveis, poderia dizer mais esculturais. Antes do triunfo da Revolução havia trabalhado vários anos com um arquiteto amigo, Oscar Fernández Tauler, que compartia seu estúdio com o pintor e escultor Rolando López Dirube. Também trabalhou ali meu amigo de infância, Emilio Escobar. Oscar não pagava muito mas nos deixava experimentar. Naquela época estava muito em moda o tema da integração das artes plásticas com a arquitetura. A maior parte dos projetos que se faziam ali – falo de antes do triunfo da Revolução – foram casas individuais com pouco orçamento, mas sempre fizemos coisas interessantes, incluindo as primeiras habitações com revestimentos externos de dupla curvatura calculados em Cuba. Lembro da casa de Pepe Fernández em Boca Ciega, e a de Tauler, um tio de Oscar, em Celimar. Quase sempre levaram algum mural ou esculturas de Dirube. Também colaboramos no projeto do edifício de 17 plantas na Rua 23 entre D e E, Vedado, com alusões wrightianas mais que diretas, que seria terminado em 1959 com o nome de Irmãs Giralt. Ali Emilio desenhou um enorme tímpano de cimento texturizado que bloqueava o sol da tarde.
Depois do triunfo da Revolução, mas ainda sem me formar, trabalhei muito em habitações campestres agrupadas em pequenas vilas rurais. No departamento de Habitações Campestres do INRA estava como chefe de projetos Frank Martínez, e participavam outros bons arquitetos jovens como Serafín Leal e Sergio González. Ainda não haviam irrompido os edifícios de apartamentos de cinco andares semeados no meio do campo… Comecei a jogar com a escala urbana (melhor dizendo, desenho urbano) quando projetei alguns centros comunitários, agrupando vários edifícios típicos de serviços sociais ao redor de praças, e conectando-os com galerias que nunca chegaram a construir.
Meu primeiro vôo solo como recém formado em 1962 foi uma escolinha pré-primaria com habitações para professores na repartição Fontanar. Usei uma estrutura típica que havia desenhado Eduardo Ecenarro para uma nave agropecuária pré-fabricada – com certeza muito bem solucionada – tratando de disfarçar-la com alguns muros de seção variável que saíam fora da edificação… Agora penso num Pavilhão de Barcelona com artrose! Um tempo depois visitei a escolinha: a vedação que decidi empregar nas juntas das lajes de coberta (asfalto com areia) se derretia com o sol e caía nas cabecinhas das crianças… Fui embora rapidamente para evitar às enfurecidas mães.
Senti-me mais realizado quando assumimos a terceira fase do projeto da Cidade Escolar Camilo Cienfuegos em Las Mercedes. Esse enorme complexo escolar, previsto inicialmente para agrupar 20 mil crianças dispersas nas montanhas, ficava nas colinas da Serra Maestra, onde a guerrilha de Fidel Castro se havia feito forte depois do desastroso desembarque do iate Granma em dezembro de 1956. Na equipe, dirigida por Emilio Escobar, estávamos vários amigos como Luis Lápidus, Orestes del Castillo, Antonio Saínz, Arsenio Mata, Marina López e outros. Eu projetei em 1963 os conjuntos de habitações para os professores, que se repetiram em várias das unidades. Configurava-se uma pequena praça em cada unidade, definida por dois tipos de habitações de uniplantas de dois dormitórios, pareadas e em faixas; e uma edificação biplanta com apartamentos de um dormitório em planta baixa combinados com outros de três dormitórios em dois níveis.
Essa Casa Duplex tinha acesso por duas fachadas opostas, para que pudesse funcionar como eixo visual do conjunto. Tratei de adequar-me a um clima pouco comum em Cuba, longe do mar e bloqueado por montanhas: sem brisas, quente e empoeirado pelo dia, e fresco pelas noites. Foi talvez um pretexto para tentar meu exercício à la Le Corbusier: muros lisos com poucos buracos cuidadosamente compostos, e claro, brancos; e loggias para dormir fora quando o calor fosse sufocante. O arquiteto Tony Colás projetou depois a pequena praça do conjunto e desenhou um farol de cimento que envelheceu muito bem. Em troca, a volumetria das habitações está atualmente descomposta por quatro cores diferentes (e não precisamente escolhidas por Rietveld), que obviamente incluem os inevitáveis rosado e verde.
A ilusão de fazer uma cidade no meio do campo terminou tragada pelo campo. Essa Casa Dúplex apareceu no livro Dez anos de arquitetura na Cuba revolucionária que você escreveu, e recebeu menção em 1990 no Salão SIARIN "30 Anos de Arquitetura Revolucionária". A partir desta experiência tomei consciência de que havia outras questões que formam ou deformam qualquer projeto. Pouco a pouco fui entrando em outro mundo mais coral e menos vedettista.
Em 1968, o projeto da vila de Vallegrande me fez trabalhar à escala completa de um assentamento de 120 habitações com sua infra-estrutura técnica e serviços sociais, desenhado e construído em 44 dias. Nunca entendi bem o porquê desse cabalístico 44, provavelmente um comentário de alguém importante, tomado imediatamente como um compromisso. Tive que usar uns projetos típicos de casinhas isoladas unifamiliares de uma planta, com paredes pré-fabricadas ligeiras com o sistema Sandino (antes Novoa). O traçado da vila fiz em umas poucas horas com Mario González. Ingenuamente, as casinhas estavam rodeadas de grama e sem cercas, formando umas super-quadras com pracinhas para estar e dois cruzamentos de pedestres no sentido mais curto. Em pouco tempo todas foram sendo cercadas de maneira improvisada e com materiais de refugo.
Nessa mesma época projetei um conjunto de trinta habitações uniplantas pareadas em frente à Escola de Artes Plásticas de Cubanacán, com o fundo para o aeroporto da Cidade Libertad, recentemente desativado. Era uma faixa ao longo da rua, mas algumas casas estavam desalinhadas para formar umas pequenas praças de estar em frente. Quando agora passo em frente a essas casinhas me custa muito reconhecê-las. São poucas as que se mantiveram igual a como as projetei, e algumas cresceram e se subdividiram até converter-se quase em pequenos edifícios de apartamentos. Inicialmente as casas eram para erradicar moradores de um bairro próximo insalubre, que supostamente eram pobres de solenidade. Parece que alguns encontraram a maneira de aumentar criativamente seus ingressos, e aplicar-los com entusiasmo a desfigurar uma arquitetura sem pretensões mas correta. Outra vez o meio empurra para baixo.
Uma experiência muito interessante da década de setenta foi a reanimação urbanística, um programa de ações rápidas concentradas em nós urbanos importantes mas decaídos, que começamos na antiga direção provincial de Arquitetura e Urbanismo de Havana em 1974. Foram feitos vários projetos antológicos, como o Bulevar de San Rafael, os Quatro Caminhos e 12 e 23, em El Vedado. Lamentavelmente, se abandonou essa prática; e ainda esperamos pela primeira rua-parque ou woonerf, projetada para a Rua Aramburu no Centro de Havana.
RS: Nestes anos iniciais, com as mudanças radicais acontecidas na profissão e no ensino, se levaram a cabo diversos projetos teóricos e utópicos, associados ao projeto de construção de uma nova sociedade. Você participou de algum deles?
MC: Desfrutei muito de outros projetos urbanos que fiz na Escola de Arquitetura fora do curriculum, ainda que se distorceram notavelmente durante a execução – como a vila nova de Ceiba da Agua e a vila do Vale do Peru – ou nunca chegaram a se fazer. Um foi o projeto (ou melhor, um manifesto) para Banao, elaborado em 1967 com dois arquitetos importantes, o espanhol Joaquín Rallo e o italiano Roberto Gottardi. Banao propunha critérios muito adiantados, buscando apagar diferenças entre a cidade e o campo, imaginando novas formas muito radicais de vida em relação às mudanças sociais que estavam sucedendo em Cuba. Sugeria a reciclagem e outros assuntos referentes ao equilíbrio ecológico e até se adiantava na doação de órgãos.
Ceiba da Agua seguia a geometria dos vizinhos semeados de cítricos como trama básica para o traçado da vila. Usamos projetos típicos de habitações biplantas aos que somente lhes fazíamos uma mudança: colocar a escada no exterior. Isso aclarava o interior da habitação e dava um ritmo interessante à rua, agora diria que similar (salvando as distancias) às fileiras de brownstones em Manhattan. Mas nos proibiram de tirar a escada porque se apartava do projeto típico aprovado para todo o país.
Algo parecido aconteceu com a vila de Vale do Peru: em resposta à obrigação de montar com gruas os edifícios de grandes painéis de cimento que estávamos obrigados a usar, optamos por levar essa restrição ao extremo e fazer uma vila linear, ao longo de um quebra-mar em frente a um açude represado. Os edifícios se localizavam em filas paralelas e se escalonavam em altura subindo para trás e descendo para os extremos, usando os tetos para descer ao quebra-mar.
Em vez de rejeitar à via, como era usual em todos os projetos de novas comunidades rurais, propomos que ela era precisamente uma das poucas fontes de animação em um lugar isolado, por isso devia incorporar-se à vila. A segurança se garantia com um par de pontes para pedestres para chegar à margem da água por cima da via. Também este projeto ficou desfigurado: os construtores imaginaram que o cimento típico se desperdiçava ao não fazer todos os edifícios de cinco pisos, a quantidade de habitações se reduziu drasticamente de 1050 a 150, não se fez o quebra-mar e se perdeu o conceito de vila linear compacta.
Em 1966, com a participação de Joaquín Rallo e Roberto Gottardi, elaborei o projeto de remodelação da antiga Funerária Caballero em La Rampa para converter-la em uma Casa de Cultura. Foi uma experiência muito interessante. Rallo se aproximava ao desenho com uma rigorosa visão científica, implacavelmente perfeita, que às vezes chegava a parecer-me desumanizada. Roberto lutava para controlar sua criatividade extravasada, muito pessoal, com um sólido andaime teórico gramsciano transferido da filosofia à arquitetura. Foi um estudo muito sério de interiores, com ênfase na cor. Seu tratamento foi muito transgressor; uma homenagem à estética de Os Guarda-chuvas de Cherburgo, com uma festa de magentas, turquesas e verde maça.
Trabalhávamos in situ de forma voluntária, fora do horário normal de trabalho. Poucas semanas depois de sua popular inauguração, se decidiu fechar a instalação devido a um incidente ocorrido no seu interior, com a lógica estreita do conto do marido enganado e sua vingança arremessando o sofá pela janela. O público indesejável que ia ali simplesmente cruzou a rua e se situou na esquina de L e 23.
Integrei uma equipe com Joaquín, Roberto e o venezuelano Fruto Vivas (uma máquina de produzir idéias) em um programa de construção de jardins da infância, uma espécie de mini-círculo infantil, que geralmente se localizavam em espaços verdes da cidade. Fui afortunado em colaborar com esses arquitetos, sendo eu jovem e pouco importante. Quando penso em quanto Rallo influiu em minha formação acadêmica me parece impossível que essa relação durasse menos de cinco anos. Joaquín morreu em 1969 aos 42 anos, exilado em Jagüey Grande para que tomasse contato com a realidade. Havia nascido em Ceuta, onde exilavam aos patriotas cubanos durante as guerras de independência do século XIX.
Num projeto posterior, para a adaptação do antigo Palácio Presidencial para o Museu da Revolução, propus uma grande estéreo-gelosia metálica (era vermelha?), que irrompia desde a fachada do fundo (onde se havia produzido o ataque revolucionário) e atravessava o edifício até sair pela fachada norte. Isso representava o Assalto e as grandes mudanças sucedidas no edifício e no país. Situávamos o iate Granma diante dessa fachada principal, em uma grande fenda escultural no piso para que parecesse ao nível da água, identificada por um espelho de aço inoxidável; e com o mar ao fundo. O projeto não progrediu. O edifício do Palácio ficou intocado, sem referências visíveis externas às mudanças pelas quais passou; e se embalsamou ao Granma em uma gigantesca urna de vidro sem relação com a água.
Sempre me senti atraído pelos projetos de monumentos comemorativos, porque são uma rara oportunidade de integrar a arquitetura com o paisagismo, o desenho urbano, a escultura e – se o resultado é bom – com a poesia. Emilio Escobar, Sonia Domínguez, Armando Hernández e eu desfrutamos muito projetando pelas noites em 1965 e depois construindo o Parque-Monumento dos Mártires Universitários, muito próximo da Colina Universitária onde havíamos estudado nos anos ‘50. Foi o primeiro monumento importante depois de 1959 e seguimos um conceito inovador: em vez de colocar uma escultura no centro de uma praça, formamos a praça com o monumento, que é um muro de concreto que muda de forma segundo o período da historia que alude.
O muro leva formas em baixo relevo, feitas com sacos de juta e papel de bolsas de cimento, tabuas e cordas, fincados por dentro do molde. São representações muito abertas que respeitam ao observador sem tratar de lhes impor um significado concreto. Elas se tornam cada vez menos figurativas à medida que a luta se fazia mais coletiva, e ao final se convertem em texturas que se fundem com a do concreto. Para nós foi muito importante ganhar esse concurso nacional: éramos jovens – ao redor de trinta anos – amigos e companheiros de estudos e na luta contra a ditadura de Batista, que ainda estava recente; e tínhamos ganhado de muitos arquitetos e plásticos bem conhecidos. O monumento em si envelheceu bem apesar da falta de manutenção e de que nunca se completou. Está ali, com uma vida própria que já é independente de seus criadores.
Igualmente desfrutei do projeto do Mausoléu de 13 de Março no cemitério de Colón, também com Emilio Escobar e ganho no concurso no final de 1981. É mais simples, uma grande fileira de bandeiras em aço inoxidável que funciona como um relógio solar, lançando a cada 13 de Março a sombra ao longo de uma franja no piso, onde se marcam as horas. Quando chega às 3:15, hora do Assalto ao Palácio, se pode ascender uma chama nesse ponto para começar a celebração. O piso da pracinha está em paralelepípedos para recordar a luta de rua, e tem uns abobadados que obrigam a caminhar olhando para piso. Ao baixar a cabeça para olhar onde se pisa, se rende assim homenagem às tumbas dos caídos. José Villa, um grande escultor então muito jovem, colaborou na execução das bandeiras.
Outro projeto conseguido que não se executou foi o da Fonte da Juventude, no Passeio e Malecón, apresentado ao concurso em 1978. Trabalhei com Luis Lápidus, Félix Beltrán, Orestes do Castillo, Sergio Ferro e José Planas. Era uma espécie de arvore abstrata de cimento com tiras concêntricas deslocadas que iam girando e ampliando-se de baixo para cima, com a forma da flor de cinco pétalas do Festival. Cada anel levava por fora finas tiras verticais de alumínio oxidado nas colores da Flor, sujeitas de maneira que o ar as fizesse vibrar. Ao estar muito juntas, a luz refletiria a cor, como ocorre com a flor da buganvília –ou ao menos esperávamos isso. A água da fonte devia subir escalonadamente para depois cair como um grande cilindro. Assim pensamos vencer a força do vento nesse lugar, que sempre dispersaria um jorro lançado desde baixo. A estrutura serviria como eixo visual na explanada ao princípio do Passeio, tivesse ou não tivesse água…
Em 1983 tutelei a dois estudantes talentosos, Rosendo Mesías e Juan Luis Morales, que com seu projeto de reabilitação para o Hotel Passagem ganharam o prêmio em Paris da Seção Espanhola da UIA no XI Confronto Internacional de Projetos de Estudantes de Arquitetura. O Hotel Passagem havia ruído tragicamente pouco antes, matando a várias pessoas. O projeto conservava as fachadas neoclássicas, reabilitadas por uma empresa estatal especializada que também assumiu o reforço estrutural e as instalações, até o nível do andar equipado.
O edifício, que no momento do derrube já tinha se convertido em um cortiço, estava muito bem situado; e se propunha destiná-lo a habitações, com células mínimas. Esse trabalho seria feito pelos próprios usuários, com projeto e direção técnica apropriada que o Estado forneceria. O desenho das fachadas para os pátios interiores ficava nas mãos dos próprios usuários. Emilio Escobar e Orestes del Castillo colaboraram na assessoria aos estudantes. O projeto nunca se executou, e em seu lugar se decidiu fazer uma sala de esportes polivalente, cuja cobertura metálica surge impudicamente por cima dos frontões neoclássicos.
O monumento a José Antonio Echeverría em sua cidade natal de Cárdenas foi também convocado em concurso, mas somente para estudantes. Emilio Escobar foi o tutor do projeto que ganhou o concurso, feito por Oscar Guevara, Claudia Baroni, Ileana Pérez Drago e o estudante de escultura do Instituto Superior de Arte, David Placeres. Eu colaborei com Emilio. Na praça em frente à casa natal de José Antonio, o monumento era um grande bloco de mármore com seu retrato cortado em lascas deslocadas, de maneira que a cara só se podia ver desde um ângulo preciso, colocando-se em linha com a casa e o traçado de um caminho no piso, pois José Antonio saiu dali, passou e seguiu para entrar na Historia. Lamentavelmente nunca se executou. A ironia é que se realizaram muitos monumentos sem passar por concursos ou inclusive contra a recomendação da Comissão de Esculturas Monumentais (CODEMA), mas vários premiados legitimamente em concurso ficaram no papel.
Ônibus tracionado por trator no Jardim Botânico de Havana Foto Jupira Corbucci
Roberto Segre: Qual foi sua integração na intensa dinâmica de construções que se levaram a cabo ao longo da década de sessenta e na preparação da safra dos 10 milhões, que implicou na construção de vilas agrícolas e infra-estruturas territoriais.
Mario Coyula: Eu comecei em janeiro de 1959 trabalhando por um par de meses no projeto de Havana do Leste, mas muito cedo passei ao Corpo de Engenheiros do Exército Rebelde, onde participei em projetos de novos pequenos assentamentos rurais. Depois de formado mantive esta atividade delimitando novas vilas rurais e obras agropecuárias em Habitações Campestres do Instituto Nacional da Reforma Agrária, dirigida pelo Capitão José Ricardo Rabel, que desertou pouco depois espetacularmente pilotando um frágil avião. Em 1962 nos encarregaram seguir com o projeto da Cidade Escolar Camilo Cienfuegos, mencionada anteriormente. Em 1963-64 estive à frente de uma Oficina de projetos no Ministério da Construção, onde fizemos vários projetos de indústrias, e depois trabalhei mais de um ano como colaborador da equipe polaca que havia ganhado o Primeiro Prêmio no concurso internacional para o Monumento à Vitória de Praia Girón. Era um grupo muito jovem – exceto o engenheiro estrutural, Wieslaw Szymanski – com Marek Budzynski, Andrzej Mrowiec, Andrzej Domanski e Grazyna Boczewska. Aprendi muito com eles. Nesses anos participamos do concurso de Habitação por Meios Próprios com quatro projetos muito interessantes, cujo primeiro prêmio obteve Mario González e Julio Baladrón. Também estive por um tempo trabalhando com Tony Cintas no projeto de reabilitação do Palácio de Justiça para Palácio da Revolução. Isso incluiu o projeto para adaptar o Palácio do Centro Asturiano como Tribunal Supremo. Eu queria romper a monumentalidade fascistóide da grande fachada da Justiça com uns planos horizontais com vegetação que funcionariam como quebra-sóis; mas a proposta ficou no papel. O trabalho era gigantesco e depois de estar muito tempo pedindo reforços este chegou como uma intervenção: recordo ainda ao prestigioso e poderoso Antonio Quintana entrando em frente de uma grande equipe "em forma", como uma operação militar…
Isso coincidiu com a reação anti-cultural que desatou na Escola de Arquitetura, um decano disfarçado de revolucionário extremista, que com o tempo mudaria seu pouco merecido uniforme verde oliva pelo hábito branco de espírita. Foram eliminadas as matérias de Plástica e Fundamentos do Desenho, nas que trabalhei com Rallo, Gottardi, Emilio Escobar e Rodolfo Fofi Fernández, e nos dispersaram. Do Palácio saí para a JUCEI de Marianao, onde trabalhei como único arquiteto em muitos projetos simples de cafeterías, micro-parques e conjuntos de habitações. O lugar era muito afastado, em La Coronela; e as condições de trabalho muito duras. Recordo uma espécie de trabalho social que fizemos em Las Martinas –o último de Pinar do Río–, justo antes de começar a península de Guanahacabibes, onde somente se escutava a radio mexicana. Ali projetei um pequeno edifício de duas plantas que combinava loja, cabeleireiro e uns poucos quartos para hotel.
Desde 1964 conciliava meu trabalho na produção com o ensino. Em 1969 fui escolhido para viajar por um ano à União Soviética e Polônia com sete docentes mais da então Escola de Arquitetura. Eu nunca havia passado tanto tempo no exterior e houve momentos em que senti muito dura a mordida da nostalgia pelo país e minha família. Um dia me dei conta de que também sentia falta do cheiro do mar. Foi uma experiência interessante, tanto profissional como humana. Descobri que mesmo que na Polônia houvesse muitos bons arquitetos, a arquitetura que se fazia era ruim. Entendi por quê.
Quando regressei em 1970, a Grande Safra dos Dez Milhões estava em seu apogeu. Foi um choque terrível ver Havana paralisada, então me refugiei no campo, no plano cítrico de Ceiba da Agua onde estavam meus companheiros da Administração Regional de Marianao. Assim a vida me pareceu mais suportável. Nesse mesmo ano me nomearam subdiretor da Escola e pouco depois diretor. Tratei de concretizar múltiplas iniciativas sem deixar de dar aulas, o que naquele tempo era raro para um diretor.
Fizemos experimentos como a Unidade Lógica no Quarto Ano que organizei com Roberto Segre e outros professores, onde as matérias se sobrepunham tanto que depois quase não se podiam avaliar individualmente, o que afetava às rígidas estruturas burocráticas vigentes. Também dispersei grupos de alunos e docentes por meio país, fazendo projetos reais que se construíam. Foram anos em que ao ir-me para casa às dez da noite me parecia que estava fazendo algo indevido.
Automóveis em frente das arcadas tradicionais das avenidas do Centro de Havana Foto Jupira Corbucci
Catedral de Havana, século XVIII Foto Jupira Corbucci
Roberto Segre: Nos anos setenta, transcorrida a primeira década do Governo Revolucionário, a experiência cubana despertou grande interesse internacional. Foram convidados prestigiosos especialistas estrangeiros para dar cursos e conferências em Havana: os franceses Courajoud, Borja Huidobro e o prestigiado norte-americano Kevin Lynch. Qual foi sua relação com eles e como influenciaram em seu desenvolvimento?
Mario Coyula: Lynch não foi convidado pela Faculdade e sim pelo Instituto de Planejamento Físico. Mas sentí imediatamente muita afinidade com ele. Era um homem simples, muito humano. Ia direto ao essencial, sem adornos nem complicações desnecessárias. Junto com Jane Jacobs, foram os dois primeiros que nos Estados Unidos questionaram o urbanismo de urbanistas. Tratei de ficar o máximo possível perto dele, e ler todos os seus escritos disponíveis. Recordo que em uma visita a nossa Escola o projeto que mais gostou foi o de Graduação de dois estudantes meus sobre a Avenida 51 em Marianao, um dos primeiros em abordar o paisagismo urbano na Escola, depois de outro em que tínhamos proposto a pedestrealização da Rua Obispo. A ironia é que o tribunal da Escola que julgou o trabalho de Graduação sobre a Avenida 51 só lhe tinha dado a aprovação rasante de três pontos…
Pouco antes de morrer, Lynch respondeu a uns estudantes que lhe pediam recomendações para fazer as coisas bem. E resumiu em quatro pontos: manter tudo o mais simples possível, fazer todas as conexões possíveis –no tempo, no espaço–; criar suportes para o que as pessoas querem fazer… e semear muitas arvores! Se pensar bem, não necessita mais.
Visitei Corajoud e Borja em seu Atelier d’Architecture et d’Urbanisme (AUA) em Paris, aproveitando minha ida a um congresso em Versalles em 1971. Tinha noticias de seus trabalhos e lhes pedi um curso de verão sobre metodologia de desenho e desenho urbano. Vieram esse mesmo ano, junto com Michel Allegret. As pessoas ficaram encantadas com as espetaculares perspectivas de Grenoble-Echirolles desenhadas pelo peruano Enrique (agora Henri) Ciriani, que não veio ao curso, e o entusiasmo de Michel. Comparado com eles, alguns viram Lynch um pouco apagado; e definitivamente desiludiu aos que assistiram esperando receitas.
Olhando para trás, foi um duelo formoso, ainda que nunca competiram na mesma sala nem ao mesmo tempo. Para mim, Lynch era como o velho mestre em artes marciais que já não necessita da força física; Borja e Michel os jovens talentosos e (quem sabe em demasia) apaixonados. Quando Lynch morreu escrevi um texto em sua homenagem. Recebi do MIT uma notificação e um convite de Gary Hack para suas honras fúnebres, que ainda guardo. Nunca voltei a ver a Michel Corajoud, que em 2003 obteve um importante prêmio nacional de urbanismo na França.
Esses cursos de verão foram promovidos pelo então reitor da Universidade de Havana, José Chomí Miyar. Ainda vale dizer que os professores vinham sem cobrar honorários. Outro dos que pude convidar nessa época foi Duccio Turín, especialista em industrialização e normalização e professor da Architectural Association de Londres, um filósofo da construção que contrastava com tantos Neanderthais locais. No pouco tempo que ficou aqui me deu sua visão do país: "vocês têm microplanos, extraplanos, planos especiais… mas o que não têm é um Plano!". Poucos anos depois soube que faleceu num acidente automobilístico. Todas foram influências importantes para mim.
Hotel Havana Livre, ex Havana Hilton. Arquitetos Welton Beckett & Associados, 1958. Mural de Amelia Peláez Foto Jupira Corbucci
Prédios residenciais e de escritórios, do final do século XIX, na frente do Capitólio de Havana Foto Jupira Corbucci
Roberto Segre: A década de setenta se caracterizou pela aplicação de rígidas normas técnicas e econômicas na construção e no urbanismo, assim como a primazia das obras realizadas no interior do país. Como esta política estatal afetou Havana? Qual foi seu papel neste processo ideológico "anti-urbano"?
Mario Coyula: Eu havia trabalhado em vários projetos de novas vilas rurais e tratei de romper com os estereótipos vigentes, sobre tudo buscando mesclar à populaçãopara não fazer novos “engenhos”, aquelas pequenas vilas especializadas que surgiam no meio do campo ao redor dos centrais açucareiros. Buscava a diversidade que sempre falta em comunidades pequenas, e sobre tudo nas planejadas.
Desde 1973 trabalhei como diretor de Arquitetura e Urbanismo da Administração Metropolitana de Havana. Recordo minha conscientização sobre a necessidade de priorizar a manutenção do fundo de habitação em vez de executar novas obras, mas apesar de elaborar informes muito detalhados nunca fui escutado. Houve uma comissão nacional que começou com muito apoio, cujo nome inicial foi "Comissão para a Manutenção e Construção de Habitações". Na segunda reunião mudou a ordem por Construção e Manutenção… e a partir da terceira desapareceu o tema da Manutenção.
Assumi com desconfiança o projeto de remodelação de Cayo Hueso em princípios dos anos ‘70s. Inicialmente não me pareceu negativo ao analisar os planos. Até então não havia dado muita importância ao bairro de Centro Havana, talvez pela herança de minha formação Modernista. Mas quando vi as primeiras torres e paredões, e o que se havia demolido para poder construí-las, compreendi o equívoco desse tipo de intervenção. Um dia, durante uma das muitas reuniões fastidiosas às que devia assistir, me pus a fazer alguns esquemas. Comparei uma quadra de Cayo Hueso com dois edifícios de 20 plantas, um total de 236 apartamentos, e nada mais; com uma quadra com edifícios de 3, 4 e 5 andares alinhados tradicionalmente em relação à rua… e permitiam mais habitações, sem necessidade de elevadores nem de romper com o caráter da trama urbana e o modo de vida tradicional das pessoas. Lutei muito contra os edifícios altos, preparei análises, informes; busquei partidários para unir-se à cruzada. Quando se deteve sua construção tive a ingenuidade de pensar que haviam tido êxito nossos protestos, até que percebi que simplesmente era porque não podiam continuar pelo alto custo das mesmas.
Os enormes recursos empregados nas "Microbrigadas" somente começaram a entrar na área central de Havana nos fins dos anos ‘80 como projetos isolados “tapa buraco”, e muitas vezes pobres em desenho e inclusive violando alinhamentos, como o especulador mais brutal da etapa capitalista. Alamar aloja já quase 100 mil habitantes, mas só têm o teto sobre sua cabeça e alguns serviços básicos; faltam todos os demais componentes que fazem cidade. A cidade não se pode desenhar, nem sequer por talentos fora de serie como Le Corbusier ou Costa e Niemeyer. Precisa-se criar uma trama aberta com umas poucas regras para assegurar a unidade; e depois deixar que se vá completando pouco a pouco e controladamente com programas, estilos e pessoas distintas, para dar variedade. Diziam os gregos que combinando a unidade com a variedade se lograva a harmonia…
RS: Com a declaração de Havana Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1982, se produziu uma mudança de política em relação à capital, acelerando-se as tarefas de recuperação do Centro Histórico. Paralelamente você atuou sobre a cidade pela Direção de Arquitetura do Poder Popular. Quais foram as iniciativas que se levaram a cabo e como conseguiu formar equipes de arquitetos jovens?
MC: Eu atuei pela Direção Provincial de Arquitetura e Urbanismo, (DPAU), e também paralelamente pela Comissão Provincial de Monumentos (CPM) da Cidade de Havana, que presidi desde sua criação em 1978 até 1989. Por um tempo montei na DPAU uma pequena equipe de projetos de restauração de monumentos. Essa equipe passou depois à Oficina do Historiador de Havana e foi o núcleo inicial do poderoso aparato que Eusebio Leal pôde construir depois que demonstrou ser capaz de fazer muito sem nada. Opino que o golpe de efeito mais importante, que deu uma volta à recuperação do centro histórico de Havana Velha, foi quando Leal concentrou esforços na quadra de Obispo entre Oficios e Mercaderes, e a resgatou completa. Muita gente começou a se dar conta do valor desta arquitetura que antes estava coberta pela imundice ou deformada por múltiplos acréscimos. Para a mesma tarefa chegaram a coexistir várias instituições: a Oficina do Historiador, o Centro Nacional de Conservação e Restauração de Monumentos (CENCREM), a Comissão Provincial de Monumentos, a Nacional, o Grupo de Trabalho de Havana Velha, o governo de Havana Velha e o da Cidade… E eram as mesmas caras em todas essas comissões, acumulando títulos nobiliários sem senhorio nem fortuna material.
Na DPAU reuni uma equipe de projeto com bons arquitetos jovens, alguns deles formados em minha oficina da Escola: María Elena Martín, a pioneira; Víctor Marín, Rafael González de la Peñas, Enrique Pupo, Rafael Fornés, Alfredo Ros, Eduardo Luis Rodríguez, Emma Álvarez-Tabío, Ana María González… Fizeram-se muitos projetos interessantes de reanimação urbanística, alguns antológicos como os Quatro Caminhos ou 23 e 12; mas também aproveitamos a curta explosão construtiva dos consultórios médicos de bairro –médico da família – e habitações “tapa buraco” na cidade central no final dos ‘80s para fazer alguns projetos renovadores e trabalhar o tema da inserção contemporânea em contextos históricos valiosos.
A reanimação urbanística, ou paisagismo urbano, era uma escala de trabalho que não havia sido trabalhada até então; no entanto, era vital para ordenar e re-qualificar a cidade com poucos recursos. A cidade se faz mais por pequenos projetos que por grandes planos. Tive a sorte de receber respaldo de dois prefeitos valentes e com farol de milha, Luis Méndez e Oscar Fernández Mell.
Diversos projetos, inclusive melhores, ficaram inconclusos, como o da Praça Vermelha na Calçada de 10 de Outubro ou da Esquina do Maravilhas na Calçada do Cerro. A maioria destes profissionais jovens se afiliou incondicionalmente a um pós-modernismo que lhes critiquei por tardio e pouco apropriado para modestos programas com uma pobre execução, mas lhes dei liberdade de ação, porque não existe nada pior que não te permitam escarmentar em sua própria cabeça.
RS: A atenção outorgada ao centro histórico de Havana para resgatar os monumentos e seu entorno não implicou uma atenção similar em outros bairros da cidade. Se tivesse podido levar a cabo uma ação mais equilibrada que resolvesse algum dos graves problemas que ainda persistem em diferentes áreas urbanas?
MC: Muitos outros bairros da cidade teriam se beneficiado se lhes tivesse concedido a mesma autonomia financeira e liberdade de ação que a do centro histórico de Havana Velha, com todos os perigos que implica a liberdade quanto a caprichos inconsultos. Alguns vêem um escudo para isso, porque a personalidade de Eusebio Leal teve um peso decisivo no êxito dessa empresa, onde pôde combinar o interesse cultural com o econômico. Mas a única maneira de salvar outras zonas importantes da capital é fazer que elas e seus vizinhos possam pagar-se a si mesmos.
Essa independência também é necessária para se elevar acima dos pequenos problemas e misérias que desgastam o dia a dia aos que deveriam se dedicar a perseguir a excelência. O eterno problema é se as instituições se fazem para uma pessoa excepcional, ou se as pessoas adequadas surgem quando fazem falta, e há um contexto que espera por elas. A luta contra a ditadura batistiana esteve cheia de figuras que surgiram como resposta a demandas heróicas, e que em outra situação tivessem talvez vegetado numa vida corriqueira.
De todas as maneiras, uma parte dos recursos que durante bastante tempo o país desfrutou se podia ter dedicado a um trabalho sustentável – e sobre tudo, descentralizado – para consolidar o fundo construído, e especialmente a infra-estrutura. O grande desenvolvimento de Havana no primeiro quarto do século XX se apoiou em uma infra-estrutura flamejante. Mas enterrar dinheiro sob as ruas não é muito gratificante para os que tomam decisões.
Prédios residenciais tradicionais e intervenção moderna, Habana Vieja Foto Jupira Corbucci
Passeio do “Malecón”, quebra-mar de Havana. Prédios do início do século XX e torre de apartamentos dos anos 50 Foto Jupira Corbucci
Roberto Segre: Havana é uma cidade com uma forte personalidade urbana e arquitetônica, possuindo características específicas em cada um de seus bairros: Havana Centro é totalmente diferente de Vedado ou Miramar. No entanto, diversas construções recentes não tiveram em conta sua relação com o contexto. Você considera que se produziram prejuízos irreversíveis e que estas arbitrariedades podem seguir ocorrendo?
Mario Coyula: Naturalmente, essas intervenções prejudicaram, e não vejo uma possibilidade próxima de permitir-nos o luxo de eliminá-las. De todas maneiras, o dano está feito, ainda que talvez semear árvores que as ocultem ajudaria a reduzir seu impacto. O importante é que se detenha o prejuízo, e que se façam algumas novas intervenções boas que sirvam para elevar o nível. Agora a nova construção se faz quase toda com capital estrangeiro e para estrangeiros. Si se trata com inversionistas baratos, com uma clientela barata e contrapartidas cubanas baratas, se termina com edifícios baratos. Nisto também afeta o embargo econômico dos Estados Unidos, que reduz as opções… ainda que talvez nos salve de uma invasão incontrolável de sucata.
RS: A população, ante a carência de habitações, resolveu suas prementes necessidades por seus próprios meios, transgredindo na maioria dos casos, as normas de "decoro" urbano. Que medidas se tomaram para controlar esta situação, e como afetou este processo na qualidade estética da cidade tradicional?
MC: Ainda mais grave que o dano visível produzido por estas obras, é que ajudam a conformar uma mentalidade brutalmente egoísta, no sentido de que tudo vale si se resolve o meu problema; e falo tanto da população como dos organismos estatais. Isso reflete uma crise de valores cívicos, e talvez mais profundo ainda, éticos. O problema é que é necessário dar valor aos valores.
Quando se constrói pouco, como sucedeu desde o desaprume do campo socialista europeu, esse pouco deve ser o melhor possível. O culto à imediatez e à improvisação, o dedicar-se a cumprir metas e diretrizes – ou buscar boas explicações para não fazê-lo – tudo isso se reflexa na cidade. Mas pior que umas poucas obras novas feias, resulta a proliferação descontrolada de distorções de todo tipo na imagem urbana: cercados, barracos, quiosques, choças de guano; portais de taipa, jardins pavimentados ou inclusive cobertos; e esses “puxadinhos” que brotam como galos..
Todos os regulamentos estão escritos, mas deixaram de se impor. O que o violador realmente teme não é a uma multa, mas a que derrubem o que fez. Mas ninguém quer ser o vilão do filme. Não penso que seja possível dar-lhe marcha ré, exceto em bem poucos casos. Foi uma espécie de suicídio. Custa-me encontrar uma quadra no meu Vedado natal onde não haja ao menos uma violação importante.
RS: Você participou em diferentes projetos de intervenção em diferentes áreas da cidade, com equipes internacionais e a participação de alunos da Faculdade de Arquitetura. Qual foi o aporte positivo destes trabalhos de projeto urbano?
MC: O mais importante é abrir a mente à diversidade de enfoques, inclusive os aparentemente mais utópicos. Mas já muita gente aqui nem sequer reage. Vou referir-me somente a estes últimos anos. No CENCREM se expuseram os projetos do grupo "Manifestos", de arquitetos da vanguarda deconstrutivista internacional: Wolf Prix, Eric Owen Moss, Thom Mayne, Carme Pinos, entre outros ilustres. Eles (e eu) pensávamos que se produziria um ardente debate. Não aconteceu nada. Não existe o costume de polemizar. Eu aprendi muito em algumas sessões em 1995 quando esse grupo veio a primeira vez, ainda que as vezes as discussões eram tão sutis que chegaram a exasperar-me. Parece que eu também não estava acostumado… Na realidade, Prix apresentou uma grande maquete em branco, uma linda escultura que refletia sua busca por um vocabulário para poder intervir em uma cidade que não conhecia, como Havana; mas também disse que o que mais necessitava Havana era uma nova infra-estrutura.
Trabalhei com meu amigo Lee Cott em quatro oficinas de desenho urbano na Escola de Arquitetura de Harvard entre 2000 e 2002. Foram muito estimulantes, especialmente quando estive lá como professor visitante, no semestre da primavera de 2002, atuando sobre o Malecón havanês. Fizemos projetos sobre a Frágua Martiana, na margem direita da boca do rio Almendares, e o último foi em La Rampa. Também outro amigo, Jan Wampler, trouxe recentemente duas vezes seus alunos do MIT para trabalhar sobre La Fragua. Participei com outros grupos de Colonia, Darmstadt, Berlín, París La Villette, París Malaquais…
Com Andrés Duany foram feitos vários charrettes sobre Havana: o desenvolvimento de La Puntilla, e as regulamentações para O Vedado e para o Malecón. Raoul Pastrana, professor da Escola de La Villette de París, dirigiu várias oficinas sobre O Cerro. Xabier Eizaguirre, da ETSAB, está desenvolvendo uma pesquisa interessante sobre a morfologia urbana do Vedado. É um acadêmico muito sério, e também um grande amigo. A empatia é decisiva para trabalhar em equipe; é como a mielina, que permite as conexões entre os neurônios.
Mas não aprendo somente olhando às estrelas, mas também com meus alunos cubanos. Não é falsa modéstia, nem demagogia para ganhar-me benevolências. Segue-me surpreendendo ver alunos que em seus primeiros projetos saem com soluções brilhantes, às vezes mais criativas que as que farão depois no quinto ano. Ainda revisando projetos de alunos ruins se pode encontrar ali uma idéia que eles não viram, nem poderão desenvolver ainda que lhes assinale. É triste, no final o que aprende é único, e te pagam por isso.
RS: A criação do Grupo de Desenvolvimento Integral da Capital e a construção da gigantesca maquete de Havana (em escala 1:1000), se justificou no objetivo de criar uma maior consciência do valor da cidade, estético e cultural, tanto para a população como para os dirigentes políticos. Considera-se que esta iniciativa teve êxito? Como você participou nela?
MC: O Grupo foi criado em 1987 para guiar o que se esperava que fosse um desenvolvimento impetuoso da construção em Havana. A crise após a desaparição da União Soviética cortou esses planos, que na realidade penso que não tinham um respaldo econômico real. Era uma equipe muito pequena, muito seleta, dirigida por Gina Rey, que havia estado à frente do Instituto de Planejamento Físico de Havana por muitos anos. Estava também Mario González, que reuniu o primeiro plano diretor de Havana depois de 1959; Mayda Pérez, com uma boa experiência na habitação, e outros especialistas de distintos ramos que foram chegando depois; mas sempre poucos, para poder interagir e chegar a um consenso. Eu fui o subdiretor desde o princípio, e depois diretor de 1999 a 2001.
Desde o primeiro momento pensamos que fazia falta buscar novas formas para enfrentar as necessidades da capital, como o planejamento estratégico e o comunitário; com enfoques sustentáveis, participativos e mais descentralizados, e o emprego de tecnologias brandas. Favorecemos os intercâmbios de experiências com especialistas cubanos e estrangeiros, e os projetos de colaboração com ONG’s para suprir a falta de recursos. Promoveram-se as Oficinas de Transformação Integral do Bairro como uma forma de planejamento de baixo para cima, e se realizaram oficinas, seminários e publicações, incluindo o modesto mas sistemático boletim Carta de Havana.
Esses enfoques não eram conjunturais, somente motivados pela crise econômica; mas conceituais, de fundo. Muitos não o entenderam assim: pensavam que as propostas eram somente mecanismos de defesa para resistir um mau momento, e que tudo voltaria atrás quando a situação melhora-se. Não compreendiam a essência da sustentabilidade, que a crise era na realidade o resultado de uma vulnerabilidade congênita por não ter um modelo de desenvolvimento integralmente sustentável e viável. Compreendo que é muito difícil pensar no futuro quando se está abrumado por problemas enormes sem solução, mas alguém tem que olhar mais adiante. Os vietnamitas enviaram jovens em plena guerra para se preparar para a reconstrução do país, e estão conseguindo, apesar de que foram literalmente arrasados pela maior potência militar da história.
A maquete serviu pare ensaiar sobre ela os novos projetos. Assim puderam se deter algumas intervenções fatais, como a enorme torre de 42 andares na Praça da Revolução, que tragava o obelisco de José Martí e desbalanceava a praça. A alternativa que lhes propusemos foi decompor o programa em vários edifícios mais baixos de 12 ou 13 andares. Isso redistribuía o impacto, ajudava a melhorar a definição espacial de uma praça que sempre pareceu uma clareira, e teria permitido ir explodindo os edifícios à medida que se iam construindo. Também daria tempo para decidir se realmente o programa estava bem fundamentado. Com a desaparição do campo socialista, a planilha do ministério que promovia o edifício reduziu de 5 mil empregados a menos de 300. Outro êxito apoiado na maquete foi quando se conseguiu deter um programa para construir torres em terrenos vazios ao longo do Passeio. Meu argumento era: por que querem Passeio? Porque é uma rua muito bonita. E por que é bonita? Porque quase não existem edifícios altos. Mas é mais fácil usar a maquete para combater um projeto obviamente chocante e ruim, que para promover um bom, pequeno e contextual, que não se faz notar.
A maquete devia servir também para criar consciência nos visitantes cubanos sobre os valores de sua cidade. Mas está localizada em Miramar, um bairro pouco acessível para o havanês médio. Tratou-se de usar os lugares para seminários e conferências, oficinas com crianças de escolas próximas… Uma iniciativa que funcionou são os debates que titulei Havana que Vai Comigo. Cada primeira sexta-feira do mês levo uma personalidade convidada para falar de sua Havana, a que o marcou e acompanha. Já há mais de setenta, e saiu o primeiro livro que recolhe treze inatervenções. É a história não escrita de Havana, uma historia pequena que cresce pela visão do testemunho do convidado.
A maquete é enorme, impactante. A primeira reação de quem a vê é: esta cidade não se pode deixar perder! Falta-lhe um sistema de iluminação mais teatral, mais dramático, que é muito caro. E sobre tudo, que se tivesse localizado num lugar central, como La Rampa.
Faculdade de Arquitetura. Instituto Superior Politécnico “José Antonio Echeverría”, Havana Foto Jupira Corbucci
Casa moderna da década dos anos 50, Vedado, Havana Foto Jupira Corbucci
Roberto Segre: Você combinou persistentemente a ação projetual com a docência, tanto na escala nacional como internacional. Como estas experiências transformaram a teoria urbanística destes últimos anos em Cuba? Quais são as atuais referências externas que se consideram válidas?
Mario Coyula: A combinação de docência e prática me serviu muito, foi uma interação constante. E conhecer enfoques estrangeiros enquanto trabalhava em problemas nossos também foi uma maneira de interagir. Penso que entre as primeiras manifestações dessa interação estiveram os novos princípios para povoados rurais mais diversos e vivos, ainda que não se aplicaram; a crítica ao modelo de habitação social vertical, pensando que existem soluções de baixa altura com alta densidade (teve que esperar quase vinte anos para que a Vila Panamericana as aplicasse…), e a crítica à remodelação urbana traumática, como se havia começado em Cayo Hueso.
A linha de reanimação urbanística entronca em parte com o townscaping de Gordon Cullen e a obra de Lawrence Halprin. As teorias de Kevin Lynch me marcaram, me fizeram ver a cidade de outra maneira, mais humilde, pensando mais nas pessoas que a usam.
Quando conheci a Peter Calthorpe e Andrés Duany simpatizei de inicio com as propostas do New Urbanism. Penso que a idéia central de Duany é o papel conformador de cidade que têm os regulamentos, e compartilho. Mas sigo pensando que as cidades não se podem desenhar nem construir de uma vez: precisa-se deixar uma margem para a diversidade (natural, não procurada), e isso lhe dá o tempo e as pessoas. Nosso provincianismo nos leva a recusar com suspeitas o que vem de fora, ou todo o contrário, aceitá-lo sem questionamento. Segue sendo válida a frase de Máximo Gómez quando definiu aos cubanos: sempre passam ou ficam curtos. Mas se o New Urbanism nos Estados Unidos busca reinventar a pequena cidade perdida, nós somente temos que conservá-la.
RS: Nos anos 90 se permitiram inversões estrangeiras na cidade para construir hotéis, escritórios, habitações. Que conseqüências, positivas ou negativas tiveram as novas obras para a cidade?
MC: Me parece que já respondi isso antes. Para mim o mais triste foi ver a atitude subalterna em alguns arquitetos, aceitando as coisas ridículas que lhes pedia o investidor estrangeiro, más reproduções da pior arquitetura comercial de Miami. Um caso limite foi a resposta encontrada por um arquiteto cubano ao requerimento de um importante promotor imobiliário que pediu uma arquitetura para seus edifícios que fora neoclássica, mediterrânea e colonial cubana. A solução foi como uma salada de sorvetes com três sabores: os primeiros andares neoclássicos (?), os do meio "mediterrâneos"… e os últimos coloniais, com arcos e vitrais coloridos (!). Ouvi dizer que esse arquiteto recentemente se foi de Cuba: me imagino que buscando beber diretamente em sua fonte de inspiração.
RS: Em Miami existem grupos de estudos sobre Havana, tentando prever e definir as conseqüências de futuras transformações econômicas, funcionais e morfológicas da cidade. Existe uma vinculação e um diálogo entre os especialistas de ambas cidades preocupados com os problemas presentes e futuros?
MC: Penso que é necessário diferenciar a atitude de Duany e sua equipe, abertos ao diálogo, a transmitir-nos suas experiências sem querer impor; e compará-la com a de outros, que fecham de inicio toda possibilidade de colaboração com Cuba, exceto com indivíduos sem vínculos institucionais. Não sei como conseguirão, em um país onde quase a totalidade dos arquitetos e urbanistas trabalham para o Estado.. Duvido de sua capacidade de pensar sobre uma cidade que não pisaram em 45 anos. Quando se vê aos que patrocinam algumas dessas iniciativas, se da conta que não é um interesse cultural nem patriótico, mas especulativo, colocando-se adiante na fila para quando chegue a partilha.
Chama-me a atenção que alguns que lá expressam escrúpulos por envolver-se com uma ditadura, no entanto, colaboraram alegremente com a de Batista, quando os cadáveres de jovens assassinados eram lançados à rua como advertência. Vejo uma espécie de fanatismo parecido aos autos de fé e aos expedientes de limpeza de sangue, quando se havia que demonstrar que não se tinha antepassados judeus ou mouros. Para esse tipo de exílio fundamentalista, os únicos limpos seriam os “batistianos”. Compreendo o ressentimento, e o que passou de ambas partes; mas assim não se chega a nada estável, bom para todos.
Mas também há outros em Miami que se preocupam honradamente para que não se repitam aqui os erros que se cometeram lá e em outras cidades dos Estados Unidos e outras partes do mundo. Lamentavelmente, existem importantes cidades asiáticas onde o desenvolvimento se identifica com copiar o pior do Ocidente; ou o que já não querem mais lá onde o inventaram; e o confundem com progresso. Repete-se o engano dos Conquistadores, trocando com os aborígines espelhinhos por pedras de ouro. Não é somente em Miami onde se pensa no futuro de Cuba. Há muitos urbanistas americanos, europeus e latino-americanos preocupados pela macdonaldização de nosso patrimônio.
Um deles, Jeff Horowitz, fez uma montagem digitalizada sobre o Malecón, cheio de anúncios, Pizza Huts, Burger Kings, GAPs e no estilo. Sinistro. As novas restrições às relações acadêmicas e inclusive familiares que a Administração Bush aprovou este ano paralisaram essa iniciativa de Urbanists International. Igual sucede com as oficinas de desenho que vínhamos realizando sobre Havana com universidades dos EEUU, e as viagens de acadêmicos cubanos para dar conferências ou cursos lá. Agora todos recebemos um modelo impresso dizendo que nosso visto viria em detrimento dos interesses dos Estados Unidos. Que alguém – ainda que seja um burocrata – me considere perigoso aos 69 anos é quase uma lisonja, mas teria preferido que fosse uma linda mulher.
RS: Qual é sua visão dos principais problemas que têm Havana atualmente e que meios reais existem para resolvê-los?
MC: É difícil pensar em problemas principais, porque são muitos e estão entrelaçados. Na essência, todos dependem da economia e dos mecanismos de gestão. Já tinha dito que é necessário fortalecer a economia em todos os níveis. Não se pode pensar em melhorar a economia macro se não melhora ao mesmo tempo a das cidades, dos bairros e das pessoas. E o problema da economia dupla, em pesos e em dólares, não parece ter solução em curto prazo. A recente substituição do dólar dos Estados Unidos pelo peso conversível cubano, aos efeitos internos somente muda a cor da nota. Essa dualidade está gerando desigualdades evidentes que não existiam, e por sua vez se reflete em formas de vida e até tendências estéticas mutantes que mudam a imagem da cidade.
Indiretamente, influi também num aumento da segregação racial. Parece que menos negros estão chegando aos estudos superiores. Ainda que a matrícula seja gratuita, estudar uma carreira –sobre tudo Arquitetura – requer cada vez mais apoio econômico da família; e os muito pobres não podem afrontá-lo. Claro que existe um sistema de bolsas de estudo e ajudas, mas a realidade é que para um jovem negro que vive em um tugúrio, tudo resulta mais difícil. Paradoxalmente, a Lei de Reforma Urbana de 1960 arraigou a cada qual onde vivia, e a única mobilidade possível é por permutas, já que a construção de novas habitações para a população está de fato paralisada. O que teve a desgraça de nascer em um bairro pobre e habitar numa sub-moradia, é muito possível que arraste esse problema toda a vida. O governo se preocupou por dar estudo e emprego a jovens que não estavam trabalhando nem estudando, e garante o salário aos trabalhadores das centrais açucareiras que fecharam – a metade delas – mas isso é uma carga a mais sobre uma economia colapsada.
A indisciplina cidadã cresce e pode implicar também no futuro em outro problema pior de segurança pública. Já tinha mencionado antes como essa indisciplina empobrece a imagem da cidade e anula esforços para melhorá-la. É necessário conseguir uma participação efetiva da população desde etapas iniciais na tomada de decisões, não depois que as decisões já foram tomadas. Ainda há que avançar muito aqui, e usar melhor a capacidade de mobilizar a população; isso têm que ser através de tarefas que sintam como suas.
A alimentação adequada segue sendo um problema sério, especialmente para os aposentados e os de ingressos mais baixos, o que com freqüência coincide com quem não recebe moeda estrangeira. Sucede que a maioria dos que se foram definitivamente ao exterior eram brancos, e enviam (ou enviavam) dinheiro a seus familiares em Cuba, também brancos. A agricultura urbana teve muito desenvolvimento, cria empregos e evita deslocamentos longínquos. Mas se tem que evitar que se use água do aqueduto para regar, e proteger às plantações –sobre tudo aos vegetais de folha – dos resíduos tóxicos liberados por veículos que passam próximos.
A infra-estrutura da capital está destroçada. O aqueduto necessita uma reconstrução para evitar a perda de quase a metade da água antes de que chegue às casas, mas isso também sucede em Washington DC. Ademais, é necessário melhorar a qualidade da água potável. O esgoto de Havana data de 1913, desenhado para 600 mil habitantes (o dobro da população de então), e a cidade tem agora 2,18 milhões. Os efluentes se lançam crus à Corrente do Golfo. As ruas são quase intransitáveis, exceto as vias por onde circulam ônibus. Isso, unido ao calor, à falta de peças, aos acidentes e ao aumento de veículos nas ruas, fez retroceder o uso massivo da bicicleta, que teve um crescimento espetacular em meados dos anos 90.
Um problema muito sério é a energia elétrica. Cuba depende exclusivamente de geração termoelétrica usando petróleo, que vinha quase todo da URSS. Uma vitória importante da Indústria Básica foi aumentar a produção nacional em mais de cinco vezes, até 4 milhões de toneladas de petróleo e equivalente em gás acompanhante. A eletricidade se gera totalmente com petróleo bruto cubano, mas é um petróleo muito pesado e ao parecer agressivo com as turbinas. É possível que o fechamento da metade das centrais açucareiras tenha influído também, porque muitos se auto-abasteciam energeticamente queimando o bagaço da cana, e serviam à população ao redor. Em mediados de 2004 se produziu uma crise muito séria que terminou na destituição do ministro do ramo correspondente.
O transporte público se apóia no ônibus Diesel e no invento crioulo do "camelo", enorme transporte de perfil corcovado onde se compactam 220 pessoas. Existe um círculo vicioso: como o transporte público é tão deficiente, existem mais ônibus próprios de organismos estatais que os de serviço para toda a população. O paradoxo é que estamos na situação ideal para desenvolver um bom transporte público massivo que dissuada o uso de automóveis individuais; mas a realidade é que cada ano cresce o número de automóveis. Vêem-se menos automóveis americanos dos ‘50s, quase todos convertidos em táxis com motores Diesel muito contaminantes, os chamados "amendoeiros"; e também menos automóveis soviéticos que haviam começado a substituir. Agora, sobre tudo na zona privilegiada do oeste, onde se concentram as empresas estrangeiras ou mistas que operam em divisas, se vêem cada vez mais automóveis japoneses, sul-coreanos e franceses, cruzando com o Lada resplandecente de vidros forrados em preto e música disco ensurdecedora dos "macetas" (novos ricos).
A habitação é um velho problema. O Estado fez esforços por atendê-la, mas se apoiando sempre na construção massiva de novos conjuntos de edifícios multifamiliares verticais. As "Microbrigadas" foram uma experiência interessante de esforço próprio com forte ajuda estatal, mas com o inconveniente de que os construtores não sabiam construir, e quando aprendiam já haviam terminado seu edifício. De fato, as "Microbrigadas" se paralisaram com o período especial depois da desaparição da URSS. Apesar dos infinitos debates, não se pôde implantar o conceito de habitação em crescimento, porque depende de que o interessado possa comprar facilmente os materiais para crescer no momento em que possa e queira.
A manutenção do fundo existente sempre foi sub-valorizada pela prioridade dada à nova construção. Outros programas de construção de obras sociais –hospitais, escolas; e num tempo industrias – tiveram maior atenção que a habitação. Fica no ar o fantasma de como resistirá Havana à passagem de um grande furacão como o Iván de setembro passado (2004), com ventos de mais de 300 quilômetros por hora. O paradoxo é que a vida nesta ilha depende em grande parte da água que deixam os ciclones; e a habitação ideal para todo o ano, com grandes beirais e aberta à brisa por todas partes, é a que pior se comporta ante um grande furacão. Nunca se pode ter tudo.
Prédio de apartamentos, década dos anos 50. Vedado, Havana Foto Jupira Corbucci
Vista geral de Havana Foto Jupira Corbucci
Mario Coyula
Mario Coyula é arquitcto, urbanista e vice-presidente do Grupo de Desarrollo Integral de la Capital – GDIC, de Havana, Cuba.
Roberto Segre
Arquiteto e crítico de arquitetura, formado em Buenos Aires, exerceu a docência em Havana e é atualmente professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Entrevista
A presente entrevista foi realizada durante os meses de outubro e novembro de 2004 e foi publicada no website argentino Café de las Ciudades, dirigido por Marcelo Corti, em duas partes: nº 32, jun. 2005 <www.cafedelasciudades.com.ar/arquitectura_32.htm>; e nº 33, jun. 2005 <www.cafedelasciudades.com.ar/arquitectura_33.htm>. Foi publicada de forma parcial na revista Ciudad y Territorio. Estudios Territoriales – CyTET, n° 143, Ministério da Habitação da Espanha, Madri, inverno, 2005. A entrevista entrou no ar em Vitruvius em abril de 2006.
Tradução
A tradução para o português é de Ivana Barossi Garcia
Bibliografia de Mario Coyula
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