português Com larga experiência docente e profissional na área de urbanismo, o professor José Cláudio Gomes fala sobre suas experiências e idéias sobre o urbanismo contemporâneo
english With extensive experience teaching and working in the area of urban planning, Professor José Cláudio Gomes talks about his experiences and ideas on contemporary urbanism
español Con larga experiencias docente y profesional en el área del urbanismo, el profesor José Claudio Gómes habla sobre sus experiencias e ideas sobre el urbanismo contemporáneo
Entrevista com o arquiteto e urbanista José Cláudio Gomes Por Adalberto da Silva Retto Júnior, Norma Regina Truppel Constantino e Marta Enokibara
Esta entrevista com o arquiteto e urbanista José Cláudio Gomes, juntamente com as entrevistas de Jean-Louis Cohen (França), Christiane Crasemann Collins (Estados Unidos), Bernardo Secchi e Paola Viganò (Itália), Andreas Hofer (Áustria) e outras que virão, tencionam compor um importante mosaico sobre o corpus disciplinar do Desenho Urbano.
A idéia de realizá-las surgiu a partir de discussões levadas pelo Grupo de Pesquisa em Sistemas Integrados Territoriais e Urbanos – SITU, da Unesp de Bauru, e de ilustres convidados que, gentilmente, colaboram na construção de um itinerário de pesquisa.
Neste percurso, temos a declarada ambição de individualizar elementos úteis à construção da autonomia disciplinar com a convicção que a verdadeira interdisciplinaridade é possível somente quando uma disciplina goza de uma plena consciência de si.
A pesquisa parte de uma leitura simultânea das reflexões teóricas e das práticas de Planos Urbanísticos tendo por base a hipótese de que questões teóricas formuladas em um lugar, em determinadas circunstâncias e com determinadas raízes culturais, podem ter intérpretes em todos os lugares como sinal não somente de uma circulação das informações característica de nosso tempo, mas de que a própria disciplina possa encontrar elementos fundantes autônomos em diferentes nacionalidades.
A parte nodal da nossa reflexão está relacionada ao recente debate sobre a autonomia e a identidade do urbanismo, onde emerge o uso das mesmas locuções da arquitetura urbana ou projeto urbano, que testemunha não somente a substancial incompreensão das experiências internacionais vistas na sua amplitude, mas também a dificuldade de construir um claro quadro teórico e de encontrar novos instrumentos de planificação.
Projeto “Bauru Centro Novo
Adalberto Retto Jr, Norma Constantino e Marta Enokibara: Para alguns teóricos, os anos do pós-guerra inauguraram uma escala diferenciada no tratamento à cidade. Gideon, por exemplo, reconhece três estágios na arquitetura, num percurso reflexivo sobre arte e coletividade iniciada em Bridgewater (CIAM 1947) e Bérgamo (CIAM 1949): um primeiro, no qual a atenção se volta à organização da célula e os arquitetos experimentam uma nova espacialidade em projetos de conjuntos isolados; um segundo, em que o tema se relaciona com a necessidade de uma maior articulação do projeto e das agregações de casas e de blocos de habitação, com um renovado interesse para a planificação; e um terceiro, que levaria os arquitetos a repensar o tema do centro comunitário, do centro cívico, questões centrais na reflexão dos anos de 1950. Dentro deste contexto, quais os projetos no Brasil, que seriam representativos desta alteração de escala na resolução da cidade?
José Cláudio Gomes: Em primeiro lugar, a célula individual: projetos de habitação monofamiliar geralmente para classe média elaborados pela primeira geração dos modernos (Artigas, Niemeyer, Lúcio Costa, etc). Como exemplo, poderíamos citar: agregação de blocos construídos – planificação; projetos elaborados no período SERFHAU – Serviço Federal de Habitação e Urbanismo – a partir de 1967, período inicial dos Planos Diretores; política habitacional do governo federal, com empresas habitacionais como COHAB, INCOOPs, etc; projetos diversos de Affonso Eduardo Reidy; M. M. Roberto, etc. Em segundo lugar, o centro cívico ou comunitário. Podemos citar Brasília e os projetos apresentados no Concurso de 1957; projetos de Prestes Maia para o Centro de São Paulo, de 1930; planos para o Rio de Janeiro, como a Cidade Universitária de Lúcio Costa e o Plano Agache, de 1926-1930; alguns projetos elaborados no quadro dos Planos Diretores por mim para Valparaíso, Garça, Guarujá, Ilhéus, Matão, etc.
A, N e M: A partir da leitura de textos de Saverio Muratori, Carlo Aymonino, Aldo Rossi e Gianfracesco Caniggia, emergem em diversos países nuances e implicações operativas baseadas na teoria tipo-morfológica. Na França, por exemplo, embasou o nascimento de um espaço específico da análise urbana capaz de dar uma nova vitalidade à prática da arquitetura e do urbanismo. Nesta retomada às pesquisas sobre tipologia edilícia e a morfologia urbana, alguns franceses apresentam contribuições originais atinentes à relação da cidade com o ambiente natural e o lugar recuperando a sólida tradição nacional de estudos de geografia urbana (P. George, G. Etienne, etc). Por outro lado, surgem numerosas polêmicas sobre a validade científica da teoria tipo-morfológica, abrindo-se para novos conceitos relativos à “arquitetura urbana”, à “composição urbana”, ao “projeto urbano”. Qual a contribuição brasileira sobre o debate do projeto urbano?
JCG: Desconheço “debate” sobre este tema. Talvez tenha havido algum debate “intramuros” na Academia. Eu mesmo conduzi, no âmbito da Pós-Graduação, na FAU USP, na década de 1980, disciplina e seminários com este nome e conteúdo (Projetos Urbanos). Entretanto, trata-se de iniciativa isolada que não teve desdobramentos.
Planta geral do projeto “Bauru Centro Novo
Planta geral do projeto “Bauru Centro Novo
Adalberto Retto Jr, Norma Constantino e Marta Enokibara: Alguns especialistas colocam o congresso internacional organizado pelo DAU, do Ministère de l’Équipement, du Logement et dês Transports, em Strasburgo em setembro de 1992, intitulado, Projet Urbain’92 – de l’intention à réalisation, como prova daquilo que aconteceu no primeiro qüinqüênio dos anos 90 e dos equívocos engendrados pelo uso maciço da expressão "projeto urbano".
O Projeto Urbano, conforme escrito na brochura de apresentação do congresso, "se transforma no meio para lutar contra a cidade explodida preparando-a para acolher progressivamente programas e arquiteturas". O projeto urbano é também uma maneira de lutar contra a cidade que exclui, a cidade do “zoneamento”. "É a tentativa de obter a complexidade urbana, trabalhando sobre a totalidade do território urbano com a mesma profundidade, ou com uma maior complexidade, para os bairros e as populações em dificuldade. É um outro modo de fazer a cidade ou de não deixar que se desfaça sob pequenas operações esparsas ou incoerentes”.
Na França, na primeira metade dos anos 90, se desenvolve um debate que, de qualquer modo, retoma aquele sobre plano/projeto que aconteceu no decênio precedente na Itália, com diversos questionamentos: para que serve a noção de projeto urbano? Trata-se de arquitetura da cidade ou de arquitetura na cidade? De um projeto de plano urbano, de um plano de controle morfológico da arquitetura na cidade, da interface cidade-arquitetura? De projeto de arquitetura urbana, de mega-estrutura urbana ou de mega-projeto arquitetônico?
E no seu ponto de vista?
José Cláudio Gomes: O modo como é apresentada a formulação da pergunta vincula a noção à problemática de países centrais que não é a mesma de países periféricos. Só recentemente o Brasil vem se constituindo em país urbano, mas de extraordinária desigualdade social que todos conhecem. Neste sentido, qualquer que seja a noção de “projeto urbano” deve, obrigatoriamente, ser entendida dentro daquelas condições históricas que nos são próprias. Isto é, devemos na verdade indagar qual a noção de projeto urbano que nos convém e não a que França, Espanha Itália, etc buscam.
Creio que “projeto urbano” no Brasil será qualquer projeto que leve em conta condições básicas e elementares de cidadania e civilidade a começar pelo mais elementar nível de equipamentação material e estruturação do espaço de um país que se constrói.
Projeto Urbano, aqui, não terá a conotação estetizante de linguagem formal dos países centrais, mas o significado mais básico de projeto de espaço dotado de uma “qualidade” urbana onde a população se reconheça e se aproprie. Neste sentido, creio que o projeto urbano tem a ver antes com uma certa “qualidade” do espaço da cidade do que com a simples funcionalidade material.
Croquis
Adalberto Retto Jr, Norma Constantino e Marta Enokibara: O senhor fez parte da equipe que ganhou o segundo lugar no concurso do Museu George Pompidou (coordenação de Paulo Mendes da Rocha). Vale ressaltar que, o referido concurso tornou-se paradigmático na história da arquitetura e do urbanismo no tratamento relativo à cidade, mas também pelo fato de deslocar o centro do debate do âmbito disciplinar àquele político:
1 – Após um qüinqüênio de sombra, tem-se uma mudança na política urbanística com conseqüente descentralização que é operada na França a partir de 1985. O projeto urbano na sua expressão “mediatizada” é transformado, em um dos principais recursos políticos com os quais se mediaram e se confrontaram a esquerda e a direita de Mitterand e Chirac, a todos os administradores das cidades francesas. Esta nova situação política-administrativa aponta a necessidade de que os novos instrumentos de intervenção na cidade e no território apresentem características diversas com respeito àquelas produzidas nas décadas precedentes.
2 – A questão não se relaciona somente aos instrumentos, mas a todo aparato teórico que está a montante: isto é, a necessidade de dar frente à nova situação, de criar uma cultura do projeto urbano entre os técnicos, mas também entre os políticos e os administradores, que levaria seu aprofundamento epistemológico.
Essa nova situação, que leva em conta a experiência dos Grands Projets, também se baseia na afirmação de uma prática de intervenções sobre a cidade respaldadas nas suas características contextuais.
Concomitantemente, explodiu uma grande polêmica: Bernard Huet e Antoine Grumbach naquela ocasião alardearam: “Nos encontramos em uma época de arquitetura-espetáculo com finalidade eleitoreira”, afirmava o primeiro. “As cidade e o Estado levam adiante uma política feita por colecionadores de belos objetos. Ora, o projeto urbano é exatamente o oposto”. O projeto urbano “não é um projeto de design”, – argumentava o segundo – “não tem implicações somente pontuais, mas é urbanismo, deve se inserir em um quadro de definições da cidade no seu complexo como espaço físico em que vive uma comunidade”. Judith Rueff ressalta que “diferente de uma obra de arquitetura, o projeto urbano não pode existir se não produzir contexto ou, em outras palavras, se não produzir tecido urbano. (...) O que é fundamental, é a ação de transformação e de criação do espaço urbano”.
Qual a resposta dada pelo projeto da sua equipe e qual o diferencial da equipe vencedora de Rogers & Piano?
José Cláudio Gomes: O projeto Rogers-Piano é uma grande operação de marketing cultural que inaugura um novo ciclo da política cultural nos países centrais (e periféricos...). Bilbao, Guggenheim Rio, etc. O projeto de Paulo Mendes da Rocha pretendeu oferecer à antiguíssima cidade de Paris a resposta de como uma jovem nação de arquitetos constrói o espaço no centro do velho Marais. Muito mais do que simplesmente responder aos óbvios requisitos funcionais do programa do Concurso, o projeto cuidou de ensinar à cidade de Paris como se constrói uma nova espacialidade de congraçamento, civilidade e urbanidade usando, sem exibicionismos nem malabarismos, da melhor tecnologia e sistema construtivo. A análise cuidadosa do projeto PMRocha revela uma evidente carga didática e pedagógica na maneira como, por exemplo, ensina a redesenhar as ruas do Marais, cruzando por sobre os jardins da biblioteca propostos 6 metros abaixo do chão de Paris, etc, etc.
Estudos
Adalberto Retto Jr, Norma Constantino e Marta Enokibara: Em São Paulo, no memorial do Concurso Público Nacional para Elaboração de Plano de Reurbanização do Vale do Anhangabaú (1981), aparece uma nova direção no tratamento do espaço público: o desenho do vazio, dos espaços abertos, cada um dos quais é tratado como material específico da construção da cidade e do território e a cada um é dada a tarefa de reabilitar o espaço da cidade contemporânea, propondo inovações espaciais.
Algumas décadas depois, no seu projeto “Bauru Centro Novo”, o senhor ao mesmo tempo que trabalha a escala do centro cívico, propõe a Mixitè, isto é, um programa para o espaço aberto constando de edifícios públicos, serviços e também a habitação: constrói o tecido urbano numa esplanada árida articulando a cisão histórica feita pela ferrovia. É verdade que suas proposições se inserem na reabilitação dos centros, problemática que se alastra em muitas cidades de porte médio do oeste paulista. Entretanto, no mesmo período o senhor propõe o projeto para o Largo da Batata, em São Paulo. Qual a diferença escalar ao trabalhar o centro da cidade de porte médio e a metrópole congestionada? Qual a forma de tratar o fragmento?
José Cláudio Gomes: Mais do que uma diferença escalar trata-se de uma diferença de contexto ou situação. Bauru é um contexto que se constrói: um centro monofuncional afogado pelo comércio varejista, popular e escritórios, carente de habitação permanente, enfim, um conjunto que requer intervenção de construção do centro de uma cidade em expansão e crescimento: de uma cidade que já é um centro regional.
Largo da bata em Pinheiros: contexto de uma área metropolitana que se normaliza; saturação do espaço construído; estabilização do crescimento demográfico; diferenciação funcional da base econômica e industrial para serviços, etc.
Neste sentido, diferentes contextos problemáticos requerem projetos diferenciados. No caso de Bauru trata-se de superar o escândalo urbano de um enorme pátio ferroviário decadente, degradado e obsoleto... Daí a proposta de atender à necessidade de expandir as atividades centrais pelo adensamento do uso, diversificação funcional e espacial incorporando a enorme área do obsoleto pátio ferroviário a um novo desenho do centro da cidade. Atenção para a generalidade deste problema, que ocorre em grande número de cidades do oeste paulista (Agudos, inclusive...).
No caso do Largo da Batata (trabalho inacabado conduzido, há muitos anos no quadro de modesta disciplina de pós-graduação da FAU USP, tratava-se de investigar um fragmento urbano que, no contexto metropolitano, não seria mais do que pontual. Aqui, à sua natureza de novo centro de articulação viária, era no seu conjunto, mero fragmento secundário no interior da imensidão metropolitana. A intervenção, portanto, indicava a necessidade de abrir o espaço, desadensando espacialmente e devolvendo o chão do Largo ao pedestre.
Certamente os pressupostos mais gerais, em ambos os casos são os mesmos: requalificar espaços degradados devolvendo-os ao uso coletivo, construindo-os “ex-novo” em Bauru, reconstruindo-os, no Largo da Batata. Desenhos, num e noutro caso, específicos e diferenciados: processos históricos diferenciados, linguagens formais específicas, etc.
Mapa do Estado de São Paulo desenhado por Cláudio Gomes
Adalberto Retto Jr, Norma Constantino e Marta Enokibara: Relembrando suas palestras e aulas, o senhor insiste na experiência do espaço cotidiano para a compreensão da forma e da dinâmica urbana, relatando uma experiência empírica e, às vezes, corporal com a cidade. Qual o limite entre análise e projeto? Conte-nos sobre a pesquisa desenvolvida pelo senhor na cidade de Diamantina.
José Cláudio Gomes: Este é o nó cego das teorias do século passado. Análises e discursos analíticos primorosos que conduzem a propostas sinistras e aterradoras... É o caso dos pós-modernos, entre outros, Rossi, Portoghesi, Jencks, Krier, Moore, Graves, Venturi, etc. e etc., onde a miopia e grosseira falta de sensibilidade e delicadeza no trato da articulação análise/projeto leva-os a verdadeiras monstruosidades projetuais. No entanto... a teoria é insuperável...
Ora, a articulação análise-projeto nunca é linear e direta como supõem os epígonos da tipo-morfologia, cujos seguidores na academia sempre se encarregam de reduzir, instrumentalizar, empobrecer e apequenar a teoria. É que a análise deve se dar sempre por aproximações progressivas ao projeto. Na verdade, todo projeto já se acha inscrito nas entrelinhas da análise. Esta se inicia pela observação atenta e cuidadosa do “desenho” do espaço real (contexto), passa, a seguir, a revelar a “forma” até chegar à síntese da “estrutura” básica do ambiente onde se inserirá o projeto. Este é o momento analítico: revelar a estrutura histórica de uma situação existente.
Ai começa o projeto: revelar a futura estrutura de uma situação desejável. Entre o momento da análise e o momento do projeto, que é o movimento que vai do existente ao desejável, situa-se a gênese do projeto, instante mágico e raro, sempre delicado e problemático.
A, N e M: Sobre Diamantina?
JCG: O objetivo da pesquisa, em andamento, em Diamantina (MG) é investigar a arquitetura de uma cidade setecentista do ciclo do ouro em Minas gerais adotando como estudo de caso o antigo Arraial do Tejuco, atual cidade Diamantina (MG). Para tanto, algumas providências preliminares foram necessárias: um mergulho na história e cultura do século XVIII do ciclo do ouro e do diamante nas Minas gerais, concomitantemente com o corpo a corpo com o espaço real da cidade.
O caso do Tejuco foi escolhido devido à sua excepcionalidade histórica no quadro do ciclo do ouro em Minas Gerais mas, “metodologicamente” poderia ter sido qualquer outro núcleo urbano adotado para análise.
O objetivo do ensaio é verificar como se deu a constituição da forma urbana, o vocabulário, a gramática e a sintaxe num contexto de grande significado histórico e estético ainda milagrosamente preservado. Enfim, trata-se de desvendar “da arquitetura da cidade”: nem a arquitetura do edifício isolado nem a totalidade da problemática urbana dos “urbanistas”.
Considerando o fato do espaço urbano do antigo Tejuco ainda se encontrar bastante bem preservado fisicamente mas, principalmente, considerando a “qualidade” específica deste espaço urbano – mais para o Rococó que para o Barroco Clássico – escolheu-se o Arraial do Tejuco para análise.
Finalmente, o ensaio trata, especificamente, da arquitetura “da” cidade através de uma leitura direta e sem intermediários do espaço, como um “texto” urbano. Nem a história urbana, nem a arqueologia urbana. Arquitetura, simplesmente.
Mapa de Bauru desenhado por Cláudio Gomes
Croquis do projeto “Bauru Centro Novo”
Adalberto Retto Jr, Norma Constantino e Marta Enokibara: Em sua recente conferência no workshop organizado pelo grupo SITU com a participação do urbanista italiano Bernardo Secchi, o senhor propôs algumas chaves de leituras para as cidades “em traçado hipodâmico“, que proliferaram com o avanço do cultivo do café no oeste paulista e que foram alvo de estudos aprofundados do geógrafo Pierre Monbeig (1984). Manfredo Tafuri (1998), analisando a formação das cidades americanas, afirma que a própria natureza da indústria ferroviária propicia, no entorno de cada estação, um acelerado esquema de valorização das terras assegurando excepcionais dividendos para o assentamento do “inteiro sistema”, que se estenderia à escala regional. Assim, cada estação que se transforma no núcleo de um colossal processo de usufruto de áreas estabelece uma outra dinâmica na cidade por meio de um rígido esquema espacial que, sem variação, é destinado a ser reproduzido, tendo por base os parâmetros econômicos. Seguindo tal lógica, sua forma de análise parte do esquema original de formação, ou melhor, do sistema ferroviário, e estabelece alguns critérios que apesar de ressaltar os pontos de homogeneidade não perde as particularidades de cada ponto. O senhor poderia discorrer sobre seus estudos sobre estas cidades?
José Cláudio Gomes: A análise da cidade – de qualquer cidade – Agudos, Diamantina, etc, ou fragmento de cidade, Largo da batata, Bauru Centro Novo, etc, busca sempre, preliminarmente, compreender o processo histórico do contexto regional mais amplo. Neste momento comparecem as disciplinas da história regional; do âmbito paisagístico mais amplo; das redes urbanas; da mobilidade e infraestrutura do território. Neste momento há que se compreender o processo histórico na sua formação territorial.
Este primeiro momento de análise é balizado por dois âmbitos problemáticos: a) pela dimensão histórica; e b) pela dimensão estrutural onde o objeto de análise é sempre matrizado pelo “espaço”.
Somente após esta abordagem histórica-estrutural à escala territorial será possível compreender as escalas menores da cidade (ou do fragmento em estudo) onde então comparecem as disciplinas da história da cidade; a paisagem natural ou construída (o sítio); as tipologias edificadas; os tecidos urbanos; os pontos fixos e as áreas homogêneas; as permanências e transformações, etc.
Finalmente, operativamente a análise procede da dimensão mais objetiva e concreta, que é o “desenho” do contexto em questão, para o desvelamento da sua “forma” e revelação da sua “estrutura” conceitual básica. Em resumo:
2 âmbitos problemáticos = história e estrutura
3 âmbitos escalares = região – o urbano – o fragmento
3 âmbitos operativos= o desenho – a forma- a estrutura.
Foto de José Cláudio Gomes com Maquete de um prédio do projeto “Bauru Centro Novo”
José Cláudio Gomes
Arquiteto pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo e Urbanista pelo curso de Pós Graduação da Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP); foi professor do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Professor do programa de Pós-Graduação no Curso de Arquitetura da Escola de Engenharia de São Carlos USP, Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo e Coordenador do Laboratório de Desenho Urbano na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – FAAC – UNESP – Campus de Bauru. Orienta projeto de pesquisa ao nível de mestrado e doutorado. Trabalhou com o arquiteto Oswaldo Bratke em 1955 e com o Arquiteto Paulo Mendes da Rocha em 1971, nos projetos de renovação do Plateau Beauborg (Paris) Concurso Internacional e na Grota do Bexiga. Relacionado ao urbanismo foi o responsável, dentre outros trabalhos, pelo plano urbanístico de Matão (estado de São Paulo) em 1964, Plano de Desenvolvimento Local Integrado do Município de Garça, SP em 1971. Em 1972, fez o estudo de viabilidade técnica e econômica para a implantação de Comunidade de Serviços e Turismo, em colaboração com a INTERCONSULT, SP. Elaborou o Projeto do Novo Centro de Bauru entre os anos 1995 e 1996.
Adalberto da Silva Retto Júnior
Engenheiro agrônomo (1986) e arquiteto formado pela FAU-PUC-Campinas (1991), doutor pela FAUUSP / Istituto Universitario di Architettura di Venezia, professor da UNESP – Campus de Bauru e coordenador do grupo de pesquisa SITU.
Norma Regina Truppel Constantino
Arquiteta e urbanista, formada pela Universidade Federal do Paraná (1980). Trabalhou como arquiteta em Prefeituras municipais, participando das discussões e desenvolvimento dos Planos Diretores de Porto Velho-RO, Cuiabá-MT e Bauru-SP. Desde 1996, é professora de Paisagismo no Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicações da UNESP, campus de Bauru. Fez o Mestrado na UNESP (1995), onde apresentou a dissertação "Sistema de Áreas Verdes para Bauru-SP". É doutoranda pela FAUUSP – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em Estruturas Ambientais Urbanas, desenvolvendo a tese "A Construção da Paisagem de Fundos de Vale: o caso de Bauru".
Marta Enokibara
Arquiteta formada pela FAU-PUC-Campinas em 1991 e doutora em Estruturas Ambientais Urbanas pela FAU-USP em 2003. Leciona Paisagismo desde 1995 na Unesp/Campus de Bauru onde também é membro de dois Grupos de Pesquisa: Grupo SITU (Grupo de Pesquisa em Sistemas Integrados Territoriais e Urbanos) e GEAC (Grupo de Estudos em Alagados Construídos). É membro da CIRA (Comissão Interna de Uso Racional de Água) e coordenadora da sub-área de Paisagismo no Grupo de Gestão Ambiental do Campus da Unesp-Bauru.
Entrevista
A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em julho de 2005.