português Entrevista com um dos mais importantes arquitetos do movimento Deconstrutivista, que fala da arquitetura contemporânea e dos novos projetos na Espanha
english Interview with one of the most important architects of the deconstructive movement who speaks about contemporary architecture and new projects in Spain
español Entrevista con uno de los más importantes arquitectos del movimiento Deconstructivista, que habla de la arquitectura contemporánea y de los nuevos proyectos en España
Aronoff Center for Design and Art , Universidade de Cincinnati. Arquiteto Peter Eisenman
Arquiteto Peter Eisenman Entrevista e texto por Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste
“Rem Koolhaas, Jacques Herzog, Zaha Hadid, eu: adquirimos o prestígio de sermos capazes de produzir obras simbólicas. Na Europa, os políticos não nos perguntam o quê estamos fazendo, apenas nos dizem faça-o. Querem um símbolo”, afirma Peter Eisenman, um dos nomes fundamentais da arquitetura contemporânea, em seu estúdio em Nova York.
Referido constantemente como o representante quase paradigmático das tendências sob as quais foi definido o comportamento da arquitetura nas últimas décadas, Eisenman opta (aos setenta e três anos) por se auto-aplicar a mais despojada e essencial definição do seu fazer: a de arquiteto. “Podem me qualificar de arquiteto crítico ou arquiteto deconstrutivista, mas eu entendo que o que faço é simplesmente pura arquitetura. Quero estar no centro do que é necessário para a disciplina e não em sua margem. Por isso, resisto em ser incluído em uma categoria que não a da própria arquitetura”.
“Creio na permanência da disciplina. Creio que sei tanto da disciplina como qualquer outro arquiteto em exercício e, às vezes, me considero também um estudante de arquitetura. Nesse sentido, me considero uma pessoa conservadora. Mas não no que diz respeito ao estilo ou às teorias”.
Habitação coletiva, IBA, Berlim. Arquiteto Peter Eisenman
Estádio Deportivo de La Coruña. Arquiteto Peter Eisenman
Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste: O quê é arquitetura?
Peter Eisenman: A arquitetura é uma disciplina radical que se enfrenta com um problema muito concreto: construir o lugar. Mas, às vezes, para ser arquitetura, deve transformar o lugar. A arquitetura deve constituir o que deve ser. E isto é o que a faz da arquitetura uma disciplina difícil, específica e autônoma. Porque se alguém simplesmente cria um lugar, não está fazendo necessariamente arquitetura. Quando alguém está questionando o lugar, transformando-o, transpondo-o, readequando-o, sempre está alterando aquilo que deve situar. Essencialmente, a arquitetura deve também refletir a transformação social, política e cultural. A arquitetura sempre deverá ter cara de arquitetura e deverá resistir à lei da gravidade. Em arquitetura, as coisas têm que se manter eretas, ter a capacidade de abrigar, devem ter um programa, implantar-se em um lugar… Existem certos aspectos materiais que a definem, que eu diria que são necessários, mas não suficientes. As condições suficientes da arquitetura, no meu entendimento, estão muito além do lugar e do programa. São condições que teorizam sobre algo distinto. Isto é para mim a arquitetura.
FM/AGY: Você é um dos arquitetos contemporâneos que com mais intensidade tem se dedicado a refletir sobre da arquitetura e a intelectualizar sua própria prática.
PE: Para um arquiteto deveria ser tão importante construir como elaborar uma teoria. Manfredo Tafuri sustentava que não é necessário construir, mas, de qualquer modo, não importa o quão interessante pudesse ser minha abordagem teórica: se não construísse projetos importantes, seria esquecido. À medida que alguém vai incrementando sua capacidade para construir edifícios grandes, também vai encontrando mais dificuldades para relacionar teoria com construção. É muito mais complicado conceber grandes edifícios do que uma casa, que foi como iniciei minha carreira.
FM/AGY: Você constata que, intelectualmente, a arquitetura está se empobrecendo?
PE: Sim, creio que estamos rolando encosta abaixo neste aspecto porque não existe um consenso geral. Para a arquitetura moderna existia um consenso geral sobre o que devia ser feito, situação que desapareceu. A Deconstrução deslocou a arquitetura moderna e pós-moderna; basta dar uma olhada na última Bienal de Veneza para comprovar que tudo ali apresentado era Deconstrução. Mas eu entendo que existe um problema hoje e o motivo é porque os arquitetos não sabem o que fazer. Não há uma teoria predominante. No existem líderes teóricos. Por isso é um momento difícil. O quê se pode ensinar? Eu ensino Brunelleschi, Borromini, Le Corbusier, Mies Van der Rohe… Não sei que outra coisa poderia ensinar. Eu não dou aulas sobre Peter Eisenman.
FM/AGY: Mas outros professores dão aulas sobre Peter Eisenman. E as pessoas que trabalham aqui com você aprendem a fazer arquitetura e não a copiar suas formas.
PE: Sim. Mas eu ensino sobre o que sei. Eu não sei nada sobre Peter Eisenman.
[Eisenman gera seus projetos a partir de um processo de investigação com diagramas. Sua investigação com este elemento é o que tem sustentado a evolução de seu trabalho.]
FM/AGY: Qual é a aplicação do diagrama dos pontos de vista prático e teórico?
PE: Uso o diagrama não como forma, mas como idéia. Tento encontrar algo que funcione como diagrama para gerar algo a partir das condições que não poderia ter previsto anteriormente. O diagrama é diferente em cada caso. A mudança, ou o uso, da concepção do diagrama tem evoluído de diagramas mais simples até outros mais complexos. Meus projetos sempre surgem de uma idéia sugerida pelo programa, ou do lugar e sua história. Sempre deve se contar com uma idéia prévia sobre o motivo pelo qual se está solucionando um problema.
Cidade da Cultura, Santiago de Compostela, análise volumétrica. Arquiteto Peter Eisenman
Cidade da Cultura, Santiago de Compostela, maquete do concurso de 1999. Arquiteto Peter Eisenman
Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste: A eleição de seu projeto para a Cidade da Cultura em Santiago de Compostela comprova que no governo galego anterior havia o desejo de fazer algo arquitetonicamente diferenciado.
Peter Eisenman: É verdade. Não devemos nos esquecer que o resultado de um concurso indica que o arquiteto está autorizado a mudar as coisas: em um concurso, cada um pode propor o que bem entender. Ao receber a encomenda diretamente de uma Prefeitura ou de um governo, eles estão dizendo: “Queremos um Eisenman. Construamos um”. O que se torna interessante para mim em um concurso é que acabe em um projeto difícil de ser definido como um “Peter Eisenman”. O projeto que estamos fazendo em Santiago é surpreendente. Será concluído em 2008. Quisera eu pensar que a arquitetura de Eisenman é diferente, não melhor, do que qualquer outra arquitetura. Quem for a Santiago verá o quê faz Eisenman e comprovará que é diferente. Isso é crucial. Mas os outros devem dizê-lo; eu não posso descrever o por quê.
[Eurófilo, Eisenman considera que Nova York ”tem uma escassa cultura arquitetônica quando comparada a Roma, Berlim, Londres ou Paris e quando surge um grande concurso como o convocado para o World Trade Center, os interesses políticos acabam por destroçá-lo. Nova York me encanta, mas, como arquiteto, sou um extraterrestre” – afirma.]
FM/AGY: Compartilha da fascinação arquitetônica de Rem Koolhaas pela metrópole asiática contemporânea?
PE: Não. É horrível o que tem se passado na China e no Extremo Oriente. Não me interessa envolver-me nisso. Japão é outra coisa: é um lugar sofisticado para se trabalhar. Mas não a China. Creio que a afirmação de Koolhaas poderia ser comparada à que eu fiz, quando disse que queria trabalhar na Albânia ou na Namíbia. Sem dúvida, a América Latina é diferente. Parece-me um lugar extraordinário. Há uma grande energia no México, São Paulo é uma cidade maravilhosa, na qual ficaria muito feliz em trabalhar. Mas, por outro lado, ainda que goste, tenho a impressão que Buenos Aires é uma cidade excessivamente conservadora.
FM/AGY: E a Europa?
PE: Há diferenças entre cidades. Prefiro a energia de Milão à de Roma. Creio que a energia de Madrid é melhor que a de Barcelona. E penso isso ocorra porque Barcelona e Roma são cidades mediterrâneas. Madrid e Milão não são mediterrâneas. O Mediterrâneo é também um problema. Gosto de Nápoles e da Sicília, mas não gostaria de construir ali.
[Reconhece a dificuldade implícita no trabalho de prosseguir construindo um pensamento forte que sustente e evolua até a ação: “Talvez me ocorra uma idéia nova por ano. É difícil desenvolver novas idéias quando se está trabalhando em vários projetos distintos em um mesmo ano”, afirma Peter Eisenman, em uma plenitude criativa e intelectual feita de experiência e fascinação pela Arquitetura.]
Cidade da Cultura, Santiago de Compostela, cobertura da hemeroteca em obras. Arquiteto Peter Eisenman
Cidade da Cultura, Santiago de Compostela. Arquiteto Peter Eisenman
Peter Eisenman
Peter Eisenman nasceu em 1932 em Newark, Nova Jersey. Arquiteto pela Universidade de Cornell, obteve um Master em Arquitetura na Universidade de Columbia e um Master em Arquitetura e um título de Doutor em Filosofia pela Universidade de Cambridge. Foi um dos dois arquitetos eleitos para representar os Estados Unidos na Quinta Exposição Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza de 1991. Eisenman foi fundador e, até 1982, diretor do Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos. Recebeu numerosos prêmios e distinções, entre outros o Guggenheim Fellowship, o Brunner Award da Academia Americana de Artes e Letras, e o Leão de Pedra (primeiro prêmio) na Terceira Bienal Internacional de Veneza (1985). Foi-lhe concedido o National Honor Award do Instituto Americano de Arquitetos (AIA), em 1983, pelo projeto do Centro Wexner para a Universidade de Ohio, Columbus (1989), e, em 1991, pela Sede da Koizumi Sangyo Corporation, Tóquio (1990). Foi professor nas Universidades de Cambridge, Princeton, Yale, Ohio e Harvard. Eisenman é autor de vários livros, entre os quais se incluem House X (Rizzoli), Fin d'Ou T HouS (The Architectural Association), Moving Arrows, Eros and Other Errors (The Architectural Association), e Houses of Cards (Oxford University Press). Dirigiu as publicações Oppositions Journal e Oppositions Books, e publicou numerosos ensaios e artigos sobre teoria arquitetônica em revistas e publicações internacionais.
Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste
Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste, titulares do escritório ¿btbW, são autores do livro “Enric Miralles: Metamorfosi do paesaggio”, editora Testo & Immagine, 2004
Entrevista
Entrevista com Peter Eisenman foi realizada por Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste em abril de 2005. Este texto é uma versão ampliada pelos autores do artigo publicado com o título “Eisenman, teórico y práctico” no suplemento ABCDe las Artes y las Letras do periódico “ABC”, Madri, 13 de agosto de 2005. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em agosto de 2005.
Fotos
Eisenman Architects
Cidade da Cultura, Santiago de Compostela, hemeroteca/biblioteca. Arquiteto Peter Eisenman