português Realizada em 1992, nesta entrevista a Ana Rosa de Oliveria, Lúcio Costa fala de sua formação, da renovação da arquitetura, de Burle Marx, Le Corbusier e Niemeyer e do Plano Piloto de Brasília
english Held in 1992 in this interview with Ana Rosa de Oliveira, Lúcio Costa talks about his training, renovation of the architecture of Burle Marx, Le Corbusier and Niemeyer and the Pilot Plan of Brasilia
español Realizada en 1992, en la entrevista de Ana Rosa de Oliveria, Lúcio Costa habla de su formación, de la renovación de la arquitectura, de Burle Marx, Le Corbusier y Niemeyer y del Plano Piloto de Brasilia
Parque Guinle, Rio de Janeiro. Lúcio Costa, 1948-54 Foto Nelson Kon
Entrevista com Lúcio Costa Ana Rosa de Oliveira
Esta entrevista foi realizada quando eu iniciava as pesquisas para a minha tese de doutorado. Após uma exaustiva busca na bibliografia, muitas questões sobre a formação inicial de Burle Marx continuavam sem resposta, o que me levou a procurar um contato com pessoas que conviveram com ele e contribuíram para sua formação inicial. Ninguém melhor do que Lúcio Costa, vizinho, amigo e principal articulador da participação de Burle Marx nos momentos decisivos da arquitetura moderna no país.
Lúcio Costa concedeu-me esta entrevista em sua casa, no Leblon. Lembro-me de que, na época, senti-me frustrada com os escassos dados sobre Burle Marx revelados na conversa. Apesar de meus esforços, Lúcio Costa insistia em falar sobre seus feitos e muito pouco sobre Burle Marx. Hoje, no entanto, ela constitui um importante documento do legado de Lúcio Costa e das origens da arquitetura moderna no Brasil.
Parque Guinle, Rio de Janeiro. Lúcio Costa, 1948-54. Foto Nelson Kon
Vila Monlevade, 1934. Lúcio Costa
Ana Rosa de Oliveira: O senhor poderia falar sobre a sua formação?
Lúcio Costa: Eu só conheci o Rio de Janeiro com 14 anos. Eu nasci fora, meu pai era engenheiro naval, esteve muito tempo na Europa. Nasci em Toulon, França. Vários irmãos meus nasceram em Marseille e em outros lugares da França. Meus pais voltaram para o Rio, quando eu era recém nascido – com alguns meses. Em 1910, foi criada uma comissão para a construção das esquadras, que hoje viraram ferro velho, e meu pai foi com toda a família para a Inglaterra. Ficamos lá até a primavera de 1914, ano da 1ª Guerra. Na época meu pai teve um desentendimento com o ministro da Marinha, se não me engano, e pediu reforma. Da Inglaterra seguiu para a França, depois para a Suíça. Nós ficamos na Suíça – ali eu freqüentei o colégio como o tinha feito na Inglaterra.
A guerra, em agosto de 1914, nos pegou na Suíça. Nós estávamos perto do lago Leman que é muito bonito – com montanha, com neve, então fomos para Montreaux e ali ficamos dois anos e meio até o fim de 1916, quando resolvemos voltar ao Brasil em plena guerra. Foi então, com 14 anos que eu conheci o Rio de Janeiro, de verdade, porque aos 8 anos eu não tinha gostado. Com relação ao Roberto Burle Marx, a minha mãe herdou um terreno no Leme – meu pai construiu uma casa lá. Nós morávamos na mesma rua, do Barão Araújo Gondim, no Leme, onde o pai de Burle Marx tinha a casa. A rua mudou de nome para General Ribeiro da Costa, que era meu tio. O Roberto era bem mais moço que eu.
Meu pai sempre quis ter um filho artista, que fosse músico, poeta, pintor etc. Como eu gostava de desenhar ele tomou a iniciativa e me matriculou na Escola de Belas Artes, era aquela de tradição francesa, de considerar as Beaux Arts, as três artes irmãs: pintura, escultura e arquitetura, que eram dadas na mesma escola, em três cursos paralelos. Os dois primeiros cursos eram comuns, só os quatro finais que eram especializados. Depois dos dois primeiros anos eu resolvi me dedicar à Arquitetura.
A escola era bem acadêmica, eu me formei com a tradição acadêmica, aquela coisa eclética, o arquiteto era ensinado para conhecer bem os estilos desde o tempo da Grécia até Roma, o Renascimento, etc, com a finalidade de aplicar estes conhecimentos históricos à época, aos programas contemporâneos. Assim se era um banco, um projeto de banco, se procurava seguir o estilo florentino da Itália com formas mais pesadas, sólidas. Se era igreja, era aquele estilo gótico, barroco.
Depois de formado, em 1922, decidi aproveitar a oportunidade, de uma passagem de navio de ida e volta à Europa, oferecida pela Lloyd brasileira aos alunos da escola. Passei um ano na Europa como turista. Nesta época, já estava ocorrendo este movimento de renovação da arquitetura que começou na Europa e depois chegou aos Estados Unidos porque até então eles aplicavam a construção de estilo francês e inglês nos arranha-céus etc.
AR: Quais foram os países visitados?
LC: Instintivamente eu quis voltar aos lugares nos quais eu tinha estado antes, na Inglaterra eu aluguei um carro e rodei a Inglaterra, a França, a Suíça e finalmente a Itália, que eu não conhecia. Eu voltei ao Brasil em 1927, no Bagé, um navio ex-alemão comprado pelo Brasil na segunda guerra mundial, um transatlântico muito bom. Para você ter uma idéia de como eu estava alienado, quando eu voltava por mar a bordo deste navio, estive fazendo aquele jogo de formar palavras. Fui "enforcado" justamente com a palavra Le Corbusier, o arquiteto que eu passei a admirar no período de 27 a 30, quando comecei a desgostar da arquitetura que se estava fazendo, que não correspondia à nova tecnologia do concreto e do aço.
Vila Monlevade, 1934. Lúcio Costa
Park Hotel São Clemente, Nova Friburgo, 1944-45. Lúcio Costa Foto Nelson Kon
Lúcio Costa: Eu estava desgostoso querendo me informar. 1927 foi o ano em que me casei. Fomos morar em Correias, além de Petrópolis. Em 1930, quando se criou o MEC, o Rodrigo Melo Franco de Andrade, como chefe de gabinete do ministro Francisco Franco me chamou, eu não o conhecia, mas ele me pediu para passar pelo Ministério, que eles estavam querendo me nomear diretor da Escola de Belas Artes. Havia aquela preocupação de mudar o Instituto de música que eles puseram no centro do Galeão e a biblioteca. Eles foram fazendo mudanças, aquela coisa de renovação, dar ar de renovação. Eu fiz tudo para não aceitar porque eu não queria me incomodar, mas eles insistiram e eu acabei aceitando. Foi nessa época que a experiência fracassou, porque houve uma oposição muito grande por parte dos acadêmicos. Mas eles me receberam muito bem, apesar de, a contragosto, mas me conheciam e porque era a revolução, havia aquele clima da revolução dos tenentes, aquela coisa toda.
Depois o chefe de gabinete que me havia chamado se indispôs com o ministro e pediu demissão. Quando eles perceberam que eu já não estava mais apoiado pelo Ministro, começaram a criar problemas. Assim, primeiro me convidando para conversar nos reunimos e concordamos em criar uma cadeira nova, para eu dar aulas, pois de acordo com a legislação anterior, o diretor deveria ser um professor da escola. Eu estava numa posição muito difícil. Os alunos estavam todos em greve, querendo que eu continuasse, mas eu não aceitei e acabei deixando a direção em 1931. O Roberto freqüentou a escola quando eu era diretor, depois eu perdi o contato.
Ana Rosa de Oliveira: O senhor saiu em 1931, nesta época já havia uma nova concepção da arquitetura?
LC: Eu estava apenas em uma fase de renovação mental, foi um período muito difícil para mim, de 31 até 36, quando o Capanema me convidou para fazer o Ministério. Foi esse período de 4 a 5 anos, um período de pobreza, quase de miséria, em que eu já não conseguia fazer aquela arquitetura acadêmica que me solicitavam. Eu continuava sendo procurado por pessoas que queriam construir casas de estilo histórico e aquilo eu já não podia mais fazer.
Eu propunha fazer coisas contemporâneas de acordo com a nova tecnologia construtiva do aço e do concreto. As pessoas, porém, não aceitavam e foi um período de grande dificuldade. Felizmente, eu morava num porão no Leme, na casa dos meus sogros, de modo que, sobrevivi a esses 4 ou 5 anos. Foi na administração do Capanema, que se mudou, ele precisava fazer o edifício para a sede do Ministério. Ele tinha aberto um concurso e o resultado não o agradou, ele então pagou os prêmios, mas anulou-o.
Recebi uma carta, naturalmente porque o ministro Capanema era amigo do Rodrigo Melo Franco, do Manuel Bandeira, Mário de Andrade... aquele grupo de intelectuais que estava interessado na renovação, na atualização da cultura brasileira, porque se vivia muito isolado do que estava ocorrendo na Europa. Estavam querendo atualizar e ao mesmo tempo voltar para as raízes, conhecer a tradição colonial. Então eu organizei um grupo de trabalho para fazer o projeto do Ministério.
Eu convidei inicialmente a Ricardo Cardoso de Melo, Affonso Eduardo Reidy, Jorge Machado Moreira e eu, éramos quatro. Eu contei essa história a várias pessoas, eu organizei este grupo de quatro para elaborar o projeto, mas o Jorge Moreira tinha um sócio trabalhando com ele, chamado Ernani Vasconcelos. Ele propôs então que o Ernani participasse, eu concordei.
Então aconteceu um episódio significativo – porque um ano antes eu tinha sido procurado no meu escritório por um rapaz com uma carta de apresentação do Banco Boavista – este rapaz já estava casado, tinha uma filhinha. Mas eu não tinha trabalho, era aquele período de pobreza – foi antes da construção do ministério – eu expliquei que não poderia pagar-lhe um salário, então ele se ofereceu até a pagar alguma coisa para trabalhar no escritório – ele queria freqüentá-lo. Ele ainda era aluno da ENBA, ainda não tinha terminado o curso. Ele tinha tido um romance com a Anita – essa moça também era estudante – ele precipitou-se ao casar-se. De modo que ele freqüentou o escritório durante um ano sem revelar o seu talento. Eu tinha até vontade de aconselhá-lo a trabalhar num banco, porque ele estava perdendo tempo. Essa pessoa era o Oscar Niemeyer que depois se revelou este grande arquiteto. Nessa época, quando o Jorge Moreira convidou o Ernani Vasconcelos, o Oscar disse que também queria participar e aí ficamos em seis. Foi uma época de renovação cultural e social, em que não havia outro interesse que fazer as coisas bem feitas.
Quando eu fui diretor da ENBA, estava querendo renovar o ensino da arquitetura. Em São Paulo, havia um movimento de renovação importante, liderado por um russo, o Gregori Warchavchik. Ele tinha se formado em Roma e havia sido convidado por uma empresa para trabalhar em São Paulo. Ele teve a idéia genial, a sorte de se casar com uma moça muito rica. Ele e o Segall casaram-se com as duas irmãs e aí puderam se dedicar à profissão com toda a paixão e construíram várias casas no estilo moderno em São Paulo. Eu tomei conhecimento dele através de uma revista que mostrava a inauguração de uma casa nova construída por esse Gregori. Eu gostei muito e fui a São Paulo convidá-lo para ser professor da escola e ele aceitou. Ele já estava construindo uma casa aqui no Rio. Foi justo no período que antecedeu aquela briga dos professores.
Park Hotel São Clemente, Nova Friburgo, 1944-45. Lúcio Costa Foto Nelson Kon
Ministério da Educação e Saúde (atual Palácio Capanema), Rio de Janeiro. Lúcio Costa e equipe, 1936-42 Foto Nelson Kon
Ana Rosa de Oliveira: O primeiro jardim que o Burle Marx faz é para uma casa que o senhor projeta com Gregori Warchavchik?
Lúcio Costa: Sim, na Rua Raul Pompéia, o projeto é meu. Eu soube do Roberto através da mãe dele, ele já estava tomando gosto pelas plantas. Então eu o convidei para fazer o jardim.
AR: Como era esse jardim?
LC: Era daqueles lotes em que a casa ocupa muito espaço e era toda a parte externa e o terraço.
AR: Como o senhor conheceu o trabalho de Le Corbusier?
LC: Através da leitura. Le Corbusier tinha publicado vários livros naquela época, fazia muitas conferências, viajando pelo mundo e propagando as novas idéias com grande êxito. De modo que, com o episódio da construção do Ministério da Educação que não era esse que o Oscar construiu, fizemos um projeto que agradou muito ao Capanema. Ele queria construir com pressa, ele queria construir logo, porque o Ministério estava funcionando em um prédio particular; mas como eu estava muito apaixonado por essa renovação, eu não tinha confiança em partes do projeto.
Eu tinha muita admiração pela obra do Le Corbusier e não sabia que era a primeira oportunidade no mundo de fazer um prédio de grande porte, um prédio público, de acordo com essas novas idéias. Na Europa havia muitos prédios construídos de acordo com esse movimento, mas todos prédios menores, prédios pequenos.
Essa oportunidade era de muita responsabilidade. Então eu falei com o Capanema que eu gostaria de ter a aprovação do Le Corbusier, porque nós éramos seus admiradores, seguíamos suas inovações e gostaríamos que ele desse uma mão e aprovasse o projeto também. E o Capanema disse: "Não isso é impossível, eu tenho pressa, no ano anterior eu já chamei o Piacentini" – o arquiteto italiano do Mussolini que construiu a Universidade de Roma e já tinha estado aqui a convite do governo. "Como é que agora eu vou propor ao Vargas convidar um outro arquiteto, para dar um parecer, em um projeto que já está pronto e eu estou gostando e quero construir imediatamente".
Mas quando você está apaixonado... e é moço; eu insisti tanto, que ele disse: "Bom, faz o seguinte: eu levo você ao Catete e você explica ao Getúlio, se ele concordar, se chama esse homem". Ele me levou para o Catete – era o primeiro mandato do Getúlio Vargas, ele estava iniciando. O Getúlio acabou aceitando, mais como um avô fazendo o capricho do neto. Disse: "Se vocês acham que é importante, chamem o homem". Então o Capanema entrou em contato com Le Corbusier, ele veio. Nós fomos esperá-lo de madrugada. Ele veio no Zepelim – aquela coisa prateada, bonita, silenciosa – passava baixinho. Foi o meu primeiro contato com Le Corbusier. Ele ficou aqui um mês, no meu escritório, com os arquitetos todos em volta aproveitando aquela oportunidade. Porque na rua de Sèvres em Paris, tinha arquitetos de todas as nacionalidades, mas nenhum brasileiro. Com o Brasil, aconteceu o contrário, ele é que veio aqui. Então, ele elaborou um projeto, ele achou um absurdo fazer um projeto destas proporções naquele terreno, que ia ser cercado por todos os lugares de prédios de escritório. Ele caminhando uns 500 m estava vendo o mar e o Pão de Açúcar, por que não fazer um prédio num terreno voltado para o mar e o Pão de Açúcar?
Em 1922, houve uma grande exposição internacional de modo que tinha essa parte de aterro feita e o local que ele escolheu estava mais ou menos onde está atualmente o Museu de Arte Moderna. Ele tomou a iniciativa dele próprio elaborar um projeto para este terreno, para servir de base ao projeto definitivo, que nós fizemos junto com ele. Mas aí o Capanema estava com pressa, trocar de terreno era muito complicado, provocaria um atraso, de modo que ele queria fazer nesse terreno mesmo. Nele havia umas limitações da Aeronáutica, um exagero de restrições. Só permitiam um prédio de 8 andares e a orientação do terreno era favorável, mas com oito pavimentos não dava a metragem que o Capanema precisava para o Ministério. O prédio precisava ser mais alto; mas eu como bom brasileiro, bom carioca, sei que algumas coisas ocorrem com perito, de modo que eu fui ao engenheiro calculista Emílio Baumgarten – que introduziu a estrutura de concreto aqui no Rio – ele era de Santa Catarina. Ele estava incumbido de projetar a estrutura do prédio. Então eu disse: “Você faz as fundações, calcula a altura definitiva, já para um prédio de 15, 16 andares, porque eu estou certo de que, com o correr do tempo, a Aeronáutica compreenderá que é um exagero esta limitação.
E assim foi. O prédio já começou com as fundações adequadas. Durante a construção eu consegui que o prédio tivesse a altura definitiva que é esta obra prima do ministério. É um prédio importantíssimo, porque foi construído numa época em que, nos EUA, não havia nenhum prédio assim, com a fachada envidraçada. Hoje em dia você vai a Nova Iorque, vê aqueles prédios todos e acha que aquilo é uma arquitetura americana. Não, aquilo era uma criação européia e a primeira aplicação foi no Ministério.
Depois, em Brasília, foi o próprio Oscar quem chamou o Burle Marx para fazer os jardins. Você sabe que houve um concurso, vinte e tantos concorrentes para escolher o projeto da nova capital. Escolheram meu projeto, mas aí não tanto por iniciativa minha, mas do próprio Oscar. Porque antes da construção de Brasília ser iniciada, o Juscelino – o Oliveira, como o chamavam em Portugal – o presidente Oliveira estava precisando de um arquiteto, quando ele era prefeito de Belo Horizonte. Ele telefonou para o Rodrigo Melo Franco que era na época o diretor do Patrimônio Histórico e Artístico, pedindo para que ele lhe indicasse um arquiteto, porque ele estava precisando fazer umas obras na Pampulha. Pampulha era um arrabalde de lodo, uma lagoa. O Rodrigo teve a inspiração de indicar o Oscar. Então, o Oscar entrou em contato com o Juscelino e os dois se entrosaram muito bem, pareciam irmãos mentalmente e o Oscar com aquela inspiração, rapidez, projetou os quatro edifícios, capela, cassino, clube etc e ficaram muito amigos. Quando o Juscelino transformou-se em presidente da república, ele já tinha um arquiteto no bolso, era Oscar Niemeyer. Era um arquiteto previamente escolhido. Isto quer dizer que o concurso foi somente na parte de urbanismo da cidade, o plano piloto. Eu elaborei o plano piloto. Eu não pretendia participar do concurso, mas no meio do prazo, eu tive uma idéia, achei que valia a pena e concorri.
Ministério da Educação e Saúde (atual Palácio Capanema), Rio de Janeiro. Lúcio Costa e equipe, 1936-42 Foto Nelson Kon
Superquadra de Brasília, DF. Plano Piloto de Lúcio Costa Foto Nelson Kon
Ana Rosa de Oliveira: Como o senhor estruturou o plano piloto? O que o senhor visava na distribuição da cidade? Teve influência de Le Corbusier?
Lúcio Costa: A responsabilidade era a seguinte: era preciso fazer uma cidade que já nascesse com pinta de capital. Que não parecesse uma cidade de província. O risco era uma cidade que não estivesse dentro dessa concepção. Essa possibilidade de se transformar de fato na capital definitiva do país. Felizmente, o meu projeto atendia a essas circunstâncias. Isso implicava fundamentalmente a adoção, para os prédios públicos da parte coletiva da cidade, de uma escala muito generosa, ampla, larga para transmitir a qualquer paulista, ou carioca que lá fosse, que ao chegar se sentisse na capital do país e não numa cidade de província. Esse foi o ponto de partida – me pareceu interessante criar – normalmente os prédios públicos ficam no centro da cidade que se desenvolve em torno deles. Mas daí, diante daquela topografia e do lago que havia sido criado, eu achei interessante botar essa praça principal, praça maior – que eu batizei de Praça dos Três Poderes – e o nome pegou.
A idéia era de criar uma praça triangular eqüilátera, porque os três poderes teoricamente têm o mesmo peso, para o qual o triângulo seria o adequado, para em cada ângulo botar um dos poderes; governo, supremo e legislativo. Pareceu-me que esta praça triangular deveria ser tratada com muita sobriedade, muita largueza mas com muito apuro, muita qualidade. Então para esse efeito, eu a sobrelevei do cerrado agreste uns 5 ou 6 m, para formar um platô, quer dizer, este triângulo foi aterrado para formar um piso elevado sobre o cerrado. É como eu digo, como se fosse um Versalhes do povo, não um Versalhes do rei. Um Versalhes do povo, tratado com muito apuro. Com um lago muito bonito, bem tratado, esse foi o ponto de partida. Para ser uma cidade administrativa, eu tinha que dispor os ministérios em decorrência desta praça. Pareceu-me fundamental um eixo, que partisse dessa praça triangular, subindo em direção ao cruzeiro – tinham posto um cruzeiro na parte alta da cidade. Ao longo desse eixo, me pareceu razoável criar uma grande esplanada e dispor de cada lado os edifícios do ministério.
Os edifícios dos ministérios são simples escritórios, não havia razão para caracterizar nenhum. Eu apenas agrupei os edifícios dos ministérios dos militares, formando uma praça de um lado e do outro, outra praça com a catedral, que eram coisas bem caracterizadas. Os outros edifícios do ministério foram criados todos semelhantes , formando um alinhamento de prédios de 10 ou 12 andares, dando para esta esplanada.
Ficaram aquelas duas vias que levavam em direção àquele aclive onde deveria estar, na parte mais alta, a torre de TV, que fazia parte do programa. Depois desse eixo monumental está a parte administrativa. Mas para a cidade funcionar tem que ter habitantes, os burocratas, eles têm que morar. Então achei claro criar um outro eixo ortogonal – perpendicular ao primeiro – que seria meio curvo para adaptar-se aos limites da área, da topografia do terreno. Assim ficou um eixo encurvado, com 6 km para cada lado. Aí surgiu um problema: como conciliar a escala residencial, ao longo deste eixo, com a escala monumental do eixo principal? Então me ocorreu a idéia de construir quadras grandes, que eu chamei superquadras – pois as quadras normais tem de 150 a 200m² e eu propus quadras de 300m², formando assim uma cadeia, seqüência onde eu preservei vinte metros de toda periferia das quadras quadriláteras, para plantar dois renques de árvores, que com o tempo, formariam uma verdadeira muralha verde, definindo a quadra. Era diferente da muralha medieval de pedra, era uma muralha verde que se mexia com o vento, uma muralha viva, você vendo através dos troncos.
Assim foi. Cada quatro quadras constituíam uma área de vizinhança, quer dizer, com as facilidades de comércio local: igreja, cinema, colégio secundário, escola primária estariam dentro de cada quadra. É assim que se estabelece uma unidade de escala, aí já estava tudo ordenado de acordo com o meu raciocínio, me pareceu que seria a solução porque pegaria as duas chegadas à cidade – uma chegando do Rio e São Paulo e a outra desde Anápolis, que formariam este cruzamento.
No encontro dos dois eixos, monumental e residencial, seria necessária a criação de uma grande plataforma rodoviária para que o tráfego pudesse se desenvolver sem cruzamento. Esta plataforma seria dispendiosa. Aí ocorreu um pormenor, quando o presidente Oliveira se revelou um grande estadista. Eu propus a ele fazer apenas uma parte da cidade e deixar o restante, a plataforma para depois, mas aí ele disse: "Não, eu faço questão de fazer a estrutura toda da cidade, o arcabouço da cidade porque com esse partido que você adotou, se não for feito corretamente, a estrutura não funciona, fracassa completamente, seu plano vai por água abaixo. Eu faço questão de deixar o arcabouço da cidade pronto ... e iluminado". Ele queria o brinquedo dele iluminado...
AR: O plano piloto previa uma expansão para a cidade?
LC: Não. Aí está, eu previa, mas a tese era a seguinte: a cidade estava planejada para 500 a 700 mil habitantes, quando fosse se aproximando deste limite seriam criadas na periferia cidades satélites, pequenas, complementares. Para evitar aqueles fragmentos suburbanos que é sempre desagradável, desmoralizante... A cidade estava bem definida, depois surgiriam nessa periferia pequenas cidades, esse foi o esquema.
O engenheiro, Sr. Pinheiro que era o responsável pelas obras, uma pessoa excepcional, com a NOVACAP, tinham considerado três possibilidades: uma vez terminada a fase inicial, dos 3 anos iniciais de trabalho intensivo, 1/3 da população obreira que tinha ido a Brasília para construir a cidade, chegado o momento da inauguração voltaria para o seu "país" de origem; o outro terço seria absorvido pelas próprias atividades locais urbanas; para o terceiro terço – como eram quase todos operários de tradição rural- a solução seria criar um cinturão verde, agrícola, em torno da cidade. Esse era o programa, mas não deu certo porque todos quiseram continuar em Brasília. E a NOVACAP ficou com aquele problema, os operários tinham criado verdadeiras favelas próximas aos canteiros de obras. Embora eles houvessem declarado que não levariam as famílias, depois de 15 dias do mês, estavam todos lá, precisando morar e criando favela em torno de cada grande canteiro.
Uma vez inaugurada a cidade – abril de 1960 – não podia ficar assim, tinham que transferir essas pessoas. Aí surgiu a idéia de criar núcleos na periferia. A NOVACAP escolheu várias áreas e projetou, com um arquiteto chamado Hungria Machado, a implantação de vários núcleos para transferir essa população obreira, dando um lote para cada um.
Ao contrário do que andaram dizendo, os operários que construíram Brasília não foram abandonados, eles se transformaram da noite para o dia em proprietários, em detrimento de Brasília, que teve muita despesa para levar estradas de acesso, luz e todas essas facilidades para cada um daqueles núcleos. Esses operários instalaram-se e cresceram porque não tinham nenhuma restrição, ao contrário dos residentes em Brasília, que tinham que obedecer a uma série de critérios para manter a unidade da cidade, nestas cidades satélites não havia nada disso e surgiram milionários de lá, enriqueceram.
Porém, continuou a afluência de gente nova, as favelas que foram surgindo eram formadas por gente nova que vinha atraída por aquela miragem da capital. Talvez não fosse uma solução civilizada em termos europeus, mas uma solução que deu certo. Essa gente mora lá, e dentro dos seus limites é feliz.
Superquadra de Brasília, DF. Plano Piloto de Lúcio Costa Foto Nelson Kon
Parque Guinle, Rio de Janeiro. Lúcio Costa, 1948-54 Foto Nelson Kon
Lucio Costa
Lúcio Costa (1902–1998) nasceu em Toulon, França. Filho de um engenheiro naval a serviço do governo brasileiro, foi educado na Inglaterra e na Suíça. Radicou-se definitivamente no Brasil em 1916, quando a família retornou ao Rio de Janeiro. Formou-se arquiteto pela Escola Nacional de Belas Artes em 1924, à qual retornou como diretor em 1930, promovendo uma frustrada reforma do ensino. Mesmo sem ter conseguido quebrar a espinha dorsal do academismo, sua passagem pela escola foi suficiente para aglutinar jovens estudantes que seriam em breve os primeiros modernos brasileiros. Convocado pelo ministro Gustavo Capanema a projetar a sede do Ministério da Educação e Saúde, cercou-se dos pupilos: Affonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos e Oscar Niemeyer. Trouxe Le Corbusier ao Brasil como consultor e assim nasceu o primeiro arranha-céu corbusiano do mundo – o Ministério da Educação e Saúde, depois renomeado como MEC – Ministério da Educação e Cultura, hoje Palácio Gustavo Capanema. Foi vencedor, em 1957, do concurso para o Plano Piloto da Nova Capital do Brasil, formando com Oscar Niemeyer, autor dos principais edifícios, a dupla responsável pelas características formais de Brasília. Lúcio Costa faleceu em sua casa no Rio de Janeiro, em 13 de junho de 1998.
Ana Rosa de Oliveira
Doutora em Arquitetura pela Universidade de Valladolid, Espanha (1998), pesquisadora e paisagista do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, professora do Programa de Pós Graduação em Botânica, da Escola Nacional de Botânica Tropical – Rio de Janeiro – RJ (Mestrado e Doutorado em Botânica) e professora colaboradora do PROPAR – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura- UFRGS.
Co-autora do livro Ecotecture – Ecotecture – Ecological Architecture. Tendencias bioclimáticas y arquitectura del paisaje en el año 2000, Barcelona, Loft Publications. Trabalhou nos escritórios de paisagismo: Arcadi Amenagement Paysage em Montpellier-França e Life Landscape Planning em Tóquio.
Entrevista
A entrevista com Lúcio Costa foi realizada em 23 de fevereiro de 1992, na cidade do Rio de Janeiro. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em setembro de 2005.
Pavilhão do Brasil, Nova York, 1938. Arquitetos Lucio Costa e Oscar Niemeyer. [fonte: Arquivo Nacional]