português Leia entrevista com o Camillo Botticini, professor do Politécnico de Milão, atuando em ateliê próprio em Brescia desde 1993, e um dos mais promissores jovens arquitetos italianos
english Read interview with Camillo Botticini, professor of the Polytechnic of Milan, working in own studio in Brescia since 1993, and one of the most promising young Italian architects
español Lea la entrevista con Camillo Botticini, profesor del Politécnico de Milán, trabaja en su atelier propio en Brescia desde 1993 y uno de los más prometedores jóvenes arquitectos italianos
Camillo Botticini: vontade de pensar e construir formas Stefano Ferracini
Botticini Architetti é um escritório localizado em Brescia que trabalha no âmbito do projeto e da paisagem urbana.
Desde 1993 o ateliê o seu trabalho caracteriza-se através de uma pesquisa paralela entre aprofundamento teórico e experimentação.
Camillo Botticini é definido como um pós-conservador (1), mas não é fácil resumir uma personalidade ainda jovem e desde sempre voltada para o estudo e para o desenvolvimento cultural.
É evidente em toda a obra do Botticini a vontade de construir, de pensar as formas, a utilização dos materiais e a linguagem em função do objecto acabado.
Esta maneira de trabalhar não deve ser etiquetada como conservadora ou tradicional, pelo contrário, é real e verdadeira. É um modo de fazer que tem de lidar todos os dias com o pensamento de um conhecedor apaixonado da historia e da critica da arquitetura, e, ao mesmo tempo, com um mundo denso, feito de normas, leis, números, investidores, administrações e técnicos de Câmaras.
Este compromisso é claro sobretudo nas primeiras obras onde há uma vontade de encaixar, na veracidade dum lugar concreto, conceitos de inspiração moderna, capazes de definir logo resultados complexos e eruditos.
Hoje em dia as encomendas são maiores, existem convites para concursos internacionais, publicações, uma maior pesquisa para formas, materiais, mas continua ainda evidente a vontade de entender o projeto/desenho como instrumento técnico, regulador e contentor de pensamentos.
nota
1 "Sono quattro le correnti di pensiero: Dai neo conservatori ai situazionisti il passato e l’innovazione alla prova delle periferie e dei centri urbani". Luigi Prestinenza Puglisi. Il Sole 24ORE. Sabato 29 Gennaio 2005, Commenti e inchieste.
Ginásio em Sarezzo, entrada
Ginásio em Credaro, vista do conjunto
Stefano Ferracini: Um dos teus objectivos é a procura duma identidade arquitetônica. Como orientas o teu pensar com o fazer relativo no fragmentado contexto italiano?
Camillo Botticini: Hoje o panorama italiano inscreve-se entre modelos representados pelas estrelas internacionais e uma realidade que só parcialmente reconhece o papel da arquitetura na construção do espaço urbano.
As questões fundamentais são duas: por um lado o nivelamento parodista de modelos impossíveis, muitas vezes copiados em termos só figurativos e na maioria inadequados no nosso contexto. Do outro lado há um trabalho “metabólico” em relação às diferentes instâncias internacionais, aonde só uns projetistas chegam a extrapolar os valores essenciais e a acabar os projetos de uma maneira coerente relativamente à envolvente, e este fazer determina diferentes níveis de transformação, mas que ainda aparecem como gestos fragmentários e isolados.
Uma das vantagens da globalização é esta potencialidade sem limites, que permite chegar com facilidade ao mundo das idéias, das experimentações e das formas.
A solução não se encontra criando termos ao trabalho, mas pelo contrário percebendo a complexidade do projeto que não pode ser determinado só para uma síntese formal, mas como o resultado de questões e condicionantes específicos: desde a morfologia dum lugar até ás relações que o projeto conseqüentemente definir como o envolvente.
Uma coisa que não concordo consiste quando a arquitetura é feita igual para qualquer lugar, uma espécie de procura cenográfica, lúdica. Brincar sobre este tema não é uma novidade, mas cada vez mais se repropõe através de formas diferentes e muitas vezes com resultados medíocres.
A relação experimentação/construção é hoje em dia um grande desafio determinado pelos orçamentos limitados que as administrações públicas estabelecem para as obras, em que este facto provoca resultados muitos longe dos exemplos que se encontram nas revistas de arquitetura.
Ginásio em Credaro, frente principal
Conjunto de habitação Aler em Brescia, vista das rampas de acesso
Stefano Ferracini: As tuas obras construídas demonstram uma forte ligação com os conceitos chaves do movimento moderno, mas também são legíveis influências de obras contemporâneas da Espanha e sobretudo de Portugal. Talvez nestes países se tenha conseguido reformular pontos de partida iguais com a diferença de que hoje em dia se encontram respostas “modernas” mais apropriadas e coerentes com o nosso tempo?
Camillo Botticini: Num processo de analise mais amplo, europeu, Espanha e Portugal fazem parte de contextos locais específicos. Ambas estas situações constituem um singular caso de desenvolvimento “em atraso” em relação a outras regiões européias, uma síntese eficaz da tradição do moderno, com uma sensibilidade as questões urbanas italianas definidas por Gregotti e Rossi mas, nos casos “ibéricos”, depuradas das cenografia pós-modernas.
Com estes pressupostos soma-se a capacidade de construir, fato em que a Itália se encontra praticamente ao lado das questões. Acho normal encontrar neste panorama um ponto de partida para fundar um pensamento teórico-prático. Também é uma maneira de reagir à inércia do papel italiano na arquitetura contemporânea.
SF: O papel da escola neste mecanismo ajuda a criar pontos de referências, ou pelo contrário incrementa as incertezas…
CB: O sistema de ensino hoje é incapaz de criar uma relação entre pensamento e prática, este é um fato por um lado causado para razões materiais, como o elevado número de estudantes, a falta de espaço, etc., mas também por questões ideológicas e mais graves: os professores de projeto encontram inclinados a pensar o projeto em abstrato, sem considerar a complexidade que uma obra tem desde projeto no papel até à fase final da obra. Muitas vezes encontra-se presente uma recusa “intelectual” que considera o fato de construir como “meramente” profissional.
Concurso do ASVT Centro Direccional em Sarezzo, frente principal
Concurso para o conjunto escolar em Lido Adriano, Ravenna vista aérea
Stefano Ferracini: Como concretizas o teu trabalho, com a forte concorrência e os vínculos da burocracia italiana?
Camillo Botticini: Os vínculos nunca são um limite ao projeto, além da obtusa arbitrariedade que caracteriza o trabalho dos funcionários cujo fazer classifica-se entre um ser especializado numa ótica muito conservadora e igualmente o fato de ser muito burocrático. Este modus operandi produz em muitos casos incompreensões entre o existente e o projeto, causando depois resultados ineficazes.
As instituições deveriam tentar recuperar o caráter central do papel da arquitetura como guia nos processo de transformação urbana. Hoje as mídias trabalham de maneira positiva ao apresentar da arquitetura como fenômeno importante na nossa sociedade, mas é ainda excepcional. Faltam leis que ajudem a por em primeiro plano o papel da arquitetura nas construções.
SF: Podes descrever dois projetos em si diferentes mas que consideras fundamentais no teu percurso de formação e que possam de qualquer maneira enquadrar os teu pensamento?
O projeto de Bagnolo Mella, de pequenas dimensões, ajudou-me a perceber o que quero procurar na arquitetura, ou seja a relação entre uma dimensão arquetípica – como um recinto, uma torre ou, em geral, como utilizar formas simples e interpretá-las nas diferentes situações – e uma que seja capaz de exprimir a contemporaneidade da intervenção. A dialética entre estes dois componentes fundam os princípios para a compreensão de um lugar e o consecutivo carácter da arquitetura.
O concurso para Valtrompia, um lugar dramático, sem identidade, precisava duma intervenção reagente. O projeto é portanto identificativo, sem nostalgias regressivas, comunica com um contexto absurdo feito de fragmentos isolados mas com capacidade para criar entre eles espaços complexos. O projeto desejava gerar diferenças em resposta à forte homologação.
Projeto para a conversão duma antiga fabrica metalúrgica em Brescia, em centro polivalente
Ginásio em Sarezzo, frente principal , ingresso e pátio interno
Stefano Ferracini: É comum adjetivar as obras italianas como similares às portuguesas, holandesas, espanholas, etc. Existem, pelo contrário, pontos de referência nacionais? Pode-se definir uma arquitetura italiana?
Camillo Botticini: Estava a projetar juntamente com o meu colega Paolo Mestriner uma praça de um pequeno centro nos montes perto de Brescia. A administração queria uma intervenção leve, mimética, ecológica, que pudesse ser uma resposta ao caos que se encontra em volta. Nós, em resposta estávamos a estudar a arquitetura japonesa, como a de Ito ou Sejima, na procura de referências para uma possível proposta.
Neste sentido reparamos na distância que estes exemplos tinham em relação ao contexto específico italiano: em primeiro lugar relativamente às qualidades dos mestres japoneses, mas também em relação à capacidade intrínseca da natureza “italiana” de não se afastar dos traçados históricos, de tentar procurar sempre um sinal e de ter uma espécie de DNA urbano que fundamenta o nosso operar na definição dos espaços.
Acho que tal característica tem que ser considerada como uma especificidade dos arquitetos italianos, temos de começar deste ponto.
SF: Esta é uma consideração importante num processo onde a única arquitetura que parece ter valor nas publicações é aquela sem contexto, mas existe ainda quem considere a cidade e o construído como ponto de partida…
Uma questão ainda sem resposta é como reagir em relação à perda da qualidade do urbano, tentar seguir o caráter do lugar para propor um projeto com capacidade de rivalizar um espaço existente e complexo.
Na Itália, a história, a morfologia do território e tudo que existe têm de ser visto em maneira crítica, nada deve ser deitado fora, tudo é uma referência. A arquitetura tem de se repropor como resposta concreta e coerente à envolvente e não para fugir aos problemas que se encontram em volta. A questão principal não é refazer o Moderno, mas como utilizar todos os materiais disponíveis e as nossas referências culturais para evitar o desastre e sobretudo superando a incapacidade de enfrentar o caos.
Nascido em Brescia, Itália (1965) e formado pelo Politécnico de Milão (1990) com o relator Sérgio Crotti, em 2003 acaba o doutoramento com a tese Relazioni, progetto ed identità dell’architettura contemporânea. É professor desde 2003 no Politécnico de Milão. Trabalha em ateliê próprio em Brescia desde 1993, as suas obras mais significativas foram premiadas e publicadas em várias revistas. O projeto de expansão do Cemitério Marcheno (prêmio In/arch. Domus 1998), o Showroom Damioli, a Ponte de S. Marco perto de Brescia (prêmio nacional de arquitetura “Luigi Cosenza” 1998). Outras obras, como o cemitério S. Gallo de Botticino (1998) de Bagnolo (2002) ou Centro Desportivo de Credaro perto de Bergamo (1999-2003), a ponte de pedestres de Mella a Marcheno (1997-2000) foram publicadas nas revistas Casabella, Domus, D’Architettura, Area. O projeto para o ginásio de Sarezzo ganhou o Prêmio Arches 2004. Participou em várias exposições entre as quais a Biennale de Veneza 2000, “Stanze all’aperto” (Milano, 2000), “Giovani architetti italiani” (Graz e Praga, 2002). Concorreu a vários concursos internacionais, dentre eles foi selecionado com Jo Coenen para a nova mediadeca Beic de Milão e para o Novo Museu da Industria MUSIL de Brescia (2004). Em equipe com o português João Álvaro Rocha, é finalista para nova mediateca de Saint Ouen (Paris), juntamente com o grupo Nemesi. Escreve para a revista Il Projeto e coordena a publicação Mansilia e Tunon para a editora Testoimmagine.
Stefano Ferracini
Nascido em Treviso, Itália (1974), é licenciado pela Faculdade de Arquitectura do Porto (FAUP) em 2002. Mestrado em "Metodologias de Intervenção no Patrimônio Arquitetônico" (FAUP, 2003). Estudou no IUAV de Veneza e na Strathclyde University de Glasgow. Os seus projetos foram publicados em Veneza e no Porto em consecutivas exposições. Participou a vários concursos internacionais ganhando o concurso Pladur em 2001. Em 2004 é finalista do concurso para o Novo Museu da Industria MUSIL de Brescia. Foi colaborador dos portugueses João Álvaro Rocha e Pedro Ramalho. Escreveu vários artigos sobre Porto e a arquitetura portuguesa. Participa no ensino didático organizando encontros e conferências. Vive e trabalha entre Turim e Veneza.
Tradução para português
Pedro Fonseca Jorge (Portugal, 1977) é licenciado pela Faculdade de Arquitetura do Porto (FAUP) em 2001. Mestrado em "Metodologias de Intervenção no Patrimônio Arquitetônico" (FAUP, 2003-2004). Monitor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto na disciplina de Projeto II no ano letivo de 2000-2001. Prêmio para “Melhor Design Interior”. Participante no Europa 7 e no Concurso para a Sede da Ordem dos Arquitetos do Algarve (Portugal). Prêmio para ADI (Italian Association for Industrial Design) para “Melhor Design Interior” no concurso Italian Styling – Young Designers Competition 2002, promovido pela ANFIA Bodybuilders Group. Menção Honrosa no concurso “My Renault”, promovido pela “Experimenta Design” e pela Renault Portuguesa. Colaborador do arquiteto Francisco Barata Fernandes (Porto) de 1999 a 2003.
Entrevista
A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em abril de 2005.
Fichas técnicas dos projetos
Ginásio em Sarezzo Cliente: Câmara municipal de Sarezzo Projeto: 2002 Obra : 2003 Equipe: Camillo Botticini, Claudio Corna, Sara Ambrosini, Germano Rovetta, Milena Técnicos administrativos: Fabrizio Veronesi , Salvatore Mangiola VivenziEstruturas: Donato Aquilino Aguas esgotos : Studio associato Valzelli Empresa: Stefana di Villa Carcina
Ginásio em Credaro Ciente: Comune di Credano Projeto: 1999-2002 Obra: 2003 Equipe: Camillo Botticini, Luca Fusini, Claudio Corna, Marco Angelini, Daniela Galli, Federico Omodei, Milena Vivenzi Impresa: Foresti di Chiuduno (Bg)
Conjunto de habitação Aler Cliente: ALER Brescia Projeto: 2001 Obra: 2003-2004 Equipe: Camillo Botticini, Giorgio Goffi, G.Rovetta, C. Dall’Asta Estruturas e águas: Studio Pinchetti
Concurso do ASVT Cliente: Comune di Sarezzo Projeto: 2004 Equipe: Camillo Botticini, Franco Sangalli, Alessandro Rogora, Nicola Martinoli, Francesco Craca, Arianna Foresti Estruturas: Franco Palmieri
Concurso Lido Adriano Cliente: Câmara Municipal de Ravenna Projeto: 2005 Equipe: Camillo Botticini, Nicola Martinoli, Stefano Ferracini Estruturas e águas: Montanari srl
Recupero antiga fabrica em Area ex-bisider Cliente: Impresa Basileus Projeto: 2004 Equipe: Camillo Botticini, Francesco Apollonio, Francesco Cancelli, Nicola Martinoli, Marco Rosini.