Mancha urbana da Grande São Paulo
[fonte: INPE]
Jorge Wilheim e o Plano Diretor Estratégico de São Paulo
Marcelo Corti
Jorge Wilheim é Secretário de Planeamento Urbano de São Paulo (1) e esteve presente no Diálogo "Cidade e cidadãos do século XXI" no recente Forum 2004 (2). Café de las Ciudades (3) o entrevistou, pensando especialmente na continuidade da matéria com Raquel Rolnik, publicada em nosso número 1 (4), e na possibilidade de transmitir a experiência de dois anos de aplicação do Plano Diretor Estratégico.
A entrevista é anterior aos recentes debates municipais ocorridos no Brasil, aonde ao fechamento desta edição de Café de las Ciudades a prefeita Marta Suplicy aparecia nas pesquisas derrotada no segundo turno diante do ex-candidato presidencial José Serra. Contudo, à margem do resultado final da eleição e de suas consequências para a aplicação do Plano, o diálogo com Wilhem foi útil para revisar os processos e conceitos chaves na formulação desse instrumento urbanístico para a maior megalópole sul-americana (5).
notas
1
Por ocasião da publicação original da entrevista, em novembro de 2004, o arquiteto Jorge Wilheim ainda dirigia a SEMPLA.
2
CORTI, Marcelo. “Encuentros das cidades”. Café de las Ciudades, ano 3, nº 24, out. 2004 <http://www.cafedelasciudades.com.ar/encuentros_24.htm>.
3
Café de las Ciudades, Revista digital de conhecimento, reflexiones e miradas sobre a cidade http://www.cafedelasciudades.com.ar.
4
"A missão do urbanismo é redistribuir riqueza e enfrentar a exclussão” (entrevista com Raquel Rolnik) Café de las Ciudades, ano 1, nº 1, nov. 2002 <http://www.cafedelasciudades.com.ar/numero_um.htm#entrevista>.
5
Nota do editor – Como sinaliza o entrevistador Marcelo Conti, a prefeita Marta Suplicy acabou derrotada para o candidato José Serra que, ao assumir o posto, mudou todo o secretariado. Mesmo assim, as questões debatidas na entrevista merecem uma reflexão por parte dos interessados no destino da capital paulista.
Topografia da Grande São Paulo
[fonte: SEMPLA]
Rios da cidade de São Paulo. Aerofotogrametria BASE, 2002
[fonte: SEMPLA]
Marcelo Corti: Em uma conversa informal você disse que ao começar a elaborar o Plano Diretor Estratégico estava preocupado por estar se expressando em leis e não em um livro.
Jorge Wilheim: Vou comentar algo sobre a metodologia do Plano, neste caso. Eu tenho cerca de 20 planos realizados no Brasil, já havia feito um plano para a cidade de São Paulo e outro para a região metropolitana, mas vou falar especificamente da metodologia que aplicamos nesse momento, para este plano. Há duas questões fundamentais: a primeira é que quando se faz planificação no setor público, temos que pensar simultaneamente na gestão pública: não é uma tarefa independente. É uma tarefa que está inserida dentro de um cronograma que é político e tem que ser necessariamente político porque o prefeito (neste caso, a prefeita) tem no máximo 4 anos para aprová-lo, e isso não é muito tempo para todo o processo legislativo que demanda a aprovação do plano. A metodologia de trabalho tem que se adaptar às realidades políticas, porque senão não servirá à gestão nem à necessidade da população. Por isso eu reuni todos os técnicos da Secretaría (que não são muitos) e lhes disse que nós não iríamos fazer o livro do plano, mas sim a lei do plano. No final da gestão, teremos que fazer o livro para registrar o que fizemos, mas no que diz respeito ao que temos que fazer agora, eu não aceito nenhuma linha dos técnicos que não seja um artigo de lei! Além disso havia uma outra função: quando se escreve uma lei, cada artigo pode tratar de apenas um ponto ou tema, não pode ter adjetivos nem advérbios, não pode ter ambigüidades nem ambivalências; tem que ser muito preciso e cada ponto tem que estar completo. É toda uma disciplina...
MC: A lei parece, portanto, um gênero literário especialmente apto para o urbanismo...
JW: Exato! Os ingleses fazem algo semelhante em seus reports, numeram os parágrafos, e isto é uma maneira de disciplinar o pensamento; em cada um destes números você tem que desenvolver apenas uma idéia e fazê-lo bem. O outro princípio que eu coloquei para minha equipe ao iniciar o trabalho foi abrir a janela, olhar a cidade, e perguntar-se: quem é o que fez e faz tudo isto?; aonde está o poder público? É claro que a resposta é que o que se vê pela janela foi feito pela iniciativa privada, mas que por trás disso existe uma influência do setor público. Então a questão é que a cidade é uma obra coletiva, é a mais importante obra de cultura feita por uma sociedade, e se isto é verdade não devemos esquecê-lo porque logo depois, ao fazer o plano, nós vamos descobrir o que se deve fazer para que uma obra coletiva possa servir e obedecer ao maior interesse público possível. Com isto começamos; na verdade, meus técnicos conheciam bastante bem a cidade e eu também, havíamos trabalhado juntos em temas de planejamento, e desta maneira pudemos fazer o Plano em 8 meses. E é curioso como, ao se olhar a cidade, mesmo aqueles que já a conhecem, se descobre algumas coisas que estavam diante do próprio nariz e não as enxergavam. Isso já me ocorreu muitas vezes, como por exemplo quando fiz o plano de Curitiba: fui à cidade e vi coisas que as pessoas que vivem lá não conseguiam ver. Um olho treinado e curioso pode ver e descobrir coisas e uma das coisas mais importantes que eu descubri é que São Paulo é a maior região impermeabilizada do mundo. Isso tem uma história: todo loteamento, todas as parcelas do solo, têm sido sempre divididos pela iniciativa privada e nunca houve uma iniciativa pública de fazer uma urbanização. Por isso cada vez o lote é menor e quando se vive em um lote pequeno, há a necessidade de pavimentar tudo porque não existe espaço para jardim; o jardim só é possível quando se tem um lote maior. Nos bairros ricos os lotes são grandes e os jardins são muito bons, mas a maior parte da cidade está feita de pequenas parcelas e estas são impermeabilizadas. Recordo que uma vez voei de helicóptero com Manuel Castells sobre a cidade e ele a cada instante preguntava: isto é uma favela? E não era: o que ele pensava ser a favela era na verdade o espaço normal da cidade, com pequenos lotes e casinhas privadas.
MC: Qual é a área aproximada destas parcelas?
JW: Quando são irregulares, cerca de 6 por 15 metros; quando são regulares, de 10 por 15 ou 20 metros, mas muitas vezes a pessoa que é proprietária faz sua casinha e depois, no resto do terreno, constrói outra casinha ou algumas habitações para aluguel. Então muitas vezes em um lote que é pequeno há duas ou três famílias: uma que é a principal ou a proprietária e as outras que são locatárias. Então este problema da impermeabilização da cidade é muito importante do ponto de vista urbano, porque a cidade não é plana: os geógrafos chamam a esta configuração de São Paulo como um mar de morros, um mar de colinas. Tudo é ondulado. Mas quando se fala de colinas, se fala também de vales; você pode imaginar então o que ocorre a cada verão quando chegam as chuvas próprias do regime tropical. As águas correm até os vales com grande velocidade, porque não há como absorvê-las já que a cidade está impermeabilizada. Este problema da drenagem é muito importante e se relaciona com este novo olhar.
Outra questão que também foi importante no planejamento... (um arquiteto só consegue falar se puder desenhar – diz Wilhem enquanto pega um guardanapo e traça algumas linhas sobre ele). Em São Paulo há poucos rios, o Tietê, que é o mais importante, seu afluente o Pinheiros, que termina em duas represas artificiais, um afluente, o Tamanduatehy, e outro afluente que é o Anhanguataú. Quando os jesuítas chegaram ao lugar aonde se iniciou a cidade, subiram uma colina, olharam para atrás e disseram para si mesmos: "este lugar é ideal para fundar uma cidade, porque é alto e há um vale de cada lado para a defesa". A cidade de São Paulo permaneceu nesse triângulo de 1554 até praticamente 1890. Mas quando em 1860 aconteceu um boom do café na província, e com ela a necessidade de exportar o produto da região de Campinas para o porto de Santos, a construção da estrada de ferro tornou-se obrigatória. Os ingleses a fizeram, mas não podiam levá-la até a cidade por causa desses dois vales; construíram então a estação de estrada de ferro do outro lado e assim a cidade ganhou dois bairros novos próximos da estação, conectados com o centro histórico por uma estrada e uma ponte.
Mas a existência da estrada de ferro possibilitou que muitas indústrias se instalassem ao longo dela durante o século XX. Quando se ocorreu a mudança dos paradigmas de produção industrial, as fábricas se mudaram ou diminuiram sua escala, gerando uma diagonal vazia que cruza toda a cidade e passa próxima do centro, muito mal aproveitada e com muitos terrenos e edifícios industriais vazios. A existência desta "diagonal de oportunidades" foi outro fato que observamos e consideramos importante reter para pensar o que faríamos. Outra observação que fizemos é que em toda a região leste não há conexões norte-sul, e em toda a região norte está carente de conexões leste-oeste: o sistema viário não está completo, e isso também nos orientou sobre as prioridades do sistema viário. A quarta observação, que sirviu para toda a gestão de Marta Suplicy, é que há bairros de excluídos, bairros aonde a maior parte da população está excluída de uma forma ou de outra: da educação, da alfabetização, dos computadores, da cultura. Todos os tipos de exclusão tinham sido estudados pela Universidade, e isso sirviu como orientação sobre aonde fazer os investimentos sociais e aonde localizar os programas sociais.
Com tudo isto em mãos, propusemos um tipo de plano que reforça a polinucleação da cidade e a reconquista do centro. Ao mesmo tempo em que se reforçavam as nucleações, as centralidades (tanto as puntuais como as lineares, que se extendem ao longo de avenidas), nós as relevamos e sobre estas centralidades e o sistema viário existente se fez um plano que tende a uma polinucleação dos centros urbanos; isto é normal em uma cidade de 11 milhões de habitantes e de 1.500 km2 de superfície, aonde não pode existir um único centro.
Esta polinucleação, a decisão de levar uma estrutura de progresso e de qualidade de vida a estes centros, foi uma das direções do Plano e coincidia em grande medida com outra decisão administrativa que é a descentralização do poder. A cidade foi dividida em 31 setores, cada um deles tornando-se uma subprefeitura com um mandatário nomeado pela prefeita. Este funcionário tem um status de subprefeito: não foi eleito, foi nomeado e a prefeita pode demiti-lo (claro que a prefeita não colocará um inemigo para ter poder em um setor da cidade...). Mas junto com este subprefeito também se criou um Conselho de Representantes. A lei orgânica municipal da década do 90 diz que a decisão de dividir a cidade é uma iniciativa do Executivo, mas que a iniciativa do conselho de representantes tem que ser uma decisão do Câmara Municipal, e esta, durante muitos anos, não quis saber disso, pois os vereadores a enxergavam como uma concorrência na representação das regiões. Finalmente as coisas evoluíram. Como tampouco o PT – Partido dos Trabalhadores – tem maioria absoluta, teve que fazer alianças. Os vereadores compreenderam que este ano o tema estava bastante maduro e decidiram criar os conselhos, que começam a funcionar em 2005.
Mas também há muitos outros conselhos, organizados pela sociedade civil ou pelo governo, sendo um dos mais importantes o de orçamento participativo. O orçamento participativo é praticado em muitas cidades de Brasil; começou efetivamente em Porto Alegre e há muita experiência acumulada. Eu considero esta prática como uma importante pedagogia para os cidadãos. É mais importante a própria pedagogia do que as prioridades na distribuição do orçamento, porque na realidade não se discute todo o orçamento, mas uma parte mínima. Para todo o restante as leis discutem qual é o mínimo que tem que ir para educação, para a saúde, etc. São coisas que as pessoas que participam não podem mudar. Mas eles podem discutir prioridades de localização e isto é uma pedagogia, pois um cidadão que se inscreve para participar (cerca de 20.000 pessoas participaram do sistema) vai com a intenção de obter a prioridade para algo que se localize diante de sua casa, mas ao discuti-lo tem que ouvir e escutar que há algo mais importante e prioritário em saúde pública em outra rua que não é a sua, e ele finalmente aceita isso; trata-se então de uma pedagogia, de uma educação da cidadania. Essas coisas estão sendo practicadas há três anos.
Havia então estas idéias gerais que foram incorporadas ao plano. É um plano de polinucleação, de fortalecimento de centros lineares e pontuais, de recuperação do centro histórico, que é o local de maior acessibilidade para todo o sistema de transporte, e também há mudanças na forma de priorizar o transporte público, que é um tema muito importante em uma cidade da escala de São Paulo. Temos muito pouco metrô construído, apenas 54 quilômetros, ainda que tenhamos começado no mesmo ano que a cidade do México, que agora conta com 225 quilômetros. A cidade do México é a capital do México e quem constrói e garante os investimentos é o Estado Nacional. Ao contrário, São Paulo é apenas capital do Estado de São Paulo, não uma capital nacional, e nunca houve dinheiro federal para o metrô. E além disso, qualquer linha que seja construída precisa de mais de 4 anos, o que leva muitos prefeitos a não fazerem absolutamente nada já que não poderiam obter benefícios eleitorais. É uma visão mesquinha, pequena, mas a conseqüência é que temos um atraso muito grande na construção do metrô. O quê fazer então? Decidimos fazer gestões para obter orçamento municipal para a companhia do metrô, que é estadual (o Estado de São Paulo tem a maioria das ações) e não da prefeitura; por outro lado, decidimos mudar o sistema de ônibus. É muito conhecido que para manter seu horário regular, o ônibus deve ter uma canaleta própria, exclusiva. Foram construídas então quatro (de um total de 16 previstas) grandes linhas de pistas exclusivas para as linhas-tronco de ônibus. Isto gerou uma discussão ideológica muito séria. As empresas são particulares e estavam acostumadas a serem subsidiadas pela municipalidade por quilômetro de percurso, por isso queriam ter suas linhas desde a periferia mais distante até o centro. Isto foi mudado. Foram estabelecidas linhas-tronco, que foram licitadas para entre os interessados em operá-las, e logo se foi realizada outra licitação para operar as ramificações. As linhas-tronco operam com ônibus largos articulados, e as empresas ganhadoras da licitação têm dois anos para adaptar seus carros. Para conseguir isto, a prefeita teve que enfrentar uma resistência feroz, pois muitos proprietários são mafiosos (dois deles estão presos, portanto são realmente bandidos) e utilizavam o sindicato dos motoristas como massa de manobra, de modo que durante o primeiro ano tivemos grandes greves no transporte. Imagine o que isto representava para a cidade! Agora toda a rede de ônibus e de linhas-tronco estão no plano, hoje são lei, já não se discute mais sobre isso, estão aceitas, mas não foi algo simples de se conseguir.
Do ponto de vista "macro" da cidade, tivemos a primeira distinção, que foi entre a região aonde é imprescindível a preservação de meio ambiente, o extremo sul e o norte, locais a se preservar por uma questão de recursos hídricos, e o restante, aonde se pode construir. Para garantir esta "não ocupação" do solo (há muita ocupação irregular) e para induzir que os proprietários resistam à tentação de construir edificações irregulares, nós permitimos a transferência de potencial construtivo. Esse potencial construtivo virtual que eles tinham passa a ser passível de venda para ser anexado a uma construção em outra região. Este mecanismo de transferência de potencial de construção foi pensado basicamente para esta potencialidade. O outro motivo para a transferência de potencial era o de preservar os edifícios de interesse histórico, dos quais a maioria está no centro histórico, ainda que há alguns em outros lugares. Ali também o proprietário pode transferir seu potencial de construção, e vendendo-o e obtendo recursos para poder fazer as reformas ou ao menos não destruir o patrimônio que já tem. Esta transferência de potencial construtivo é um mecanismo que também foi introduzido no plano. As orientações gerais dependeram de uma análise das regiões aonde fazem falta infra-estruturas urbanas e outras aonde já as há mas que precisam melhorar sua qualidade, e do centro histórico, que precisa reconstruir ou melhorar a qualidade porque há edifícios vazios ou que estavam em desuso. Tínhamos então 3 características, cada uma delas com um "fator K" – um fator de ponderação para ser aplicado nas leis de potencial construtivo.
Finalmente, outro mecanismo importante que aplicamos foi a outorga onerosa na permissão de construção. Há três etapas reconhecíveis neste princípio que hoje é lei: primero, nós constatamos que o único recurso que o setor público tem para barganhar com o setor privado não é a propriedade de solo público, porque não o tem; não é ter capital para investimentos em infra-estrutura, porque tampouco o tem. A única coisa que o estado pode negociar é a decisão sobre quantos metros quadrados o proprietário pode construir sobre um determinado terreno. Nós construímos este mecanismo com o qual o setor privado pode negociar, ou pode reclamar, mas finalmente tem que aceitar porque é atribução do setor público, através de uma lei, decidir isso. Baseados neste fato, decidimos estabelecer dois níveis de direito de construção: o primeiro nível, básico, permite construir uma vez a superfície do terreno; isto é gratuito e todos podem fazê-lo. O outro nível vai até 4 vezes, que é o coeficiente máximo; há os coeficientes intermediários de 2,5, 3 e 4. A diferença depende da existência de infra-estrutura ou se há o desejo de adensar nos pontos de centralidadee pontual ou linear. Decidimos estabelecer estes dois níveis, mas para passar de 1 a 4 o proprietário terá que pagar e o montante vai para um fundo de urbanização que pode usar este valor somente em quatro coisas: melhorias em infra-estrutura, melhorias em meio ambiente, compra de espaço público e soluções para a urbanização das favelas. Este fundo tem um órgão gestor que decide o que fazer a cada ano. Estes fundos que entram não vêm do orçamento, não vêm de impostos nem de taxas. Eles estão envolvidos dentro do sistema de produção dos espaços construídos e assim estamos sacando parte da mais valia imobiliária do mercado para pô-la a serviço das atividades e das obras públicas. A discussão sobre este tema não foi muito simples, nem pacífica, porque como nós fizemos o plano em 8 meses e o discutimos durante outros 6 meses, com muitas reuniões em diversos lugares, houve muito espaço para conversar, para protestar e inclusive para melhorar o que nós estávamos propondo.
O mercado imobiliário é muito forte em São Paulo, e para nós é muito importante, porque gera muitos empregos. Por esse motivo, em nenhum momento quisemos por em risco o nível de construção que há em São Paulo. Mas eu tinha sempre a meu lado não apenas os técnicos urbanistas, mas também um consultor de mercado, e cada vez que propúnhamos alguma coisa eu fazia a planilha que normalmente uma firma faz para saber onde está o lucro e até aonde se pode subir isto e aquilo, e portanto eu sabia até onde se podia ir e não ir além porque não seria possível, não seria positivo.
Encontro dos rios Tietê (acima) e Pinheiros. cidade de São Paulo. Aerofotogrametria BASE, 2002
[fonte: SEMPLA]
Mapa de zoneamento da área central da cidade de São Paulo
[fonte: SEMPLA]
Marcelo Corti: Alguns especialistas dizem que na Argentina os investidores imobiliários podem e devem aceitar estes mecanismos porque afinal eles têm que pagar para obter melhores standards de edificação: pagam na forma de subornos e por isso prefiriram pagar legalmente.
Jorge Wilheim: Bem, com estes mecanismos o suborno caiu muitíssimo. Eu não posso afirmar que não haja subornos em São Paulo, mas em todo caso estão em um nível muito pequeno. Esta foi uma mudança muito grande, porque Marta Suplicy assumiu a prefeitura depois de um governo aonde o suborno era cotidiano, estava em todos os jornais. Muitos vereadores perderam o cargo e dois deles estão presos. O suborno estava totalmente organizado, desde os fiscais até os vereadores. Isto já não existe mais como sistema, possivelmente exista ainda algum, mas como fato isolado.
Imediatamente depois de sancionar o Plano, tínhamos que fazer outra lei, que é a do zoneamento, e junto com isto 31 planos para cada uma das subprefeituras. Foi um trabalho imenso, porque as subprefeituras não tinham quadros, não contavam com pessoal técnico. Através da Secretaria de Planejamento tivemos que ajudar muito e chamamos a todas as universidades que quiseram participar para ajudar também, elegendo em qual subprefeitura queriam trabalhar. Algumas aceitaram e em outros casos profissionais foram contratados. Para isso contávamos com alguns recursos, que foram distribuídos entre os subprefeitos. Estava te dizendo que essa lei de zoneamento foi outra luta. Para você ter uma idéia, nós tivemos em 2 ou 3 dias uma ou duas páginas inteiras dos jornais cheias de notícias sobre "o desastre que vai a ser a aprovação do Plano: vamos perder isto, vamos perder aquilo", às quais nós respondíamos com outra página aonde replicávamos que "somente vai perder quem pensa que o que existe está bom". Era uma luta muito forte e se não fosse pelo apoio e a visão da prefeita sobre a importância de se ganhar essa luta, não teríamos ganhado.
MC: Para aprovar um plano é necessário uma convição e uma liderança muito forte.
JW: Em nosso caso havia muita convicção de que estávamos fazendo algo sério, e tratávamos de fazer um plano novo depois de 30 anos. Isso era muito importante: a prefeita queria deixar para São Paulo um novo Plano.
MC: E que balanço você faz destes dois anos?
JW: Eu creio que o mais importante é que a sociedade e inclusive os empresários aceitaram as regras da lei. Lutaram até o final e nós tivemos que ceder algo. Quem negociava era a Câmara de Vereadores, aonde se fazia a revisão final, e eu sabia que em alguns casos teríamos que ceder, mas ceder "até aqui", dentro do que esperávamos. Mesmo que nunca seja perfeita, a lei é a lei; os projetos novos estão entrando, já temos alguns milhões de reais que entraram no fundo, neste mês teremos uma reunião para saber no que a prefeita quer que se use este dinheiro. O mecanismo começou a funcionar, neste sentido é um grande êxito, e a isto tenemos que agregar outro mecanismo que está no plano mas que estamos desenvolvendo agora: as Operações Urbanas. As Operações Urbanas são, depois dos planos, visões de uma região que não é pequena, porque pode ter 600 hectares, 2000 hectares. São regiões de planificação mais detalhada, aonde se quer fazer aquela acupuntura da qual falava Jaime Lerner em seu livro. Com elas se quer impulsionar e realizar novos desenvolvimentos. Na semana passada eu apresentei os planos de 4 novas operações urbanas, e creio que estas operações levantam inclusive a consciência do mercado para novas oportunidades: "a estação de ônibus vai estar aqui, lá vão fazer uma nova entrada até a cidade, isto vai se valorizar, temos que implantar um edifício..." São novas oportunidades que surgem de uma decisão urbanística e de uma iniciativa da Municipalidade. É um fato novo, pois a iniciativa de aonde levar o mercado era sempre dos corretores imobiliários, dos brokers, e geralmente concentrava todos os desenvolvimentos em ruas que não soportavam esse aumento de tráfego, e matava os bairros, porque depois o investidor buscava outro lugar quando aquela área já não lhe interesava mais. Esta é a primeira vez que a Municipalidade toma a iniciativa desta planificação, e para isso serve o Plano: para dar orientação não somente ao poder público, mas também ao setor privado, aos agentes econômicos e aos cidadãos. Esse é o sentido do plano. Outra coisa também importante é que nós sempre trabalhamos no Plano em dois níveis: em longo prazo de 10 anos (por isso o plano se chama diretor) e em curto prazo, que recebe o nome de Plano Diretor Estratégico. Nós não fizemos destas duas palavras uma antinomia nem um debate acadêmico, como se faz muitas vezes nas universidades. Há a necessidade de se colocar em ação um processo de mudança e para isso há uma estratégia, ou ações estratégicas. Todas as ações estratégicas podem ser mudadas a cada 4 anos, mas a direção do plano tem 10 anos. Agora estamos propondo as operações urbanas, e nelas há que considerar 3 pontos que são muito dependentes um do outro: primeiro, a distinção entre os dois níveis de coeficientes, porque ela nos permite cobrar a outorga onerosa; segundo, quando isto é realizado em uma operação urbana, o gasto desse fundo pode ser feito somente dentro do perímetro da operação; terceiro, nós tenemos feito o cálculo do stock máximo de terra, que não pode ser superado, mas dentro destes limites vendemos os certificados de potencial construtivo em leilão, e temos que fazer algumas obras públicas dentro da operação urbana para que o mercado "venha" e comece a construir. Nós calculamos quanto dinheiro necessitamos e colocamos em leilão a venda destes direitos de construção adicional; com isso obtemos todo esse dinheiro que está fora do orçamento. Estes são mecanismos próprios, que surgiram do Plano e que estão funcinando. O processo já está em marcha faz um ano e agora começa a ter resultados.
Mapa com Subprefeituras de São Paulo. Lei Municipal nº 13.264, de 2 de janeiro de 2002
[fonte: SEMPLA]
Mapa de linhas atuais e propostas do Metrô da cidade de São Paulo
[fonte: METRÔ]
Jorge Wilheim
Jorge Wilheim (Trieste, 1928) é arquiteto pela FAU Mackenzie (1952). Na administração pública, foi Secretário Estadual de Economia e Planejamento (gestão Paulo Egydio Martins, 1975/79), Secretário Municipal de Planejamento (gestão Mário Covas, 1983/86) e presidente da Emplasa (1991/1994), sendo atualmente titular da SEMPLA (gestão Marta Suplicy, 2001–). Foi Secretário Geral Adjunto na Conferência Habitat 2 (Istambul, 1994/96) e preside o Conselho Administrativo da Fundação Bienal de São Paulo (2000/03). É autor de projetos de arquitetura – Parque do Anhembi (São Paulo, 1969/74) e 2a e 3a fases do Hospital Albert Einstein (São Paulo, 1978/85) – e de cidades – Angélica (MS, 1954) e da Cidade Industrial de Londrina (1997). Foi coordenador de mais de 20 planos diretores, entre eles para Curitiba (1965), Goiânia (1988), Campos do Jordão (2000) e Araxá (2002) e autor dos projetos urbanos para o Pátio do Colégio (São Paulo, 1975) e Vale do Anhangabaú (São Paulo, 1981/91). Publicou nove livros, com destaque para os Cadernos Brasileiros de Arquitetura nº 15 (ProEditores, 1985), O substantivo e o adjetivo (Perspectiva, 1976) e Tênue esperança não vasto caos. Questões do proto-renascimento do século XXI (Paz e Terra, 2001).
Marcelo Corti
Editor do website argentino especializado em urbanismo Café de las Ciudades.
Entrevista
A entrevista foi originalmente publicada em Café de las Ciudades, ano 3, nº 25. Buenos Aires, nov. 2004 <www.cafedelasciudades.com.ar>. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em fevereiro de 2005.
Mapa de Operações Urbanas e Projeto de Intervenção Urbana Estratégica. Plano Diretor Estratégico
[fonte: SEMPLA]