Em um almoço no sítio Santo Antônio da Bica, Fernando Chacel elogiou a camisa que Burle Marx usava e pintada pelo próprio. Burle Marx ali mesmo deu a camisa de presente para Chacel, que até hoje a guarda como lembrança. Foto de Isabel Vianna, arquiteta paisagista uruguaia
Fernando Chacel e a consciência ecológica e ambiental Antônio Agenor de Melo Barbosa
Fernando Magalhães Chacel (1931) é, certamente, o mais conceituado e bem sucedido arquiteto-paisagista brasileiro da geração pós Burle-Marx (1909/1994). Com mais de 50 anos de atividades profissionais o que mais impressiona neste homem já de cabelos e barbas brancas é a sua enorme vitalidade e a dedicação ao trabalho na pesada rotina à qual se dedica diariamente no seu escritório no centro do Rio de Janeiro. É do 14º pavimento de um edifício na Avenida Almirante Barroso – com vista privilegiada para o Teatro Municipal e, ao fundo, o Aterro do Flamengo emoldurado pelo Pão de Açúcar – que Chacel concebe e conceitua seus projetos. Aqueles que tiverem a oportunidade de uma breve passagem por seu escritório poderão observar que Chacel, no momento, coordena e desenvolve dezenas de projetos paisagísticos em vários locais do Brasil. No Rio de Janeiro está à frente do projeto paisagístico da Cidade da Música – de autoria do arquiteto francês Christian de Portzamparc – que será implantado em breve na Barra da Tijuca, na zona oeste da cidade.
Como se não bastasse a grande quantidade de projetos que desenvolve no escritório; Chacel, que é Professor Visitante da Universidade de Montreal no Canadá, ainda dedica-se a coordenar (e lecionar) os cursos de graduação e de pós-graduação em Paisagismo da Escola de Design e Artes Visuais da Universidade Veiga de Almeida, também no Rio de Janeiro. Como professor de paisagismo já estruturou e desenvolveu vários cursos para o Instituto de Arquitetos do Brasil em muitas cidades do país e é também um conferencista muito requisitado não só no Brasil como também no exterior. Em meio a tantas atribuições, ainda assim, o sempre gentil e bem humorado Fernando Chacel concedeu esta entrevista exclusiva para o Vitruvius. Foram quase três horas de (boa) conversa onde o entrevistado relatou questões e fatos fundamentais para a correta compreensão da grande importância do profissional de Paisagismo no Brasil em um contexto tão adverso como o das nossas cidades, notadamente as metrópoles como Rio e São Paulo. Visivelmente emocionado em vários momentos da entrevista, Chacel derramou algumas lágrimas ao relembrar amigos e parceiros já falecidos, como também ao falar das injustiças e das grandes mazelas sociais existentes no Brasil.
Todavia, numa visão otimista de seu tempo, Chacel arrisca dizer aos mais jovens que esta é uma das profissões do futuro, não por estar vinculada a qualquer tipo de modismo, mas sim por que, no seu entendimento, o arquiteto-paisagista será um dos poucos capacitados a atender às demandas sócio-ambientais que o novo século introduziu.
Grupo de Ananas bracteatus, tendo como pano de fundo o manguezal recuperdo. Mais ao fundo as pedras da Gávea e do Itanhangá. No Parque de Educação Ambiental Professor Mello Barreto, na Barra da Tijuca
Área de transição paisagística com tratamento de parque, caminhos de areia conduzindo à praça do "core" urbanizado. No Parque da Gleba "E", atual Península, na Barra da Tijuca
Antônio Agenor de Melo Barbosa: Primeiramente gostaria que o senhor nos falasse a respeito da sua formação intelectual, se possível desde a infância e juventude, e também mencionasse em que momento da sua vida foi despertado o interesse pela arquitetura e, sobretudo, pelo paisagismo. Quem foram seus mestres?
Fernando Chacel: Bem, quando você me pede para falar a respeito da minha formação intelectual, não entendo isto como sendo a da formação de um intelectual, pois eu não me considero como tal. Acho que talvez a minha resposta para a sua pergunta tenha mais a ver com a minha forma de pensar e atuar. É nesse sentido que eu acho que não sou um intelectual na verdadeira acepção da palavra, mas alguém que age e trabalha com base na sensibilidade e intuição. Em outras palavras eu diria que a minha cabeça foi feita muito mais através da prática profissional que por obra de uma formação acadêmica ou através de extensas leituras e pesquisas técnicas. Assim eu percorri um caminho que passou inicialmente pelo fazer para depois refletir e teorizar sobre o que concretamente tinha realizado.
Dessa forma posso dizer que a minha formação foi a de um autodidata que não partiu nem de especulações intelectuais nem de modelos teóricos, mas sim do trabalho em si, onde o “homo faber” veio, certamente, antes do “homo sapiens”.
Eu nasci em 1931 e tive uma infância de uma criança da classe média alta carioca. Fui uma criança bastante protegida pelos meus pais e por toda a família. Fui criado entre os bairros de Laranjeiras e Cosme Velho na Zona Sul do Rio de Janeiro e, o que me lembro agora é que, desde muito jovem eu já gostava de desenhar. O interessante é que eu não desenhava sobre papel, usando aquarela ou lápis de cor, como era comum às crianças daquela época. Eu morava em uma casa com um quintal grande e cheia de terra. Lembro-me bem que o que eu gostava mesmo era de fazer imensos desenhos com pedaços de madeira ou gravetos no chão. Então eu aprendi a desenhar na terra desde muito pequeno. E ali, com meus grandes desenhos eu criava personagens, construía morros, rios, paisagens e criava estórias imaginárias destes personagens – e até conversava com eles em voz alta – que, ao que me lembro, deixava algumas pessoas da minha família preocupadas e assustadas se eu não estava tendo algum tipo de delírio talvez. Esses desenhos eram muito grandes, e praticamente não tinham limites, e eu ia emendando um desenho no outro, buscando quase uma composição integrada. Posso te dizer que eu me distraia muito fazendo aqueles desenhos. E que eu passava tardes inteiras no quintal de casa inventando estórias e representando-as nos meus desenhos.
Na minha juventude comecei a ter outros interesses e os desenhos feitos sobre a terra do quintal da casa foram deixados de lado.
Surgiu em lugar deles a ambição de tornar-me pintor chegando a cursar uns anos de Belas Artes antes de prestar vestibular para a Arquitetura. Isto tudo gerou uma grande confusão na minha cabeça até que fui despertado por uma grande paixão: a música.
Ela veio quando estava cursando a faculdade, o que me levou a deixar para segundo plano os meus estudos e ter muito poucas lembranças daqueles que seriam os meus mestres. Existem, no entanto, três professores que guardo na lembrança com muita admiração: Lucas Mayerhoffer da cadeira de Arquitetura Analítica, Wladimir Alves de Souza que lecionava Teoria da Arquitetura e o Paulo Santos com as suas aulas sobre a Arquitetura Colonial Brasileira.
Para complicar a minha assiduidade às aulas trabalhei, desde o segundo ano do curso, como desenhista de arquitetura numa empresa de Engenharia a Steel – Sociedade Técnica de Empreendimentos de Engenharia Ltda. Este fato que, juntamente com as minhas atividades noturnas ligadas à música, fez com que eu fosse um aluno constantemente ausente nas aulas.
Comecei a trabalhar com 17 anos, como desenhista. Desenhava concreto, instalações, arquitetura. Tudo na base do tira-linhas. Eu sou do tempo do tira-linhas.
Esse trabalho, se por um lado me levou a adquirir um conhecimento técnico específico que a maioria dos meus colegas não possuíam, por outro lado ia, aos poucos, fazendo-me perder o gosto e o encantamento pela arquitetura, o que me levou a ficar cada vez mais seduzido pela música.
Eu tocava acordeão nos bailes de sábados, nas domingueiras e também nas boates. Começava assim uma outra atividade: a de notívago, trocando muitas vezes o dia pela noite.
Nessa época, no meio musical, encontrei meus primeiros mestres de fato: Amyrton Valim, pianista cego, de rara sensibilidade e repertório interminável; Bandeirante, guitarrista, harmonizador consciente e preciso e profundo conhecedor dos instrumentos de corda da família dos violões; Magé, também guitarrista e contrabaixista, bom no fraseado, morador do Edifício 200 da Rua Barata Ribeiro e que compartilhou, no tempo da ditadura, uma cela com Carlos Imperial. Todos eles seres humanos da melhor qualidade e conhecedores da ciência do viver.
Mas os meus ídolos mesmo eram Fafá Lemos, Garoto e Chiquinho do acordeom que, juntos, formavam o conjunto Trio Surdina.
Foi com Fafá Lemos que estreei na noite carioca, no posto 6 e numa boate chamada Ranchinho do Alvarenga. Para tocar em bailes, fechei o meu primeiro “contrato” com Amyrton Valim no extinto Café Nice, pouco antes da sua demolição.
A partir daí minha dúvida entre ser músico ou arquiteto começou a crescer, para um certo desespero de minha família que não via com bons olhos as minhas incursões, cada vez mais freqüentes, pela noite.
O meu afastamento da música começou com o meu interesse pelo paisagismo quando comecei a trabalhar no atelier de Roberto Burle Marx e o surgimento dos compassos compostos, marcando em definitivo as minhas dificuldades rítmicas, acrescidas pelo fato de eu não saber ler as partituras.
No paisagismo meus grandes mestres foram Burle Marx, Luiz Emygdio e Aziz Ab`Saber, de quem tive o privilégio de receber generosamente, direta e indiretamente, os meus conhecimentos da profissão.
AAMB: Qual era o contexto – político e econômico – do Brasil nos anos da sua formação universitária e de que forma este contexto contribuiu nas suas escolhas e decisões profissionais.
FC: Após a minha primeira viagem à Europa e a minha descoberta de Paris, ao chegar no Brasil, procurei a Embaixada da França para saber da existência de alguma bolsa que pudesse me interessar profissionalmente e sobretudo me fizesse poder voltar a Paris.
Pleiteei uma bolsa para estudos de Urbanismo, e como tinha um currículo já bastante consistente, por já ter treze anos de formado, fui aprovado como bolsista do Governo Francês e em Agosto de 1966 estava em Paris.
Minha turma era constituída de arquitetos oriundos de 18 países diferentes, disso ressaltando uma grande experiência no palco da troca de idéias e conhecimento do que se passava em cada um dos nossos países.
A frase que escutava dos colegas e dos franceses que mais me marcou foi: “Mas vocês aceitam isso?” Esta pergunta vinha sempre que contava o que eu percebia, ainda de forma tênue e confusa, o que estava acontecendo no Brasil a partir do Golpe Militar.
Comecei naquele momento a tomar consciência do que realmente era o meu país, dos seus problemas, das suas injustiças e dos absurdos da ditadura militar instaurada no Brasil a partir de 1964.
Cheguei à conclusão também, que praticamente só conhecia o regime ditatorial, uma vez que tinha nascido na Ditadura da Vargas e embora, já tivesse mais de trinta anos, tinha podido presenciar, em raríssimos momentos, uma verdadeira democracia no meu país. Esta situação explicava então para mim a ausência do hábito e exercício dos princípios de uma verdadeira democracia no Brasil, e o sentimento que a liberdade aqui, era constantemente vigiada e controlada.
Isto mudou a minha cabeça, pois vi como era frágil e vazio o nosso conceito de democracia aqui no Brasil naquela época; antes mesmo do Golpe Militar de 1964. De certa forma os nossos governantes estavam, com raras exceções, imbuídos de um espírito autoritário mesmo em supostos governos democráticos. Então eu posso te dizer que a partir dessa minha estadia em Paris, eu percebi que estava fazendo a jornada do imbecil até o entendimento destas questões políticas que você me perguntou, compreende? E isto não é pouca coisa, isto é um percurso de vida, eu acredito. O curso me deu informações importantes de temas não só relacionados a projetos como também sobre outros aspectos, como o financiamento de grandes empreendimentos na área de urbanismo, por exemplo. E o fato de ter estudado Urbanismo me deu, certamente, um pouco desta consciência política que eu não tinha até o momento.
AAMB: Como foi a transição da academia para o mercado de trabalho? Em que momento o senhor constituiu um escritório e a partir de quando começou a dedicar-se exclusivamente ao paisagismo?
FC: Sobre isto, o que posso dizer é que o fato que considero mais importante naquele momento, foi ter tido a oportunidade de trabalhar no escritório do Burle Marx.
Conheci Roberto Burle Marx, levado pelas mãos de meu colega de Faculdade e amigo José Maria de Araújo e Souza – que já trabalhava com Burle e hoje vive em Brasília – no dia em que me apresentei em seu atelier, no Leme, para tentar ser admitido como estagiário.
Encontrei-o no meio de seus quadros, seus desenhos e arranjos florais. Foi um encontro rápido e logo fui conduzido ao andar superior onde, em uma sala e sobre uma prancheta, estavam empilhados desenhos de jardins, para serem reproduzidos em grandes folhas de papel schoeller e pintados a gouache. O trabalho destinava-se a uma exposição de Burle Marx nos EUA e eu estava sendo admitido para fazer parte de uma equipe encarregada de prepará-la. Entre apreensivo e deslumbrado comecei a examinar os desenhos que deveria copiar. Lembro-me bem da profunda impressão que me causaram aqueles projetos, não só por representarem uma linguagem completamente nova para mim mas, sobretudo, pelo fascínio que seus elementos gráficos e suas cores vibrantes exerciam sobre o meu olhar admirado.
Assim foi a minha descoberta e o meu encontro com o paisagismo de uma forma ampla. Mas com a obra do paisagista e seu extraordinário alcance, esse encontro veio um pouco mais tarde, quando pude compreender que a arte dos traçados e cromatismos dos jardins de Burle Marx se ampliava e se multiplicava com o uso judicioso e sábio do material de base de suas composições: a vegetação em todos os seus estratos.
Trabalhei por quase dois anos no atelier de Roberto Burle Marx e o que vi e ouvi, naquele período de iniciação ao paisagismo, continua vivo na minha memória e ainda hoje presente na concepção e desenvolvimento de meus projetos. O fato de ter trabalhado com Burle me credenciou, de certa forma, para que eu fosse nomeado, em 1954 quando já estava diplomado em arquitetura, pelo Prefeito Dulcídio Cardoso para prestar serviços no Setor de Arquitetura e Paisagismo do Departamento de Estradas de Rodagem do então Distrito Federal. Naquela ocasião tive como grande incentivador da minha carreira o arquiteto Benedito de Barros, o Bill, que era o chefe do setor para o qual eu prestaria serviços. De cara ele me pediu para que realizasse o projeto de uma praça em Santa Cruz.
Este foi o meu primeiro projeto de paisagismo, a despeito do fato de eu – ainda muito inseguro com a tarefa que me fora delegada – ter feito uma grande “colagem” de desenhos do próprio Burle que tentei imitar para que conseguisse conferir ao espaço um aspecto de praça. Todo o projeto daquela minha primeira praça foi uma cópia fiel das idéias e do pensamento do Mestre subtraídas de projetos seus que consegui no seu arquivo com quem eu tinha trabalhado até recentemente. Também não resisti ao impulso de colocar um lago no meu primeiro projeto de paisagismo, enfim na minha praça. Aí eu tive o cuidado de fazer uma bonita apresentação do meu trabalho, não sem antes preparar um desenho do arranjo geral da praça, em papel schoeller e naturalmente pintado a gouache, o que ratificou, perante os meus novos colegas da Prefeitura, a posição de discípulo direto de Burle Marx. Por pudor eu nunca contei ao Burle este fato e, felizmente, a praça de Santa Cruz nunca saiu do papel.
A partir daí também senti a necessidade de iniciar a minha carreira solo, e independente, como arquiteto paisagista. Mas a obra de Roberto Burle Marx ficou sempre referenciada para mim, desde então. Um fato que me deixou especialmente feliz foi o de ter sido seu parceiro – por vontade expressa pelo próprio Burle – em um projeto de um complexo hoteleiro, de autoria de Paulo Casé, na Bahia nos anos 80.
Vista aérea, antes da implantação do Parque da Gleba "E", atual Península, mostrando a degradação da estrutura superficial
Bromélias sobre sistema radicular e troncos do manguezal. Alguns exemplares das espécies presentes nos Ecossistemas litorâneos - Manguezais e Restingas
Antônio Agenor de Melo Barbosa: O senhor é um profissional que tem projetos de grande qualidade em diversas partes do Brasil mas, a meu ver, os seus projetos que mais se destacam estão situados no Rio de Janeiro, sobretudo em grandes áreas públicas. O senhor concorda com esta avaliação? Como observa e atua na cidade? Qual é a efetiva “presença” da cidade na sua atividade como um paisagista carioca?
Fernando Chacel: Sim, creio que você tem razão e eu concordo com a sua avaliação. Mas nos últimos anos eu tenho atuado não apenas em grandes áreas públicas, mas também em grandes áreas privadas no Rio de Janeiro. Isto devido a uma certa obrigatoriedade de trabalhos paisagísticos, muitas vezes considerados como medidas compensatórias em relação aos impactos ambientais. Assim, hoje em dia todos os grandes empreendimentos necessitam de estudos e de relatórios de impactos ambientais em decorrência de sua implantação. Creio que com isto surgiu uma nova maneira de atuar nesse campo que é o de entender que o projeto paisagístico em um determinado empreendimento, não deve estar limitado apenas a uma suposta satisfação estética ou a uma idéia simplificada de conforto climático, por exemplo. Nos últimos anos tenho atuado na restauração e na recuperação de ecossistemas, isto é: com um embasamento ecológico em nossos projetos paisagísticos.
Penso também que com relação a esta presença da cidade no meu trabalho, é algo que de fato ocorre, mas também creio que, já passados alguns anos de muito trabalho no Rio de Janeiro, tenho que ter uma noção também da presença e da contribuição real do meu trabalho para a cidade, sobretudo na região da Barra da Tijuca.
E aqui, se você me permite, eu menciono um pequeno trecho do meu livro sobre as minhas impressões a respeito da Barra da Tijuca que, creio, tem relação com a sua pergunta:
Conheci a Barra da Tijuca e a Baixada de Jacarepaguá em seu estado agreste. O mar, as dunas, as lagoas e seus brejos, os rios abrigados por suas matas ciliares, embasavam um relevo pontuado por monumentos naturais, com interflúvios florestados e encostas densamente revestidas por vegetação.
São recordações da minha infância, da minha juventude, dos tempos já vividos, que se perderam na velocidade do tempo que não para. Mas que ficaram guardadas em algum lugar da minha memória e que, provavelmente, são também responsáveis pelos projetos que desenvolvi naquela região.
Portanto esta é uma cidade de paisagens e foi a paisagem que norteou a ocupação. Os impedimentos fisiográficos, de certa forma, também condicionaram o crescimento da cidade, a despeito do desmonte de vários morros que marcavam e balizavam o início da ocupação como o Morro do Castelo e o Morro de Santo Antônio e etc. Então eu talvez possa entender como uma relação mesmo de simbiose entre estas duas presenças, digamos assim. Mas esta forte presença natural do Rio é a grande diferença de se trabalhar com a paisagem aqui e em outras cidades que não possuem estas características tão interessantes.
Aqui no Rio de Janeiro é a paisagem natural que faz a diferença em relação a outras cidades. E não bastasse tudo isto, ainda tivemos aqui a contribuição de artistas notáveis como Glaziou e Burle Marx. E é uma pena que a importante contribuição de Glaziou e o grande acervo de Roberto Burle Marx na cidade estejam tão mal conservados.
O sítio Burle Marx deveria ser, na minha opinião, uma espécie de núcleo da obra de Roberto Burle Marx no Rio de Janeiro. E que todos os projetos de Burle Marx no Rio de Janeiro fossem “pinças” deste acervo do sítio, configurando assim um conjunto de monumentos classificados da obra dele na cidade. Essa idéia eu já apresentei recentemente à Maria Elisa Costa, atual Presidente do IPHAN. Nos níveis intra-muros e extra-muros. Lembro-me também que Luiz Emygdio de Mello Filho, juntamente com Carlos Contreras, já havia mencionado a hipótese de tentar transformar o sítio em Patrimônio da Humanidade. E é sempre bom falar do grande mestre que foi Luiz Emygdio que todos consideravam o mais paisagista dos botânicos e o mais botânico dos paisagistas e das suas intenções justas e idéias consistentes.
AAMB: O Rio de Janeiro, por contingências históricas, foi uma cidade que em diversos momentos desde o século XVIII recebeu importantes artistas, arquitetos e paisagistas estrangeiros para trabalhar aqui nas mais diferentes propostas. Como vê esta presença estrangeira numa cidade que teve figuras do porte de: Glaziou, Grandjean de Montigny, Agache, Le Corbuiser e tantos outros? No momento a cidade também recebe a contribuição estrangeira do francês Christian de Portzamparc no Projeto da Cidade da Música. Qual é o legado destes artistas para a cidade e de que maneira o seu trabalho recebeu estas influências?
FC: Eu vejo com bons olhos estas influências estrangeiras e, dentro de certos limites, não acho que isto seja de maneira nenhuma ruim para a cidade. O que não posso aceitar é que se contrate um profissional apenas por ele ser estrangeiro deste ou daquele país. O profissional estrangeiro que vem trabalhar no Brasil tem que provar que é capaz, que é competente, que sabe trabalhar em equipe e que nos respeita. Talvez esteja saindo um pouco da resposta direta que você esperava mas, atualmente, eu tenho tido uma grande satisfação de trabalhar com o arquiteto francês Christian de Portzamparc no projeto paisagístico que desenvolvo para o Palácio da Música junto com ele.
Ele é um profissional de muita qualidade e de muita capacidade. Acho que ele está tendo um profundo respeito pela cidade, um verdadeiro ato de amor com o Rio através do bonito edifício que projetou. É um projeto de grande qualidade espacial e arquitetônica, sem dúvida. Deixará, com certeza, uma herança e uma marca positiva e de qualidade na cidade.
Da minha parte eu também acho que tenho procurado honrar com os meus projetos estas importantes heranças destes estrangeiros que você mencionou. De fato eu reconheço a importância da obra de Glaziou, Grandjean de Montigny, de Le Corbuiser e tantos outros que prestaram grandes serviços ao Rio de Janeiro; mas também considero que o legado de Burle Marx, o maior e mais completo artista brasileiro do seu tempo, tem uma importância que chega mesmo a transcender a obra dos mestres mencionados.
AAMB: Nos textos e nas imagens do seu livro “Paisagismo e Ecogênese”, publicado em 2001, são evidentes as suas preocupações relacionadas ao processo de urbanização da cidade e a grande degradação das condições ambientais, sobretudo em áreas da Barra da Tijuca onde o senhor atuou nos últimos anos. Como o senhor concilia, no seu trabalho prático, estas forças aparentemente antagônicas da urbanização e da preservação dos ecossistemas naturais da região da Barra da Tijuca cujo plano do urbanista Lúcio Costa já foi, há anos, completamente descaracterizado?
FC: O que eu posso te dizer é que este livro me deu um grande trabalho de fazer. Mas também me deu muito prazer e satisfação. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, este livro não é um livro biográfico, ou autobiográfico, ele é um livro cujo foco é uma parte do meu trabalho que me interessa profundamente e que tem como centro de interesse algumas questões que venho estudando há alguns anos que dizem respeito ao processo ecogenético de reconstrução e de recuperação de ecossistemas.
E você tem razão ao falar das forças antagônicas da preservação e da urbanização. Elas sempre existiram e vão estar sempre em desacordo, creio. A urbanização tende a ser um processo dinâmico, a urbanização tem como premissa um forte dinamismo. Ela é agressiva em todos os sentidos até pela busca e pela conquista de terras para urbanizar.
A minha experiência mostra que o mesmo pai de família que quer toda a infra-estrutura urbana – fruto desta agressividade que mencionei – ao seu lado de forma bastante confortável como a residência, a escola, o hospital, também reclama da ausência de espaços livres públicos, de praças e parques. Pois os espaços livres urbanos são sempre ameaçados pela sua passividade, isto é: ele está ali, intocado e sem nada construído. E ao olhar agressivo e ativo da urbanização que quer sempre conquistar mais terras, estes espaços serão os primeiros a serem ameaçados pela agressividade deste processo, como já mencionei. É, de fato, uma luta muito difícil. Então creio que o caminho ideal é a utilização de um conceito mais conciliador destas forças antagônicas que é a idéia do desenvolvimento sustentável.
Eu acredito neste conceito e procuro cada vez mais utilizá-lo no meu trabalho como arquiteto paisagista. Mas ele também é um conceito muito recente que data de 1972, por ocasião do Congresso de Estocolmo, mas que aqui no Brasil só veio a ser discutido com mais rigor a partir de meados dos anos 80. O Congresso de Estocolmo foi uma conferência mundial de meio ambiente. No Brasil e gente pode pensar que a política ambiental só foi efetivamente instalada a partir de 1986.
Na Conferência de Estocolmo, dentre outras questões, foi deliberado que era importante preservar e conservar os últimos remanescentes das paisagens naturais, considerando-se essa atitude, como um pré-requisito dentro de um novo conceito de desenvolvimento. É com base nesta premissa que surge o arcabouço da idéia de desenvolvimento sustentável. E já em 1973 o Governo Federal do Brasil criou a Secretaria de Meio Ambiente cujo cargo de primeiro secretário foi entregue ao Dr. Paulo Nogueira Neto, um ilustre advogado ligado às questões ambientais no Brasil.
Mas aí entrou em cena a ditadura militar, implantada em 1964. Adepta ferrenha do desenvolvimentismo e da segurança nacional, não via com bons olhos as intenções conservacionistas e preservacionistas dos acordos assinados pelo Brasil na Conferência de Estocolmo. Entretanto, eu acredito que, a despeito destas adversidades, o Dr. Paulo Nogueira Neto conseguiu dotar o país de uma legislação ambiental sólida e abrangente, mas que só veio a ser consolidada em ações mais detalhadas a partir de 1986 como já mencionei.
AAMB: Fazer (boas) intervenções paisagísticas numa cidade como Rio de Janeiro me parece ser um desafio hercúleo até pelo alto valor simbólico do sítio físico onde a cidade se desenvolveu e também pela beleza exuberante da geografia da cidade. A impressionante dimensão dos maciços (da Tijuca e da Pedra Branca), as praias, as lagoas e a baía de Guanabara compõem um contexto natural que, a meu ver, torna-se difícil competir com a “mão do Criador”, digamos assim. Entretanto, se tomarmos como exemplo a obra de Burle Marx percebemos a genialidade deste homem nas suas intervenções paisagísticas na cidade. Qual a reflexão que o senhor pode fazer sobre isto?
FC: Talvez a palavra hercúlea não seja a que eu empregaria, de todo modo eu concordo que há sim um alto valor simbólico no sítio físico. E estas boas intervenções, para que sejam boas, devem estar sempre em consonância com esta paisagem extremamente forte. Não se concorre com a paisagem. Creio que devemos saber que não é só trabalhar na paisagem, mas que devemos trabalhar com a paisagem. Não se pode competir com o “Criador” como você diz na sua pergunta. E aí, por mais paradoxal que possa parecer, devo dizer que isto faz com que o arquiteto paisagista seja extremamente humilde no seu trabalho por que ele precisa dessa humildade, sobretudo se está trabalhando aqui no Rio de Janeiro com esta paisagem natural exuberante. Mas ao mesmo tempo este trabalho é uma criação dele e vai estar inserido na cidade. Então talvez ele deva trabalhar à semelhança do Criador, digamos assim.
Por que na verdade o jardim é um sub-produto da arquitetura e o paisagismo é um sub-produto da paisagem, você compreende? E quando eu falo sub-produto não há, certamente, um sentido pejorativo ou menor, entende? Talvez podemos trocar a palavra sub-produto por decorrência. Então o paisagismo é decorrência da paisagem. É isto que faz a diferença entre jardinismo e paisagismo, por exemplo.
Se você toma a obra do Burle no Aterro podemos perceber isto, pois ele criou uma paisagem cultural extraordinária, capaz de conversar com aquele magnífico cenário natural do qual fazem parte a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Isto é fantástico, pois o Aterro do Flamengo como paisagem cultural também agrega valor ao lugar.
AAMB: Como avalia a degradação constante dos espaços livres públicos na cidade e como vê o crescente processo de favelização nas encostas da cidade? O senhor vislumbra alguma perspectiva de melhoria deste quadro? Como o seu trabalho contribui para minimizar estes problemas?
FC: Aqui neste país muito se fala, mas pouco se faz. E a gente vê que as classes dominantes, infelizmente, não querem tomar conhecimento dos abismos sociais existentes no Brasil. Na realidade os governos só governam até certo ponto. Na minha avaliação quem governa os países são as classes dominantes e aqui em nosso país a classe dominante é extremamente egocêntrica, insensível e omissa diante das questões sociais. E isto contribui para o agravamento destas questões trazendo como corolário o desespero e a violência das classes excluídas.
Dessa forma acho que as favelas vão continuar sim, vão continuar por que não há um verdadeiro interesse em reverter esta situação. Como pode se admitir que um país como o Brasil ter um movimento dos sem terra (MST)? O que é isto? Como pode não haver terra para quem quer plantar neste país que é imenso e é também o campeão mundial de terras degradadas e sub-utilizadas. Degradadas muitas vezes pelos próprios proprietários em benefício próprio. As tentativas de reforma agrária que já foram feitas até o momento, para mim, soam muito mais como uma brincadeira perversa do que a afirmação de uma vontade política. E no campo, a ausência de oportunidades, obriga as pessoas a migrarem para as grandes cidades.
E, é aí, nas maiores cidades, que a gente vê que este abismo social torna-se cada dia mais intransponível. E eu fico muito irritado e indignado quando alguém vem me dizer: “Ah! Mas nas favelas a galera toda tem televisão, tem geladeira, tem forno micro-ondas. Eles até vivem bem na favela”. Mas na minha opinião isto não diminui essa situação inadmissível sempre presente na própria configuração das nossas cidades. Isto me entristece profundamente e me revolta, sobretudo quando se compara a nossa realidade com a de alguns países desenvolvidos, onde a dignidade do ser humano é respeitada.
AAMB: Fale um pouco a respeito do seu projeto para a Cidade da Música na Barra da Tijuca em parceria com o arquiteto francês Christian de Portzamparc. Como é a relação entre um paisagista carioca e um arquiteto estrangeiro que projeta na cidade? Existe algo, neste projeto especificamente, que fez o senhor relembrar a sua juventude quando ambicionava ser músico, conforme nos contou anteriormente?
FC: Vou começar pelo final da sua pergunta. Não acredito que o projeto da Cidade da Música me remeta aos meus sonhos ambiciosos e um tanto frustrados de ser músico. Pode ser quando muito uma coincidência. Nesse sentido, vou relatar uma particularidade do Portzamparc que soube por acaso ao ler uma de suas entrevistas e que eu acho que ele não sabe que eu sei. Ele também na sua juventude queria ser músico, mais especificamente pianista, e acho que também andou tocando pelas noites.
Essa talvez seja a coincidência: os quase futuros pianista e acordeonista se encontram no campo específico de suas atividades profissionais: a arquitetura e a arquitetura da paisagem para trabalharem juntos no projeto da Cidade da Música, que certamente trará mais música para a nossa cidade.
Quanto ao projeto paisagístico da Cidade da Música, está sendo uma grande experiência de criar nos seus espaços exteriores um projeto temático que tem por mote o próprio ecossistema da Barra da Tijuca.
As soluções paisagísticas relativas a componente vegetal do projeto estão baseados em processos ecogenéticos e em seus aspectos de fitosociologia e sucessão ecológica. O mosaico florístico final restaura e reproduz restingas abertas e fechadas, pequenos fragmentos de bosques de baixada, manguezais e áreas de transição.
Portzamparc é um arquiteto mais jovem que eu e temos tido uma relação muito boa, muito amistosa desde o momento que nos conhecemos. Ele me deu liberdade para projetar em todos os espaços ao nível do chão, inclusive nos espaços internos dos pilotis que integram o seu projeto arquitetônico. Acho que ele tem gostado de tudo que já fizemos até o momento. Fui escolhido por ele quando, após uma longa conversa, ele percebeu que eu talvez fosse o profissional daqui da cidade que estivesse mais familiarizado com as questões ambientais da Barra da Tijuca, onde tenho trabalhado por quase três décadas.
Bromélias sobre sistema radicular e troncos do manguezal. Alguns exemplares das espécies presentes nos Ecossistemas litorâneos - Manguezais e Restingas
Vista geral do Parque Fazenda da Restinga
Antônio Agenor de Melo Barbosa: No Brasil a consciência a respeito da necessidade de preservação do meio ambiente e dos ecossistemas naturais é um tema recente na agenda política dos Estados e Municípios. O senhor que milita há muitos anos nesta área como observa a ação dos governantes neste sentido?
Fernando Chacel: Eu sou há muitos anos um observador do crescimento e da evolução desta consciência ecológica e ambiental no Brasil. Eu não diria que sou um ambientalista até por que eu não gosto muito dessa palavra, mas eu diria que sou um arquiteto paisagista autodidata que trabalha ligado a esta vertente ecológica. Eu já trabalho com estas questões, como as restaurações de áreas degradadas, há algum tempo, desde 1963. E, uma coisa que aprendi desde cedo com Burle Marx, também sempre procurei trabalhar com equipes interdisciplinares compostas por biólogos, engenheiros florestais, agrônomos, botânicos, geógrafos, urbanistas e arquitetos. Trabalhei com um grande biólogo que foi Luiz Emygdio e com um grande geógrafo que é Ab´Saber.
E hoje no meu escritório eu tenho uma equipe de nove biólogos e engenheiros florestais, de diferentes especialidades, que são meus consultores em diversos projetos. Em 1952 eu já notava que o atelier de Burle Marx era visitado constantemente por todo tipo de profissional da área de ciências naturais. As parcerias de Burle com Mello Barreto datam desta época, com Melo Carvalho que era zoólogo, também. Depois veio a parceria com Mello Filho. O Burle Marx, como eu sempre gosto de brincar com estas coincidências, gostava muito dos “Mellos”; eu acho que ele só não gostava mesmo era do Collor de Mello.
AAMB: O senhor que tem projetos em vários estados do Brasil, como observa o avanço em cada região a respeito destas questões ambientais num país com tanta diversidade e riqueza natural e cultural?
FC: Hoje já existem alguns municípios muito alinhados com as questões ecológicas. Aqui no Estado do Rio o município de Rio das Ostras é um deles, até por que o Prefeito é um homem do Partido Verde, foi reeleito, e com isto teve condições de implantar uma política ambiental no município muito voltada para as questões ecológicas e que inclusive soube tirar um bom proveito disto relacionando estes temas com o incremento e o desenvolvimento das atividades turísticas na região, você compreende?
Eu já viajei muito pelo Brasil. Acho que conheço um pouco este país. E tenho que falar das especificidades dos ecossistemas brasileiros e de seus domínios morfo-climáticos que vão desde a mata amazônica até os campos do Rio Grande do Sul, passando pelo semi-árido nordestino, pela mata atlântica, pela caatinga, pelo cerrado e pelo cerradão e etc. Só isto que listei para você são mundos extremamente diversificados e que muitos países de primeiro mundo não têm esta riqueza e esta diversidade que nós temos no Brasil. E ao lado destas paisagens naturais que mencionei, também existem diferenças culturais profundas. Daí a grande dificuldade de se trabalhar no Brasil, pois eu não acredito na exportação de metodologias.
Portanto cada região deve formar os seus próprios profissionais por que eles é que serão os mais capacitados para atuar na sua região de origem. Eles é que conhecem o ecossistema biótico e aí eu incluo o homem de cada região também. Estes profissionais de cada região deverão conhecer não só a ecologia como também a etologia. E tudo isto é muito complexo e diversificado.
Então é muito difícil que um profissional que venha do Rio de Janeiro, de São Paulo ou do Sul conseguir trabalhar na Amazônia, dadas estas questões que mencionei. Eu atualmente tenho alguns trabalhos assim, então a minha primeira providência é constituir e trabalhar com equipes locais. Isto é fundamental por que se eu com toda a minha experiência posso até ensinar algo sobre a minha forma de atuação e etc, mas eu tenho plena convicção de que nós teremos muito mais a aprender com estas equipes locais, certamente. Nunca, nunca mesmo tentar aplicar soluções prontas de seu local de origem. Você primeiro deve conhecer o modo de vida, a paisagem, os ecossistemas que você vai trabalhar e o espírito do lugar para depois intervir.
Eu que trabalho há mais de 50 anos posso te dizer que conheço mais ou menos, pra não dizer que conheço pouco, o ecossistema do Rio de Janeiro que é o ecossistema vegetal atlântico. E procuro aprender todos os dias através dos trabalhos que vou fazendo, você compreende?
E, além disso, tudo isto é muito novo, tudo ainda às vezes me parece um jogo de erros e acertos até no caso de pessoas de boa fé. Não existem grandes certezas, não existem manuais daí esta grande dificuldade e complexidade. Você tem que estudar os fenômenos naturais e sociais e saber como é que você navega dentro deles. E no Brasil com esta diversidade e riqueza cultural tudo isto se torna muito mais complexo. E às vezes até certas acusações que se fazem aos governos, a despeito da responsabilidade deles, não me parecem muito justas dadas estas condicionantes e da própria herança de 500 anos de degradação.
AAMB: Pela sua experiência internacional como Professor da Universidade de Montreal e como conferencista, qual é a percepção que se tem do nosso país lá fora?
FC: Lá no Canadá havia sempre muita curiosidade e simpatia pelo Brasil. Há a idéia de que o Brasil é um grande país. E como somos dois países jovens há uma certa cumplicidade por isto, me parece. Eles também têm alguns problemas, sobretudo a grande rivalidade entre os ingleses e os franceses e a relação às vezes ambígua de amor e ódio com os EUA que são seus vizinhos de porta. Eu fiquei sempre mais no lado francês e sentia os canadenses até certo ponto irmanados com o Brasil por conta da pressão que os EUA fazem sobre eles que não falam a língua inglesa. A questão das multinacionais e a própria opressão pela força econômica. Eles são até separatistas. Mas eu sempre fui bem recebido lá. Fui convidado por cinco invernos – 71, 73, 77, 81 84 – ao Canadá. Cheguei a fazer parte de um comitê pedagógico e lá eu era responsável por um ateliê de projeto onde eu lecionava.
AAMB: Existem soluções definitivas para as metrópoles? Há quem as veja como um lugar ímpar em que delas brotarão as próprias saídas para o caos urbano. Outros, mais céticos, as consideram casos perdidos. Como pensar soluções concretas para uma cidade como São Paulo, por exemplo?
FC: A questão das metrópoles talvez para um jardineiro que quis ir além dos jardins é um grave problema. As metrópoles no Brasil estão indo mal. No Rio de Janeiro como já falamos, pelos próprios impedimentos fisiográficos, me parece que a cidade teve algum tipo de freio no seu crescimento, a despeito da expansão das favelas. Pois é difícil você derrubar o Pão de Açúcar e o Corcovado.
Eu acho que o Rio de Janeiro inteiro deveria ser pensado com o respeito e o cuidado de um grande parque nacional ou internacional. Neste sentido eu vejo algumas saídas, não sou tão cético. A Barra da Tijuca, por exemplo, eu vejo a oeste da Avenida Ayrton Senna com otimismo e a leste com pessimismo, você compreende? Não é uma coisa assim tão linear e tão simples, mas é assim que percebo a cidade, em algumas partes eu vejo saídas em outras não. Da minha parte eu tenho tentado dar uma contribuição no sentido de minimizar esta devastação, sobretudo nos trabalhos que venho realizando na Gleba “E” (a chamada Península) e em outras áreas também. E a gente tem que ver que muitas destas áreas somente foram objetos de intervenções por força de uma legislação ambiental cada vez mais preocupada com os problemas que a urbanização desordenada traz. O próprio empresariado, por sua vez, tem vislumbrado que estas questões ecológicas podem se transformar até num elemento de forte valorização de seus empreendimentos, até pelo marketing que podem fazer em cima disto, de forma que eu acho que o cenário não é tão desanimador assim apesar dos graves problemas existentes. Daqui a 50 ou 100 anos a gente vai ver que esta Barra da Tijuca a leste da Av. Ayrton Senna, com raras exceções tenderá para decadência, ao passo que o lado oeste estará em melhor situação, com uma paisagem mais equilibradas e saudável.
Já em São Paulo eu não sei. Acho que é, de fato, pior a situação que no Rio. Lá eu estou fazendo um parque. É o parque Pedro II. Em São Paulo há um processo predatório também de ocupação, mas sem ter os mesmos impedimentos fisiográficos, e isto levou que esta paisagem fosse ocupada toda de uma forma relativamente homogênea. Eles ocuparam vales, vertentes e rios tudo da mesma maneira. E isto tudo sem grandes pontos de referência na paisagem a não ser o Pico do Jaraguá. Mas dentro da cidade você está perdido naquela massa de concreto. E isto para um ser humano não é uma coisa tão positiva. Acho que em São Paulo a solução é implodir certas partes. Evidentemente que a cidade tem pontos interessantes e áreas de qualidade e lá eles têm também excelentes profissionais capacitados a entender a problemática da cidade. Os trabalhos de Paulo Mendes da Rocha são excelentes, como no caso da Pinacoteca. Mas os grandes profissionais de São Paulo só conseguem mesmo atuar de forma pontual dada à complexidade da cidade. Não tem como ser diferente disto, eu reconheço. Na verdade a solução para certas áreas é a implosão mesmo. E isto também já foi falado pelo próprio Secretário de Planejamento Jorge Wilheim que é um homem íntegro, um humanista e um grande teórico e pensador de São Paulo. O Jorge Wilheim tem uma grande paixão por São Paulo e é bom que o Secretário seja um homem que gosta da cidade.
Precisaria implodir áreas para se criar e/ou recuperar os espaços livres que a cidade não tem mais, infelizmente. Também é preciso dizer que São Paulo é o lugar onde já se realizaram as maiores implosões no Brasil, por mais paradoxal que isto possa parecer. Mas sei que isto é muito difícil de ser feito. Em compensação quando se sai da cidade você encontra uma paisagem cultural de altíssimo nível na maior parte do Estado de São Paulo contrastando com a dureza da cidade. E o mercado imobiliário é muito desorientado, pois está preocupado com o piso de mármore, com a maçaneta de ouro ou o vaso de cristal achando que isto é qualidade de vida e vendendo aos tolos. Isto não é qualidade de vida. Isto é, na melhor das hipóteses, apenas um verniz de uma suposta qualidade de vida. Nada mais que isto.
Plano de massas completo do Parque Fazenda da Restinga, na Barra da Tijuca
Vista aérea do parque lindeiro à Via Parque e próximo ao "core" urbanizado do Cittá América, na Barra da Tijuca. No Parque Fazenda da Restinga
Antônio Agenor de Melo Barbosa: Talvez esta pergunta possa lhe parecer tola ou ingênua, mas como acho que ainda há uma certa desinformação na sociedade sobre a profissão do paisagista e a sua relação com a arquitetura, então eu pergunto: o que é, o que faz, e como atua profissionalmente um arquiteto-paisagista no Brasil?
Fernando Chacel: Não, não é uma pergunta tola. Eu acho que realmente é uma consciência que você demonstra ter sobre estas lacunas na formação do paisagista. Na realidade o arquiteto paisagista no Brasil vem de diversas formações. Na verdade este profissional não existe no Brasil. Nós assim nos intitulamos mas, na verdade, somos arquitetos que trabalhamos na paisagem. Não há uma habilitação formal sobre a atuação deste profissional no Brasil, infelizmente. Eu para conseguir me firmar nesta profissão eu tive que fazer uma grande revisão técnico-científica de meus conhecimentos sobre o assunto. E tudo isto como autodidata. E há uma grande demanda por este profissional que, na maioria dos casos trabalha se ter os conhecimentos necessários. É por isto que é importante a formação criteriosa destes profissionais que vão atuar nesta área, sejam eles arquitetos, biólogos, agrônomos e etc...
AAMB: O senhor considera que o ensino do paisagismo é satisfatório nas escolas de arquitetura do Brasil?
FC: Não, não é satisfatório até por conta das questões que mencionei na resposta anterior.
AAMB: O senhor atualmente coordena cursos de graduação e de pós-graduação em paisagismo no Rio de Janeiro. Como pensa e aplica esta sua longa experiência profissional na formação de jovens paisagistas?
FC: Este curso de graduação em paisagismo na Universidade Veiga de Almeida é o que mais me interessa, pois ali eu procuro realizar um ideal antigo de um currículo que pensei há alguns anos com Aziz Ab´Saber para as escolas de Arquitetura e Urbanismo. E isto naquela ocasião nunca foi implantado dada uma visão corporativista que os arquitetos brasileiros ainda têm. E é um corporativismo às vezes no sentido pior do termo, compreende? Alguns arquitetos na época achavam que queríamos dividir a classe e coisas deste tipo. Mas a nossa intenção nunca foi dividir a classe e sim ampliar a qualidade da formação de nossos paisagistas, apenas isto.
De forma que com esta oportunidade de coordenar estes cursos eu estou pondo em prática a questão da interdisciplinaridade na formação do paisagista. Uma idéia antiga agora posta em prática. Pois lá no curso o corpo docente é oriundo de diversas formações. Temos no quadro de professores do curso urbanistas, biólogos, paisagistas, arquitetos, artistas plásticos, designers gráficos, geógrafos e etc...E esta graduação está sendo feita com muito cuidado, pois eu quero que ela seja sólida. E nas escolas de arquitetura e urbanismo, com raras exceções, o paisagismo é tratado de forma superficial e flácida. O paisagismo envolve uma série de disciplinas que os alunos sequer ouviram falar na sua formação de arquiteto.
AAMB: Dada a sua longa experiência em mais de 5 décadas atuando na profissão; se o senhor pudesse fazer uma breve lista das vantagens e das dificuldades da profissão de arquiteto-paisagista o que teria a dizer aos mais jovens?
FC: Para mim é a profissão do futuro. Ela está ligada de forma total à ecologia. A arquitetura da paisagem é uma ferramenta da ecologia. Fazer jardins é uma coisa que sempre existiu e as relações com a natureza e a paisagem são temas que cada vez mais precisarão ser entendidos e explorados pelos profissionais do futuro. A idéia do conforto climático também é uma questão importante para o homem nas cidades. O investimento na criação de soluções e de alternativas que tenham como premissa a ecogênese são certamente temas que estarão norteando os debates e os projetos de paisagismo num futuro próximo. E, no meu entendimento, vai faltar gente capacitada para compreender estas questões tão complexas. De maneira que os jovens que quiserem investir numa boa formação por este caminho, eu garanto que haverá espaço no mercado de trabalho.
AAMB: Gostaria que o senhor nos falasse a respeito da sua metodologia de trabalho no cotidiano da profissão.
FC: A minha metodologia de trabalho é a metodologia clássica do arquiteto paisagista, isto é: a gente parte de um inventário de uma paisagem seja ela natural, seja ela cultural, em que a gente analisa cada um destes elementos desta paisagem que nós levantamos. Observamos os aspectos físicos, bióticos e antrópicos desta paisagem e a suas inter-relações, depois estabelecemos um programa para atuar dentro deste setor, depois elaboramos um conceito e, somente depois de estabelecido o conceito é que partimos para o desenho donde vai se originar o projeto propriamente dito. O importante é nunca começar pelo desenho, pelo projeto. Eu procuro seguir com rigor esta metodologia, pois esta parte prospectiva inicial é fundamental.
AAMB: O senhor teve a oportunidade de trabalhar no escritório Burle Marx, então penso que seria interessante nos contar um pouco como ocorreu esse desenvolvimento nos trabalhos de ambos, com linhas projetuais tão diferentes em que se destaca, a meu ver, uma dicotomia entre o ecológico-preservacionista e o pictorismo.
FC: Creio que já falamos um pouco da minha relação com o Burle Marx. Eu penso que não haja uma dicotomia propriamente dita entre as nossas linhas projetuais. Mas ele não deixava de aliar o artista plástico que ele era – e que sabia usar bem no seu trabalho – a um grande conhecimento sobre a vegetação. Arrisco dizer que, se numa primeira vista o que pode saltar aos olhos nas obras dele é o pictorismo, se formos fazer uma avaliação mais rigorosa, veremos que não é só o pictorismo a mola mestra dos trabalhos dele.
Eu não sou artista plástico, mas no meu trabalho eu também tenho um excessivo cuidado com o desenho, compreende. Eu sou arquiteto, desde muito jovem fui desenhista e como eu sempre trabalhei dentro desta rigidez metodológica, talvez isto tenha me afastado um pouco de uma preocupação mais pictórica, digamos assim. Mas eu faço questão que meu desenho tenha qualidades de um bom desenho. E eu, embora trabalhando em equipe, faço questão de desenhar e de conceituar os meus projetos.
Vista aérea da área antes da implantação do Parque Fazenda da Restinga, na Barra da Tijuca
Arranjo geral com o tratamento paisagístico da faixa marginal de proteção. No projeto do calçadão ecológico do Rio office Park em área lindeira à Lagoa de Jacarepaguá
Antônio Agenor de Melo Barbosa: Ao longo da sua carreira quais os projetos que o senhor considera os mais importantes? Poderia nos falar um pouco sobre o contexto geral em que cada um deles foi desenvolvido?
Fernando Chacel: Eu tenho um grande apreço por todas as intervenções que fiz na Barra da Tijuca, mas eu ainda tenho muito por fazer, de forma que quero olhar para frente e quem sabe o meu principal projeto ainda não está por fazer? Eu penso um pouco assim. Eu tenho uma grande preocupação de olhar em volta e poder ver que, com toda esta experiência que já acumulei, eu não parei. Ainda tenho muito por fazer e isto é que me anima. Tenho esta consciência, sem nenhum tipo de cabotinismo eu te falo isto. Eu sinto isto dentro de mim talvez porque eu tenha um certo grau de volubilidade em relação aos projetos que, à medida que eles vão se realizando eu já estou pensando no próximo. E o pessoal aqui do escritório até reclama muito comigo dizendo: “Pois você gostava tanto deste projeto agora que está quase pronto não está mais preocupado com ele?”
AAMB: As intervenções paisagísticas são obras que necessitam de manutenção constante. Em que condições de manutenção e de preservação se encontram as suas principais obras? O senhor costuma acompanhá-las depois de prontas ou deixa a cargo do cliente ou do poder público? Costuma reclamar com as autoridades a respeito da manutenção de suas obras?
FC: Ao contrário da obra arquitetônica em que findada a obra o edifício terá que resistir ao tempo, a obra do paisagista é diferente, pois você não concebe um projeto para que ele resista ao tempo, mas para que ele se realize no tempo. E isto é muito complicado aqui no Brasil por diversas razões. As condições de manutenção por conta disto são fundamentais. Mas em geral as minhas obras não estão em boas condições de preservação e de manutenção. Obviamente eu estou me referindo às obras públicas, pois o que já fiz em áreas privadas me parece que estão em melhores condições.
Início da implantação do Parque da Gleba "E"
Arranjo geral / CEPEL No âmbito das realizações do Projeto da Via Parque, surge como importante medida compensatória, o Centro de Estudos e Pesquisas dos Ecossistemas Lagunares (CEPEL) da Barra da Tijuca
Fernando Chacel
O carioca Fernando Chacel é arquiteto paisagista, formado pela Faculdade Nacional de Arquitetura, com mais de 50 anos de atuação na área. Ainda estudante, foi estagiário de Roberto Burle Marx com quem aprendeu, segundo suas próprias palavras, “o ofício de paisagista, por pensamentos, palavras e obras”. Autor do livro “Paisagismo e Ecogênese” publicado em 2001 pela editora Fraiha do Rio de Janeiro. É conferencista internacional, consultor ambiental e Professor Visitante da Universidade de Montreal, no Canadá. Atualmente coordena os cursos de graduação e de pós-graduação em paisagismo na Escola de Design e Artes Visuais da Universidade Veiga de Almeida no Rio de Janeiro.
Antônio Agenor de Melo Barbosa
Com 33 anos, natural de Aracaju (SE) e radicado no Rio de Janeiro há 14 anos, Antônio Agenor de Melo Barbosa é arquiteto e urbanista (USU-RJ), cursou Pós-Graduação em História da Arte e Arquitetura no Brasil (PUC-RJ), é Mestre em Urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (PROURB) da FAU-UFRJ, onde defendeu dissertação sobre os espaços públicos do Rio de Janeiro no século XIX. Doutorando em Ciências da Arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura (PROARQ) da FAU – UFRJ, Pesquisador do Projeto Brasil 500 anos de Arquitetura da UFPE, ex-professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFJF-MG, e professor assistente licenciado do Centro de Arquitetura e Artes da Universidade Santa Úrsula. Atualmente é Professor de Urbanismo e de Evolução Urbana do Rio de Janeiro na FAU-UFRJ, e nos cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Gama Filho e no Centro Universitário Plínio Leite em Niterói (RJ). Também é professor do curso de Paisagismo da Escola de Design e Artes Visuais da Universidade Veiga de Almeida no Rio de Janeiro.
Entrevista
A entrevista com Fernando Chacel foi realizada no Rio de Janeiro no dia 7 de janeiro de 2004.
Agradecimento
Para a realização desta entrevista, agradeço a importante colaboração da arquiteta paisagista Natália Pimenta Mambrini e de toda a equipe do Escritório de Fernando Chacel no Rio de Janeiro, em especial à Cláudia Neto. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em janeiro de 2004.
Bromélias plantadas ao longo da circulação de pedestres e ciclovia. No Parque de Educação Ambiental Professor Mello Barreto, na Barra da Tijuca