português Ana Rosa de Oliveira entrevista o engenheiro-arquiteto Carlos Delphim, que se dedica à restauração de jardins históricos e se declara jardineiro de nascimento e arquiteto da paisagem
english Ana Rosa de Oliveira interview the engineer-architect Carlos Delphim, who is dedicated to the restoration of historic gardens and considers himself as a natural born gardener and a landscape architect
español Ana Rosa de Oliveira entrevista al ingeniero- arquitecto Carlos Delphim, que se dedica a la restauración de jardines históricos y se declara jardinero de nacimiento y arquitecto del paisaje
como citar
Ana Rosa de Oliveira.
“Carlos Fernando de Moura Delphim”.
Vitruvius entrevista, ed. 04.016.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/04.016/3334
Carlos Fernando de Moura Delphim
Entrevista com Carlos Fernando de Moura Delphim Ana Rosa de Oliveira
Carlos Fernando de Moura Delphim é engenheiro-arquiteto pela UFMG. Contratado em 1977 para restaurar o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1985, foi pioneiro na defesa dos jardins históricos no Brasil, passando a tratá-los como bens culturais segundo as normas internacionais de preservação.
Criador do Programa Jardins Históricos na Fundação Nacional Pró-Memória (1985-1990), é autor do primeiro manual de intervenções em jardins históricos no Brasil. Foi membro-suplente da Comissão O Homem e a Biosfera da UNESCO e Conselheiro-Titular decano no Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA como Representante do Ministério da Cultura. Emitiu pareceres sobre inclusão de paisagens na Lista de Patrimônio Mundial da Unesco, como as florestas tropicais úmidas de Queensland, Austrália, adotado como a posição oficial do Brasil. Atualmente é encarregado de elaborar parecer sobre a inscrição do Rio de Janeiro nessa lista, na qualidade de paisagem cultural.
Trabalhou como Coordenador Departamento de Proteção do IPHAN-RJ, Brasília, DF, responsável pelo patrimônio arqueológico e pelos bens culturais tombados em nível federal, sendo atualmente assessor da direção do IPHAN no Rio. É professor convidado da UNB em Brasília e da Universidade Católica de Goiânia.
Suas atividades profissionais desde 1977, compreendem projetos e planejamento para manejo e preservação de sítios de valor paisagístico, histórico, natural, paleontológico e arqueológico em diversas cidades brasileiras desde 1977. Entre seu projetos destacam-se: Restauração do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Memorial da América Latina em São Paulo, Jardim Botânico de Brasília, Jardins do Brasil – The International Garden and Greenery Exposition em Osaka, Japão, e o Superior Tribunal de Justiça em Brasília.
Em abril de 2002, Carlos Delphim foi convidado pela Secretaria de Patrimônio Histórico da UFRGS – que desenvolve um trabalho de preservação e restauração de seu relevante acervo arquitetônico em diferentes campi da Universidade – para vistoriar e emitir um parecer sobre o entorno do Prédio Central da Faculdade de Agronomia em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Este prédio, de 1909, é obra do Engenheiro Manuel Asumpção Itaqui. Trata-se de uma singular configuração para a época; uma resposta a um programa inovador de ensino de ciências agropecuárias no sul do país. A preocupação da SPH com a preservação deste edifício integrado ao seu entorno levou-a a solicitar a colaboração de Carlos Delphim.
O parecer por ele elaborado diz que, observados os diferentes aspectos naturais e culturais que integram a paisagem circundante do prédio da Faculdade de Agronomia, “mais que um simples entorno de uma edificação, constatou-se uma paisagem de qualidades próprias, independentemente do elemento arquitetônico ao redor do qual se organiza” (1). Ele estabeleceu 7 zonas que deverão receber tratamento diferenciado, destacando duas por seu valor histórico e excepcionalidade: o roseiral e o modelo filogenético (2). Carlos Delphim recomendou que a zona do roseiral fosse proposta para tombamento estadual (IPHAE) e que a zona do modelo filogenético “pela sua importância e singularidade nacional” fosse proposta para tombamento federal ao IPHAN.
Aproveitando sua presença em Porto Alegre a Secretaria do Patrimônio Histórico da UFRGS organizou a conferência “Jardins históricos, a restauração do paraíso” que foi proferida por ele na Faculdade de Arquitetura da UFRGS,
As boas descobertas de Carlos Delphim em Porto Alegre e o interesse despertado pelos temas abordados por ele, na conferência me levaram a entrevistá-lo em 29 de abril de 2002.
notas
1 Carlos Fernando de Moura Delphim, “Parecer sobre o Campus da Faculdade de Agronomia do RS”. Escrito inédito
2 “A Botânica vale-se de modelos filogenéticos para o estudo e a classificação taxonômica das espécies vegetais. Tais modelos estabelecem relações entre as diferentes famílias botânicas, expressando-se sob uma forma esquemática e ordenada que reflete o status evolutivo e a origem das famílias. Não existe um sistema de classificação perfeitamente consistente e os modelos filogenéticos muito se modificam ao longo da história da Botânica e segundo os diferentes autores. (...) O jardim como modelo filogenético é uma interpretação espacial de um sistema de classificação botânica, utilizando-se de plantas vivas, organizadas em grupos que exprimem as relações do sistema teórico”. Carlos Fernando de Moura Delphim, “Parecer sobre o Campus da Faculdade de Agronomia do RS. Escrito inédito.
Museu M. Procópio, Juiz de Fora, 1863. Parque restaurado por Carlos Fernando de Moura Delphim
Ana Rosa de Oliveira: Fale um pouco sobre a sua formação, da sua trajetória até a restauração de jardins.
Carlos Fernando de Moura Delphim: Desde que me entendo por gente eu já mexia com plantas. Uma vez desapareci de casa, mal tinha aprendido a andar, fui encontrado sentado no meio da rua, brincando com umas flores de flamboyant caídas sobre o chão. Minha avó e minha mãe sempre fizeram jardins, os jardineiros preparavam tudo mas elas mesmas plantavam.
Eu tinha um padrinho que ficou tão entusiasmado quando o Juscelino Kubitscheck ganhou as eleições que parou de trabalhar e vivia na sua horta plantando tudo que era verdura e legume. Com os restos das plantas, fazia composto orgânico. Ele fazia um composto para cada planta. Usava, para um, só pés de milho velhos, para outro, pés e cascas de vagens de feijão, para outro, velhos tomateiros. Cada composto era separado segundo a planta que o constituía.
Tudo que ele plantava dava enorme e sadio, com sabores até hoje não igualados. Ele era nosso vizinho e ensinou-me a plantar milho em nosso quintal. Plantios agrícolas não eram exatamente minha vocação mas plantei assim mesmo. Tive de preparar a terra, peneirando-a e misturando ao canteiro, semear os grãos dourados e aguardar. Tive de seguir todos os passos senão ele não me ensinava. Depois de germinar, aguardei, aguardei, aguardei e nada ... O tempo passava muito devagar quando eu era criança. Achei que algo estava errado e resolvi arrancar os pequenos pés de milho, pensando que as espigas estivessem enterradas. Foi minha primeira aula: quando desconsideramos as exigências da natureza, perdemos tudo.
Na adolescência, com um primo, modificamos os jardins antigos da casa. Fizemos um desenho de óbvia inspiração burle-marxiana. Damas-entre-verdes foram substituídas por antúrios; goivos por alpínias; roseiras por monsteras; heliotrópios por Musas coccineas. Foi um sucesso, mas lá se fora um íntegro e autêntico jardim brasileiro de transição do século XIX para o XX.
Quando fui estudar arquitetura em Belo Horizonte e alguém perguntava: Onde fica a casa de Fulano? Eu respondia: Segue esta rua até achar uma casa com um pé de jasmim, vira à esquerda, é uma casa com canteiros forrados de violeta. Ninguém entendia muito bem, mas essas eram minhas referências usuais. Minha ligação com os jardins foi sempre uma vocação.
Um dia, uma colega da Escola de Arquitetura contou-me que minhas professoras solteironas tinham ficado muito bem impressionadas comigo porque ele lhes havia dito que eu sabia de cor o nome de todas as flores. Realmente, eu sabia mas era o nome vulgar.
Mais tarde aprendi o nome de muitas outras plantas, só que passei a saber também o nome científico, tudo sem o menor esforço, sem precisar decorar. Bastava-me ver a foto ou desenho de uma planta e ler o nome para sabê-lo para sempre.
Antes disto, sem qualquer esforço, eu podia guardar o nome e a obra de qualquer pintor, identificava qualquer quadro, sabia a diferença entre um Braque e um Picasso, entre Sisley e Seurat. Distinguia qualquer pintura do Trecento ou do Quatrocento sabia se uma pintura era de Duccio, Cimabue, Simone Martini, Giotto, Fra Angelico, Cavallini, se era de Pollaiuolo, do Perugino, de da Vinci, Mantegna, Bellini; entendia de Guardi ou Canaletto. Conhecia toda obra de van der Weiden, van Eick, Dürer, Altdorfer e muitos nomes menos conhecidos.
Quando, após formado, comecei a dedicar-me mais e mais às plantas, fui me esquecendo do nome dos pintores, via um quadro e não me lembrava de quem era. Não poderia ter cultivado, no Brasil, minha paixão pela arte. Para isto teria de morar em Paris ou Florença onde poderia ver as grandes obras. Preferi então dedicar-me às plantas, sobretudo às flores, tesouro inextinguível no Brasil.
Mesmo tendo estudado urbanismo e paisagismo, o que sei de melhor aprendi em livros. Já tive mania de comprar livros sobre plantas, flores, árvores, tudo. Aprendi viajando, visitando hortos, tendo amigos com quem discutir sobre plantas, jardins e paisagens. Em outros países, até no Oriente, vejo plantas que identifico sem nunca ter visto antes, só por tê-la visto en passant em livros.
Sou mais jardineiro que paisagista. Há arquitetos de exterior que se dizem paisagistas mas não sabem lidar com plantas. Sou mais jardineiro que arquiteto. Nasci jardineiro e me fiz arquiteto da paisagem. Não entendo como se pode projetar um jardim em planta baixa, ninguém vê um jardim em planta baixa, você anda sob as árvores, cheira os perfumes, sente as luzes, toca a relva, os troncos, tudo menos olhá-lo por cima. Nem quando passa de avião porque as copas ocultam os mistérios da paisagem.
Museu M. Procópio, Juiz de Fora, foto da fachada. Parque restaurado por Carlos Fernando de Moura Delphim
Ana Rosa de Oliveira: Na sua conferência “jardins históricos, a restauração do paraíso” você iniciou falando da necessidade de proteção do jumento, caracterizador de toda cultura do semi-árido. O exemplo serve para fundamentar uma crítica à prática corrente da preservação? O que a caracteriza? Há alguma perspectiva de mudança?
Carlos Fernando de Moura Delphim: Todo mundo acha perfeitamente normal proteger, por exemplo, o mico-leão e investir fortunas para assegurar ao planeta a existência desse primata ameaçado de extinção. Isto porque não existem preconceitos na área ambiental. Na área cultural, contudo, ainda existe uma postura “col monte” de gente que torce o nariz para o que não se acha ainda incorporado à cultura pretensamente erudita. Para elas ser culto é tocar Eric Satie ao piano, gostar de poemas de Kavàfis, ler Proust, reconhecer um Pollock, ter visto todos os filmes de Einsenstein. O conceito de cultura mudou tanto depois dos anos 60 e ainda tem gente assim. Se eu falo de proteger o jumento no Nordeste, essas pessoas têm verdadeiros acessos de riso. “Era só o que faltava, agora vamos ter de tombar até os jumentos”. Ninguém riu quando se falou de proteger o mico-leão na área ambiental.
Há algo mais importante que um jumento na cultura do semi-árido? Que animal resiste às agruras do agreste com tamanha bravura? Sobre eles escrevi, em uma matéria publicada em jornal cearense: “Vendo os jumentos ao longo das estradas, meditei sobre a aura de santidade que os envolve. Animais indispensáveis à cultura nordestina, tornaram-se obsoletos. Hoje, motos substituem os trabalhos que prestavam. Lamentei que o frigorífico fosse o único e triste destino que um mundo mecanizado reserva a um animal cujos custos são maiores que os benefícios que pode oferecer, malgrado ter sido o eleito para participar dos momentos mais importantes da vida de Cristo”.
Quase todos os jumentos nordestinos estão sendo exportados sob a forma de bifes para o Japão, enquanto os interessados pela cultura brasileira são capazes de gastar uma fortuna para conservar a casa de fazenda de um inexpressivo escritor, só porque é oriundo de uma daquelas indestrutíveis oligarquias nordestinas.
No Rio Grande do Sul, acontece o contrário. Não preciso dizer nada do que é preciso proteger porque já estão muito à frente. A preservação das Missões, por exemplo, não exclui a preservação de cepas primitivas de plantas e animais como o carneiro missioneiro. Já estão fazendo isto sem que eu recomende. Minhas recomendações são sempre acatadas. Uma delas é a de se contratar um arqueólogo para acompanhar escavações ou fazer pesquisas em jardins históricos. Ninguém gosta de chamá-los porque demoram com seus estudos impedindo a inauguração da obra em prazos políticos.
ARO: O que diferencia a prática de preservação do Rio Grande do Sul da do resto do país?
CFMD: Isto que acabo de citar é uma prática de preservação que distingue o RS do resto do Brasil. A freqüência com que sou chamado a Porto Alegre e a outras cidades gaúchas para opinar sobre questões relacionadas a jardins e paisagens históricas é incomparavelmente maior do que qualquer outro lugar do país. Aqui se demonstra elevado respeito pelo que recomendo. Quando volto, muitas sementes germinaram e florescem. Em outros lugares, pode acontecer que meu rigor em preservar tudo de forma sistêmica, conjunta e integrada mais pareça um empecilho ao andamento de obras de restauração e processos de tombamento do que uma opinião a ser acatada. No Rio Grande do Sul, eu não sinto isto. Pelo contrário, quanto mais indico novos valores de velhas coisas, mais contente vejo todos ficarem.
Museu M. Procópio, Juiz de Fora, foto da fachada. Parque restaurado por Carlos Fernando de Moura Delphim
Ana Rosa de Oliveira: O que diferencia conservação, restituição e preservação?
Carlos Fernando de Moura Delphim: O cuidado dos jardins históricos é tarefa bastante complexa que exige a tomada de complexas decisões, envolvendo muitas operações, sob a responsabilidade de diferentes especialistas. Preservar um jardim histórico não significa, obrigatoriamente, restaurá-lo.
Diversas são as operações recomendáveis para cada tipo de jardim, conforme sua época e estado de conservação, integridade ou autenticidade. Diferentes condições que ocorram dentro de um mesmo jardim irão exigir diferentes formas de intervenção. Muitas delas irão se conjugar entre si, impondo, a cada nova etapa de trabalho, outras e diversas operações.
Todas essas operações acham-se incluídas no termo preservação e incluem atividades de identificação, de proteção, de conservação, de restituição, de restauração, de manutenção, de planejamento, de programação do uso, sobretudo do uso público, e de administração, dentre outras.
Em sítios naturais protegidos, as operações de manutenção e conservação têm prioridade sobre as de restauração; as operações de restauração têm prioridade sobre as de inovação e desenvolvimento. As operações de inovação nunca devem expor o bem a pressões ou impactos negativos, danos, riscos ou ameaças aos valores culturais do bem.
Preservação, do latim praeservare, observar previamente, engloba todas as ações que visam a salvaguardar bens culturais identificados, classificados ou protegidos. Segundo a Carta de Nairobi, “preservação deve significar a identificação, proteção, conservação, restauração, renovação, manutenção e revitalização”, ou seja todas as operações necessárias à defesa e salvaguarda de um bem.
A preservação e valorização do patrimônio cultural não pode nem deve ser reduzida a receitas. O conceito de patrimônio cultural é por demais amplo e, como conseqüência, estratégias de proteção e conservação podem variar consideravelmente, de acordo com o contexto e valores associados a cada monumento ou sítio. Se bem que princípios gerais da boa prática da preservação sirvam como fundamento para identificação e proteção dos bens culturais, cada caso impõe diferentes formas de atuação.
É fundamental o estabelecimento dos valores culturais dos bens que se pretende preservar. Todas as ações de preservação, como, por exemplo, a proteção ou a restauração, devem garantir a autenticidade do sítio cultural, prolongando a duração de sua integridade e assegurando a interpretação de seus significados para a coletividade.
Identificação é a ação ou conjunto de ações de reconhecimento e registro ordenado de um bem cultural ou de um conjunto de bens culturais de um determinado contexto.
Proteção, em termos legais, consiste em prover condições para que as qualidades físicas e imateriais de um monumento, área ou sítio histórico possam perdurar no tempo, assegurando-lhe segurança contra roubo, vandalismo, ataques ambientais e intrusões visuais. A proteção pode ser legal ou efetiva. A proteção legal tem como base normas de planejamento e critérios expressos em cartas patrimoniais e, sobretudo, na legislação vigente, seja essa legislação municipal, estadual ou federal. Visa a ações preventivas para resguardar o sítio contra qualquer risco ou dano, fornecendo instruções sobre medidas apropriadas como punição, multas ou compensação por danos ocasionados. A proteção efetiva de um jardim histórico deve incluir medidas legais e administrativas a abranger desde a definição da situação fundiária até ações de proteção física, como o cercamento integral das áreas naturais, as medidas de segurança e o serviço de vigilância.
Manutenção é a ação ou o conjunto de ações sistemáticas e rotineiras, com vistas a manter um bem cultural em condições de uso ou fruição. Significa a proteção contínua da substância, do conteúdo e do entorno de um bem.
Conservação é o conjunto de ações destinadas a prolongar o tempo de vida ou a integridade física de um bem cultural. O objetivo primordial da conservação é preservar a autenticidade e integridade do bem.
As ações de conservação podem ser destinadas a recuperar, refazer ou restaurar partes danificadas. Obras de reabilitação destinadas a aumentar os níveis de qualidade para um novo uso da edificação são objeto do projeto de restauração. A conservação inclui a prevenção contra deterioração, de modo a manter o estado existente de um bem cultural livre de danos ou mudanças. O conceito de conservação inclui vários tipos de tratamento para salvaguardar o sítio, suas edificações, a vegetação, o traçado dos jardins. A conservação inclui ainda outras atividades como manutenção, consolidação, reparação, reforço e prevenção.
Restituição é o conjunto de operações para recuperação das condições originais do bem cultural, em respeito ao espírito da época, seja por remoção de partes espúrias ou por reconstrução de partes, supostamente originais, já degradadas ou desaparecidas.
Restauração é a ação para recuperação e reintegração de partes ou de todos os elementos de um bem cultural móvel ou imóvel com o objetivo de preservação. A restauração envolve todas as outras operações e formas de intervenção física em bens culturais.
As intervenções de restauração nos jardins históricos têm a finalidade de garantir a unidade e permanência no tempo dos valores que caracterizam esses conjuntos, por meios e procedimentos ordinários e extraordinários. A restauração não se limita a operações destinadas a conservar unicamente os caracteres formais de ambientes ou de bens isolados. Estende-se também à conservação substancial das características conjunturais de um sítio e de todos os elementos que concorrem para definir tais características.
O objetivo da restauração não é apenas conservar a integridade do bem, mas também revelar seu valor cultural e melhorar a legibilidade de seu desenho original. A restauração, operação altamente especializada, baseia-se num constante processo de avaliação e não em conjeturas. O objetivo da restauração não é apenas devolver a um bem seu estado original, pela reconstrução das formas perdidas. Mais do que isso, é revelar, dentro do estado original, os limites do material existente, divulgando e conferindo-lhe valores.
A restauração de jardins históricos que, ao longo de sua história adquiriram as qualidades de um ecossistema artificial, transcende a tarefa de mera preservação do sítio físico e de seus bens materiais, passando a comprometer-se também com a preservação do meio biológico.
ARO: Você cita dois conceitos importantes para a restauração: a integridade e a autenticidade de um bem. Fale sobre ambos.
CFMD: Todo bem cultural deve ser avaliado segundo os conceitos de integridade e autenticidade. A integridade diz respeito à relação entre diferentes elementos de um mesmo sistema. Diz-se que um bem é íntegro se houver equilíbrio entre esses elementos, se houver uma relação equilibrada e harmoniosa.
Quanto à autenticidade, tem a ver com o grau de originalidade dos elementos. Sobretudo em um jardim, onde sucessivas alterações vão se processando ao longo de sua história, é necessário primeiro verificar quão íntegro ele se encontra e, em seguida, quão autêntico. Se no sistema constituído por esses elementos a relação entre os componentes é equilibrada, pode-se dizer que o bem é íntegro. Se os elementos têm um grau de originalidade bastante preservado, pode-se dizer que o bem é autêntico. Essas são condições importantes para justificar a tomada de medidas para preservação de todo bem cultural inclusive os jardins históricos e constituem a premissa de qualquer trabalho, inclusive de tombamento e de outras formas de acautelamento legal.
ARO: Você finalizou a conferência falando sobre a importância do vazio como valor a ser defendido; da necessidade de enfrentarmo-nos ao encobrimento sistemático do espaço, seria isso?
CFMD: Gostaria de responder com uma citação de um nobre francês que escreveu um livrinho sobre jardins, o Duque d’ Hautcourt: “O espaço vazio é talvez o elemento mais importante dos jardins e dos parques. É uma expressão do invisível, um centro em torno do qual tudo se ordena. É o equivalente do silêncio, que constitui, não se deve esquecer, um dos componentes da eloquência. O vazio tem um valor espiritual: nossas catedrais são um invólucro de um espaço de dimensões perfeitas que suscitam a prece.” Sem os grandes espaços abertos e desocupados, condições indispensáveis à percepção dos elementos naturais ou construídos pelo homem se perdem, acabam-se as relações de adjacência e de vizinhança entre esses elementos, perde-se a noção de espaço. Aliás, espaço não é exatamente isto? O grande vazio? Para o Oriental não há apenas quatro elementos – água, ar, terra e fogo. Há um quinto, o vazio.
Citaria também o Tao Te Ching, um dos livros que servem de pilar à antiga sabedoria chinesa: “Trinta raios convergem no centro de uma roda mas é o vazio central que permite a utilização de um carro. Modelando o barro, fazemos um jarro. No maciço das paredes recortamos portas e janelas: o vazio permite o uso de um quarto. É assim que se produz o ser útil mas o não ser é que o torna eficaz”.
Ou: “ É melhor não tentar carregar um vaso que tentar carregá-lo cheio demais.”
Ou: “Não será o espaço entre o céu e a terra semelhante a um gigantesco fole?
Esvazia-se sem se exaurir. Inesgotável”.
Aferrando-nos ao vazio, protegemos nosso ser interior mantendo-o livre.
Escola de Agronomia do Rio Grande do Sul. Fonte do jardim como modelo filogenético [fonte: Acervo da SPHAN-UFRGS]
Ana Rosa de Oliveira: Rosario Asunto diz que as coisas feitas pela natureza evoluem e que as coisas feitas pelo homem se degradam. Sabe-se que os jardins são constituídos de coisas feitas pelo homem e de coisas feitas pela natureza, pode-se afirmar portanto, que eles, simultaneamente, evoluem e se degradam? Como o restaurador de jardins pode enfrentar-se a essa lógica de projeto e processos?
Carlos Fernando de Moura Delphim: Acho arriscado endossar uma premissa sem antes avaliar se é ou não verdadeira. Não creio que a obra do homem se degrada. Há coisas da natureza que se degradam e outras que evoluem; há coisas do homem que se degradam e outras que evoluem.
Na obra humana, muitas vezes a degradação provém da matéria prima e a matéria prima é sempre um produto da natureza. Ou então, as causas da degradação provêm da natureza e não do fato de se tratar de um produto humano.
Muito do que é preservado na natureza se deve à intervenção do homem, como, por exemplo, a recuperação de ecossistemas ou a salvação de espécies ameaçadas de extinção.
De forma inversa, na natureza, muitas vezes é pela ação do homem que surge a degradação. Por exemplo, a Vitória de Samotrácia, se corretamente preservada, nunca virá a perder sua qualidade estética, se houver degradação será do mármore, por motivos naturais. De forma simétrica, as coisas da natureza podem não evoluir, haja visto tanta espécie em extinção. O que pode se degradar é o ser humano, sua maneira de encarar e de tratar o patrimônio e não o patrimônio.
De qualquer forma, o restaurador de jardins tem de enfrentar, nem digo uma lógica mas uma ilógica de circunstâncias que exigem muito bom senso, humildade, respeito pela obra alheia – humana e da natureza – e por seu próprio dom criativo.
ARO: A falta de um registro preciso é um dos problemas cruciais da restauração de jardins. Você equipara o trabalho do restaurador de jardim com o de um detetive. Fale um pouco das tarefas que envolvem a restauração de jardins.
CFMD: Sendo o brasileiro um povo pouco educado e pouco atento para a leitura da natureza, pouco se registra da arte dos jardins na bibliografia e iconografia. Um viajante do século XIX não ia perder tempo fazendo aquarelas de jardins se tinha uma natureza impressionantemente grandiosa para registrar. Ninguém descreveria um jardim com muito rigor desconhecendo o nome das plantas. Há exceções mas são poucas.
Na Inglaterra, antigamente, qualquer pessoa saberia o nome das flores. Aqui é muito difícil. Tem-se de fazer o papel de detetive sem se dispor de muita informação. Felizmente, o que conduz a solução de um projeto não é só o conhecimento do passado, mas a possibilidade de novos papéis no presente e uma projeção para o futuro. Na resposta à pergunta seguinte estão relacionadas muitas das tarefas que são pré-requisitos da restauração, ou, melhor, do próprio conhecimento dos jardins.
ARO: No caso dos jardins da Faculdade de Agronomia da UFRGS, o uso do jardim como instrumento didático; de um modelo filogenético para disposição da vegetação pode considerar-se uma importante pista para uma leitura funda do seu sentido? Há outras?
CFMD: Esta foi uma de minhas mais importantes descobertas. Sabia-se que era um jardim didático, para o ensino da Botânica, não se sabia que era um modelo filogenético construído sob a forma de uma jardim. Uma interpretação espacial de um sistema científico, do qual só se sabia de um outro, construído nos anos 80 em Brasília, cópia de outro, em Hamburgo, Alemanha, o único do mundo até então, segundo informações do diretor do Jardim Botânico de Brasília que o erigiu.
O modelo filogenético da Faculdade de Agronomia é um jardim temático, com funções didáticas, criado exclusivamente para ensino da botânica taxonômica, embora comporte outros usos como o lazer contemplativo e a fruição estética. É um jardim de concepção formal. Segundo informações dos acompanhantes, a forma de roda evoca um signo das ciências agrícolas, a engrenagem.
Os plantios referem-se a um sistema científico de ordenamento e classificação de espécies botânicas que deve ser investigado e identificado. Nos jardins, a fonte central, tem sempre um significado edênico, posto que o Paraíso possuía em seu ponto nuclear, uma fonte de água de onde jorravam quatro rios, cada qual correndo para uma das quatro direções cardeais. Essa água simboliza a vida e o conhecimento, que jorram da nascente central. O significado simbólico do jardim didático é expressivamente ampliado, ao se fundirem os significados mais íntimos da arte dos jardins com a prática do ensino.
O modelo filogenético é um monumento singular, excepcional documento da história dos jardins brasileiros a exigir medidas para sua proteção legal e efetiva. Seus relevantes valores deverão ser preservados, estudados, restaurados e interpretados para o público, servindo a atividades de ensino, de lazer e contemplação, de pesquisa e de uso científico.
A zona do modelo filogenético deve ser protegida de forma integrada e indestacável com o patrimônio cultural e o meio ambiente circundante da Faculdade de Agronomia. Por sua singularidade como categoria de jardim histórico e por seu valor de exceção, no Brasil e no mundo, deverá gozar também de proteção legal destacada do conjunto, sendo recomendado o tombamento em caráter nacional.
O trabalho do detetive exige investigações que incluem profissionais especializados em preservação de paisagens e jardins históricos; de edificações históricas; de elementos decorativos de jardins como fontes e esculturas; historiadores e arquivologistas, botânicos, engenheiros agrônomos e florestais, fitossanitaristas, pedólogos, anatomistas da madeira, paisagistas, jardineiros, eventualmente, arqueólogos, zoólogos, gestores ambientais especializados em programação de uso público.
A equipe deverá promover todos os trabalhos de inventário, levantamento e prospeção do sítio, tais como: levantamento e mapeamento florístico; levantamento faunístico; levantamento edáfico; levantamento fitossanitário; pesquisa histórica, bibliográfica e arquivística, documental, iconográfica, de depoimentos orais (hear say); análises laboratoriais; investigação arqueológica; levantamento de outros jardins análogos; investigação de usos atuais e pretéritos e outros que se façam necessários. O modelo filogenético deverá ser pesquisado para que se descubra o sistema de classificação adotado para sua construção com vistas à restituição dos elementos vegetais desaparecidos do projeto original. Deverão ser efetuados o estudo anatômico da madeira de troncos mortos remanescentes, com objetivo de se identificar a espécie desaparecida e o levantamento e o mapeamento florístico das espécies existentes, com vistas à identificação das espécies que originalmente compunham o modelo filogenético e à sua reintrodução no mesmo local. Deverá ser feito inventário da fauna do campus, com ênfase para a ornitofauna, enfim um vasto trabalho nos aguarda pela frente. Tenho certeza que no Rio Grande do Sul vai frutificar.
Há um grande significado neste jardim sob todos os pontos de vistas dos especialistas que serão convocados a participar do projeto. Predomina o significado científico e didático, bem como as informações científicas, a ordem e as relações sistemáticas entre as espécies que o compõem. Muitos novos valores serão indicados ao longo de sua recuperação e cada leitura, de cada especialista, irá somar novas importâncias. Quanto mais profundas e diversificadas forem as leituras, mais rico é o patrimônio, mais necessário é preservá-lo.
ARO: Você fala da necessidade de certa humildade por parte do restaurador. No entanto, rechaça as atitudes de fingimento ou de criação do falso histórico. Parece também importante nesse processo uma certa dose de invenção. Basicamente é uma intervenção crítica o que você está propondo?
CFMD: Segundo Ruskin, a melhor forma de destruir um monumento é restaurá-lo. A restauração se presta com perfeição à manipulação de informações, à adulteração da história segundo a vontade de quem o restaura. Se o restaurador defender suas idéias, aplicando-as a uma obra do passado, não só falsificará a história como irá reduzi-la a um mero fragmento de seu inteiro significado. O passado não pode ser substituído por uma visão moderna do passado, tornado um kitsch. Humildade não significa excluir-se, significa ser fecundo à germinação do que não é seu. Etimologicamente, humilde significa o que tem húmus, aquele em que tudo germina e cresce, como uma terra fértil na qual tudo se desenvolve. Nutrir-se da terra não significa não crescer. Quanto melhor nos nutrimos da lição do passado, melhor será uma restauração, tanto mais fiel a seu espírito original e tanto mais identificado com os tempos modernos, com a criatividade do restaurador que não deve ser excluída. O ideal é dispor-se de uma equipe o mais diversificada e representativa possível, com todos os especialistas e usuários, já que o saber vulgar e o erudito aqui se equiparam, opinando sobre as tomadas de decisão e as soluções do projeto.
ARO: Você equipara o jardim a um palimpsesto, (manuscrito sob cujo texto se descobre a escrita ou escritas anteriores). Fazendo uma analogia, com o palimpsesto, você afirma que a restauração deve tentar resgatar todas as escritas, sem sacrificar camadas da história nem buscar voltar à escrita original. No caso dos jardins da Agronomia da UFRGS a existência de um roseiral, sua feição primeira, está hoje substituído por um bosque. As exigências lumínicas distintas impedem a harmoniosa convivência entre roseiral e floresta. Como o projeto de restauração poderá contemplar essa complexidade?
CFMD: Não retirarei um bosque vivo e adulto para voltar a plantar roseiras. Recomendarei que, quando as árvores forem morrendo, não sejam replantadas. O bosque não impede uma solução híbrida que concilie o roseiral com as árvores: exposições anuais, na primavera, de mudas de roseira em flor, promovida pelos produtores para venda no local. Quando um dia, todas as árvores estiverem mortas, as roseiras poderão ser replantadas, se então isto for considerado conveniente nos padrões da época.
ARO: Você considera que uma das tarefas importantes da preservação é o despertar para o reconhecimento do valor do bem cultural, fundamentalmente para um melhor deste bem. Fale mais sobre isso.
CFMD: La Fontaine disse, a respeito de um usurário que se põe a chorar quando descobre que seu tesouro enterrado foi roubado:“Quem não usa não tem”. É de suma importância conhecer não apenas um valor mas o maior número possível de valores de um bem. Todavia, sem o uso, o bem não torna práticos e vivos esses valores, ficam como mero títulos, desvinculados da vida.
ARO: Que perspectivas você vê para os jardins de Roberto Burle Marx e o seu acervo de projetos, alguns dos primeiros destruídos pela falta de manutenção ou por projetos de restauração inadequados e a maioria dos seus projetos (em torno de 2000) guardados em uma pequena sala sem proteção efetiva (contra incêndio, umidade, roubo, etc). O que o IPHAN tem feito para proteção do mais importante legado paisagístico do país?
CFMD: Os jardins de Burle Marx utilizaram-se de plantas de fenologia desconhecida, muitas vezes tendo sido utilizadas como sendo de porte muito inferior ao que vêem a apresentar em seu estado adulto. Com isto crescem tanto que acabam por impedir a vida das que foram plantadas ao seu lado e que passaram a estar sob sua copa. É imprescindível que sejam elaboradas normas específicas para a preservação de jardins tropicais modernos, considerando as dimensões e a fenologia da vegetação. Uma grande ameaça à sua obra provém daqueles que se consideram suficientemente íntimos, a ponto de intervirem nela. Nem o próprio criador de uma obra tem indicações tão precisas quanto as de quem se vê no direito de, em nome de tê-lo conhecido, crer que pode substituí-lo.
Quanto ao seu acervo, não sabia estar correndo tal risco, verei o que fazer, com quem falar. Não creio que o IPHAN saiba disto. Lamento que Roberto enfrente agora, em relação à sua obra, perigos contra os quais ele tanto lutou em vida.
Fachada da Escola de Agronomia do Rio Grande do Sul [fonte: Acervo da SPHAN-UFRGS]
Carlos Fernando de Moura Delphim
Engenheiro-arquiteto pela UFMG. Foi o criador do Programa Jardins Históricos na Fundação Nacional Pró-Memória (1985-1990), o responsável pela Restauração do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1977/85). Foi membro-suplente da Comissão O Homem e a Biosfera da UNESCO e Conselheiro-Titular-Representante do Ministério da Cultura no Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA e trabalha como Coordenador Departamento de Proteção do IPHAN-RJ, Brasília DF.
Ana Rosa de Oliveira
Doutora em arquitetura e pesquisadora do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Professora dos Programas de Pós-Graduação em Botânica da Escola Nacional de Botânica Tropical. Rio de Janeiro RJ e de Pós-graduação e Pesquisa em Arquitetura – PROPAR–UFRGS – em Porto Alegre RS. É co-autora do livro Ecotecture-Ecological Architecture (Loft, Barcelona, 1999).
Entrevista
A entrevista com Carlos Fernando de Moura Delphim foi realizada em Porto Alegre RS em 29 de abril de 2002 e foi parcialmente publicada pelo Jornal da Paisagem <www.jornaldapaisagem.com.br>. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em outubro de 2003.