português Professora titular de "Storia della Città e del Territorio" do Dipartimento di Storia dell'Architettura, do Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Donatella Calabi é hoje uma das mais importantes historiadoras da Itália
english Full professor of "Storia della Città e del Territorio" of the Dipartimento di Storia dell'architettura of the Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Donatella Calabi is today one of the most important historians of Italy
español Profesora titular de "Storia della Città e del Territorio" del Dipartimento di Storia dell'Architettura, del Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Donatella Calabi es hoy una de las más importantes historiadoras de Italia
Storia della città. L'età moderna. Donatella Calabi. Venezia, Marsilio , 1999
História da arquitetura e história da cidade: um casamento difícil
Adalberto da Silva Retto Jr. & Barbara Boifava
Nas duas conferências ministradas recentemente no Brasil (São Paulo e Bauru), Donatella Calabi transporta-nos de São Paulo à Veneza: mais do que a efervescência das cores, apresenta uma civilização. De um "sestier" a outro, ao invés de levar-nos a um raciocínio em termos de composição física da cidade, faz-nos pensá-la por meio de articulações de partes e superposição de extratos, sem modificar a sintaxe tradicional, mas iluminando um percurso no qual opera a economia dentro do espaço da cidade: uma outra maneira de remontar os tempos.
Ao recorrer às categorias interpretativas que, por analogia ou por diferença, põem à luz a articulação dos fenômenos de transformação da construção do urbano, restabelece a complexidade implicada na concretude do ambiente físico, restituindo um panorama rico de novos elementos, e portanto, fértil de idéias que descortinam eventuais horizontes de pesquisa. Através de casos exemplares ou inovações apresenta uma história "não evolutiva", perfilando, numa visão de conjunto, como se modifica a paisagem urbana.
Calabi propõe leituras incisivas, capazes de selecionar hierarquias de fatos construídos, formações tipológicas que, pouco a pouco, mostram-se funcionais a um novo desenho urbano. Hierarquias necessárias para reconhecer como Veneza ou Antuérpia, Roma, Londres, Amsterdã, por exemplo, em uma certa conjuntura histórica participaram de uma mesma rede de implantação, de um mesmo desenho, explicitando como este agiu como estímulo para a pesquisa de uma nova figuração em arquitetura; e assim, como cidade e território, desenho urbano e organização do regime produtivo não são facilmente desconexos, o que levaria a uma redução da complexidade dos fenômenos a puros dados morfológicos.
O título da entrevista sugerido pela professora Calabi, descortina dois filões de grande importância da historiografia na Itália nos anos de 1970: a formação do Dipartimento di Storia dell' Architettura de Veneza por Manfredo Tafuri, afirmando a autonomia da história da arquitetura frente a uma "critica operativa"; em paralelo, o despertar da história urbana e de seus instrumentos de investigação, não como extensão da história da arquitetura, mas como âmbito de estudo caracterizado com técnicas e instrumentos próprios, como ponto de vista da história geral, do qual ela mesma assume um papel de relevo.
1 – Oito anos depois de sua chegada no IUAV, Manfredo Tafuri funda em 1976, o Dipartimento di Analisi Critica e Storica sobre as cinzas do Istituto di Storia dell'Architettura dirigido por Bruno Zevi. A mudança sucessiva do nome do departamento que voltou à antiga denominação de Storia dell'Architettura, afirma que os dois adjetivos, "Critica" e "Storica", constituíam uma tautologia. Como sustentava Tafuri, "a história sempre teve uma função crítica", logo "não existem críticos, somente historiadores" (Non ci sono critici, solo storici)".
De fato, a nova denominação marcava a passagem para uma fase em que a "fecunda incerteza da análise" se contrapunha à certeza do projeto da denominada "Storia operativa" de Zevi.
Jean Louis Cohen que seguiu atentamente o âmbito intelectual veneziano, [Italophilie (1984 ), Dall'affermazione ideologica alla storia professionale (1999)], explicita que, ao superar a questão da operatividade da história, a "Scuola di Venezia" consegue passar do estudo das conjunturas àquele das estruturas, posta como fundamento da historiografia dos "Annales": "sem subscrever a causa da longa duração per se stessa, mas propondo-lhes rearticulações diacrônicas que fazem aparecer os ciclos estruturais segundo os quais a crise do capitalismo e da arquitetura se compõem e se correspondem". Como escreve H. Burns, Tafuri criou "un nuovo, fertile modo di fare storia della architettura,– o storia 'tout court'– che non 'spiega' l'architettura in termini di 'contesto', ma identifica la sua funzione fondante nell'ambito di un dato momento culturale e politico e la sua interazione con le altre forze culturali, da cui non è passivamente determinata".
2 – Nos anos de 1970, denominado por Guido Zucconi como os anos de ouro da história urbana na Itália, um grupo de professores começa a delinear um modo novo e autônomo de se fazer história, no qual o termo "análise urbana" deixa de ser sinônimo da "análise operante", protagonizada por Saverio Muratori em seu "Studi per una operante storia urbana di Venezia "(1953).
Donatella Calabi, seja na entrevista gentilmente concedida ao Vitruvius seja no discurso do nascimento da "Associazione Italiana di Storia Urbana" (AISU), intitulado "Storia Urbana in Italia"(2001), ilumina este novo caminho que é indissociável da história que plasma sua figura e sua produção intelectual.
Na conferência ministrada em Bauru "La borsa, lo scambio del denaro, la circolazione delle idee in Europa nel XVI secolo. Problemi di storia urbana comparata", Calabi mostra uma fase recente da pesquisa do departamento de história de Veneza, substituindo a "história dos eventos" por uma que põe em relevo às "mudanças geográficas, econômicas, sociais, culturais (das mentalidades), na longa duração". Neste contexto, o escopo é aquele do confrontro ou ainda da "história comparativa", através de uma prática de pesquisa de cunho multidisciplinar, como superação da dificuldade inevitável da fragmentação dada por cada caso singular.
Podemos apostar numa coerência, que confere unidade ao conjunto das publicações de Donatella Calabi, cujo papel seria o de pedra angular no debate da história urbana atual. Por fim, vale ressaltar, sua importância política na formação de um sólido fio condutor à frente de algumas iniciativas e instituições: no curso de "Storia della città e del territorio" no IUAV; na organização da "Fourth International Conference of Urban History" (1995), quando presidente da European Association of Urban History , presidente da Associazione Italiana di Storia Urbana, e como coordenadora do Dottorato di Eccellenza in "Storia dell'architettura e della città, Scienze delle arti, Restauro" da Scuola di Studi Avanzati di Venezia.
As palavras de Calabi, subsistem à descontinuidade criada pelo Atlântico e colocam– se dentro de um horizonte de pesquisa que, apesar de parecer distante e muito diverso, é necessário para restituir a complexidade e o grau de operatividade, e assim a atualidade, do estudo dos fenômenos urbanos.
As temáticas por nós propostas à professora Calabi, não tentam remontar o percurso de sua produção intelectual, mas apresentar aos leitores de língua portuguesa um estímulo à reflexão sobre o ambiente intelectual veneziano, pela ótica de um dos protagonistas.
La città degli ebrei. Il ghetto di Venezia: architettura e urbanistica. Donatella Calabi. Venezia, Marsilio, 1996
Questão de método
Adalberto Retto e Barbara Boifava: Qual a importância das "Questões de método" nos estudos sobre a cidade?
DonatellaCalabi: Gostaria de enfatizar a importância das questões de método, ligadas também a aspectos de terminologia. No âmbito disciplinar da história da cidade existem confusões, não somente no linguajar comum e de senso comum, mas até mesmo nas titulações acadêmicas: por exemplo "História da cidade" e "História do urbanismo" usados como sinônimos; ou "cidade moderna" e "cidade contemporânea" como se fossem a mesma coisa. Eu proporia uma interpretação da História da cidade como ponto de vista da história geral; uma prática metodológica complexa. Tornam-se, assim, fundamentais algumas categorias conceituais: entre estas, em particular, as de continuidade/descontinuidade em um arco temporal de longo período. Considero que os momentos mais significativos para propostas, projetos, modificações da configuração física, sejam os de descontinuidade, nos quais ocorrem episódios de ruptura, acontecimentos traumáticos: uma guerra, uma crise econômica, uma mudança de poder, um incêndio, um terremoto, o desmoronamento de uma ponte ou de um conjunto de edifícios. Mas existem também fatores de inércia (hábitos, tradições, interesses fundiários, ou ligados a algumas práticas que obstaculizam as mudanças). A História da cidade, muito mais que a da arquitetura, sente o efeito destas oscilações. É muito mais difícil, de fato, no campo da História urbana, do que na da história de cada edifício, fazer datações, assim como é muito mais difícil estabelecer com certeza os nomes dos autores. Para a construção civil, como para a pintura, ou para estatuária, é normalmente possível reconhecer quem é o artífice (não acontece sempre, mas freqüentemente); uma parte da cidade, usualmente, é fruto de mais de um autor e são infinitos os fatores que determinaram seu desenho.
Justamente por isso, a questão da oscilação entre momentos de continuidade e de descontinuidade na história longa de um assentamento e dos seus processos de transformação física é, na minha opinião, de singular importância. Creio que a possibilidade, e às vezes a necessidade, de ler acontecimentos, como aqueles de único manufato, em um longo arco cronológico, (mais do que quando se estuda episódios mais circunscritos do ponto de vista espacial ou temporal), sejam colocadas com extrema clareza, sabendo que os instrumentos para o estudo da História da cidade e aqueles para o estudo da história da arquitetura são diferentes, ainda se interrelacionados. Não podemos, esquecer que na História da cidade (mesmo que se trate de Ancièn Régime ou da Idade contemporânea), existiram momentos de rupturas, episódios pontuais, momentos particulares que constituíram ocasiões de reflexão, de renovação, de disposição às novas formas e novos modelos; e que destes se deve partir da inércia às mudanças, sem esquecer as fases de viscosidade.
Enfim, não é exatamente uma leitura "evolutiva" que estou propondo com este discurso, como aquela que teve tanto sucesso na historiografia. Pelo contrário. Proponho, contemporaneamente, uma reflexão sobre o tema de como o fator tempo incide (diferentemente de outras disciplinas afins) sobre os episódios significativos do nosso âmbito de pesquisa.
La città del primo Rinascimento. Donatella Calabi. Col. Storia della cità, Bari, Laterza, 2001
A dimensão arquitetônica nos estudos da cidade
Adalberto Retto e Barbara Boifava: O título da sua entrevista "História da arquitetura e História da cidade: um casamento difícil", explicita uma diferença substancial nos estudos sobre a cidade. Qual o real prejuízo para a história urbana ao utilizar somente a dimensão arquitetônica nos estudos da cidade?
DonatellaCalabi: Falando de "casamento difícil", uma recensão publicada há muitos anos atrás no "Journal of Urban History" reclamava da distância existente entre os dois campos de estudo: aquele da história da arquitetura e aquele da história da cidade (1). Destacava que somente um dentre dez artigos publicados pela mesma revista tratava de história da arquitetura, enquanto a maior parte dos ensaios discutiam urbanismo (City planning), matéria ligada à arquitetura, mas freqüentemente, muito mais relacionada às questões de engenharia e de obras públicas. A ausência de uma dimensão arquitetônica se nota não somente nas histórias gerais dos processos de urbanização, mas também nos estudos de cidades individuais, como sustentava Joseph Arnold se referindo principalmente às publicações anglo-americanas. Em se tratando da cidade européia, era uma lacuna que lhe parecia ainda mais marcante, dada a importância dos estabelecimentos urbanos, e, dentro destes, dos aspectos arquitetônicos, na Europa do Ancièn Régime.
Em algumas publicações o autor de uma história da cidade se desculpava desta "omissão". Citarei dois exemplos particularmente significativos. No seu célebre ensaio sobre Florença no Renascimento, Goldthwaite declara ter excluído questões de "estilo" arquitetônico, porque não se sentia à altura de uma análise semelhante (2). Mais recentemente, Marino Berengo, na introdução do seu livro monumental sobre história urbana, do qual a sociedade européia era o sujeito primário, tem uma atitude análoga, (mesmo se atenuada por algum tipo de remorso). Na "Europa das cidades" diz o autor, falta um capítulo sobre "urbanismo": "A forma urbis", que foi desenhada e transformada nas várias nações fica fora do meu quadro: os tempos da "interdisciplinaridade", muito evocados nestes anos, não estão ainda maduros para mim (3).
Também, em um estudo da "Society of Architectural Historians" sobre o ofício e formação do historiador da arquitetura nos Estados Unidos da América, a História da cidade não é nem mesmo mencionada (4). Na realidade, em todos os países ocidentais, parece que existem margens de incompreensão entre os dois âmbitos de estudo.
Em suma, acredito que se possa afirmar que, freqüentemente, os "historiadores urbanos" (próximos ao campo da História das instituições, ou àquele da História social e econômica) são míopes, enquanto os historiadores da arquitetura ou da arte ficaram surdos às questões sócio-econômicas e políticas, ou institucionais. Os resultados são freqüentemente antiquados e metodologicamente ingênuos.
Apesar das citações iniciais, não acredito que as afirmações que acenei sejam somente válidas para o contexto americano. Talvez, poderíamos sustentar que o discurso não seria aceitável para a cultura européia e, talvez também, para aquela italiana? E mais: é legítimo falar de "casamento difícil" entre os dois campos de estudo, ou se trata de testemunhar um consenso de "separação" ou de "divórcio"?
notas
1 Joseph Arnold, Architectural history and Urban History: a difficult marriage, in "Journal of Urban History", 1 novembre 1990, pp. 70-78.
2 Richard A. Goldthwaite, La costruzione della Firenze rinascimentale, Bologna 1984 [1980].
3 Marino Berengo, L'Europa delle città, Torino, Einaudi 1999, Prefazione, p. XIV.
4 Elisabeth Blair Mac Dougall (organização), The architectural historian in America, Hanover+London 1990.
Fabbriche, piazze, mercati. La città italiana del Rinascimento. Donatella Calabi. Roma, Officina Edizioni, 1997
Longa duração e inovação
Adalberto Retto e Barbara Boifava: Qual a importância da "Longa duração " e "inovação" para o estudo dos fenômenos urbanos?
DonatellaCalabi: O tema "por que uma cidade nasceu aqui e se desenvolveu tanto?" constitui a pergunta fundamental da História urbana. Assim, esta última, é simplesmente uma definição operativa para identificar historiadores e outros que trabalham sobre alguns problemas (uma espécie de estratégia histórica e nada mais).
Em termos formais pode ser entendida como um campo do conhecimento, não como uma disciplina isolada, na acepção comum do termo "disciplina". Um campo em que convergem muitas formas de conhecimento, e não uma forma de conhecimento em si mesmo.
O que seja "urbano" e o que não o seja se torna então quase impossível definir com grande precisão em um certo tempo (não através da dimensão, nem através da densidade, nem do grau de nucleação): existem dificuldades no uso de critérios homogêneos relativos ao longo período, mesmo dentro da mesma comunidade.
O sentido do espaço também muda no tempo e é impossível ter um sentido absoluto do mesmo: um exemplo é aquele da densidade física no centro da cidade americana e da massa social que se dispersa na sua periferia. Contudo, as conexões entre forma e função, entre escala e estrutura permanecem, sobretudo na conceituação que temos de uma grande cidade.
É por isso que me parece justo insistir sobre a importância, para nós, da "longa duração".
A cidade é cravejada de grandes praças, talvez antigamente destinadas ao mercado de gado (animais), ou das verduras e das frutas, ou às feiras anuais, que pouco a pouco perderam significado e nas quais se instalam outras atividades; ou de ruas nas quais alguns se estabelecem, outros desaparecem; ou ainda de pórticos invadidos por bancos e assentos, ou penosamente mantidos desocupados; e (a cidade) é, num certo momento, marcada pelo fato de que os hábitos e o gosto dominante assumem um papel de inércia à mudança. A estabilidade dos mecanismos de propriedade do solo e do parcelamento constitui um dos obstáculos mais importantes à transformação da cidade antiga e da medieval (5). Mas as razões simbólicas, ideológicas, culturais podem ser igualmente vinculativas.
Na Europa, por exemplo, a praça foi freqüentemente considerada a obra– prima da construção medieval e é, ao contrário, o lugar onde se realizaram intervenções de dimensões importantes, sobretudo durante o Quatrocentos e o Quinhentos (6). Isto aconteceu num momento determinado, em que se juntaram os poderes temporal e religioso, como naquele em que dominavam separadamente o município, ou o palácio da Signoria, ou a catedral, ou os lugares de mercados. Na maior parte dos países da Europa central aumentou a especialização das vendas: construções comerciais permanentes (freqüentemente construídas em série uniforme) substituem bancas, tendas e recintos de madeira; aquelas mistas para o fornecimento de produtos cotidianos a varejo tendem a desaparecer; os grandes armazéns são cada vez mais destinados exclusivamente aos tecidos, ou ao couro, ou aos grãos (7).
Às vezes, na base dos investimentos urbanos, cujas atitudes culturais vão além das questões puramente econômicas e mercantis, tem-se o crescimento de um grupo de mercadores dedicados ao tráfego de mercadorias ricas (Lubecca). Outras vezes o aumento da riqueza, ou do risco e da precariedade das despesas feitas somente com fins comerciais, ou a transferência da propriedade de mão em mão, não bastam para explicar a maior atenção dedicada aos edifícios públicos, nem o sentido de dignidade atribuído aos postos do governo municipal (Nuremberg). Neste processo, é importante o papel que assumem não só as classes dominantes, mas também os "mestres de rua" (8), os peritos da magistratura pública, os pedreiros, a mão-de– obra do canteiro, isto é, os assalariados da construção a serviço da cidade nas primeiras décadas do século XVI. Nas bases hanseáticas, parecem ser mesmo os edifícios públicos de grande escala a se constituírem previamente como oportunidade para a formação de grupos itinerantes de mestres construtores. Mas, em muitos casos (Veneza, Nuremberg, Paris), é também a passagem da "cidade de madeira" à "cidade de pedra" a tornar-se um pretexto – freqüentemente um formidável pretexto– de total reconstrução, além de parcial emigração de modelos (9). A degradação das estruturas, o perigo de desabamentos, os incêndios na cidade medieval eram aceitos como inevitáveis, porque faziam parte da vida cotidiana. "Nínguém deve se espantar se nestes tempos desmoronavam tantos edifícios, não somente em Vinegia (Veneza) mas em outros lugares da Itália, assim como em Bolonha e em Milão[...], porque quase todos os edifícios eram de madeira, como se pode ver até hoje na maior parte da Alemanha e da França": esta nota dá uma descrição pontual quinhentista do "bel paese" (Itália) (10). Assim, o propagar-se das chamas é absolutamente inevitável. Mas ao longo do século, o fogo parece se transformar, em todos os lugares, num pesadelo. De um lado a vigilância, do outro a mecanização dos instrumentos para apagá-los se transformam respectivamente, em objeto de atribuições específicas, de regras (na forma de obra de prevenção) e em objetos de ilustração nos tratados. As edições dos dez livros de Vitrúvio de Como de 1521 e de Nuremberg de 1547, dedicam um espaço particular ao desenho de máquinas especiais com finalidade de derramar água em incêndios de grandes proporções; igualmente acontece no Théatre des instruments, publicado por Besson em Lion, em 1578 (11). Aliás, neste sentido, são atribuídas tarefas particulares a um número crescente de funcionários a serviço da cidade ( os "quartemiers" de Paris, como os párocos nos bairros venezianos). As normas construtivas (limitação do uso da madeira, ou das coberturas em palha, ou a obrigação de erguer muros divisórios separados entre unidades limítrofes) e de comportamento (sistema de iluminação, horários), que também existiam em todas as cidades com alta densidade habitacional, não são por longo tempo aplicadas, mas repentinamente são reforçadas com maior autoridade e insistência; e como de improviso, os incêndios são descritos com tons dramáticos por cronistas e testemunhas oculares; tornam-se uma ocasião de reflexão, uma oportunidade a ser aproveitada. Freqüentemente, nestes casos, impulsos de modernização são assim temperados de um saber constituído, de hábitos no uso dos materiais e interesses consolidados, da vontade de não criar transtornos. Enfim, não é raro que velhas regras de técnicas construtivas sejam executadas somente com muitas décadas de atraso (por exemplo, os editais que, no centro de Paris, vetam a fábrica de madeira, somente com Henrique IV, em 1607, tornam-se verdadeiramente executáveis). Às vezes, nas cidades do norte, a inovação está ligada mais às considerações econômicas (o preço da madeira, as dificuldades de provisões ou de laboração) e psicológica (o prestígio do modelo mediterrâneo) do que às razões técnicas (a defesa contra os incêndios) (12). E estes são, novamente, os fatores que têm uma importância no abrandamento de algumas decisões ou, ainda, na sua aceleração em favor de um simples saneamento, ou de rearranjos de pouco valor, conduzidos sob antigos vestígios. Na história das cidades européias, reencontramos acontecimentos absolutamente exemplares na incerteza de escolher entre modelos contrastantes: as controvérsias entre o saber teórico de um arquiteto de grande cultura e o saber empírico dos técnicos funcionários, os resumem eficazmente. Os dois casos famosos, de reconstrução em pedra da antiga ponte de Notre Dame sobre o Sena e daquela de Rialto sobre o Canal Grande, estruturas vetustas e complexas não somente de passagem, estreitamente ligadas à renovação das áreas mercantis, as quais dão acesso, fornecem um sinal significativo, que vai muito além do caso específico. Ambos são emblemáticos das dificuldades em que se envolve o redesenho das metrópoles.
notas
5 As análises de André Chastel sobre as Halles parisienses, de Donatella Calabi e Paolo Morachiello sobre a ilha de Rialto, de Renate Kistemaker sobre Amsterdã permitem ver a proporção de tais estabilidades.
6 Gustavo Giovannoni, Vecchie città ed edilizia nuova, Torino 1931, pp. 24-26.
7 Erwin Anton, International History of City Development, Glencoe Illinois, 1964-72, vol.. I,pp. 162-168.
8 Chamava-se assim em Roma a magistratura designada à vigilância e ao controle dos trabalhos edilícios urbanos.
9 Ver as análises de Pierre Francastel sobre as normativas em Paris ainda existentes na época de Henrique IV; cfr.: L'urbanisme de Paris et l'Europe 1600-1680, Paris 1969, cit., in: Histoire de la France Urbaine, vol. 3, cit., p. 14.
10 Leandro Alberti, Descrittionedi tutta Italia, Bologna 1550, p. 460.
11 Lucio Vitruvio Pollione, De Architectura Libri dece traducti de latino in vulgare affigurati, commentati, Como per Magistro Gotardo da Ponte... nel anno... MDXXI, XV mensis julii regnante il christianissimo re de Franza [edita da A. Gallo e L. Pirovano: Cesare Cisariano circa il fine de magio del anno presente MDXXI, havendo commentato e dato le copie a li impressori...se partite da Como e lasso l'opera imperfecta]; Marci Vitruvii Pollioni, Zehen Bücher von der Architektur und kunstlichen Bawen, Nürnberg 1948; Theatrum Instrumentorum et machinarum Iacobi Bessoni Delphinatis, Mathematici ingeniosissimi, Lione MDLXXVIII, p. cii v. e tav. 52.
12 C. Enlart, Manuel d'archéologie française, Paris 1929, parte II ("Architecture civile"), vol. I, pp. 231-409.
Il "male" città: diagnosi e terapia. Didattica e istituzioni nell'urbanistica inglese del primo '900. Donatella Calabi. Roma, Officina edizioni, 1979
História local e história comparada (13)
Adalberto Retto e Barbara Boifava: A senhora ressalta recorrentemente a necessidade absoluta de uma "História comparativa". Em um artigo recente, isso é reforçado através das palavras de Bloch (1928), afirmando que "Non esiste conoscenza vera senza una certa tastiera di comparazione". Quais são os limites que poderão ser estabelecidos entre História local e história comparada?
DonatellaCalabi: Para a história da cidade, as razões de interesse de uma pesquisa comparada são absolutamente evidentes (14). É justamente este um daqueles casos nos quais – para usar as palavras de Paul Veyne (15) – o recurso à analogia para suprir algumas lacunas de documentação parece ser uma das poucas estradas a serem percorridas: o confronto para fins heurísticos de fatos relativos a determinadas nações ou períodos diferentes torna-se insubstituível. Aqui, o que precisa ser verificado é se seria possível relevar também na configuração do espaço, os traços comuns que emergem em outros setores de atividade; é preciso entender se as diferenças podem ou não serem classificadas como soluções formalmente diferentes para problemas comuns. Traços comuns e diferenças: podem ser interpretados como soluções diversas aos mesmos problemas? Trata-se, desta forma, de colher alguns acontecimentos concretos, nos quais se notam causas materiais semelhantes, objetivos comparáveis, análogas casualidades, conhecendo bem que nem tudo é "típico"; que os "acontecimentos não se reproduzem por espécies, como as plantas". Foi, aliás, Lucièn Febvre que nos recordou que, freqüentemente, parecem existir nos fatos algumas constantes, algumas coerências e episódios contingentes que retornam também em lugares e tempos distantes (16); portanto, querendo estudar um acontecimento singular, não é possível ficar indiferente a uma espécie de generalidade, ao repetir-se de histórias símiles, ou ao menos à possibilidade de verificar uma rede de semelhanças e de contradições, que se entrecruzam (17). Uma vez estudado um espaço particular, não se trata tanto de querer a todo custo encontrar leis e modelos, ou de renunciar-lhes, mas de avaliar o funcionamento do sistema complexo no qual o caso examinado é efetivamente inserido, que parece aliás apresentar-se em uma escala mais ampla daquela inicialmente prevista; tentar não esquecer a relação que algumas "regularidades" mantêm com as "particularidades" que lhes fogem, se torna então, para a História da cidade, um percurso de pesquisa quase obrigatório (18).
AR e BB: E quais os graus de especificidade e analogias?
DC: Freqüentemente, o início da história de um assentamento gira em torno de um ponto de interrogação: aquele do grau de especificidade de um caso conhecido (19). No meu modo de delinear o raciocínio, por exemplo, retorno com freqüência ao caso de Veneza como referência (que estudei em algumas partes de modo detalhado). Da mesma forma, no esforço feito por Tafuri nos seus estudos mais recentes (20), existiam juntos o caso de Veneza e o caso de Roma e as suas diversidades, como ponto de partida.
Quais os caracteres que incidem sobre a destinação dos usos e da arquitetura na reforma quinhentista no duplo sistema de ilhas de São Marco e de Rialto, do lado de cá e do lado de lá do Canal Grande, na metrópole Sereníssima? Até que ponto as decisões tardo-medievais ou de idade moderna que lhe concernem – de revisão do próprio aparato mercantil, de separação dos usos e dos usuários, do redesenho geométrico de alguns lugares, da rearticulação das duas "praças" – são encontradas também em outros episódios? Quando são estudados os espaços de mercado das grandes cidades comerciais européias, por exemplo, o conceito de "limite" – e as práticas que o definem– emerge como condição significativa das decisões de reforma. Mas deveríamos pensar que isto seria intrínseco ao espaço urbano do mercado, ou, ao contrário, sugerido pela natureza dos lugares? No caso de Veneza, o mesmo é ligado à morfologia lagunar e à existência das ilhas que a caracterizam? Existe ou não uma lógica interna à configuração e à tipologia dos espaços de mercado, também diferentes e distantes entre eles, constituída de elementos substancialmente recorrentes na estrutura urbana e, no caso afirmativo, tais elementos recorrentes apresentam também analogias formais, além de destinação de uso? Mas estudos deste tipo apresentam um enorme risco: somente alguns casos se baseiam em uma documentação de arquivo elaborada (ao menos parcialmente) na ótica proposta. Por exemplo, se me refiro novamente aos meus estudos comparativos dos espaços de mercado nas cidades européias ou aqueles dos bairros judeus na Itália, somente para o caso veneziano as deliberações tomadas pelas magistraturas delegadas à transformação dos espaços urbanos de uso coletivo foram examinadas de modo sistemático e a iconografia analisada minuciosamente. A comparação com os outros sujeitos, conduzida com base em informações recolhidas para fins diversos e que na maior parte são de fontes secundárias, é inevitavelmente deformada pela lente de aumento utilizada, que se conhece com maior precisão. Para o "acontecimento particular" as razões das escolhas tomadas podem ser explicadas; pondo à luz analogias e diferenças das "histórias semelhantes" às vezes se deve contentar com a formulação de hipóteses fidedignas (21). Todavia, este é um dos modos possíveis para aceitar o convite de Tafuri "para multiplicar as análises comparadas evitando, juntamente com as generalizações, o estudo limitado somente aos casos pontuais" (22) e para repropô-los a partir de outros indícios. Processos institucionais e de reorganização agiram às vezes dentro do tecido edificado segundo esquemas que apresentam aspectos de "regularidade", que se repetem, mesmo somente de modo grosseiro. As razões econômicas são usualmente comparáveis, quer se trate de um incremento de atividade dentro de espaços que não são capazes de contê-las, quer se trate de conflitos de interesse, ou da vontade de manter a independência econômica e política baseando-se em uma rede de pontos de apoios da federazione. De vez em quando, os modelos organizativos, decorativos, culturais, mudam; a mão-de-obra e as competências freqüentemente migram. Todavia, nestes acontecimentos existem mil variantes. Diversas eram as cidades do Báltico, ou aquelas francesas, ou italianas, ou as espanholas entre o tardo-medieval e os séculos sucessivos (mas o mesmo poderemos dizer para o modelo da cidade romana entre Roma capital e as suas colônias); diferentes eram, pelo menos, o clima, o sítio e a relação com o rio e a viabilidade de acesso. Internamente a elas, a propriedade edilícia é repartida diferentemente entre grandes e pequenos mercados ou entre ente público e privado; o mecanismo de aluguel ou leilão tem um peso enorme nas decisões de renovação (23). Um estudo das soluções específicas adotadas (a construção de uma manufatura edilícia), de praças, de cisternas, loggias, ou a demolição de alpendres ou de recintos precários) se impõe a quem gostaria de refletir sobre as estratégias urbanas dos grandes centros da economia mundial na Idade moderna. E o complexo no qual os casos examinados singularmente se inserem, torna-se aquele constituído da rede das suas próprias relações.
notas
13 Donatella Calabi, Ilmercato e la città, Venezia, Marsilio 1993, Introduzione; em vias de publicação numa versão atualizada em inglês: Themarket and the city, Leicester, Scholar Press 2003, Introduction.
14 Manfredo Tafuri, Ricercadel Rinascimento, Torino 1992, p. 127: "Ampliare lo spettro delle analisi verificabili" é um apelo lançado no capítulo em que o autor trabalha com analogias e diferenças nas estratégias urbanas das cidades italianas entre os séculos XV e XVI. Para o período medieval, a falta de estudos comparativos sobre a configuraçao do espaço urbano é lamentado por Jacques Heers, quando se propõe de levar adiante uma leitura deste tipo em: Laville au Moyen Age, Paris 1980.
15 Paul Veyne, Comment on écrit l'histoire, Paris 1978, p. 85.
16 Lucien Febvre, Problemi di metodo storico, Torino 1976 2, p. 182.
17 Giovanni Levi, Villaggi, in "Quaderni storici", n°46, aprile 1981.
18 Michel De Certeau, L'operation historique, in: Jacques Le Goff e Pierre Nora, Faire de l'histoire, Paris 1974, I, p. 32.
19 A questão estava já presente nas primeiras hipóteses formuladas com Paolo Morachiello em 1980, isto é, na fase de impostação do trabalho analítico que tínhamos conduzido sobre a área rialtina, que não foi deixado de lado no momento da publicação [Rialto: le fabbriche e il ponte, Torino 1987], apesar do objeto da pesquisa já estar circunscrito.
20 Manfredo Tafuri, cit.
21 Fernand Braudel, Civiltà e imperi del Mediterraneo nell'età di Filippo II, Torino 1976, I, p. 330.
22 M.anfredo Tafuri, Ricerca del Rinascimento, Torino 1992, p. 90.
23 Fritz Rörig, cit., cap. 5.
Il mercato e la città. Donatella Calabi. Venezia, Marsilio, 1993
História do urbanismo / história da cidade
Adalberto Retto e Barbara Boifava: Qual o diferença entre História do urbanismo e história da cidade?
DonatellaCalabi: Muito freqüentemente, na linguagem comum e nas práticas de ensino, como também no direito público, os dois termos "história da cidade" e "história do urbanismo" parecem confundir-se. É uma confusão que, em certa medida, acha pressupostos nas dificuldades encontradas pelo urbanismo em reconhecer seu próprio âmbito e especificidades próprias. Da segunda metade do século XIX, alguns manuais, muitos atlas de urbanismo (Cerdá, Sitte, Brinckmann, Lavedan, Piccinato, Morini) colocam o início da sua narração no momento do primeiro manifestar-se da cidade e pretendem encontrar os princípios, as normas, as regras a serem aplicadas para aumentar o bem estar dos indivíduos e da coletividade nas diversas e sucessivas fases da civilidade urbana; encontram as suas próprias fontes na cultura ocidental. A "história da cidade" torna-se, deste modo, um sinônimo de história da civilidade (a civilidade seria civilidade urbana por definição). A "verdadeira" história, a "grande" história, a história da civilidade é história "urbana" (24). O risco é aquele de oferecer um quadro parcial, como quadro total. Esta abordagem (além das definições) não é privada de conseqüências no plano das categorias conceituais. A primeira é que a história urbana é vista como uma parte da história do urbanismo, e também uma das suas questões mais importantes. Entre os dois campos de estudo existe um hiato intelectual e institucional: não reconhecê-lo leva a um descaso da existência de técnicas de pesquisa particulares (inclusive aquelas inerentes à cartografia), e instrumentos que fogem a um único modo de tratar (25).
A "história do urbanismo", se relegada à dimensão redutiva de uma pesquisa sobre materiais de construção, sobre a organização do espaço, sobre o sistema viário e higiênico-sanitário, acaba por ser a reconstrução de uma morfologia urbana em um dado período. Esta abordagem, não implica uma atenção a uma disciplina projetual dotada de seus próprios instrumentos particulares. Significa negligenciar as noções do projeto (econômico e bidimensional) com o qual se regulam os conflitos relativos às rendas fundiárias e construtivas; não leva em consideração os tempos em que amadurece o mecanismo de aproveitamento do solo; substima o fato de que, quando se fala do Medieval ou do Renascimento, os conceitos oitocentistas de unidade e regularidade não apareceram ainda como norma de controle. Se no Quatrocentos e no Quinhentos é impossível entrever os inícios do urbanismo– "ciência política" do século dezenove– é de qualquer forma lícito reconhecer o diferenciar-se de múltiplas estratégias urbanas: as intervenções na cidade são funcionais para construções que aprofundam as suas raízes no aparato institucional e nas estruturas políticas, mas os objetivos não são sempre dedutíveis através dos instrumentos utilizados para alcançá-los. Nesta lógica, é precário também o uso de corretivos terminológicos como aquele (que, de qualquer modo, teve um notável sucesso historiográfico) de "pré-urbanismo" (26). Em definitivo, até que ponto vale a pena nivelar em categorias e disciplinas contemporâneas a riqueza da dinâmica histórica?
AR e BB: E sobre a especificidade das fontes?
DC: A história da cidade é um âmbito no qual confluem ou se sobrepõem mais leituras a partir das fontes que se utilizam. A existência da história da cidade nas faculdades de arquitetura, por exemplo, é um fato relativamente recente e muito pouco aceito ou considerado por aqueles que se ocupam da história política, econômica ou social. Normalmente para estes a História da cidade, é a História das instuições citadinas (o Poder Municipal, os Estados Regionais, os Estados Nacionais, as liberdades, as corporacões...), ou História da economia urbana, das atividades produtivas ou do comércio dentro de um assentamento, ou Histórias de categorias, movimentos e classes sociais.
Por outro lado, é também verdade que a história da arquitetura como a história dos edifícios e das formas teve freqüentemente dificuldades de sair das próprias categorias habituais (feitas de cânones e de atribuições) e negligenciou a cidade entendida como o conjunto de edifícios (e de contrastes).
Mas é também verdade que, sem a confluência de mais leituras, o entrecruzamento e a sobreposição de mais fontes (literárias, documentais, iconográficas, cartográficas, materiais) derivantes de diferentes pontos de vista, não é possível fazer a história urbana.
Uma leitura deste tipo, aplicada a um caso de estudo (um assentamento em um dado período, um bairro, um complexo urbano, um conjunto de cidades), convida, não necessariamente a conhecer todo este enorme patrimônio de conhecimentos para o exemplo estudado, mas a colher para este, as múltiplas possibilidades que as diversas leituras permitem ou sugerem.
Proceder por fragmentos, querendo cobrir um arco temporal longo, indicando percursos de leitura e itinerários de pesquisa – dos escritos filosóficos à iconografia, dos documentos fiscais à arqueologia da construção. Seria preciso dirigir-se sistematicamente a uma série de "especialistas" que, pela sua colocação profissional ou por ter conduzido recentemente e publicado uma pesquisa sobre o tema que nos interessa, sejam reconhecidos como tais. Nem sempre isto é possível; às vezes, é necessário receber os resultados de pesquisas conduzidas em outra sede, aceitar, ou em outras palavras, trabalhar sobre base de fontes "indiretas", ou de "segunda mão", ao invés de trabalhar exclusivamente a partir da coleta de dados originais. É preciso, em suma, estar consciente dos problemas que coloca a própria pesquisa (com as suas dificuldades, as incertezas, as hipóteses formuladas e talvez posteriormente abandonadas, os sucessos e os insucessos de um percurso e obstáculos).
notas
24 Italo Insolera, Europa XIX secolo: ipotesi per una nuova definizione della città, in: A. Caracciolo, cit., p. 123.
25 O que explica também a escarsa difusão tida por algumas iniciativas de estudo da história da cidade, fundamentais do ponto de vista do uso de técnicas relacionadas à configuração do espaço: por exemplo, da grande pesquisa CNRS dirigida por André Chastel sulle Halles [Paris, 1976].
26 Françoise Choay, La città, Utopia e realtà, Torino 1973, I, p. 6.
I ponti delle capitali d'Europa. Dal Corno d’Oro alla Senna. Donatella Calabi. Milano, Electa, 2002
Circulação das idéias, dos saberes e dos conhecimentos
Adalberto Retto e Barbara Boifava: Um ponto de grande relevância no seu programa de pesquisa é a ênfase dada à circulação das idéias, dos saberes e dos conhecimentos. A senhora poderia falar um pouco sobre isso?
DonatellaCalabi: Fernand Braudel sustenta que a tese clássica de Paul Mantoux, já é uma realidade no século XVI: naquela época o comércio – "como o vento que conduz muito distante os grãos"– guia a vida industrial, ou lhe constitui fator de promoção, colocando-se como base de significativos processos de modernização (27). Ele afirma, que isto pode ser verificado em qualquer outra parte no Mediterrâneo, onde a primeira lei é a troca, o transporte, as revendas... Isso é também verdadeiro em um certo número de centros no norte da Europa, que estabelecem continuamente relações com o Mediterrâneo. De qualquer modo, não é fácil reconhecer com quais decisões operativas e com quais instrumentos de projeto, o comércio tenha cada vez mais contribuído na reformulação da estrutura viária das cidades, nas quais ocupa um espaço preponderante, e assim tenha influenciado na sua renovação. Inovações significativas na organização do trabalho modificam sensivelmente a profissão, mas também as casas e os depósitos, as praças, os bancos e até as igrejas. Por exemplo, depois do ano 1300, em todas as grandes cidades, tem-se a existência, sempre mais freqüente, de mercadores "permanentes", que se ocupam dos seus afazeres ficando na sede e delegando a outros a viagem com a mercadoria, condicionando o uso e a configuração do espaço urbano. Exigências higiênicas e de decoro são ligadas também a uma relação diferente daquelas que, quem vive do comércio, tem com a própria cidade, com as suas águas, e com as classes dominantes de diferentes origens com uma maior riqueza geral. E se nos grandes centros mercantis italianos (Veneza, Florença), como naqueles de dimensão média (Mantua, Verona, Vicença, Bolonha), um papel diferente é atribuído, já a partir do século XV, à praça do governo e da representação, de um lado, e ao mercado do outro, sucessivamente, ao longo do século XVI, a operação de remodelação de um ou mais de seus elementos corresponde a uma escolha de embelezamento. Esta escolha, às vezes simbólica, é de qualquer forma sempre uma redefinição funcional e formal dos "vazios". E sobretudo, a conceituação geral do espaço não é mais a mesma; não se pensa mais na mesma escala. Isto é demonstrado através das palavras dos tratadistas de arquitetura, e muito mais, pelas decisões das magistraturas relativas à abertura inevitável mas controlada da cidade, à aceitação da presença dos estrangeiros e dos seus edifícios, à qualidade da vida, além da quantidade dos potenciais imigrantes. As intervenções destinadas a constituir restrições de uso e lugares acabados – a propor limites de destinação e prospectivos– são numerosos; na realidade correspondem a um alargamento efetivo da rede de referência. A cidade não pode ser estudada como mundo contido em si, como unidade fechada, do ponto de vista econômico, porque já é cada vez mais, o ponto de um sistema interrelacionado. Mas não se trata somente disto; também do ponto de vista da organização formal parece configurar-se uma topografia nova e diversa para cidadãos originais e estrangeiros que já estão fortemente presentes em Veneza, em Amsterdã, Gênova, Sevilha ou Antuérpia, pela sua posição econômica, religiosa e social, pela sua implantação, pelas decisões e regras que lhes competem, como para os acordos financeiros, pelas contratações internacionais, pela transferência da mão-de-obra e das suas competências, pela divulgação dos conhecimentos, dos saberes técnicos, das notícias... . As relações que se estabelecem entre Lubecca e Nuremberg, ou entre Bruges e Antuérpia, falam da transmissão de modelos econômicos, mas também daqueles edilícios, e de analogias que se estabelecem entre construções singulares.
Também nas províncias flamengas, como na Alemanha do norte, nos aglomerados de média e pequena dimensão, se constroem muitos "Groote Markt" (grandes supermercados) análogos entre eles. Para os nossos objetivos, eles são tão significativos quanto as intervenções realizadas ao longo do Quinhentos nos centros cívicos mais "singulares", ou mais estudados pela sua arquitetura (Florença, Veneza). A "galleria degli Uffizi", as Procuratie e as Fábricas Novas são certamente o fruto projetual de um artífice mais ou menos culto e da sua linguagem particular. Se consideradas no contexto urbano, podem ser interpretadas como fruto de decisões articuladas num longo período, como resultado de intuições não só individuais, de decisões que interpretam necessidades coletivas e tendências largamente sentidas (as estratégias e o gosto de uma época), mais do que como êxito de uma sistematização teórica, ou a cristalização de princípios explícitos de desenho urbano e arquitetônico.
Partindo de exemplos circunscritos (para serem escolhidos cuidadosamente), proporia os que se seguem como sugestões de grande interesse para pesquisa:
quais são os traços materiais e construções arquitetônicas (igrejas, fontes, monumentos, aparatos de festas, palácios realizados por arquitetos estrangeiros nas cidades que os hospeda, ou estruturas de acolhimento para comunidade ou indivíduo de outro país) que põem muito mais em evidência a existência de uma forte circulação de população?
Quais são os aspectos que mais impressionam o olhar dos estrangeiros (as descrições dos viajantes), as representações (iconográficas e literárias) da cidade?
Através de quais mecanismos passa a circulação das competências, dos artistas e da mão-de-obra da construção? Onde se dimensiona a mistura das linguagens arquitetônicas?
nota
27 Braudel, Civiltà, cit., p. 336.
Storia dell'urbanistica europea. Questione, strumenti, casi esemplari. Donatella Calabi. Torino, Paravia, 2000
Estratégias urbanas e resistência da estrutura edilícia
Adalberto Retto e Barbara Boifava: Qual a relação entre estratégias urbanas e resistência da estrutura edilícia na pesquisa do fenômeno urbano?
DonatellaCalabi: Dada a complexidade e a estratificação dos poderes, as obras de reformulação física nas cidade do Ancièn Régime e, em parte, também naquelas contemporâneas, não acontecem segundo o esquema de um grande plano unitário, nem de uma transformação em grande escala, mesmo se interferem com a organização urbana no seu conjunto. Existem casos em que as razões do sítio são condicionantes, ou nos quais o elemento de viscosidade é representado pelo peso de uma história muito antiga.
Quando se fala de cidade, é preciso não esquecer que a duração temporal, de um lado, e a força espacial, do outro, têm uma capacidade tão ampla a ponto de absorver as condições tecnológicas, transformações sociais inicialmente não previsíveis. Um exemplo significativo é a resistência da Paris de Haussmann, à distância de um século e meio das intervenções.
A narrativa dos acontecimentos que nos interessam se relaciona então à história longa das cidades: as fases das mudanças são, às vezes, até mesmo pluriseculares. As hesitações entre o desejo de captar a herança medieval e as inovações da idade moderna se arrastam por décadas e abrandam, ou até mesmo obstaculizam, qualquer decisão (28).
Um dos critérios canônicos para definir as escansões cronológicas urbanas, utilizado contemporaneamente com freqüência, com o das atividades mercantis predominantes, é a observação do aumento da população pelo efeito do crescimento demográfico ou migratório nos momentos de maior complexidade econômica e nos períodos de transformação dos modos de habitar. Deste ponto de vista, os dados numéricos geralmente recolhidos para fins fiscais, estratégicos, ou políticos, são às vezes pouco confiáveis e nem sempre passíveis de confrontações.
Todavia, a grande articulação do movimento de pessoas nas áreas urbanas (transitórios ou de um período mais longo) é tal, a ponto de delinear uma mobilidade elevada, uma notável instabilidade social de pelo menos uma parte da população e rápidas mudanças; talvez se possa dizer que, somente para o quadro demográfico, além daquele político, a fase de 1450 –1650 é, em toda Europa uma das mais vivazes (29). Analogamente, pouco confrontáveis são os dados de ordem topográfica: é conhecido que até as notícias a propósito da superfície intra muros variam enormemente de um teórico para outro, e que, em geral, não dispõe-se, para a cidade do Ancièn Régime, de planimetrias da área urbanizada tão precisas a ponto de serem confrontadas entre elas, ou a ponto de fornecer indicações traduzíveis em quantidade, ou de revelar uma tendência (30). Fica ainda mais claro que são pouco comparáveis os dados relativos e a densidade da edificação, ou a quantidade de habitantes por imóvel, ou o crescimento por bairro ou por paróquia, ou ainda, o andamento da despesa pública para a construção, a organização de ofícios, ou estimativas dos víveres necessários á sobrevivência dos cidadãos. Estas considerações todas demonstram freqüentemente de enorme utilidade para o conhecimento de um caso de estudo, mas, que no conjunto, fogem de qualquer possibilidade de confronto (31). É aliás sabido que, no processo geral de urbanização da Europa depois do período tardo medieval, esta fase registrou variações importantes de região à região e entre tipos diferentes de cidade. E, além das vicissitudes particulares, da alteração de alguns itinerários e de grupos étnicos inteiros, das desventuras do dia a dia em um lugar ou noutro (peste, carestia, falências, guerras), os grandes centros citadinos gozam em geral de boa saúde. Também quando o corpo destes grandes centros citadinos não aumenta de peso e de volume, quando no Quinhentos algumas cidades não atravessam mais a fase do esplendor máximo (Lubecca, Barcelona), as inércias do construído são tais, que a contrução e a estrutura viária registram por um longo período o seu passado áulico. Não é somente na época medieval que uma cidade em declínio pode continuar capital por muito tempo; também na idade moderna, a geografia das instituições urbanas evolui menos, e sobretudo menos rapidamente do que a realidade urbana (32). Em cada caso existem deslizamentos temporais fortes; nos diagramas dos movimentos demográficos ou da taxa de urbanização, as curvas não se podem sobrepor. Às vezes a recuperação de uma cidade requer muito tempo ou passa por catástrofes recorrentes: Florença, cuja população diminuiu drasticamente depois da morte negra na metade do ano 300, recomeça a crescer sensivelmente somente depois de 1460; Genova, depois de duas pestes próximas e um ano de escassez, em 1531 tem 51.150 hab., com uma taxa de incremento demográfico elevada devido sobretudo à emigração (33). Antuérpia registra 5.000 hab em 1374; 20.000 em 1440; em 1496, somente poucos anos depois de Maximiliano transferir para ela os privilégios comerciais de Bruges, 6.000 casas e 68.000 hab; em 1516 passaram a ser 8.785 casas e 87.000 hab., com um aumento de 28% em uma década; em 1567, momento de máximo esplendor e insipiente declínio, a sua população teria atingido o teto de 100.000 unidades, dos quais 26.200 estrangeiros, se confiarmos nos números sugeridos por Ludovico Guicciardini (34), que provavelmente fornece indicações superdimensionadas mesmo quando trata de outros casos. Isto é confirmado pelo fato que, na mesma data, Augusta "grande e nobre", mas com poucos forasteiros residentes, não supera os 70.000 hab, enquanto Nuremberg seria bem mais populosa; Paris, para a qual alguns falam de 700.000 /800.000 hab, na realidade chegaria a 310.00/320.000; Sevilha, cidade entre as maiores da Espanha, teria 150.000 hab; Florença abrigaria até mesmo 120.000 hab; Veneza, "cognominata la ricca, e meritatamente", abrigaria 195.863 almas esparsas em 60 ilhotas marinhas... (35) Amsterdã, em períodos normais, tem uma população de 300.000 pessoas e são todos mercantes, afirma em 1618 o embaixador veneziano Antonio Donà, talvez exagerando tal dado; nos momentos de tráfego extraordinário o número de forasteiros aumenta consideravelmente; é verdade, por outro lado, que, naquela data, a cidade que tinha começado seu verdadeiro crescimento há não mais de 35 anos, conseguiu o seu período de máxima florescência (36).
Em suma, estes confrontos resultam somente indicativos; apesar dos esforços feitos, suscitam algumas perplexidades. Na falta de uma série de dados contínua e detalhada, existem, porém, tentativas de reagrupar as maiores cidades dentro de classes de população bastante amplas (37). Há disponível, além do mais, uma vasta literatura acerca das análises categórico-dimensionais das cidades no período tardo medieval, assim como numerosas propostas de corretivos à aplicação da teoria dos lugares centrais aos sistemas urbanos do antigo regime (38). Foi justamente observado que alguns modelos, mesmo sendo insatisfatórios no seu conjunto, iluminam certos episódios urbanos melhor do que outros. Mas as diversas abordagens parecem de fato convergir no elenco de uma espécie de "internazionale delle città" interessada mais no mundo, na sua totalidade, do que no próprio quintal (39). Se, sob o perfil político, o Quinhentos pode ser definido como o século das grandes transformações, a ponto de considerá-lo como um divisor de águas decisivo para a organização do construído, a escansão é menos clara e nos casos singulares, se verificam maiores ou menores ritmos de transformações à jusante e à montante (40). Afinal, se é verdade que na época de Carlos V, da Alemanha à Itália, o poder se consolida nas mãos dos cidadãos maiores e mais ricos, mas que somente em alguns casos identifica uma sólida classe de governo patrício capaz de avantajar o predomínio do interesse público sobre aquele particular, e ainda, se é verdade, que assim emergem algumas cidades a preço do declínio de outras, os processos da sua reconfiguração parecem às vezes escorregadios, algumas vezes sujeitos à aceleração de improviso e nem sempre reconduzíveis àqueles poderes (41).
A disciplina institucional e os acontecimentos da absorção de muitas cidades dentro de complexos estatais mais vastos, com uma redução das prerrogativas de autonomia, ou com o manifestar-se de uma situação de crise, amadurecem nos diversos países em tempos distintos e nem sempre rápidos, mas sobretudo não têm como único efeito uma decadência complexiva.
Instrumentos novos e diversos são às vezes adotados para fazer valer o próprio peso, através das instituições representativas (a sede de algumas magistraturas, certos ofícios, ou o lugar de organizações citadinas que administram ou produzem riqueza), ou tentam inventar e aperfeiçoar novas possibilidades de desenvolvimento (42). Assim, a forma particular de organização do assentamento urbano para fins produtivos e comerciais, herdada do período medieval, nem sempre se revela funcional no novo sistema, já governado pelas grandes potências mundiais (43).
É um fato que, para ler a estrutura edificada, parece mais do que nunca necessário dotar-se de algum instrumento que permita observá-la através da "abstração da longa duração", sem negligenciar as operações que se medem no tempo breve (44).
AR e BB: A senhora poderia discorrer sobre o estudo da cidade como variável de transformação?
DC: Foi observado no passado que responder à pergunta "que coisa é uma cidade?" para o período entre os séculos XI e o XIV, é aparentemente muito fácil: a maior parte dos escritos e das pinturas mostra a cidade como cinturão murado, densamente construída no seu interior, com um perfil dominado pelas construções religiosas; o coração da vida ativa é o mercado, onde se efetua a troca entre os vários setores de produção; no momento em que se consolida esta centralidade, acrescentam-se funções culturais e político-administrativas (45). Mas, ao longo dos séculos, a maior parte das cidades, mesmo permanecendo em boa medida fiel à própria imagem, não a preserva: em geral suscita não um discurso, mas outros discursos simultâneos que se entrecruzam. Os séculos XVI e XVII não fogem certamente a esta regra. Ao contrário, na Europa é justamente esta a fase em que uma série de iniciativas de definições setoriais preparam o nascimento da cidade contemporânea (46): iniciativas que são em parte velhas, porque são repetitivas de outras já empreendidas no passado, e em parte totalmente novas. Existem fatores externos que condicionam o desenvolvimento e as transformações das cidades, nesta ótica é possível estudar a cidade como variável dependente; ou ainda, como variável independente da mudança, ou até mesmo capaz de influenciar toda a economia e o conjunto da sociedade. Isto foi feito não só no estudo da época Medieval, mas também para a cidade industrial. O advento da ferrovia é um fator de grande significado potencial para a transformação urbana, que dificultou o estudo da história local, e contribuiu para separar cidade e campo.
notas
28 J.ean Pierre Bardet, Une nouvelle histoire des villes, in: "Annales" ESC, 1977, 32 (6), pp. 1237-46; Alberto Tenenti, La civiltà europea nella storia mondiale. Laformazione del mondo moderno, sec. XIV-XVII, Bologna 1980, p. 122: não só obstáculos econômicos, mas também dificuldades sociológicas e de gosto coletivo; os mercantes abastados das cidades alemães e holandesas, de forte tradição municipal ou republicana, identificaram os seus ideais civis com os modelos da própria construção tradicional, que permaneceram fiéis também no período da florescência Quinhentista. Cfr. anche: Henry-Russell Hitchcock, GermanRenaissance architecture, Princeton 1981.
29 Paul M. Hohemberg, LLynn Hollen Lees, Lacittà europea dal Medio Evo a oggi, Bari 1987, pp. 9-15; R. Mols, Introductionà la Demographie Historique des villes d'Europe du XIV au XVIII siècle, Louvain 1954.
30 Léopold Genicot, Les grandes villes de l'Occident en 1300, in: Economieset sociétés au moyen Age, Melanges offerts à E. Perroy, Paris 1973, pp. 199-219.
31 Léopold Genicot, Les grandes villes de l'Occident en 1300, in: Economieset sociétés au moyen Age, Melanges offerts à E. Perroy, Paris 1973, pp. 199-219.
32 É sintomática a renúncia declarada pela maior parte dos medievalistas a um confronto demográfico [IX Congrès International des Sciences Historiques, Paris 1950 pp. 55-80] ; a afirmação não parece hoje superada, nem mesmo propõe um panorama totalmente diferente para o período sucessivo.
33 Giuseppe Felloni, Popolazione e case nel 1531-35, in "Atti della Società Ligure di Storia Patria", Genova LXXVIII (1964)
34 Ludovico Guicciardini, Descrittione di tutti i Paesi Bassi, altrimenti detti Germania Inferiore, Antwerp 1567, p. 132.
35 L. Guicciardini, cit. p. 145.
36 Petrus Johannes Blok, Relazioni, cit., p. 110.
37 Roger Mols S. J., La popolazione europea nei secoli XVI e XVII, in: Storia economia d'Europa, secoli XVI-XVII, Torino 1979, II, pp. 20-21.
38 Cfr. la prefazione di: Bernard Lepetit, Les villes dans la France moderne, Paris 1988.
39 Hans van Werveke, The rise of Towns, in: Cambridge Economic History of Europe, vol. 3, Cambridge 1963, pp. 3-41; J. C. Russel, Population in Europe, 500-1500, in: The Fontana Economic History of Europe, vol. I, The Middle Ages, a cura di Carlo Cipolla, London 1972, pp. 25-70.
40 Guido D'Agostino, Città e monarchie nazionali nell'Europa moderna, in: Pietro Rossi (a cura di), Modelli di città, Torino 1987, p. 399.
41 Marino Berengo, cit., pp. 669-670.
42 Giorgio Chittolini, Lacittà europea tra Medioevo e Rinascimento, in P. Rossi (a cura di), cit., pp. 370-393.
43 F. Braudel, Civiltà....cit., pp. 398-9.
44 Ludovico Guicciardini, Descrittione di tutti i Paesi Bassi, altrimenti detti Germania Inferiore, Antwerp 1567, p. 132.
45 Edith Ennen, Storia della città medievale, Bari 1983 (I ed., Goettingen 1972)
46 Roger Chartier e Henri Nevreux, La ville dominante et soumise, in: Histoire de la France Urbaine, vol. 3, pp. 121-127.
Venise. Civilisation. Donatella Calabi. Paris , Liana Levi, 1999
DonatellaCalabi
Professora titular de "Storia della Città e del Territorio" do Dipartimento di Storia dell'Architettura, do Istituto Universitario di Architettura di Venezia – Itália. Atualmente è coordenadora do Dottorato di Ricerca di Eccellenza da "Università Ca' Foscari" de Veneza, juntamente com o "Istituto Universitario di Architettura di Venezia" (IUAV) e com a "Venice International University di Venezia "(VIU) e Presidente da "Associazione Italiana di Storia Urbana". Foi Directeur d'études na Ecole des Hautes Etudes de Paris, professora visitante na British Academy de Londres, na Universidade de Paris VIII e na Katholieke Universiteit de Lovain. Presidente da European Association of Urban Historians e Team Leader para os temas relacionados à "cidade" da European Science Foundation/ gruppo "Cultural Exchanges".
Publicou ensaios sobre história da cidade moderna na Itália, Inglaterra, França e possui publicações em inglês, francês, alemão, espanhol, grego, japonês e holandês. Dentre os quais: Fabbriche, piazze, mercati. La città italiana del Rinascimento, Roma 1997; Lacittà degli ebrei (com Concina e Camerino), Venezia 1991; Venise (Paris 1999); com P. Lanaro dirigiu Lacittà italiana e i luoghi degli stranieri, Bari-Roma 1998; com J. Bottin, LesEtrangers dans la ville, Paris 1999. Atualmente dirige pela editora Laterza a coletânea de livros sobre História da Cidade, na qual publicou LaCittà del primo Rinascimento.
Sobre história do urbanismo, escreveu: E. Hénard. Alle origini dell'urbanistica: la costruzione della metropoli, Padova-Venezia 1974; uma antologia de textos de Baumeister, Stübben, Eberstadt, Roma 1974; antologia de textos de W. Hegemann, Milano 1975 e 1976; Il male città: diagnosi e terapia, Roma 1979; L'architettura domestica in Gran Bretagna, Milano 1982; Parigi anni Venti. Marcel Poëte e le origini della storia urbana, Venezia 1997 e Paris 1998); e Storia dell'Urbanistica europea. Questione, strumenti,casi esemplari,Torino 2000.
Adalberto Retto Jr.
arquiteto, professor da UNESP – Campus de Bauru; doutor em pela FAUUSP com a tese "Escalas de modernidade. Vale do Anhangabaú: estudo de uma estrutura urbana", que é uma reconstrução da história da estrutura urbana de uma parte da cidade de São Paulo, nos diversos períodos da sua formação. Durante a permanência de um ano e meio no Istituto Universitario di Architettura di Venezia, cursou como aluno regular o doutorado no Dipartimento di Storia dell'Architettura, coordenado pelo prof. Howard Burns e realizou atividades de pesquisa em arquivos na Itália, França, Bélgica e Portugal, seguido pela profª Donatella Calabi."
BarbaraBoifava
Arquiteta, formada pelo 'Istituto Universitario di Architettura di Venezia. Atualmente freqüenta o doutorato em História de Arquitetura e Urbanismo na mesma universidade, onde desenvolve atividade de colaboração á didática. Na tese de doutorado está pesquisando sobre o tema do ensinamento da história da arquitetura no século XIX na Ècole des Beaux-Arts de Paris.
Entrevista
Esta entrevista é a primeira de uma série sobre a "Scuola di Venezia", organizada por Barbara Boifava e Adalberto da Silva Retto Júnior. As temáticas da entrevista foram elaboradas conjuntamente pelos dois entrevistadores e encaminhadas à professora Calabi. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em julho de 2003.
Tradução
A versão para o português foi feita em conjunto por Adalberto e Christian Traficante.