português "Por debaixo do pano, os paulistas estavam disputando o museu, mas não assumidamente. Depois, quando ficou claro que era o Rio que ia ficar com o museu, aí, pau!" Este e outros comentários contundente poderão ser lidos na entrevista exclusiva de Sirkis
english "Underneath the cloth, Sao Paulo was disputing the museum, but not openly. Then, when it became clear that Rio de Janeiro was going to keep the museum, then, bang!" This and other comments can be read in an exclusive interview with Sirkis
español "Por debajo de la mesa, los paulistas estaban disputando el museo, pero sin asumirlo. Después, cuando quedó claro que Río iba a quedar con el museo, ahí, ¡pa!" Este y otros comentarios contundentes podrán ser leídos en la entrevista exclusiva de Sirkis
Alfredo Sirkis, Secretário Municipal de Urbanismo da cidade do Rio de Janeiro
Entrevista com Alfredo Sirkis Antônio Agenor de Melo Barbosa
Ao completar dois anos à frente da Secretaria Municipal de Urbanismo da cidade do Rio de Janeiro, o Secretário Alfredo Sirkis concedeu, gentilmente, uma importante entrevista para o Vitruvius. Aqui o leitor poderá concordar ou discordar do entrevistado, mas pela sinceridade evidente nas suas detalhadas respostas, não poderá dizer que se trata de uma pessoa que não tenha verdadeira paixão pela cidade que ajuda a administrar como um quadro da confiança pessoal do Prefeito César Maia. É, portanto, esta paixão pelo Rio, compartilhada com o Prefeito, que faz com que o Secretário Sirkis sinta-se plenamente à vontade em participar de um governo que – a despeito das divergências nas linhas políticas e ideológicas de seus respectivos partidos – na sua visão está cada dia mais voltado para as ações sociais que, ao contrário de outros projetos mais grandiosos, dão pouca visibilidade ao Governo.
E já que falamos em visibilidade e em projetos grandiosos, nesta longa entrevista o leitor também ficará sabendo um pouco a respeito de diversas questões fundamentais para o desenvolvimento sustentável desta Cidade Maravilhosa. Verá também como está sendo o longo e delicado processo (geopolítico e institucional, digamos assim) que pretende viabilizar a construção do polêmico Museu Guggenheim na cidade do Rio de Janeiro. Aos detratores do projeto do arquiteto francês Jean Nouvel e dos métodos utilizados pela Municipalidade para trazer o Museu, Alfredo Sirkis, surpreendentemente, não dá muita importância e ainda afirma que estão fazendo muito barulho, mas nem sequer conhecem o projeto na íntegra. Segundo nos contou, apenas meia dúzia de pessoas, no máximo, podem afirmar que conhecem o projeto do Guggenheim para o Rio de Janeiro. Também critica enfaticamente uma certa xenofobia que tem percebido nas opiniões contrárias ao projeto de Nouvel. E, embora não tenha respondido diretamente algumas (poucas) perguntas como dizer se pretende ser Prefeito do Rio, ainda assim nos revela uma aguda sinceridade em diversos outros temas espinhosos e que envolvem figuras importantes da nossa cultura, do urbanismo e da política carioca e brasileira. Aos que se interessam por temas sobre a cidade do Rio de Janeiro, esta entrevista do Secretário Sirkis é, certamente, das mais completas e abrangentes que ele concedeu recentemente.
Ciclovia da Praia de Ipanema, com Morro Dois Irmãos ao fundo [fonte: Foto Arquivo IPP – Instituto Pereira Passos da Prefeitura do Rio]
Centro de usos comunitários no Morro do Fubá, Rio de Janeiro [fonte: Projeto Bairro-Favela, arquiteto Jorge Mário Jaurégui]
Antônio Agenor de Melo Barbosa: Primeiramente, gostaria que o senhor falasse a respeito da sua formação e da sua trajetória política.
Alfredo Sirkis: Sou escritor, autor de 8 livros, jornalista, ambientalista. Faço política desde o movimento estudantil de 1967, participei da resistência à ditadura, fui exilado nove anos. Fui fundador do PV (Partido Verde), vereador por três mandatos pelo PV, vice-presidente da Fundação Onda Azul (www.ondazul.org.br), secretário municipal de meio ambiente e hoje estou secretário municipal de urbanismo da cidade do Rio de Janeiro.
AAMB: O senhor é conhecido nacionalmente, sobretudo pelo seu engajamento nas questões relativas à proteção do meio ambiente. Como foi despertada esta sua consciência social e política em relação aos problemas ambientais brasileiros, já que até hoje o Brasil ainda não está na vanguarda destas ações e iniciativas.
AS: A social, no movimento estudantil do final dos anos 60. A ambientalista, no exílio, na Europa, no final dos anos 70.
AAMB: O senhor é autor do livro Os carbonários, que é um dos livros mais célebres que foram escritos sobre os anos da Ditadura Militar no Brasil. Da mesma forma que o livro O que é isso companheiro de Fernando Gabeira, ambos têm o fato em comum de terem sido escritos por dois ex-exilados políticos. Fale um pouco sobre o livro e também a respeito dos seus anos de exílio na Europa e de que forma a sua visão e compreensão do Brasil foram modificadas em razão destes acontecimentos.
AS:Os carbonários conta uma história de aventuras verídicas que pretende ser, no gênero, a mais completa. O exílio me permitiu conhecer parte do mundo e politicamente evoluir de uma posição de esquerda extremista, sectária e de corte totalitário para uma esquerda democrática e ecológica. Foi um aprendizado existencial, político e profissional.
AAMB: Comente como consegue exercer múltiplas atividades e ainda dedicar-se ao exercício da vida pública.
AS: Nos períodos em que exerço funções governamentais me afasto das outras. Não dá tempo para mais nada, mesmo escrever fica difícil, só artigos.
Alfredo Sirkis, com mapa do município do Rio de Janeiro
Praça Agripino Grieco e área pedestrianizada no Méier Foto Acervo M&T [fonte: Projeto Rio-Cidade, Projeto Mayerhofer & Toledo Planejamento e Arquitetura]
Antônio Agenor de Melo Barbosa: O senhor é um dos fundadores do Partido Verde no Brasil. Fale um pouco sobre o partido, da sua inserção atual na sociedade brasileira e por que, ao contrário do que ocorre em países europeus, o PV ainda é um partido muito pequeno e com pouca representatividade no Brasil.
Alfredo Sirkis: Pequenos todos os partidos verdes foram em algum momento. Quantitativamente o PV cresceu muito nestas últimas eleições. Elegeu cinco deputados federais, 11 estaduais. Tem um ministro da Cultura, o Gilberto Gil. Mas o PV é frágil, dividido, não consegue escapar a certos vícios da cultura política brasileira, um partido que ainda está muito aquém das nossas expectativas e da necessidade histórica que existe em relação a ele. Temos a chance de uma nova etapa. Esperamos não desperdiçá-la como já ocorreu tantas vezes...
AAMB: O senhor foi vereador por três mandatos na cidade do Rio de Janeiro. Foram, portanto, 12 anos como legislador municipal. Gostaria que nos falasse a respeito das suas principais contribuições neste período.
AS: Fui responsável pelos capítulos de meio ambiente da Lei Orgânica e da Lei do Plano Diretor. Criei numerosas APAS como a da Prainha, Marapendi, o Bosque da Freguesia, a APA São José. Criei a lei de incentivos fiscais que viabilizou o Fórum Global 92 durante a Rio 92, presidi a CPI da segurança clandestina e aprovei dezenas de leis. Como vereador convenci o então Prefeito Marcello Alencar a construir as primeiras ciclovias na cidade do Rio de Janeiro.
AAMB: Durante os anos 90, mesmo pertencendo a um partido de oposição ao Governo Federal (PV), o senhor ocupou cargos de destaque e de confiança na primeira administração do Prefeito César Maia (de 1993 a 1996), então no PFL que compunha a base de apoio ao Governo de FHC. O senhor não considera contraditória esta sua postura?
AS: Divertida essa pergunta quando temos o PL no governo, o Sarney e o ACM como aliados do Lula no segundo turno, e agora com grande influência. Também vemos quadros econômicos do PSDB em postos chaves da condução econômica do Governo Lula...
Conheço o César Maia desde a época do exílio, no Chile. Na época da ditadura ele foi preso, em Minas, torturado. Depois o reencontrei no PDT do Brizola, parte da esquerda da Constituinte. O César é, na essência, um administrador público social-democrata, essa é sua ação. Politicamente, é desencantado com os partidos políticos, que acaba utilizando como táxi. Depois do PDT esteve no PMDB, no PFL, no PTB aliado ao PPS, voltou ao PFL. Trata isso com um pragmatismo total. Tenho restrições ao César, político, e concorri com ele no primeiro turno das eleições para prefeito em 2000. Em 96 apoiei o Sérgio Arouca (PPS), não o Luiz Paulo Conde.
Minha identidade com o César se dá no plano do eu chamaria de “Partido do Rio”. Da identidade carioca. Com o passar do tempo as ideologias se relativizam, as idéias grandiloqüentes e as propostas nacionais decepcionam e cresce para mim, cada dia mais, a importância central do Rio de Janeiro. A paixão pela Cidade. O César é um grande gestor público, também ama o Rio, e em relação às coisas da Cidade nossa proximidade é muito grande. A maior parte do tempo é um cara ótimo de se trabalhar, nos dá muita liberdade, espaço para criar, realizar. Nossos acordos são programáticos e minha liberdade de movimentação partidária e política no plano estadual e federal assegurada. Nesta eleição apoiei o Lula e lancei a candidatura da Aspásia Camargo aqui no Estado do Rio.
As realizações no âmbito ambiental e urbanístico desta relação aparentemente contraditória e, evidentemente, não isenta de tensões, foram até hoje altamente benéficas para a Cidade. Digo mais: gosto de trabalhar com o César Maia porque aprendo todos os dias a melhorar minha performance como gestor público. Tem um outro lado dele que é complicado, difícil, mas a vida é complicada.
O essencial é que é uma relação política de confiança pessoal, respeito e cuidadosa administração das diferenças políticas que vem sendo boa para ambos e, sobretudo, para a Cidade.
AAMB: Também durante o Governo Garotinho, opositor de César Maia, muitos quadros do PV participaram ativamente da administração do Governo do Estado, inclusive à frente da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Nas últimas eleições, o PV também não apoiou oficialmente a candidata do Prefeito e lançou uma candidatura própria ao Governo do Estado. Outra questão que se impõe é: além de pequeno, o PV é um partido rachado e até frágil ideologicamente?
AS: O que aconteceu no PV do Rio foi uma tragicomédia. Você pode participar de governos onde você tem discordâncias mas não violentar seus princípios. Tive divergências no primeiro governo do César Maia em relação aos projetos para o Morro Dois Irmãos (no Leblon) e para o Rio Cidade em Copacabana. Por acaso minha posição acabou convencendo e prevalecendo. Nunca fui obrigado a aprovar uma “Sepetiba I e II”, por exemplo. O garotismo é um fenômeno político de um populismo primitivo onde o tipo de diversidade com a qual o César Maia convive não seria possível. Quanto à candidatura ao governo apenas prova nossa autonomia política apesar da subordinação administrativa. Quanto ao PV, é efetivamente frágil e rachado. Quem sabe agora a gente supera isso?
AAMB: O senhor foi um dos responsáveis diretos pela criação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro em 1993 e permaneceu no comando da Pasta até 1996. A despeito do fato positivo que foi a criação desta secretaria, fica aqui a pergunta: como eram equacionadas e resolvidas questões relativas ao meio ambiente nesta nossa Metrópole antes da criação da secretaria? Quais as ações concretas empreendidas durante a sua gestão?
AS: Antes da criação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente tudo dependia do Estado e isso não funcionava. Em 1993 criamos a SMAC. Foi uma guerra, pois houve muita resistência de vereadores à Lei que a criou. Foi rejeitada duas vezes e só emplacou na terceira, já em 1994. Até este momento eu era o secretário extraordinário.
Aí estruturamos a fiscalização ambiental que travou batalhas memoráveis como no Joá, na Via Parque, no alto da Gávea, na lagoa de Marapendi contra grileiros. Desenvolvemos o mutirão de reflorestamento em 47 comunidades. Os mutirões reflorestaram mais de mil hectares com a mão de obra das favelas educando ambientalmente e profissionalmente jovens que sem isso teriam sido preza fácil do tráfico de drogas. Hoje formam uma cooperativa de serviços de arborização chamada “Coopflora”. Implantamos a maior malha cicloviária do país. Implantamos novos parques como o da Freguesia, em Jacarepaguá, Marcelo Ipanema, na Ilha do Governador, o da Prainha e outros. Começamos a mexer com os esgotos com o Conselho das Águas da baixada de Jacarepaguá e a partir daí começamos a implantar a rede no Recreio. Na administração seguinte esta estrutura foi retirada da SMAC e transformada em “Rio-Águas”.
Travamos conflitos e negociamos suas solução com vantagem para a Cidade no caso dos “Dois Irmãos” onde impedimos que fossem construídos um hotel e dois edifícios, transferimos aquele potencial construtivo ganho na justiça para a Barra da Tijuca e fizemos o projeto do parque mais lindo do Rio, que hoje se chama Parque Sergio Bernardes. Deixei a secretaria de meio ambiente com 87% de aprovação.
AAMB: A primeira administração do Prefeito César Maia deixou como principais marcas os projetos “Rio-Cidade” e “Favela-Bairro”, que mereceram uma avaliação positiva dos cariocas, credenciando eleitoralmente o então Secretário de Urbanismo Luiz Paulo Conde – atual Vice-Governador do Estado e responsável na ocasião pela implementação dos projetos – ao cargo de prefeito sucessor. Qual a avaliação objetiva que o senhor faz hoje destes projetos, realizados por uma administração da qual o senhor também participou à frente da Secretaria de Meio Ambiente.
AS: O primeiro governo do César Maia o credenciou a eleger seu sucessor que depois de eleito dele se afastou. Mas o César Maia volta à Prefeitura numa campanha paupérrima, em condições tremendamente adversas, contra as então três maiores lideranças políticas do Estado. Constata-se então que foi um bom governo, pois o César não é um líder carismático mas a população o respeita como um gestor sério e competente. A população quer um prefeito assim. Considero o atual governo melhor. Temos tido menos conflitos e vejo o César mais preocupado com as questões sociais, fato que a mídia, curiosamente, ainda não percebeu. É um absurdo não verem o trabalho que está sendo feito na secretaria de educação em relação ao pré-escolar, à educação infantil, à escolarização das crianças em idade pré-escolar que é algo de um alcance histórico inimaginável. Não dá manchete de jornal, nem notinha.
AAMB: Como sabemos, o termo “Política” deriva de “Pólis”, aquela comunidade urbana fundada pelos gregos, cujo princípio básico era o da representatividade e da democracia. Para exercê-la publicamente, possuíam a Ágora como um espaço símbolo da idéia de Pólis. O senhor, que é conhecido por fazer a apologia do “Poder Local”, como analisa atualmente esta relação entre a cidade do Rio de Janeiro (Pólis) e a política, já que hoje em dia os espaços públicos da cidade parecem perder, paulatinamente, o seu significado e importância?
AS: A defesa do espaço público é a base da nossa estratégia. Abomino o modelo modernista justamente porque nega o espaço público, nega a calçada, a praça, a convivialidade dos bairros, isola os usos, isola as pessoas, isola socialmente. Cria uma dependência aguda do automóvel. Massacra o comércio lojista, destrói a diversidade urbana. Souanticorbusiano! Embora admire alguns modernistas enquanto arquitetos, abomino sua visão urbanística ou, melhor, antiurbanística. Sou adepto do tecido urbano tradicional e do espaço público como base territorial de exercício da cidadania. Sou um adepto das idéias de Jane Jacobs.
Caetano Veloso, Gilberto Gil, atual Ministro da Cultura, e Alfredo Sirkis
Antônio Agenor de Melo Barbosa: Quais são os principais projetos da Prefeitura para a cidade nesta segunda administração do Prefeito César Maia?
Alfredo Sirkis: Os projetos atuais são a revitalização do centro com estímulo à moradia; o Circo Voador na Lapa e Rio Cidade na Rua do Riachuelo para estimular o pólo de entretenimento e o uso residencial; o Centro de Convenções na Cidade Nova para atrair o turismo; a Revitalização da área portuária com dezenas de intervenções no espaço público que seria longo enumerar; em Madureira, a criação de um grande parque, a requalificação e conseqüente definição de uma nova centralidade. Na Zona Oeste, a ciclovia Bangu-Camará-Campo Grande pela Av. Santa Cruz. É um lugar onde mais se usa bicicleta na cidade e onde mais ciclistas morrem atropelados.
Em Botafogo, um projeto “Rio Cidade” na Rua São Clemente, na Rua Nelson Mandela temos a idéia de requalificar aquele horrendo mijódromo, que bloqueia a revitalização espontânea que parte dos dois cinemas próximos. Em Vargem Pequena e Vargem Grande, temos o projeto “Veneza Carioca” , como na nova lagoa-bacia de acumulação, canais navegáveis, um novo conceito ecológico de ocupação. E por aí vai. São muitos outros projetos.
AAMB: O senhor está há dois anos no comando da Secretaria Municipal de Urbanismo e acumula a Presidência do Instituto Pereira Passos. Qual é o balanço que faz a respeito deste período e quais foram as ações e projetos mais relevantes que já foram executados até o momento? Também gostaria que o senhor mencionasse quais são os planos da SMU para os próximos dois anos que restam do mandato do Prefeito César Maia.
AS: Penso que na SMU avançamos muito na reforma da legislação urbanística mas está tudo bloqueado na Câmara de Vereadores: PEUS, Regulamentação do Estatuto da Cidade, Regularização Onerosa, Pequenas Edificações, Lei do Compur, Áreas agrícolas que já perderam este caráter, Impacto de Vizinhança, umas 20 leis, todas paradas... Estamos modernizando os procedimentos, informatizando, dando total transparência e sobretudo instituindo o diálogo permanente com as associações de moradores e os construtores. Fizemos junto com a Secretaria Municipal das Culturas as APACs (Áreas de Proteção do Ambiente Cultural) com mais de 1500 imóveis preservados, criamos dezenas de ruas com áreas de crescimento limitado. Agora temos o desafio de preparar a Cidade para os Jogos Pan americanos de 2007, talvez o Mundial de Natação logo depois e quem sabe, tentar de novo, os Jogos Olímpicos.
AAMB: O senhor já se revelou um crítico bastante ácido das idéias modernistas cujo maior exemplo está materializado na Barra da Tijuca. Quais são os pensadores que o influenciaram nos temas do urbanismo, desenvolvimento sustentável e planejamento urbano?
AS: Já me referi à Barra da Tijuca. Penso que naquela época o pensamento dominante era o modernismo. Lúcio Costa foi um grande homem, um grande arquiteto, uma figura impoluta. Mas grandes homens, por vezes, cometem grandes erros decorrentes das circunstâncias históricas nas quais estão inseridos. Juscelino Kubitschek foi um grande Presidente, mas tenho seriíssimas dúvidas se Brasília foi realmente uma boa idéia. Como carioca penso que não... Meus mestres no urbanismo e eco-urbanismo são Jane Jacobs, Roberta Ganz, Anne Whinston Spirn. Minhas mestras, melhor dizendo, pois curiosamente são todas mulheres.
AAMB: O atual Vice-Governador Luiz Paulo Conde é o atual Secretário Estadual de Meio Ambiente e de Desenvolvimento Urbano do Estado do Rio de Janeiro, duas secretarias distintas que foram unidas. Como será a relação da sua pasta com a nova secretaria, já que se o senhor faz parte de uma administração que se opõe ao Governo Estadual recém empossado?
AS: Pretendo manter um relacionamento civilizado e de cooperação com todos os integrantes do Governo do Estado. A população exige que trabalhemos juntos.
AAMB: Qual o montante de verba destinada para a SMU anualmente? É um valor satisfatório?
AS: Minha verba é pequena, mas suficiente. Faço projetos, articulo estratégias, mas não executo obras.
AAMB: Na sua opinião, quais são as principais virtudes e os principais problemas e desafios que a cidade do Rio de Janeiro revela àquele que está à frente de sua administração?
AS: O Rio é a cidade mais linda do mundo. Isso torna a responsabilidade de governá-la imensa, por outro lado desperta paixão. A gente trabalha com paixão. E também o corpo técnico permanente da Prefeitura do Rio é de altíssima qualidade. É um privilégio trabalhar com esses quadros.
AAMB: Na sua opinião, e com base na sua grande experiência política na esfera local, a cidade do Rio de Janeiro já se recuperou do trauma que foi a transferência da capital para Brasília ou ainda está inserida num “período de perdas” conforme a observação do Professor Carlos Lessa em seu livro mais recente O Rio de todos os Brasis ? Até que ponto estas perdas econômicas influenciaram os graves problemas sociais e urbanos que ainda afligem o Rio de Janeiro?
AS: A transferência da capital e, sobretudo, o estupro da fusão com o antigo Estado do Rio foi um trauma histórico. No segundo caso uma vingança canalha da ditadura militar contra a cidade que mais resistiu a ela.
AAMB: Gostaria de saber até que ponto a gestão do Município ainda carrega vícios e posturas decorrentes do modelo centralizador (e, não raro, autoritário) de desenvolvimento em voga nas décadas de 60 e 70, capitaneado pela ideologia do rodoviarismo.
AS: O rodoviarismo é um fato. Uma cultura dificílima de superar. Arraigada na administração, arraigada na classe média e arraigada na juventude, o que é pior. Outro problema é a ausência de uma instância metropolitana ou de uma autoridade sobre ecossistemas, tipo uma “Autoridade da Baia da Guanabara”, por exemplo.
AAMB: Questões como transporte, habitação, meio ambiente, saneamento básico, infra estrutura urbana, coleta de lixo e códigos edilícios, entre outros, são itens da maior afinidade com a sua pasta. Como são discutidas e executadas estas ações conjuntas em uma administração metropolitana tão complexa quanto a do Rio de Janeiro?
AS: Justamente, não há política metropolitana. A política de saúde dos municípios da baixada é comprar ambulância para trazer os doentes ou acidentados aos hospitais do Rio. No Programa de Despoluição da Baia da Guanabara (PDBG) os municípios não têm peso algum, e por aí vai.
AAMB: Como a Secretaria de Urbanismo pretende adaptar a sua conduta em relação à normativas estabelecidas pelo Estatuto da Cidade, que é uma Lei Federal que trata das diretrizes gerais para a Política Urbana?
AS: Tenho pronto um projeto de lei regulamentando os instrumentos sociais e urbanísticos do Estatuto da Cidade. Depende dos vereadores que em dois anos não votaram um único projeto de lei urbanístico elaborado pela SMU.
Ciclovia da Praia de Ipanema, com Morro Dois Irmãos ao fundo [fonte: Foto Arquivo IPP – Instituto Pereira Passos da Prefeitura do Rio]
Museu Guggenheim no Rio de Janeiro, arquiteto Jean Nouvel
Antônio Agenor de Melo Barbosa: Qual a sua opinião pessoal sobre a construção do Museu Guggenheim na Praça Mauá? Por que este assunto não está submetido à sua pasta no Urbanismo e sim, à Secretaria das Culturas do Município? Por que, ao contrário do que foi noticiado no início da administração, o Projeto do Museu não foi delegado ao Frank Gehry e sim ao Jean Nouvel?
Alfredo Sirkis: A questão do Museu Guggenheim está afeita diretamente ao Prefeito. Sendo um museu é normal que haja uma participação ativa da Cultura. Tenho tido um contato positivo com Jean Nouvel para a compatibilização do sítio do museu com seu entorno. Ele tem boas idéias para a base do elevado, para o cais. Penso que um projeto de Gehry seria calcado no de Bilbao (Nova York foi assim, e o que chegou a esboçar para Salvador, idem) e ninguém é genial duas vezes seguidas. O daqui tem que ser totalmente diferente. Nouvel é um grande arquiteto. Meu favorito é Santiago Calatrava, mas não estava disponível. Se eu fizesse uma lista de cinco grandes, ambos estariam junto com Richard Meier, Norman Foster e Frank Gehry.
AAMB: Várias personalidades importantes do meio cultural carioca – políticos, artistas, arquitetos, professores, produtores culturais e empresários – e órgãos de classe, como o IAB e o CREA, já se manifestaram contrários à construção do Museu Guggenheim no Rio de Janeiro. Os argumentos são os mais diversos indo desde a desconfiança com relação à forma pouco transparente com que a Prefeitura está negociando os contratos, até críticas mais diretas ao projeto arquitetônico de Jean Nouvel. Qual a sua avaliação sobre estas manifestações?
AS: Não conheço nenhum grande empreendimento desse tipo, em nenhuma cidade do mundo que não tenha gerado esse tipo de polêmica. Quando a Torre Eiffel foi construída disseram que Paris estava sendo destruída. Um cronista chamou-a de supositório gigante. O Guggenheim de Bilbao provocou exatamente a mesma discussão. Pouca gente conhece o projeto do Jean Nouvel neste momento. Devemos ser uns cinco ou seis. Conhecem fotos de jornal. Não é suficiente para julgar um projeto. Tem muito “não vi e não gostei”.
Quanto ao corporativismo xenófobo (porque um arquiteto estrangeiro e não um daqui?) acho sinceramente desprezível. Imagine se tivessem feito a mesma coisa com o Oscar Niemeyer nos países onde projetou? A última construção no Rio com alguma participação de um arquiteto estrangeiro foi o Palácio Gustavo Capanema, o MEC, que o Le Corbusier palpitou. Toda metrópole internacional digna do nome tem projetos de arquitetos internacionais.
AAMB: Pelo que a imprensa vem noticiando, a “Grife Guggenheim” está em crise, para não dizer em decadência financeira. O Guggenheim de Nova York, projetado por Frank Gehry, não será mais construído, o Museu de Las Vegas fechou as portas menos de dois anos após a inauguração... Ainda assim o Prefeito César Maia acredita que o do Rio de Janeiro será sucesso mundial de crítica e de público. O que o senhor pensa sobre isto?
AS: O Museu Guggenheim de Nova York foi inviabilizado pelo atentado de 11 de setembro. O local previsto ficava a menos de um quilômetro das torres gêmeas do World Trade Center. Está numa área a ser toda repensada urbanisticamente, ia custar um bilhão de dólares e com a crise, dançou. O de Las Vegas sempre me pareceu uma babaquice. Quem vai a Las Vegas não se interessa por museu, quer roleta e caça níqueis.
O de Bilbao foi projetado considerando um afluxo de 300 mil turistas por ano, mas o resultado foi de 1.5 milhão, pagando-se em pouco tempo. Transformou uma cidade industrial decadente e com péssima imagem por causa do terrorismo do “ETA”, num ponto de passagem para quem vai à Europa ou para turistas que descem do norte para a Costa do Sol. Não garanto que vai ser o mesmo sucesso aqui, mas vejo sobretudo os paulistas muito críticos.
Por debaixo do pano, os paulistas estavam disputando o museu, mas não assumidamente. Depois, quando ficou claro que era o Rio que ia ficar com o museu, aí, pau! A revista Bravo! dedicou uma edição inteira a esculhambá-lo. O ex-governador Jaime Lerner fez de tudo para levar o Gugg para Curitiba, mas como não deu pra ele, pegou um prédio velho e pediu para o Oscar Niemeyer fazer uma escultura de um olho, um troço criativo, tá certo, mas resolveu dizer que era o Museu “anti-Guggenheim”. Vejo ai uma paulistada do “mercado cultural” com medo de uma atração a quarenta e cinco minutos de Congonhas. Quarenta minutos de ponte aérea e cinco de táxi...
Mas aqui no Rio temos essa fraqueza de não lutar pelos nossos interesses. Falam de cinema paulista, alguém alguma vez falou “cinema carioca”? Não. Falávamos de cinema brasileiro. Os jornais de lá se chamam Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Os daqui se chamam O Globo e Jornal do Brasil... Os paulistas não suportam a idéia de perder uma suposta hegemonia cultural e de entretenimento para o nosso “balneário decadente”. Que a atual direção do IAB-RJ entre nessa, organize um debate onde todos eram contra, isso depois de eu ter feito dois grandes concursos – Circo Voador e o Centro de Convenções – com eles, se faz rir. Dá vontade de mandá-los para Pindamonhangaba.
AAMB: Fora o assunto do Guggenheim, em que pé está a tão propagada revitalização da área portuária da cidade do Rio de Janeiro?
AS: As obras começam até o fim do primeiro semestre, intervenções em áreas públicas que qualificam diversos trechos da área portuária. Rua Sacadura Cabral, Rua do Livramento, os Morros da Conceição, Gamboa e Saúde. A Vila Olímpica junto ao Morro da Providência, Cidade do Carnaval, ciclovia MAM-Mauá, etc...Quem viver, verá.
AAMB: E o “Rio-Cidade”? Quais os bairros que estão sendo (ou serão) beneficiados pelo programa?
AS: Penso que já mencionei vários. Sugiro uma olhada em Bangu, onde um acaba de ficar pronto.
AAMB: Quais as críticas ou mudanças de rumo que foram operadas na gestão do programa “Favela-Bairro” nos últimos dois anos?
AS: O projeto “Favela-Bairro” não pode ser apenas obras. Tem que ter um componente de geração de renda, autolimitação do crescimento, criação de uma legislação específica para favela, eco-limites para o crescimento. Não pode ser só “hardware”, tem que ter “software”. Dito isso, é uma referência internacional.
AAMB: Os problemas gerados pela histórica ocupação desordenada e informal na cidade do Rio de Janeiro são, talvez, os mais graves que um administrador municipal pode enfrentar. Qual a sua avaliação sobre esta questão e de que forma o Poder Local pode agir para impedir este aumento da cidade informal como também garantir a continuidade de políticas públicas que tratem desta matéria?
AS: O fato de termos 40% das edificações na informalidade e um milhão de pessoas morando em favelas é um problema imenso. A regularização da cidade informal é algo importantíssimo e, ao mesmo tempo, delicadíssimo. Em princípio sou favorável a legalizar o construído no passado – aqui no Rio, 40% das edificações, pelo menos, são informais – salvo as que estão em área de risco, proteção ambiental, obstruindo logradouro público ou em condição de insalubridade que devem ser demolidas e seus moradores reassentados em local próximo ou compensados de alguma forma.
O risco dessas reportagens de TV e jornal, superficiais, é sinalizar uma mensagem de impunidade e estímulo da construção irregular, pois hoje há uma indústria da construção pirata, não só em favelas e loteamentos como em áreas formais também. Então tem que haver simultaneamente um incremento eficaz da repressão.
A absorção da cidade informal depende de uma série de ações complementares entre si e coordenadas numa sintonia fina dentro de um emaranhado burocrático kafkiano num país cartorialista e com uma burocracia pombalina. Envolvem temas como a regularização urbanística, regularização fundiária, projetos de geração de renda que facilitem a autolimitação do crescimento, criação e aplicação de regulamentações ambientais e urbanísticas especiais para áreas de favela, capacidade de reprimir aquela informalidade nascedoura, uma legislação urbanística mais realista.
AAMB: Quais foram os melhores prefeitos do Rio de Janeiro?
AS: Pedro Ernesto, Marcello Alencar e César Maia.
[fonte: Censo do IBGE in Cadernos de Urbanismo, ano3,p.4. Secretaria Municipal de Urbanismo RJ.]
Alfredo Sirkis, manifestação em defesa do meio ambiente
Alfredo Sirkis
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1950. É jornalista, escritor, autor de oito livros, roteirista de cinema e TV, ambientalista e foi vereador, por três mandatos, na cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Verde (PV). Como ambientalista foi um dos fundadores da APEDEMA – RJ e da Fundação Ondazul (www.ondazul.org.br), da qual foi Vice-Presidente e Secretário Executivo. Como legislador local foi relator dos capítulos de meio ambiente da Lei Orgânica Municipal e do Plano Diretor Decenal. Autor de leis, tais como: a de sanções administrativas para estabelecimentos poluidores e de sinalização ecológica e criou diversas Áreas de Proteção Ambiental (APA), entre as quais a da Prainha, do Bosque da Freguesia e da Lagoa de Marapendi. Também foi autor de uma lei de incentivo a projetos ecoculturais, durante a conferência RIO 92, a chamada Lei Sirkis. Em 1993 foi o responsável pela criação e implantação efetiva da Secretaria Municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro. Permaneceu como Secretário Municipal de Meio Ambiente até abril de 1996. Foi membro do comitê executivo do ICLEI e representou a cidade do Rio de Janeiro nas conferências internacionais de meio ambiente de Vancouver (1994); Berlim (1995) e Saitama (1995). Atualmente exerce os cargos de Secretário Municipal de Urbanismo na cidade do Rio de Janeiro e o de Presidente do Instituto Pereira Passos.
Antônio Agenor de Melo Barbosa
Com 32 anos, natural de Aracaju (SE) e radicado no Rio de Janeiro há 13 anos, é arquiteto e urbanista (USU-RJ), cursou Pós-Graduação em História da Arte e Arquitetura no Brasil (PUC-RJ), é Mestre em Urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (PROURB) da FAU-UFRJ, onde defendeu dissertação sobre o Rio de Janeiro no século XIX. Pesquisador do Projeto Brasil 500 anos de Arquitetura da UFPE (www.arqbr.com.br), ex-professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFJF-MG, e professor licenciado do Centro de Arquitetura e Artes da Universidade Santa Úrsula. Atualmente é Professor de Urbanismo e de Evolução Urbana do Rio de Janeiro na FAU-UFRJ, e nos cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Gama Filho e no Centro Universitário Plínio Leite em Niterói (RJ).
Entrevista
A entrevista com Alfredo Sirkis foi realizada no Rio de Janeiro no dia 23 de janeiro de 2003. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em fevereiro de 2003.