português Ole Bouman, editor chefe da Archis, uma revista de cultura visual, da cidade e da arquitetura e autor de diversos livros, opina sobre a arquitetura contemporânea
como citar
Ana Paula Baltazar.
“Ole Bouman”.
Vitruvius entrevista, ed. 03.009.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/03.009/3343
Capas da revista Archis
Ole Bouman, editor da revista Archis Ana Paula Baltazar
Cada vez mais a arquitetura vem sendo trabalhada e discutida como prática e meio culturais. Uma das manifestações internacionais mais bem sucedidas dessa tendência arquitetônica é a discussão fomentada pela revista Archis, que tem Ole Bouman como chefe editor. Apesar da revista ser holandesa, o caráter internacional das questões abordadas é indiscutível, o que se deve ao fato da arquitetura e política urbana holandesa despertar interesse mundial. Até o ano 2000 Archis era publicada pelo NAi (Instituto dos Arquitetos da Holanda), e apesar de sempre trazer discussões de relevância internacional, era uma publicação em Holandês acompanhada de uma secundária tradução para o inglês. A partir do início de 2001 Archis passou a ser publicada pela Artimo e a versão em inglês deixou de ser uma atividade lateral tornando-se um produto independente e assumidamente abrangendo questões mais genéricas, além das questões nacionais. Segundo a revista Doors of Perception (www.doorsofperception.com) a nova Archis, que vem sendo publicada já há um ano, mais que dobrou a circulação, e a distribuição da versão em inglês está sendo um sucesso, multiplicando o número de leitores.
O que diferencia Archis das demais publicações é seu caráter flexível e experimental. A maioria das editoras financia projetos que tenham um público alvo bem definido, garantindo assim o sucesso de venda da publicação. No caso da Archis não existe um público pré-definido nos moldes tradicionais, ou seja, o leitor da revista é aquele incomodado com o rumo do espaço onde vive, é aquele interessado em saber o que está acontecendo com seu espaço, é um público em movimento, em transformação. A fórmula do sucesso da Archis parece ser manter a simplicidade, a flexibilidade e experimentar. Não às entrevistas com celebridades, não à elevação dos edifícios a objetos de desejo, não às imagens intimidantes, não à diagramação tradicional. Ole Bouman considera uma sorte o fato da editora da Archis – a Artimo – estar interessada em novas práticas culturais e principalmente interessada em atingir um público flexível.
A flexibilidade da revista permeia tanto sua forma quanto seu conteúdo. Os temas propostos e discutidos são sempre desafiadores, abordados de uma maneira crítica visando uma abrangência contextual mais ampla. Segundo Ole Bouman, eles não estão preocupados com os edifícios propriamente ditos, mas com os edifícios como parte de uma escala muito maior. Ole Bouman considera como missão da Archis identificar os tópicos que outras publicações de arquitetura não abordam, o que está acontecendo com o processo de projeto e construção aqui e agora e suas implicações culturais.
Uma das provocações sócio-culturais da revista, tanto a nível de forma quanto de conteúdo, pode ser vista no volume 4, dedicado a educação arquitetônica, pela publicação de páginas com slogans que podem ser silkados em camiseta. Um dos slogans era relacionado à exploração dos estudantes como mão-de-obra barata pelos escritórios, e lia-se: "I am a super talented young intern/slave" (eu sou um jovem estagiário/escravo super talentoso). Outro slogan dizia: "I am busy making my / his name" (eu estou ocupado fazendo meu / nome dele). Através de provocações bem humoradas e artigos curtos e muito ricos, Archis vem conquistando cada vez mais seu lugar como uma das raras publicações de arquitetura realmente flexível e dinâmica em sua significação. Meu interesse no trabalho de Ole Bouman deve-se fundamentalmente à flexibilidade e dinâmica que podem ser experienciadas no formato da Archis, podem ser percebidas em seu conteúdo, e, principalmente, são assumidas como característica do leitor, que não é considerado um leitor padrão, passivo, mas um sujeito inserido culturalmente e por isso sempre em movimento, transformando e sendo transformado constantemente.
Designs de Oumou Sy, Dakar. Archis Dezembro 2000
Baía em Sidney, próxima do Centro de Negócios Foto: Patrick Bingham Hall [fonte: Archis Agosto 2000]
Ana Paula Baltazar: Archis sempre foi uma publicação de arquitetura "diferente": primeiro pelo formato e design gráfico, e principalmente através de seu conteúdo. Eu gostaria que você comentasse sobre as razões e efeitos da mudança de editora, tais como o caráter celebrativo do NAi em contraste com a visão crítica expressa pela Archis, e a tentativa de promover uma revista mais interativa com o novo formato editado pela Artimo. Como você vê o impacto do novo formato para o público (compradores usuais e novos compradores) e quais as principais diferenças de abordagem entre NAi e Artimo com relação a forma e conteúdo?
A maioria das publicações arquitetônicas geralmente se consideram críticas. É interessante a abordagem celebrativa da arquitetura Holandesa proposta pelo NAi, e parece "vender" muito bem no mundo todo (eu tenho visto os livros anuais deles para todo lado). Como você vê as tendências do jornalismo arquitetônico em geral, e especificamente como você vê a Archis nesse contexto? Como você aborda a especialização na arquitetura sem perder de vista a abordagem genérica necessária para manter uma visão social ?
Ole Bouman: Archis sempre foi uma revista reflexiva. Contudo, ela tinha que lidar com dois fatores que eram progressivamente hostis a essa tradição. Primeiramente, como um produto no mercado, ela era posicionada pela editora a partir de um ângulo muito especificamente orientado para um nicho. Elsevier queria produzir um título para a comunidade de designers holandeses, e toda a política em termos de marketing derivou dessa idéia. Entretanto, a editora tinha urgência em aumentar suas magens de lucro. Ambas as tendências eram ruins para um título que estava determinado a explorar arquitetura como ela poderia ser, em vez de publicar como ela é.
O outro fator está relacionado à cultura na qual arquitetura é reduzida à produção de umas poucas estrelas. Seria muito fácil capitalizar em cima da fama e popularidade da arquitetura holandesa, enfatizando infinitamente o trabalho dos top 10 da nação. No entanto, nós sentimos como nossa responsabilidade pública antecipar futuros potenciais da arquitetura, em termos de mandato e estratégia, no intuito de ajudar a disciplina continuar a florescer. Essa ambição é complicada, e algumas vezes mal interpretada, por ser sempre baseada em colocar novas questões, testar reputações e definir novos territótrios. Nada é dado por garantido.
Tornando-se independente e com a nova editora Artimo, Archis pode renovar as ambições mencionadas acima além de ter um posicionamento mais claro quanto a elas. Nós começamos a almejar uma revista que estimule e teste o espaço mental dos seus leitores, oferecendo "momentos" interativos na revista. No próximo ano esta política será expandida com a introdução de um ambiente virtual que complete o triângulo dos espaços mental, físico e rede (network). Nós temos grandes esperanças de que essa ambição seja um sucesso, sendo reconhecida pelas pessoas mais aventureiras engajadas com arquitetura pelo mundo afora. Contudo, pelo caráter sempre experimental desse trabalho, nós nunca podemos aspirar entrar no mercado de massa.
Peter Greenaway, Grande Terp, Dorkwerd (próximo a Groningen) [fonte: Archis Maio 2001]
Proposta para ponte, Barcelona. Battle i Roig, Archis Novembro 2000
Ana Paula Baltazar: Como você vê criticamente a arquitetura holandesa e seus impactos na cena mundial (considerando que a própria maneira que ela se vende através da celebração gera um impacto), e principalmente como você situa o trabalho de Koolhaas no cenário da "overdose" de imagens (muitas vezes vendidas como conceitos) da arquitetura contemporânea, especialmente na arquitetura holandesa? (o comentário sobre Koolhaas é uma sugestão de Abílio Guerra)
Ole Bouman: O que deve ser evitado é confundir o sucesso da arquitetura Holandesa com o sucesso da proliferação de estratégias de mídia pelos arquitetos Holandeses. Estas são duas coisas completamente diferentes. Se estamos falando de edifícios atuais, há na Holanda, como em qualquer outro lugar, e como sempre, exceções que provam a regra. As exceções tem sido feitas por uma geração relativamente bastante talentosa tanto de designers quanto de clientes. A regra é a insensata produção em massa de esquisitices (funnies) arquitetônicas e galpões pragmáticos.
APB: Ser crítico e ter um objetivo bastante específico quanto a redefinição de arquitetura como mídia cultural (como você tem abordado) não parece ser uma tarefa fácil, principalmente quando isso envolve a a manutenção de uma publicação cara como a Archis. Além de ser o editor chefe da Archis, você também colabora nos desenvolvimentos práticos dessa nova cultura da arquitetura além da escala do edifício como objeto. Eu gostaria que você conectasse o papel da Archis com sua própria prática na direção do potencial da arquitetura como mídia contemporânea. Até que ponto a abordagem crítica da Archis é influenciada pelo seu involvimento prático em projetos como transPORT 2001 (e outros que você esteja envolvido), e como você vê a inserção e influência de tais projetos na arquitetura mundial?
OB: O que poderia ser um efeito colateral decisivo da midiatização da arquitetura refere-se ao fato de que no final das contas, arquitetura (design arquitetônico) pode ser trabalhada muito melhor com estratégias de publicação do que através de projetamento do espaço (designing space). Na nova era, arquitetura e publicação estão ambas focadas na criação de relações sociais e semióticas. Não há mais distinção entre produção primária e cobertura secundária. Há também uma minguante distinção entre o físico e o cibernético. Essas esferas tendem a mergir-se até que a distinção seja de todo esquecida. Se isso é verdade, então haverá uma prática completa. A minha participação em trabalhos de design não é "minha outra prática", mas uma outra modalidade da mesma ambição: criar relações sociais de forma significativa, liberadora e crítica. Produzir domínio público.
Jaco Woltjer, modelo de biblioteca / Isabelle Krier, object arquitetônico sobre maquete da costa bélgica. Archis Agosto 2000
Ole Bouman
Ole Bouman
Ole Bouman é editor chefe da Archis (revista de cultura visual, da cidade e da arquitetura), e autor de diversos livros incluindo 'The Invisible in Architecture' (Academy Editions, 1994), que e' um manifesto e estudo interdisciplinar das circunstâncias sociais da arquitetura contemporânea, e 'Justice for All', uma coleção de ensaios sobre política e cultura visual (1994), dois cenários principais para o projeto Rotterdam 2045 (1995), e Arquitetura a beira de dois milênios (1998). Ole leciona teoria e história da arquitetura há vários anos, profere palestras internacionalmente sobre questões arquitetônicas, e tem sido curador de diversas exposições incluindo 'RealSpace in QuickTimes', que foi a participação Holandesa na XIX Milan Triennale (1996, acompanhada de livro e CD-ROM publicados pelo NAi), abordando arquitetura e digitalização, e 'Egotecture', focando o relacionamento histórico entre identidade pessoal e espaço arquitetônico, para o Boijmans van Beuningen Museum, Rotterdam (1997). Ole Bouman também foi responsável pelo design da mostra 'Freeze', uma exibição para Arti et Amicitiae, Amsterdam, em Janeiro 2000, e foi co-curador da 'Manifesta', bienal de arte Européia em Ljubljana, Slovenia, verão de 2000. Ole é participante do Institute of Time Based Architecture para arquitetura interativa.
Ana Paula Baltazar
Ana Paula Baltazar é arquiteta formada pela UFMG onde também completou seu mestrado em 1998. Atualmente é bolsista da CAPES fazendo doutorado na Bartlett School of Architecture na University College London, pesquisando as possibilidades de virtualização da arquitetura. Desde 1993 vem desenvolvendo pesquisa no LAGEAR (Laboratório Gráfico para o Ensino de Arquitetura da EAUFMG) em tópicos relacionados à arquitetura e Tecnologia da Informação. Em 1997 fundou juntamente com um grupo de arquitetos o IBPA (Instituto Brasileiro de PerformanceArquitetura) e vem investigando o potencial da performance como estratégia no processo de design arquitetônico. Desde 1999 é membro do London Virtual Reality Group. Tem apresentado e publicado diversos artigos no Brasil e no Exterior, sendo que seu artigo mais recente intitulado Architecture as Interface: forming and informing spaces and subjects foi publicado em Koivunen, Anu and Paasonen, Susanna (editors). Conference Proceedings for Affective Encounters: Rethinking Embodiment in Feminist Media Studies, University of Turku, School of Art, Literature and Music Series A, nº 49, Media Studies, Turku, Finland, 2001. http://www.utu.fi/hum/mediatutkimus/affective/baltazar.pdf
Archis
Archis é uma revista holandesa atualmente publicada em duas versões separadas: Inglês e holandês. No começo de 2001 Archis mudou de editora, do NAi (Instituto Nacional dos Arquitetos da Holanda) para Artimo. Essa entrevista aborda as razões pelas quais Archis mudou de editora e sua relevância para arquitetura e para o debate arquitetônico.
Entrevista
A idéia da entrevista surgiu com o lançamento em Londres da versão inglesa da Archis na primavera de 2001. O evento foi organizado por Lucy Bullivant e Ole Bouman participou de uma mesa redonda no RIBA (Instituto Real de Arquitetos Britânicos) discutindo questões relacionadas ao jornalismo arquitetônico tendo como ponto central o papel da Archis na cena da cultura visual. Na ocasião a nova versão da revista estava em seu segundo número, e como eu já acompanhava a Archis há bastante tempo e considerava-a o melhor periódico de arquitetura com o qual eu tinha contato, me pareceu interessante e instigante entender melhor os bastidores da mudança de editora e as consequências dessa mudança na revista propriamente dita (forma e conteúdo). A princípio a revista aparentemente perdia seu impacto formal (o formato antigo era diferenciado das demais publicações pelo tamanho e design externo), e ganhava um design mais serializado. No entanto, a revista passava a trabalhar a questão do design do ponto de vista da interação, indo além do visual na direção do experiencial (participativo). Além desse primeiro impacto da aparência, a mudança de editora tem um impacto muito mais profundo na revista, que é a independência do cenário nacional holandês e a afirmação de seu caráter polêmico e experimental. Comecei então o contato com Ole Bouman por email e decidimos que a melhor maneira de trazer essa discussão para Vitruvius seria definindo três ou quatro questões que Ole Bouman iria então comentar. Assim as duas primeiras questões são comentadas juntas e a terceira e quarta questões são respondidas separadamente. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em março de 2002.
Tradução
A versão em português é de Ana Paula Baltazar.
Website
Para ter maiores informações sobre Ole Bouman e Archis: