português Roberto Segre entrevista Paolo Soleri, que atua desde a década de 1940. Um homem visionário, que já trabalhou com Frank Lloyd Wright, comenta sua visão sobre o mundo atual
Arcosanti, deserto do Arizona, EUA. Projeto de Paolo Soleri
Paolo Soleri e Arcosanti: o laboratório da utopia Roberto Segre
Para os atuais jovens estudantes ou arquitetos, provavelmente, o nome de Paolo Soleri seja pouco familiar. É fato que seu nome não aparece nas revistas do jet set nem concorre nos encontros mediáticos onde são aclamados os astros da profissão. Sua obra não está incluída em alguns recentes textos sobre a arquitetura moderna: apenas citado nas histórias de Manfredo Tafuri ou Josep Maria Montaner, é ignorado por William Curtis, Kenneth Frampton ou Diane Ghirardo. No entanto, não está totalmente ausente do cenário atual da cultura arquitetônica: no ano passado (2000), participou da Bienal de Arquitetura de Veneza – dedicada ao tema less aesthetics, more ethics, organizada por Massimiliano Fuksas – onde recebeu o "Leão de Ouro" em reconhecimento a sua trajetória. Ao mesmo tempo A.J. Lima editou um luxuoso livro que recolhe suas principais obras, publicado por Jaca Book de Milão.
Na realidade Soleri aparece como uma figura mítica aos que nos iniciamos no debate arquitetônico na década dos sessenta. Aqueles eram tempos heróicos de fervor e esperanças no futuro da humanidade. A Revolução cubana e Che Guevara; o movimento estudantil de maio de Paris; os textos de Marcuse; os hippies, Martin Luther King e a oposição à guerra do Vietnã, implicavam num compromisso político e ético identificado com as propostas ambientais que desejavam controlar a deterioração da natureza e as contradições geradas pelo gigantismo das megalópoles. Por um lado apostavam na aplicação de métodos racionais para resolver os novos problemas ecológicos gerados pela espécie humana – a confiança de Tomas Maldonado no ato projetual; a busca de um equilíbrio entre ambiente e sociedade, colocado por Amos Rapoport, Edward Hall, John Mc Hale, Christopher Alexander e J. Broadbent –; por outro lado surgiram múltiplas imagens de um contexto físico dominado pela alta tecnologia: as cúpulas geodésicas de Buckminster Fuller; as cidades "espaciais" e as mega estruturas- que tanto entusiasmaram Reyner Banham – de Yona Friedman, os Metabolistas japoneses, Archigram; as bio estruturas de Alfred Newman, Paul Maymont, Moshe Safdie, D.G. Emmerich, Walter Jones, Zvi Hecker e outros.
Nesse contexto surge a obra de Soleri (1919). Ao finalizar seus estudos universitários em Turim, Itália, viaja a Arizona e integra-se à comunidade de Taliesin com Frank Lloyd Wright (1947-48). Logo volta à Itália e dirige uma fábrica de cerâmica nas proximidades de Salerno. Finalmente, emigra aos Estados Unidos em 1956 e instala-se em Scottsdale, Phoenix, e cria Cosanti, um centro de estudos sobre construção, arquitetura, urbanismo e ecologia, e uma fundição de sinos de bronze, que até hoje geraram a base econômica essencial das pesquisas e edificações. Desde 1970 constrói no deserto a comunidade de Arcosanti, protótipo urbano que devia alcançar uma população de sete mil habitantes.
Naquela década começaram a ser difundidos os imaginativos desenhos de Soleri, logo publicados num luxuoso livro pela MIT Press. O que diferenciava as imagens utópicas de Soleri das restantes – mais inspiradas na alta tecnologia e nas rigorosas geometrias de células articuladas- era a fusão entre homem, natureza e tecnologia, numa trama compacta de gigantescas unidades habitacionais enraizadas na terra, porém que ao mesmo tempo pareciam complexas naves espaciais. Integravam entre si a herança orgânica de Wright, a tradição construtiva dos romanos e a visão das megacidades da ficção-científica, num sistema gráfico totalmente inédito, cujo monocromatismo lembrava as fantasias espaciais e formais de Piranesi.
O outro aspecto que chamava a atenção em Soleri era sua dedicação passional a um projeto totalizador, baseado não somente numa realidade construtiva, arquitetônica e urbanística, mas também num conceito de vida social e de seus fundamentos filosóficos e religiosos, divergentes da realidade que impera na sociedade capitalista norte-americana. Sua renúncia aos prazeres e benefícios mundanos da civilização tecnológica, levou-o a radicar-se no deserto com um reduzido grupo de seguidores, e manter ao longo destas décadas um cotidiano ascético e monacal, distante do feroz individualismo, o economicismo, o consumismo, o desperdício e o hedonismo superficial, que caracteriza a atual cultura "global" do mundo desenvolvido. Tratava-se de organizar um laboratório social e arquitetônico que fosse além do conceito de utopia -como não lugar, ou de perfeição formal acabada e concluída- e definisse um modelo ambiental que articulasse natureza, história e sociedade, em busca de um futuro melhor. Esses ideais não foram compreendidos por Reyner Banham, que com injusta mordacidade definiu esta experiência como um encontro entre as Termas de Caracalla e o Club Mediterranée.
Ao participar recentemente de um seminário sobre "Geografia e Geometria" na Escola de Arquitetura de Tucson, Arizona, com a ajuda do professor Ralph E. Hammann, tive uma entrevista com Paolo Soleri em Cosanti, num dia pouco comum no deserto, onde durante todo o ano reina implacavelmente o tórrido sol. Logo de uma habitual temperatura de 30° C ao meio-dia, a visita a Arcosanti aconteceu sob uma tempestade negra que fez descer o termômetro a 5° C, totalmente insuportável com nossa vestimenta tropical.
Arcosanti, Casa de Fundição
Arcosanti
Roberto Segre: É uma grande emoção conhecê-lo, porque nos anos sessenta e setenta, nos identificamos com suas propostas de vida espartana e com a esperança de chegar ao novo milênio com as perspectivas de um mundo melhor. Não pensas que todo esse esforço resultou inútil diante da crise generalizada que vivemos na atualidade?
Paolo Soleri: É certo que desde então as condições ambientais do mundo pioraram consideravelmente: a indefinida expansão das megalópoles; a persistente destruição da natureza; a contaminação ambiental e o buraco na camada de ozônio; a febre consumista do modelo capitalista e o livre mercado, agora universalizados com a desintegração do sistema socialista; o culto da violência e outros aspectos negativos. Porém é imprescindível sermos otimistas para nos salvarmos da autodestruição. Quando proponho a existência de uma "teologia do sol", refiro-me que a energia do universo, que se desenvolve no espaço e no tempo, orienta-se na direção da vida, não da morte. E a sociedade humana, deseja mais construir do que destruir, avançar mais que retroceder. Existe um jogo de forças, em constante tensão entre o bem e o mal, mas acredito no triunfo do bem e na redenção da espécie humana. Nossa comunidade é um grão de areia no meio do deserto, mas está ali, difundindo seus ideais, seu exemplo material e espiritual. Não é casual que milhares pessoas nos visitem anualmente, não somente por interesse turístico, mas em busca de alguma verdade, que supomos poder oferecer. Se dentro da confusão de tendências que existem na atualidade na arquitetura e urbanismo – que estiveram presentes na Bienal de Veneza – nosso trabalho foi reconhecido por seu conteúdo ético e estético, significa que ainda somos um exemplo a seguir para as novas gerações.
RS: De todos os aspectos negativos do mundo atual, qual considera que possui efeitos mais negativos para nosso ambiente físico?
PS: Considero o automóvel nosso principal inimigo. Não sou contra o objeto tecnológico como instrumento para deslocar-se sobre o território, mas contra o princípio de uma vida urbana baseada exclusivamente no uso do automóvel, que tem gerado a expansão infinita da moradia individual no subúrbio e a desintegração da cidade compacta. A síndrome do automóvel gerou a equação "contaminação–destruição": por um lado, os problemas nos quais vive o mundo em relação à atmosfera é produto de seu incremento infinito; por outro, esse sistema condicionou uma filosofia individualista, que fez perder no cotidiano da vida urbana os espaços cívicos de encontro social. Finalmente, o desperdício persistente, não somente de energia e de combustível não renovável, mas também nos fabulosos recursos que se investem nas infra-estruturas viárias e a ocupação indiscriminada de território fértil para construir moradias unifamiliares isoladas, somente acessíveis por meio do veículo individual.
Arcosanti, técnica construtiva
Arcosanti, Abóbadas para encontros, reuniões e festividades
Roberto Segre: O senhor não considera que o modelo de Arcosanti, em termos arquitetônicos é um pouco rígido, ao tentar construir essas estruturas monumentais abobadadas, tão isoladas no meio do deserto?
Paolo Soleri: Não há dúvida que em quase quatro décadas de esforço construtivo, poderíamos ter alcançado um conjunto maior, próximo ao definido no projeto original. Não tivemos apoios econômicos significativos para fazê-lo. Arcosanti, mais que uma cidade real consiste num laboratório social e construtivo, no qual jovens de todas as latitudes participam de uma experiência de trabalho, de conhecimento técnico, associados a uma vida em comunidade, quase monacal; como numa espécie de redenção espiritual. O fato de levantar essas gigantescas estruturas abobadadas, ao invés de desenvolver pequenos núcleos habitacionais, deve-se a nossa concepção da cidade compacta. Ela surge do mercado, o espaço público congregador original, ao redor do qual se constrói o templo e o palácio, que se convertem em ícones, em símbolos monumentais da vida urbana. São edifícios que perduram ao longo de séculos, como as catedrais medievais, ou templos gregos. Nesse mundo materialista, no qual o shopping constitui o templo – espaço público – mercado – centro cultural, carente de toda identificação simbólica à escala urbana, é necessário recuperar os monumentos que respondam aos conventos que marcavam as paradas do caminho de Santiago de Compostela, signos da presença do homem no entorno inóspito, representação da vida em comunidade.
RS: Soleri, o senhor não acha que sua proposta está à margem da contemporaneidade do mundo urbano globalizado, ao isolar-se no meio do deserto numa pequena comunidade?
PS: Pelo contrário, estamos como nunca em contato com o universo. Com os atuais sistemas de comunicação, a distância física não existe mais. Apesar de viver no meio do deserto, no pólo ou na selva impenetrável, pode-se perfeitamente participar e incidir no que ocorre no outro extremo do planeta. Além disso, propugnamos um modelo de assentamento urbano compacto, denso e multifuncional, que se opõe ao isolamento individual e promove os encontros comunitários. Nossas imagens urbanas tratam de propor não somente uma coerência estética, contrária à desordem e à arbitrariedade da metrópole contemporânea, mas também uma escala de acordo à existência de um equilíbrio no sistema de relações humanas como também de um vínculo dialético com a natureza. Somos criticados por termos nos instalado no deserto: hoje mais da metade da Humanidade habita em áreas desérticas, com dificuldade de abastecimento de alimentos e especialmente de água potável. Com a crise que se aproxima pela carência de água no mundo, nosso exemplo de "frugalidade urbana" é um modelo que o planeta precisa, contraposto ao desperdício de recursos e de vida. Além disso, a idéia de frugalidade se associa com o princípio de igualdade e justiça, ou seja, oposto à opulência prejudicial e ao inútil luxo ostentoso.
RS: Soleri, para terminar, qual é sua mensagem aos jovens, frente ao deslumbramento que produz o star system da arquitetura, e o desenfreio formal que foi desatado nesse começo de século?
PS: Desejo declarar que não sou contra a invenção, a criatividade e a originalidade, surgidas da paixão, o talento, a inteligência e a busca constante de novas soluções. Mas creio que a ética e a estética devem ficar indissoluvelmente unidas, em função das necessidades sociais, a proteção da natureza e a busca de um equilíbrio neste mundo, cada vez mais estruturado em posições antagônicas, em desajustes econômicos, em dogmatismos sociais e religiosos. Considero que nestas quatro décadas de ensino comunitário e construtivo em Arcosanti, temos conseguido que um número considerável de arquitetos, sociólogos, trabalhadores sociais, construtores e artistas, se identifiquem com nossas idéias e as materializem em diferentes latitudes. Cada uma de suas intervenções será um chamado à prudência, à justiça, à beleza, à redenção da cidade e da arquitetura. Talvez um dia, os milhares de sinos de bronze que temos produzido, soem todos ao mesmo tempo, anunciando, não o dia do Juízo Final, mas a definitiva salvação da espécie humana.
Arcosanti, Pórtico de Tijolos (vista posterior)
Arcosanti, estufa
Paolo Soleri
Paolo Soleri nasceu em Turim, Itália, em 21 de junho de 1919. O Politécnico de Turim lhe outorgou, em 1946, o Ph.D. em arquitetura. Em 1956 Soleri radicou-se em Scottsdale, Arizona, com sua esposa, Colly, e suas duas filhas. Ali estabeleceram a Fundação Cosanti e iniciaram experimentações e pesquisas em urbanismo e planejamento urbano, constituindo um corpus de conhecimento ao qual chamaram Arcologia (Arcology=Architecture+Ecology). A cidade de Arcosanti é o maior projeto da Fundação.
Roberto Segre
Roberto Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Entrevista
Roberto Segre entrevistou Paolo Soleri em Tuscon, EUA, em abril de 2001. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em julho de 2001.
Imagens
Todas as imagens, com exceção da foto de Paolo Soleri e Roberto Segre, são de autoria de engenheiro brasileiro que participou durante 6 meses, como voluntário, da construção de Arcosanti. Tão logo consigamos contatá-lo, disponibilizaremos aqui os créditos corretos.
Tradução
A versão em português é de Flávio Arancibia Coddou.
Website
Para ter maiores informações sobre Paolo Soleri, Arcosanti e Arcologia, visite www.arcosanti.org