Foi através de Karen Shanski, colaboradora no OMA – Office for Metropolitan Architecture –, que entrei em contato com a sua produção de maneira mais aprofundadda e detalhada durante o verão europeu de 2000. Roterdã tem sido uma das minhas cidades favoritas na Europa pela sua localização estratégica, por ser o centro da produção de arquitetura na Holanda, mas especialmente por causa do Rio Maas e a sua arquitetura portuária, o que inspirou o filme que agora edito. O meu interesse na arquitetura de Rem Koolhaas me levou a entrevistar Floris Alkemade, um dos seus colaboradores.
Alkemade é colaborador de Rem Koolhaas no OMA desde que se formou pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Delft juntamente com Winy Maas, que criou o MVRDV logo ao sair da escola. Floris é o chefe de projeto do Plano Diretor da nova cidade de Almere, uma nova comunidade que vai acomodar cerca de 300.000 pessoas nos arredores de Amsterdã.
Projeto para o centro de Almere
Block 6 Fachada Principal
Eduardo Aquino: Tive a oportunidade de vir aqui algumas vezes, e agora tenho uma noção do espaço e sinto o escritório – que até tenho dificuldade de chamar de escritório – como sendo muito mais um laboratório. Vocês estão sempre em busca de algo, sempre experimentando, sempre indo a fundo em questões. Caso o senhor concorde comigo que o OMA é muito mais um laboratório que tenta levar a prática às últimas conseqüências, então vocês estão em busca de quê?
Floris Alkemade: A natureza dos projetos e as condições nas quais o arquiteto tem de operar mudam muito rapidamente. Isso significa que se tentamos responder uma pergunta retrabalhando modelos existentes, vamos perder o novo. Isso freqüentemente leva a uma arquitetura que parece rejeitar o óbvio, simplesmente porque negligencia a verdadeira natureza do projeto.
Em nosso método de trabalho, estamos buscando a solução correta para o problema. Isso significa que temos que, primeiro, analisar o problema em toda a sua extensão. Sempre estamos tentando encontrar o que o problema nos propõe, o que poderia ser novo no projeto, o que poderia ser diferente, e nesse sentido sempre estamos investigando o que poderá ser a forma mais direta e radical de responder ao problema.
Por isso o papel de Rem Koolhass é importante, porque ele sempre indica o que investigar, sem dar as respostas, mas sempre nos orientando para questões que são relevantes nos casos específicos. Nesse sentido, é sempre a pesquisa – no trabalho em um local específico, em um projeto específico, e uma forma específica de ler as necessidades – que pode levar a algo novo, mais radical e mais brutal.
Num processo como esse, também é importante ter um cliente inteligente que entenda o que estamos investigando e porque estamos fazendo isso. Embora nunca admitam, muitos clientes preferem o feio ao radical. Portanto, investimos muito tempo na preparação de apresentações para o cliente, a fim de fazê-lo compreender.
EA: A posição de Rem não é a de um arquiteto tradicional. O arquiteto geralmente produz um desenho inicial, com um esboço ou um croqui. Rem age mais como um crítico.
FA: Exatamente. Ele sempre faz esboços num segundo momento, porém. Ele não define o contorno do que fazemos, mas desenha a fim de reformular o problema, indicando a direção que precisa ser investigada. No processo, isso acaba sendo muito mais essencial, e gera outras soluções diferentes, mais do que seria de se esperar. Nesse sentido, ele se aproveita do fato de que há uma enorme quantidade de pessoas no escritório que pode desenhar e experimentar de uma forma imprevisível. Percebemos que, de fato, uma boa idéia pode vir de qualquer um. Precisamos ser capazes de reconhecer uma boa idéia e não descartá-la por estar mal ilustrada, ou por outra razão qualquer – reconhecer qualidades é o que importa. Rem às vezes dá orientações que ninguém entende, mas isso gera muita investigação que potencialmente leva a novas formas de enxergar [o problema], e a partir daí pode surgir uma boa idéia.
Idéias desenvolvidas para um projeto às vezes não são apropriadas para ele, mas acabam se encaixando perfeitamente em outro projeto – há também essa troca de fertilização entre os projetos. Sempre há um processo de tentativa e erro, no qual Rem às vezes interfere e seleciona elementos que, do ponto de vista dele, são os mais promissores, ou simplesmente indica se há necessidade de mais investigação, porque ainda não chegamos lá.
Esses processos não são lineares. É como um movimento em todas as direções, e às vezes o primeiro esboço, o primeiro minuto, acaba sendo o certo, mas só descobrimos depois de muito tempo de tentativa e erro, aí voltamos para o primeiro. Isso acontece com freqüência, até. Parece que há um tipo de instinto que nos direciona para o caminho certo, antes de sabermos muito sobre o projeto. No entanto, isso só aparece depois de experimentarmos muito. É por isso que sempre se vê no escritório milhões de maquetes e experimentações. Rem é quem direciona o fluxo de idéias e escolhe as certas.
Block 6 Entrada principal
Block 6 Vista geral
Eduardo Aquino: Qual era o problema no caso do Block6 [equipe formada por Rem Koolhaas, Floris Alkemade, Olga Aleksakova, Phillip Koenen, Rob de Maat, Markus Schaefer, Karen Shanski e Shohei Shigematsu] em Almere, e como o grupo encontrou uma solução?
Floris Alkemade: A particularidade do Block6 era a variedade de programas. Em um quarteirão de 75 metros por 75 metros e 25 metros de altura, há lojas, um restaurante e nove cinemas. É uma combinação de programas, e tentamos reavaliar de que forma um prédio como esse poderia funcionar. Obviamente, um cinema tem um certo ritmo. Quando um filme começa, muita gente entra no prédio, e desaparece nas salas de cinema. Essas pessoas não são vistas durante horas, e então reaparecem, ao mesmo tempo em que mais gente está entrando no prédio. Uma loja tem muita atividade permanentemente. As lojas precisam de acesso pelo térreo, e temos de ver um jeito de combinar essas duas funções.
Há também o fato de que se pode, de certa forma, controlar a arquitetura de um cinema, porque os volumes e a forma pelos quais eles são organizados são elementos mais ou menos estáveis. Entretanto, as lojas são caixas que mudam de aspecto a cada três ou quatro anos. Toda vez que uma nova loja se instala, a identidade daquela parte do prédio muda de uma forma imprevisível. Isso significa que temos que lidar com o fato de que cerca de metade do prédio é na verdade imprevisível.
Nesse sentido, esse prédio não se define pelo aspecto, mas sim pelas funções, em como ele lida com identidades diferentes ao longo do tempo. Nesse caso, usamos a grande massa de cinemas como um enorme volume no último andar, criando um esqueleto arquitetônico que se sobrepõe a tudo, e que pode lidar com as identidades mutantes sem perder a coerência.
Além disso, há o nosso plano-piloto urbano no qual o prédio está localizado. Nesse plano, criamos uma cidade com múltiplos níveis, na qual a essência é formada por todas as conexões que criamos entre esses níveis. Garantimos que todas essas funções de fato beneficiem-se umas das outras, sem comprometerem umas às outras. Parte do estacionamento do Block6 fica no subsolo, mas termina em um grande supermercado com uma infra-estrutura de carga e descarga de mercadorias. Os espaços de entrada para os cinemas (2.500 lugares) podem ser vistos como uma continuação do andar principal, insinuando-se no prédio. É um quebra-cabeças chinês em que todos os tipos de elementos têm que se unir e funcionar, a despeito da complexidade do prédio, de um modo claro e óbvio.
EA: O senhor acha que, nesse caso, o Block6 é um modelo em microescala de uma cidade, pela forma que tem que entrelaçar diferentes funções e as formas diferentes que essas funções assumem?
FA: Sim, [o Block6] pode ser visto como um fractal, como um elemento que comprime estruturas em uma unidade menor. Isso tem também relação com o fato de que o prédio está em uma cidade nova, Almere, que não tem muita densidade nem uma sensação de um centro urbano, então buscamos a compressão.
Fizemos esse prédio, assim como o plano em torno, de forma a empilhar coisas, em vez de colocá-las lado a lado. Sobrepusemos as coisas e fizemos o maior número possível de conexões entre os programas. Num certo sentido, é o que se encontra em centro maduros de cidades velhas. O urbanismo moderno quase sempre coloca elementos um ao lado do outro, separados por enormes espaços vazios, para a infra-estrutura de carros, caminhões e tudo o mais. Ao organizar isso em níveis diferentes, conseguimos concentrar o programa com uma densidade muito maior.
No fim, trata-se de tentar organizar o máximo de atividades por metro quadrado, concentrando-se simplesmente todos os tipos de funções no mesmo local, a fim de evitar a monocultura e a monotipologia.
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Block 6 Maquete conceitual
Floris Alkemade
Colaborador de Rem Koolhaas no OMA desde que se formou pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Delft juntamente com Winy Maas, que criou o MVRDV logo ao sair da escola. Floris é o chefe de projeto do Plano Diretor da nova cidade de Almere, uma nova comunidade que vai acomodar cerca de 300.000 pessoas nos arredores de Amsterdã.
Eduardo Aquino
Eduardo Aquino leciona arquitetura na Universidade de Manitoba em Winnipeg e Estudos Interdisciplinares no Goddard College em Vermont, além de desenvolver projetos para espaços urbanos e galerias. Trabalha atualmente na "Trilogia da Troca", uma série de três instalações aonde discute sistemas de troca e critica a institucionalização da obra de arte. A terceira e última parte da trilogia, "Camelô", realizada em colaboração com Karen Shanski, vai ser exposta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em junho de 2001.
Entrevista
Conversa com Floris Alkemade no Office for Metropolitan Architecture. Roterdã, quarta-feira, 26 de julho de 2000. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em janeiro de 2001.
Equipe do projeto Block6
Rem Koolhaas, Floris Alkemade, Olga Aleksakova, Phillip Koenen, Rob de Maat, Markus Schaefer, Karen Shanski e Shohei Shigematsu.
Imagens
Todas as imagens cortesia de OMA – Office for Metropolitan Architecture