português Esta entrevista com Rodrigo Brotero Lefèvre foi realizada em junho de 1974, na Residência Marietta Vampré. A entrevista foi disponibilizado em Vitruvius em março de 2000
english This interview with Rodrigo Brotero Lefèvre was made in june 1974 inside Marietta Vampré's house. The interview is available in Vitruvius since march 2000
español Esta entrevista con Rodrigo Brotero Lefèvre fue realizada en junio de 1974 en la casa Marietta Vampré. La entrevista está disponible en Vitruvius desde marzo del 2000
Residência Marietta Vampré, São Paulo. Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro
Renato Maia: Qual o ano de sua formação?
Rodrigo Brotero Lefèvre: O ano de minha formação foi 1961, corresponde ao quinto e último ano da escola. Em janeiro de 1962 eu me formei e recebi o diploma. Isso significa que eu entrei na escola em 1957 e cursei até 1961. É importante destacar isso pois foi exatamente o fim do governo de Juscelino Kubitschek e o início do governo de Jânio Quadros. Propriamente durante o governo de Jânio Quadros. Em setembro, Jânio Quadros renunciou, e, em janeiro, quatro meses depois, eu me formei.
RM: O tipo de formação que recebeu na escola, correspondia às exigências do mercado de trabalho?
RBL: Talvez o curso respondesse às exigências do mercado de trabalho, na medida em que existiam poucas exigências do mercado de trabalho. Quer dizer, o arquiteto acabava se formando e arranjando um empreguinho ou montando um pequeno escritório de arquitetura. No fim, acabávamos nos virando para produzir uma obra razoável.
RM: Isso acontecia com todos os arquitetos que se formavam? Ou muitos saíam para fazer decoração, comunicação visual, desenho industrial?
RBL: Não, nessa época ainda não existia isso que agente chama de comunicação visual, nem de desenho industrial. Pelo menos não era tão conhecido, e na FAU não tinham ainda se formado as seqüências de comunicação visual e desenho industrial. Fazia-se um trabalho nesse sentido, mas era muito pouco para se pensar nisso como um mercado de trabalho para o arquiteto. Existia um certo grupo de arquitetos formados que realmente não se dedicavam à profissão por falta de algumas faculdades e de alguns cursos que posteriormente foram formados. Existia um índice grande de alunos que ia fazer arquitetura pela proximidade da área com certos setores das artes plásticas, ou certos setores da comunicação visual, do cinema, etc.
Assim, tinha muita gente que ia fazer arquitetura pela falta de outros cursos de comunicações, de artes plásticas, etc. Também tinha muita gente que entrava no curso de arquitetura, como alternativa mais fácil em relação ao curso de engenharia. Por isso o grupo de arquitetos que se formava na FAU nessa época era muito heterogêneo. Podia-se passar pelo curso sem necessariamente se formar um arquiteto. Por isso a quantidade de gente que saía para trabalhar com venda de material de construção e se vinculava, por exemplo, a empresas como a Eternit.
Eu conheço um arquiteto que se empregou na Eternit e passou 12 anos trabalhando lá, muito mais como relações públicas para vender os produtos, do que em um processo de pesquisa da Eternit, já que essas pesquisas são feitas na Suíça. Assim também acontece nas firmas de divisórias, etc.
Realmente, do grupo de arquitetos que se formava, era apenas uma pequena parte que acabava sendo arquiteto, realmente exercendo as funções que poderíamos chamar de funções do arquiteto. Talvez nós pudéssemos dizer que era um curso elitista, na medida em que ele não tinha uma estrutura muito clara, definida e coerente. O curso dependia muito do auto-didatismo, da experiência concreta que os estudantes pudessem adquirir na medida em que trabalhassem fora da faculdade. Nesse caso, então, para o estudante poder vir a ser arquiteto realmente ele dependia de uma situação favorável. Ou seja, logo conseguir alguns projetinhos enquanto ainda fosse estudante, ou ter condições de logo se empregar num escritório de arquitetura, coisa rara, tanto quanto hoje, um estudante trabalhar num escritório de arquitetura, em condições de realmente produzir nesse escritório.
Gostaria de ressaltar que o curso era insuficiente sobre outros aspectos, não em relação ao mercado de trabalho propriamente dito, mas no que diz respeito à responsabilidade que um arquiteto formado deve assumir no contexto social em que vive. Não é um problema de mercado. Nós não estamos tratando o fazer arquitetura como mercadoria, mas estamos pensando nele como parte do desenvolvimento, como uma visão de mundo, como parte da contribuição que nós podemos dar para um mundo melhor. Nesse sentido a formação na faculdade era totalmente falha.
Residência Juarez Brandão Lopez, São Paulo. Rodrigo Lefèvre e Flávio Império
Renato Maia: Como é que você passou a ter essa formação?
Rodrigo Brotero Lefèvre: Eu passei a ter essa formação por sorte, inclusive. Em um certo sentido, eu me considero da tal elite, e tive condições muito favoráveis também pelo fato de eu ter sido contratado para ser professor assistente...
Quando eu fui contratado para ser professor da faculdade, em 1962, professor de história da arquitetura contemporânea, eu comecei a ter que explicar a arquitetura contemporânea para os meus alunos. Foi um esforço durante cinco ou seis anos, muito mais de explicar para mim o que era a arquitetura contemporânea, do que explicar para os alunos. Na medida em que eu conseguia entender, explicar para mim mesmo, eu conseguia dar aula.
Em grande parte, por ter que dar aula na faculdade, é que vim a ter essa visão crítica da formação que eu tinha recebido na escola.
Na própria escola eu não tive essa possibilidade. Os professores que eu tive na escola, e com os quais deu para aproveitar muito, foram três: Jon Maitrejean, Carlos Millan e Vilanova Artigas. Carlos Millan, que já morreu, o Maitrejean e o Artigas foram meus professores no 3º, 4º e 5º anos da faculdade.
Tenho a impressão de que para qualquer aluno da faculdade dessa época que você for perguntar, eles vão confirmar que esses professores foram fundamentais na nossa formação. Mas era insuficiente, porque no final nós trabalhávamos pouco com eles.
No final do governo de Juscelino Kubitscheck, a perspectiva colocada para nós como padrão, como modelo de arquiteto, era a do arquiteto com escritório próprio. A atuação dos arquitetos em empresas construtoras, em empresas produtoras de materiais de construção, era vista como uma atuação profissional menor. O batuta naquela época era o Carlos Millan, o Joaquim Guedes e alguns outros arquitetos, que tinham seus escritórios particulares e conseguiam fazer obras e publicá-las na revista Acrópole, ou em outras revistas. Isso era uma espécie de padrão para nós.
Essa visão correspondia a uma possibilidade que pareceu existir no período de Juscelino Kubitscheck, que era a possibilidade de formarmos os nossos escritorinhos particulares. Uma vez formados, e com certos mecanismos de relações estabelecidos, nós poderíamos tocar o resto da vida, mantendo esse escritório.
Mais tarde ficou claro para nós que isso era uma besteira, que não correspondia à verdade.
Num certo sentido isso influenciava toda a arquitetura da época. Uma arquitetura que vinha da tradição da arquitetura, que nós poderíamos chamar de pioneira no Brasil, das década de 30, 40 e 50, e que era a do arquiteto com seu escritório, fazendo obras, e sendo reconhecido, muito mais pelo caráter cultural que essas obras possuíam, pelo caráter de cultura brasileira, do que realmente por participarem das soluções dos problemas concretos do Brasil.
Nessa época você pega o Reidy, o Sérgio Bernardes, o próprio Lúcio Costa, o próprio Artigas, o próprio Oscar Niemeyer. Apesar da produção do projeto de Brasília e de alguns projetos no aterro do Flamengo no Rio de Janeiro, por exemplo, o fundamental das obras dos arquitetos naquela época eram edifícios isolados feitos em lotes fechados. Eram obras fechadas do ponto de vista urbano, do ponto de vista de grandes soluções de planejamento, e essas obras fechadas apareciam em si e por si mesmas.
Existem prédios, como por exemplo um predinho do Rino Levi, feito na Rua Martins Fontes, em que ele pretendeu dar uma grande contribuição social para o problema da empregada. Ele fez o prédio de apartamentos, centralizando no último andar todos os quartos de empregadas de todos os apartamentos e também colocando junto a estes quartos uma lavanderia central para todos os apartamentos. A grande contribuição para um problema social, que é de ordem muito mais geral, que envolve outras coisas que não só a arquitetura, acontecia através de soluções muito particulares e restritas, pensando que se estava adotando grandes soluções, mas que não eram.
A arquitetura brasileira da época de Juscelino teve o seu papel, que foi muito importante para a formação da cultura arquitetônica brasileira. Ainda era uma época de formação da cultura arquitetônica brasileira, como seqüência da arquitetura dos anos 30, 40 e 50, mas que vai dar com os "burros n’água" por dois processos: um processo que nós poderíamos chamar de político, que foi o processo que se instaurou depois de Juscelino até hoje; e o outro processo, digamos, na frente econômica. Isto é, as interferências do imperialismo, que se fizeram sentir cada vez mais, com maior intensidade, no início da década de 60.
Talvez o grande esforço de reconstrução da Europa e dos EUA, com a retomada do desenvolvimento depois da guerra, tivesse aí já realmente terminado e começasse uma interferência muito maior nos países do Terceiro Mundo.
Isso não se caracteriza por uma interferência direta ou brutal, mas por uma interferência que fazia com que os países do Terceiro Mundo, subdesenvolvidos, adotassem um processo de modernização determinado e fixado pelos países desenvolvidos.
O próprio Juscelino ao deixar entrar a indústria automobilística no Brasil, do jeito que entrou, não foi mais do que um processo de modernização. Na realidade, o desenvolvimento brasileiro não estava exigindo soluções tais como o automóvel, mas, como processo de modernização do Brasil nós entendemos porque o Juscelino, de repente, começa a fazer entrar a indústria automobilística no Brasil e permite que ela despeje em poucos anos a quantidade de automóveis que temos hoje.
Isso aparece em muitos outros casos.
No caso da comunicação, até mesmo com o pensamento produzido por países super-desenvolvidos, como a semiologia, por exemplo, que foi trazida, não como resposta às necessidades concretas que nós tínhamos, mas como adoção de certas formas culturais de outros países que por serem desenvolvidos, para nós, eram formas culturais importantes.
Nesse processo de modernização o que tem acontecido no Brasil parece que é uma deterioração do que existe de nosso, das nossas cidades, da nossa arquitetura, da nossa cultura, etc.
RM: Como você caracterizaria essa posição? Nacionalismo?
RBL: Não quero rotular nada. Só estou desenvolvendo algo que a meu ver tem sido um dos pontos cruciais do nosso problema.
É o caráter de modernização do nosso crescimento, e não o caráter de desenvolvimento do nosso crescimento. Em um certo sentido, o que está acontecendo é um inchamento com prejuízos para o que está em torno do inchamento. Então, a indústria automobilística quando aparece, faz inchar as cidades, faz inchar quem usa automóvel. Quem mora na periferia, sem ter nada a ver com isso, começa a ter prejuízos graves de deterioração. Andando na rua você percebe isso na nossa cidade. Em qualquer esquina você encontra esse tipo de coisa.
Você vai a uma cidade como Londres (vamos colocar logo a Inglaterra como país super-desenvolvido), e lá eles tem uma tradição de uso do automóvel que data de sessenta anos, enquanto nós temos uma tradição de uso do automóvel que data de quinze anos. Mas talvez hoje exista uma concentração maior de carros em São Paulo do que existe em Londres. Não que em São Paulo existam mais carros do que em Londres, mas existe maior concentração no centro da cidade, nas principais artérias de circulação, etc.
Não foi somente com a saída de Jânio Quadros que nós percebemos que existiam algumas coisas "furadas". De 1960 a 1964, ainda dentro daquela visão desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck, que era, antes de mais nada, uma modernização que nos levava a produzir esse tipo de casa que você está vendo aqui. Esse tipo de casa estava muito voltada para os problemas da industrialização da construção, antevendo, em um prazo de tempo muito curto, uma produção em massa de habitação, de edifícios, de equipamento urbano.
Nesta casa, por exemplo existe uma preocupação referente ao processo de racionalização da construção. Esta é uma casa toda modulada, tanto na horizontal como na vertical, tendo em vista um processo industrial de produção e um processo de montagem de caráter industrial, e não um processo artesanal como foi, como era, como tem sido, e como continua sendo, a construção.
Todas as peças desta casa são moduladas e apesar dela não ter sido feita através da indústria, estávamos fazendo uma experiência de laboratório para participar do processo de industrialização da construção.
Isso corresponde a 1964, ainda dentro daquela concepção do desenvolvimentismo de Juscelino.
Residência Dino Zammataro, São Paulo. Rodrigo Lefèvre
Renato Maia: Quais as outras correntes dentro da arquitetura nesse período?
Rodrigo Brotero Lefèvre: Basicamente era isso que existia. Podia haver pequenas alterações desse fulcro central que era a participação no processo de industrialização, mas acho que o fundamental no momento era isso que existia. Tanto que a produção da arquitetura dessa época, a meu ver, tem muito de uma academia paulista de arquitetura, com uma identidade muito grande em tudo o que os arquitetos faziam.
RM: Existia uma rivalidade entre os arquitetos de São Paulo e os arquitetos do Rio de Janeiro?
RBL: Isso era um fator secundário. Quem estava fazendo arquitetura era o Niemeyer com alguns tipos de obras, no caso muito específico, que eram as obras em Brasília, numa situação toda ela favorável com grandes possibilidades de fazer o que fez. Em São Paulo, existia uma dificuldade muito maior. Para conseguir fazer esse tipo de coisa os arquitetos daqui tinham que ser, no mínimo, eficientes do ponto de vista do custo da construção, do ponto de vista da participação da especulação imobiliária, das vendas. Então não existia grandes possibilidades de sair por aí fazendo coisas como o Niemeyer fez em Brasília, por exemplo. O fator fundamental era a pretensão de que o processo de modernização fosse realmente um desenvolvimento. Poderia ter aqui em São Paulo um pessoal fazendo obras tendo em vista a industrialização da construção, e, em Brasília, um Oscar Niemeyer fazendo obras tendo em vista a afirmação da burguesia nacional. O que, num certo sentido, era a mesma coisa.
Usava-se muito concreto e colocava-se a alvenaria como um processo arcaico de construção, um processo não voltado para o processo de industrialização, que era o que se buscava. Falava-se em pré-fabricação, em placas pré-moldadas, em divisórias. Teve quem chegou a fazer placas divisórias internas de casa com todas as características de uma placa móvel, mas que era fundida no local, de concreto. Eram coisas feitas tendo em vista modelos de arquitetura voltados para a industrialização da construção.
Então, nessa altura, a utilização de qualquer elemento material que estivesse vinculado historicamente ao processo artesanal de produção era rebaixado. Nessa época, fazer telhado era uma coisa proibida para nós, para a academia, e usar alvenaria também. Nós tínhamos que usar a laje como cobertura, as placas divisórias de concreto, elementos pré-moldados, etc, apesar de não haver nenhuma normalização dos materiais de construção, e de não haver condição de realmente se adotar esse tipo de coisa em grande escala. Basicamente, todos os arquitetos estavam produzindo experiências de laboratório tendo em vista uma industrialização que não aconteceu.
O que me parece importante dizer é que na época de 1964 até 1969 começou-se a ver alguma coisa um pouco diferente daquele processo anterior.
Depois de 1964, os governos que se sucederam tiveram como política fundamental, apesar da adoção de certos problemas básicos como a habitação, o planejamento urbano, os planos diretores de municípios, etc. Na realidade, isso funcionou fundamentalmente do ponto de vista financeiro, quer dizer, o que se montou no Brasil foi um grande esquema financeiro, através do qual se pretendeu resolver certos problemas de habitação, de planejamento urbano, de adaptação das nossas cidades a esse processo de modernização.
Me parece, assim, bem resumidamente, que só a adoção de um esquema financeiro não teria nunca condições de vingar, porque existiam outras coisas que estavam envolvidas. Os primeiros exemplos de conjuntos habitacionais feitos pelo BNH, como a Vila Kennedy, e outros, que inclusive já eram anteriores ao BNH, ainda eram coisas de Carlos Lacerda no governo da Guanabara, anterior a 1964. A Vila Kennedy, que até hoje nós confundimos com o BNH, sem razão. O BNH é que adotou aquele tipo de solução.
Existem outras coisas envolvidas além do problema financeiro de fazer a casa, comprar a casa, fazer alguém ter aquela casa. Existem problemas gravíssimos de como o morador vai usar a casa: que tipo de casa é essa; qual é o conceito de casa para o morador; como essa casa se relaciona com o resto da cidade; que condições o morador tem de realmente continuar mantendo aquelas relações que ele mantinha com a cidade, na nova casa. Todo esse processo foi esquecido.
Simplesmente montou-se um esqueminha financeiro, um modelinho financeiro, que seria a grande bola de neve, como se dizia na época. Paralelamente a isso, não se criou nada, em contraposição com aquilo que os arquitetos poucos anos antes achavam que ia se dar no Brasil. Não se criou nada no sentido de qual orientação dar para o problema da habitação no Brasil. Não do ponto de vista financeiro, mas do ponto de vista concreto, de construção, de sistema construtivo, da localização da habitação no urbano, etc. Não se criou nada disso.
Residência Carlos Ziegelmeyer, Guarujá. Rodrigo Lefèvre, Ronaldo Duschenes e Geni Y. Uehara
Renato Maia: A que grupos políticos os arquitetos se vinculavam nessa época?
Rodrigo Brotero Lefèvre: Essa questão da política que você está me perguntando é importante, porque faz-se muita confusão sobre isso.
Não é, de jeito nenhum, qualquer vinculação política que possa vir trazer reflexos na concepção da arquitetura diretamente. É mais um problema da visão do mundo que os arquitetos tem ao fazerem arquitetura. Quer dizer, os arquitetos como pessoas que são, tem uma determinada visão de mundo e, ao fazerem arquitetura ou ao participarem da política, podem ter posições correlatas. É importante que se entenda que o termo correlato que não tem nada que ver com causa e efeito nem com relação direta.
RM: É uma certa ideologia, quando você fala em visão de mundo?
RBL: Não. Eu prefiro continuar usando o termo visão de mundo.
Quer dizer, o que qualquer pessoa tem como perspectiva da sua vida particular e da vida do conjunto da sociedade na qual ela trabalha e atua.
Para exemplificar: você pode ter uma pessoa com uma visão de mundo toda ela voltada para o seu problema individual, refletindo isso no fato de que basta ganhar dinheiro para estar se satisfazendo em termos do mundo em que ela está vivendo.
Isso é reflexo de uma visão de mundo. Quer dizer, ela vê o mundo como um monte de pessoas que estão pretendendo ganhar dinheiro e, com esse dinheiro, elas se protegem, se garantem e se asseguram do futuro. Não interessa propriamente o que está acontecendo em geral na sociedade, desde que se mantenham as condições para ela ganhar dinheiro e ficar tranqüila.
RM: Essa questão de visão de mundo é bastante polêmica. Alguém já disse: o que todas as filosofias fizeram não foi mais do que interpretar o mundo. O que nós precisamos agora é transformá-lo.
RBL: Será que é isso mesmo?
Porque eu já ouvi dizerem isso da filosofia, mas já ouvi dizerem também que isso era da filosofia do século XIX, e que a filosofia do século XX tem se colocado como uma filosofia para o futuro. Não para explicar o mundo passado, mas para pensar o mundo futuro.
Podemos voltar um pouco para a arquitetura de quinze anos atrás e dizer que a preocupação fundamental dos arquitetos naquela época era o resultado final do processo de construção. O que interessava para eles era o resultado final do Palácio da Alvorada. Não sei se você chegou a reparar na última Bienal, em um detalhe que o Joaquim Cardoso fez da ferragem necessária para fazer aquelas cúpulas de Brasília. Não sei se você já teve aula de estrutura?
RM: Não.
RBL: Se voltarmos para aquele desenho, ele é um desenho muito bonito, que está ligado à própria forma daquelas meias laranjas que tem lá no Congresso Nacional. Mas se nós tentarmos imaginar um operário colocando aqueles ferros, um ao lado do outro, um dentro do outro, tentando amarrar um ferrinho no outro, pegando aqueles vergalhões de uma polegada, de uma polegada e meia, tentando encaixar dentro de outros ferros que já estavam montados... e depois de toda a ferragem montada, o pedreiro tem que trazer o concreto para cima, e começar a jogar o concreto ali, dentro daquela trama de ferro, mais fechada que uma peneira dessas de cozinha, e tendo que jogar o concreto lá dentro e socar o concreto...
Se você olha isso pensando no processo de produção, em como realmente o operário vai trabalhar para conseguir fazer aquilo, você começa a pensar que talvez existam algumas coisas na nossa arquitetura que são "fogo".
Tem uma série de exemplos que são assim malucos. Esse tipo de análise pode nos levar a pegar projetos de arquitetura que foram feitos, às vezes nem chegaram a ser construídos, ou alguns que estão construídos por aí, nós vamos perceber umas coisas malucas que são bem típicas do arquiteto que só se preocupa com o produto final do processo de construção.
Eu vi no SESC um projeto de uma escola que eram umas abobadazinhas, e entre cada uma delas existia uma calha, que tinha mais ou menos 1m20 de altura, e a parte interna da calha tinha apenas 5 cm de largura. Para fazer essa calha aí dentro precisava de uma fôrma de madeira, com 5cm dentro, livre entre o concreto. Para conseguir fazer o concreto você precisava colocar uma fôrma do lado de cá e outra fôrma do lado de lá. Depois de retirada essa fôrma, existia o detalhe feito no projeto, essa calha precisava ser impermeabilizada. O operário precisava atingir 1m20 de profundidade e 5cm de largura com um pincel com asfalto. Você pode imaginar a aberração que pode levar um tipo de arquitetura que é feita tendo em vista apenas o seu resultado final, ou seja, como é que ela vai ficar e não como é que ela vai ser feita.
Isso sem levar para o plano mais complexo que é o do processo de produção global, que eu prefiro não abordar. Nós estamos falando do metodozinho construtivo mais "mixuruca", dos gestos que um operário tem que fazer para conseguir produzir uma coisa que foi desenhada por um arquiteto. Só estou falando disso. Não estou falando num processo de produção global, e as relações de produção, porque aí "embanana" muito.
Existem as obras mais significativas, cujo exemplo razoável é essa casa que você está vendo aqui, tendo em vista aquele problema da industrialização da construção, a tentativa de fazer certas experiências de laboratório, e uma industrialização a curto prazo, nós precisávamos nos preparar do ponto de vista da coordenação modular; entender o que é modulação; entender o que é processo construtivo; isolar certas tarefas que são feitas na obra e que naquele tempo eram misturadas. Tinha-se vários operários especializados, trabalhando ao mesmo tempo na obra, então a concretagem de uma viga dependia do encanador e do eletricista que coloca o cano dentro da viga e dependia também do ferreiro, que tinha feito a ferragem. Era uma interdependência de artesãos, um processo de manutenção do artesanato. Nós tínhamos que pensar um processo diferente para obter um resultado final diferente, para poder racionalizar a produção, sob certos aspectos, separando certas atividades que eram congêneres.
Por exemplo, esta casa aqui, todo o seu concreto e toda a sua alvenaria, que é de concreto, foram feitos sem a intervenção de um eletricista ou de um encanador. Isso era uma coisa mais ou menos rara na época.
Depois que todo o concreto e toda a alvenaria estavam feitos é que os eletricistas e os encanadores entraram na obra e, em um mês de trabalho, fizeram toda a sua parte de produção e de montagem. Os caixilhos, pela modulação que nós adotamos, e por certos ajustes de modulação, que em toda a modulação nós temos que adotar, nós conseguimos mandar fazê-los antes da obra existir. Nós mandamos fazer os caixilhos antes de existir esta laje de concreto e esta alvenaria de blocos de concreto. Coisa que nunca era feita, porque no processo artesanal aconteciam tais e quais erros que o caixilho precisava ser feito depois da obra pronta, porque ele era medido em função daquele vão que estava lá pronto.
Nesta casa, nós adotamos um módulo de caixilho que mandamos fazer. Depois, o processo de construção tinha que adotar certos ajustes, que permitissem vir com os caixilhos prontos de fora e colocá-los aqui. E assim várias experiências pelas quais nós não tínhamos passado ainda, e que eram importantes exatamente tendo em vista o futuro da industrialização da construção.
Então, de 1965 a 1969, houve uma segunda etapa em que nós fizemos pouca coisa, mas fizemos algumas obras que são, por assim dizer, o inverso daquela posição inicial da industrialização da construção.
Nós fomos retomar um outro tipo de arquitetura que utilizava, por exemplo, a construção em tijolo de barro, exatamente porque o sistema construtivo que adotava o tijolo de barro era importante para nós na medida em que era um sistema construtivo muito utilizado pelas nossas populações.
Não sei se você sabe, por volta de 1967, nós podíamos ter alguns dados sobre a quantidade de produção de edifícios em São Paulo, e nós ficamos sabendo que setenta, oitenta por cento dos edifícios construídos em São Paulo não tinham nenhuma intervenção, nem de um engenheiro, nem de um arquiteto, nem de um empreiteiro, que tivesse pelo menos como profissão o construir. Setenta, oitenta por cento dos edifícios da periferia de São Paulo, que hoje em muitos casos nem é mais periferia, foi auto-construída, construídas pelos próprios moradores.
Nesse processo de estudarmos os problemas da auto-construção, nós estávamos voltados para uma situação que poderia acontecer, uma retomada do desenvolvimento, deixando de lado esses processo de modernização. Nós achávamos que devíamos nos preparar para uma situação em que se retomasse o desenvolvimento, mas com uma participação fundamental e massiva do povo, uma retomada que implicaria na redefinição de muitas coisas. Redefinição, talvez, até do que seja a cidade para nós, do que seja a habitação, do que seja a moradia, do que seja o trabalho, e eu não sei até que ponto a nossa condição de formados, em grau superior numa situação de modernização, era suficiente para nós entendermos o que deveria ser este processo.
Então nós começamos a tentar voltar as nossas preocupações para as próprias potencialidades do povo, na medida em que começamos a achar que eram nessas potencialidades que estariam os germes de um desenvolvimento correto. Achávamos que essas potencialidades seriam a matéria prima fundamental para retomarmos um desenvolvimento que fosse mais nosso, e não um processo de modernização que não nos convém.
Desse tipo de preocupação derivaram algumas obras nossas que estavam procurando adotar um sistema construtivo muito simples. Basicamente, nós usávamos a construção com laje pré fabricada, que na época era a laje Volterrana, e que hoje não existe mais, só que esta laje era construída em curvas, dando as abóbadas.
Nós pretendíamos partir para um tipo de construção ultra-simples, que utilizasse os mesmos sistemas construtivos usados por esse pessoal que constrói na periferia: utilizando parede de tijolo e chegando a fazer caixilho, por exemplo, a partir de peças de madeira que são normalmente utilizadas para fazer telhado; caixilhos feitos com caibros e peças muito simples de serem encontradas; parafusos que existem em qualquer lugar, etc.
Então a nossa pretensão era ainda um estudo, uma obra que tinha um caráter de experiência de laboratório, tendo em vista algo que não veio a acontecer; que era uma outra situação, não de modernização, mas de desenvolvimento. Isso causou muita confusão, mais ou menos em 1967, 1968.
Na medida em que nós falávamos em auto-construção, na medida em que nós falávamos em mutirão, na medida em que nós falávamos do sistema construtivo do povo, isso foi confundido, pelo menos pelas pessoas que nos cercavam. Elas não chegaram a perceber que nós estávamos nos preparando para uma situação futura. Houve e até hoje há ainda uma grande confusão achando que as nossas propostas eram para a utilização da auto–construção, do mutirão, na situação em que nós estamos hoje. Nós temos motivos de sobra para dizer que não era isso, pelo contrário, a utilização do mutirão, da auto-construção hoje é um processo bem explicado pelo Francisco de Oliveira, e que, resumidamente, podemos dizer o seguinte: a pessoa auto construindo a sua casa está rebaixando os salários. Esquematicamente é isso, na medida em que ele está produzindo algo e portanto diminuindo a demanda de mão de obra. Provavelmente se todo mundo resolvesse adotar essa linha de auto-construção, que possibilidade daria? Simplesmente não se precisava produzir mais nada, simplesmente o custo da mão de obra baixaria a zero. Essa é uma situação radical, só para nós entendermos.
Num certo sentido, nós poderíamos dizer que a posição de vida adotada pelos hippies tem este mesmo caráter, na medida em que eles reduziram bastante as suas necessidades mínimas de sobrevivência, vivem basicamente do lixo da sociedade do desperdício, e, vivendo desse lixo, eles fazem com que as pessoas que ganham os menores salários continuem ganhando salários cada vez menores, pelo fato de que eles, os hippies, conseguem sobreviver sem ganhar salário nenhum. Nada mais justo do que um operário que ganha um salário mínimo, deixe de ganhar um pouco menos, porque assim ele também conseguirá sobreviver, e assim por diante.
O processo de auto-construção, de mutirão, quando vinculado a um processo de modernização tal como nós temos assistido no Brasil, ele não leva a nada. Quer dizer, o que nós temos pensado sobre auto construção é a tentativa de relacionar melhor as pessoas à margem do processo de produção, da vida urbana, para que elas se integrem na vida urbana, ainda com um certo equilíbrio em termos da sua personalidade.
Existem pólos de desenvolvimento, pólos de modernização que vão espalhando as suas zonas de influência. Vamos pegar um caso particular do litoral norte paulista, que vai desenvolvendo as suas zonas de influência até certos trechos, certos setores em que existe, por exemplo, um núcleo de habitantes e que tem uma economia fechada, não ligada ao mercado brasileiro. Eles vivem de pescar, de comer o que pescam e vivem ali mesmo, totalmente fechados.
O processo de modernização e de crescimento inchado do litoral norte paulista tem levado essas pessoas a se transformarem em marginais, ao invés de incluí-las no processo de urbanização geral. Marginais de vários tipos; marginais em termos de cultura, marginais econômicos, políticos etc.
O sistema de pesca deles é o cerco do peixe, que precisa de muita gente para conseguir pescar, então todos pescam em conjunto e a divisão do resultado da produção é dividindo o peixe em conjunto. Eles adotam várias formas sociais e econômicas de caráter coletivo, de caráter socialista.
O que tem acontecido é o seguinte. Nas praias que já chegaram a se tornar propriedade de várias pessoas, ou de uma só pessoa, o processo é simplesmente a expulsão dos caiçaras ou sua absorção num tipo de atividade que nada tem a ver com isso, um tipo de atividade, que é a do biscateiro. Então o sujeito perde a integridade da sua personalidade.
Eu conheci um sujeito que comprou um terreno em uma praia dessas. Os filhos dos pescadores de lá hoje fazem surf, e são os maiores surfistas da praia, por isso eles chegam a ter alguma relação de amizade com os filhos dos proprietários dos terrenos. Eles se afirmam junto aos rapazes de classe mais elevada pela sua capacidade de ser surfista. Na medida em que o surf deixa de ser a motivação principal desses rapazes que são os donos dos terrenos, os que ficaram surfistas por excelência passam a não ter absolutamente nada o que fazer na vida.
A afirmação deles, que era, num certo momento, a do surf, passa a não ser mais nenhuma. A pequena relação que eles tiveram com os filhos dos proprietários de terreno não foi suficiente, nem nunca seria suficiente, para os colocarem no complexo de vida urbana que nós temos. Com o tempo, eles começam a ter insatisfações incríveis, do ponto de vista sexual, com os seus próximos que moram na praia, com os seus familiares. A grande maioria vira biscateiro, bêbado, uma grande quantidade de pessoas que estão ali na beira da estrada para roubar, ou outros tipos de vida marginal que são adotadas.
Nesses processos de modernização nós podemos falar que esse sujeito está "estrepado", deformado em sua personalidade.
Mas em cada área de influência dessas, isso pode acontecer sob outros aspectos. Vamos dizer que isto aqui seja um polo de modernização. Isto aqui não está dentro de outras ondas em relação a outros centros?
Nós podemos citar casos engraçados. De vez em quando, uma empresa adota o computador para fazer certos cálculos de faturamento, de pagamento de funcionário, etc. A empresa, até o dia em que usou gente que fazia isso na unha, pagava direitinho, nunca tinha erro de cálculo nos salários, mas quando entrou no computador ficou tudo "embananado". Eles tiveram que refazer tudo, porque o uso do computador é simplesmente um processo de modernização, e tem sido basicamente assim.
Nós estávamos pensando a auto-construção, tendo em vista o futuro no qual as classes mais desprevilegiadas, digamos assim, tivessem uma participação mais concreta nas decisões e na elaboração de conceitos sobre a habitação, sobre o urbano, sobre as nossas cidades etc.
Era uma visão bastante ligada a uma visão de mundo, se você quiser, bastante ligada a uma utopia. Não utopia no sentido pejorativo que ela tem tido, mas utopia como algo necessário do ponto de vista filosófico. A utopia identificada com a filosofia para o futuro. Para nós, tudo isso era trabalhar sobre uma utopia, tendo em vista a preparação para uma outra situação. Isso deu muita confusão e tem pessoas fazendo propostas de mutirão, de auto-construção, muitas vezes dizendo que a gente é favorável.
Os dois aspectos pelos quais nós somos contra o mutirão e a auto-construção hoje são os seguintes: 1) O problema econômico, da redução do custo da força de trabalho e da redução dos salários; 2) favorecer o processo de modernização que tem esse caráter de desvio da personalidade.
Não tem problema o sujeito vir para a cidade. Ele vem sem nada, sem dinheiro, mas não tem problema, pois ele constrói a sua casinha, arranja um empreguinho. É a adoção de soluções, de tal forma, que esse sujeito também entre no processo de modernização.
O que vocês defendem hoje? Que o sujeito entre no processo de modernização?
RM: Não, esse é um dos argumentos ao qual nós somos contrários.
RBL: Entre 1969 e 1970, eu fiz poucas obras de arquitetura e, logo depois, em 1971, eu entrei para uma empresa de projeto, que é por assim dizer, um dos principais agentes de modernização no Brasil, que é a Hidroservice. O que se faz lá são projetos que deveriam estar sendo feitos em países super-desenvolvidos, e eu estou participando desses projetos.
No início de 1969, começaram a aparecer conceitos que talvez já existissem subjacentes aqui embaixo, mas foram muito discutidos nessa época. Em 1968, 1969, foi a época que nós fizemos dois fóruns na faculdade sobre o problema da profissão do arquiteto e sobre como deveria ser o ensino da arquitetura, etc. Nós começamos a nos colocar com certa clareza, que o fazer arquitetura não era necessariamente produzir obras de arquitetura. Fazer arquitetura não era necessariamente trabalhar numa prancheta fazendo desenhos, e esses desenhos indo para a obra e a obra sendo construída e virando um objeto, uma casa, um edifício, etc.
Ser arquiteto não era necessariamente isso, que sempre nos colocaram. Talvez o arquiteto pudesse participar de certas atividades, que criassem condições para se produzir os objetos da arquitetura corretamente.
Quando se chega numa situação em que cada um, individualmente, começa a perceber a total impossibilidade de uma atuação correta do ponto de vista profissional, talvez tenhamos que retornar para uma outra atividade, para fazer com que a atividade profissional possa ser cumprida com bastante tranqüilidade.
RM: Não entendi.
RBL: Nessa época, 1968, 1969, apareceu uma corrente de pessoas que pensavam que fazer arquitetura não era necessariamente você sentar numa prancheta, rabiscar e mandar esse desenho para a obra. Era uma atividade profissional, que, num certo momento, estava comprometida com a situação geral do Brasil, e que nós não tínhamos muita saída para produzir alguma coisa de bom, de razoável. Apareceram outras pessoas, uma outra corrente, que achava que produzir projetos de arquitetura era a única possibilidade do arquiteto.
Essa corrente achava que a atividade devia retomar, por exemplo, um processo de desenvolvimento concreto, real, em vez de um processo de modernização, que era o que nós estávamos fazendo e do qual nós estávamos participando. Em termos de conjuntura talvez fosse o mais razoável, em um certo momento, em termos de atividade do arquiteto não de atividade profissional, mas de uma atividade cultural mais geral.
Isso causou também muita confusão. Algumas pessoas começaram a ser dedadas, começaram a falar que existiam arquitetos que achavam que os mesmos não deviam trabalhar na prancheta e que não deviam produzir desenho. Não era nada disso, também. Simplesmente nós achávamos que talvez fosse importante, em um certo momento, pensar um pouco e aprender a pensar um pouco, antes de fazer alguma atividade profissional. E mais: pretendíamos criar condições concretas de realização em termos profissionais. Realização concreta, de objetos em termos profissionais, mas aí vieram as confusões.
Hoje eu estou na Hidroservice fazendo exatamente aquilo que eu achava que não deveria fazer.*
* Nota de Ana Paula Koury: Essa afirmação deve ser entendida no contexto da posição política que Rodrigo Lefèvre assumiu, contra o que ele mesmo denomina de processos de modernização do país, em oposição ao que ele aponta como desenvolvimento concreto do país. Sobre essa frase deve-se evitar a confusão de interpretá-la como uma reprovação de Rodrigo Lefèvre ao tipo de trabalho realizado na Hidroservice. Isto é, ao trabalho em equipe, ou ao trabalho do arquiteto assalariado dentro de uma grande empresa, ou ainda, ao trabalho do arquiteto inserido em uma cadeia produtiva maior. Também não deve ser interpretada como uma reprovação direta ao trabalho realizado pela empresa. Essa afirmação refere-se unicamente ao fato que o arquiteto reprovava um tipo de modelo de modernização global do Brasil, do qual a empresa de certo modo participava. Em outra oportunidade o arquiteto irá defender a empresa afirmando: "No caso da Hidroservice, onde trabalho há 9 anos, empresa de capital inteiramente nacional, aparece, com grande ênfase, a defesa do reconhecimento e do desenvolvimento de uma tecnologia nacional de construção e de um conhecimento nacional"- LEFÈVRE, Rodrigo B. - "O arquiteto assalariado" em revista Módulo no 66 , setembro 1981; p. 68.
Residência Thomas Farkas, Guarujá. Rodrigo Lefèvre e Ronaldo Duschenes
Renato Maia: Quando é que o arquiteto passa a se preocupar com a comunicação visual, com o planejamento, com o desenho industrial?
Rodrigo Brotero Lefèvre: Sobre isso você deveria fazer uma entrevista com o Zanettini, ele tem tudo na ponta da língua.
RM: A partir de 1969, o mercado de trabalho para o arquiteto se diversificou?
RBL: Eu não sei bem se foi o mercado de trabalho que se diversificou nessa época, ou se simplesmente, através de uma atitude correta para a época, a criação das várias seqüências de edificação, de planejamento e de comunicação visual na FAU, realmente trouxeram para os arquitetos esse tipo de trabalho. Eu acredito que sim. Eu acredito que a criação na faculdade dessas diferentes nuances do trabalho de arquitetura trouxeram a possibilidade dos arquitetos ficarem com esse tipo de trabalho.
A intenção de abrir esses campos de formação do arquiteto, que basicamente foi do Artigas, em 1962, foi um fator importante para a abertura destes campos de atividade profissional na arquitetura.
Hoje você encontra arquitetos que tem quase toda a sua vida profissional voltada para a comunicação visual, como é o caso, por exemplo, do Cauduro. Você tem o arquiteto cuja atividade está quase toda voltada para o desenho industrial, como é o caso, por exemplo, do Ventura, do Lúcio Grinover. O fogão que ele desenhou encontra-se aos montes por aí. Existem arquitetos fundamentalmente voltados para o planejamento, como o Jorge Wilheim, o Guedes, e outros. E assim por diante.
RM: Você acredita em uma arquitetura revolucionária?
RBL: Não, não acredito. O planejamento é resultado de uma visão global que o arquiteto consegue ter de todos os aspectos técnicos separados ou atomizados que podemos analisar num projeto, mas que no projeto de arquitetura se fundem em uma síntese coerente, com os mil predicados que você queira, mas em síntese é a mesma síntese.
Por exemplo, um exemplo bem simples, na Hidroservice que é uma empresa de engenharia, o trabalho do arquiteto é considerado como mais uma das especialidades do ramo da engenharia. O nosso trabalho é oficialmente chamado de mais uma especialidade. Por exemplo, existe uma especialidade que é a dos engenheiros eletricistas; uma especialidade que é dos engenheiros eletrônicos; a dos engenheiros de tráfego; a dos engenheiros de rodovias; a dos engenheiros de obras civis e a dos arquitetos.
Concretamente, o que tem acontecido na Hidroservice é que o único profissional que consegue responder sobre todos os aspectos do projeto, quando alguém lhe pergunta, é o arquiteto. O arquiteto não consegue responder que uma central de transformação de voltagem é de trinta kilowatts, mas, em termos de conceitos, em termos de sistema de distribuição elétrica, sobre maneiras de adotar economias corretas em projeto, quem responde é o arquiteto. Nenhum dos outros técnicos de engenharia têm uma visão global do projeto. E então ele, o arquiteto, é um coordenador.
Oficialmente, o arquiteto não é reconhecido como tal, mas, concretamente, ele está sendo usado, e nós também nos metemos a fazer. Qualquer dúvida que exista no projeto, de qualquer especialidade, recorrem-se ao arquiteto. Na maioria das vezes, nós damos soluções para os problemas de ordem técnica que eles têm. Nós, sem sabermos como calcular uma viga, trabalhamos em um processo de percepção da estrutura como um todo, e com os outros elementos que estão implicados no projeto. Em um certo sentido, nós somos o coordenador técnico do projeto, coordenador no sentido de identificar as incoerências no projeto, seja no mesmo projeto, de uma mesma especialidade, ou de especialidades diferentes. Então, a um sistema estrutural deveria corresponder um certo sistema de distribuição de energia elétrica, por exemplo. Nós percebemos quando os sistemas são incoerentes, contraditórios, e tentamos ajustar o projeto de tal modo que ele seja coerente.
Essa visão global do ponto de vista técnico é um aspecto, um exemplo. Um outro exemplo que nós poderíamos dar parte do ponto de vista sócio–econômico–psicológico. O arquiteto tem a capacidade de conversar e de obter informações, de propor soluções de caráter global para a obra.
Por exemplo, eu estou fazendo um projeto para o Hospital das Clínicas, um projeto que vai envolver o problema de cinco mil pessoas que vão diariamente ao HC para consultas médicas.
Ninguém, nem o pessoal técnico do Hospital das Clínicas, nem o pessoal técnico da Hidroservice, tem condições de propor soluções que funcionem hoje para o futuro, em primeiro lugar. Em segundo lugar, propor soluções que levem em conta todos os aspectos, por exemplo, o psicológico, o cultural e o conhecimento do usuário do edifício.
Na medida em que estou fazendo um prédio que vai durar, provavelmente em termos concretos, duzentos anos, este prédio terá que prever a sua possibilidade de funcionamento durante estes duzentos anos. Aquilo que para nós é economia, fazer um prédio hoje que tenha condições, sem grandes problemas, de funcionar durante duzentos anos, para outros é gasto de dinheiro à toa, ou simplesmente definem como "fazer o projeto caro".
O projeto do edifício central do HC foi feito em 1938, fazem apenas 34 anos. O que existia de mais moderno naquele tempo era fazer tomada, duas tomadas em cada sala. Hoje você vai ao prédio velho do HC, e o que existe de instalação prevista no projeto são duas tomadas de eletricidade em cada sala, e você vê, em média por sala, pelo menos cinco aparelhos, seja de tecnologia médica, seja de tecnologia administrativa, seja o que for. Ou seja existem cinco aparelhos por sala em média, utilizando não apenas tomadas de 110 volts como era previsto, mas tomadas de 220 volts, tomadas de 6 volts, tomadas de ar comprimido, tomadas de vapor, etc.
O que acontece é bem típico. O projeto inicial do HC foi feito para uma situação estagnada, e o projeto que nós estamos fazendo prevê a possibilidade de não obsolescência do prédio nos próximos cinqüenta anos. Isto é, a possibilidade de mudança das instalações independente da utilização de uma sala. Coisas que só uma visão de economia, muito mais geral do que simplesmente financeira, poderia admitir. Uma visão global e universalista diretamente ligada ao processo de trabalho em prancheta.
No fim, a atividade do arquiteto é projetar coisas, desde comunicação visual até o planejamento, mas fazer esse tipo de trabalho de configuração física do espaço das construções em geral. O objeto de trabalho é esse, a configuração concreta do espaço.
A prancheta tem se mostrado um dos meios para você conseguir fazer isso. Pode ser que um dia nós descubramos outros instrumentos que não a prancheta para fazer arquitetura, mas por enquanto é um dos mais usados.
Então, o fundamental para mim é que o trabalho do arquiteto seja elaborado, seja produzido por essa visão global e universal. A meu ver, a formação necessária para o estudante de arquitetura é voltada para o problema de produção de projetos e de organização do espaço físico, quer dizer, não adianta nada para o estudante de arquitetura ter uma visão global e universal sem essa finalidade.
Residência Frederico Brotero, São Paulo. Rodrigo Lefèvre
Renato Maia: Planejamento e arquitetura?
Rodrigo Brotero Lefèvre: Você precisa entender as diferenças entre plano e projeto. Qual será a diferença fundamental entre o plano e o projeto?
Brasília, por exemplo, não é um plano de uma cidade, mas é um projeto de uma cidade. O plano é você armar uma série de normas, diretrizes, incentivos, etc., um conjunto de coisas desse tipo, que levam para a cidade algumas características. Você não faz o projeto para algumas características que a cidade tem que ter. Você elabora um outro material, que talvez nem inclua o desenho de prancheta, e que, pelas atividades que se desenvolvem a partir dessas leis, normas, diretrizes e incentivos, levam a cidade para uma certa configuração, para uma certa caracterização. Isso nós podemos dizer que é plano.
Projeto é realmente você fazer um desenho de cidade que tenha certas características que você pretende. Brasília é um típico projeto de cidade. Foi desenhada em todos os seus particulares, todos os trevinhos, todas as superquadras, todo o eixo monumental, tudo estava pré determinado, projetado, não planejado.
O plano fornece milhares de alternativas para o projeto. Vamos dizer que um sujeito é planejador e um outro é projetista. Nesse sentido, em qualquer uma daquelas atividades: desenho industrial, comunicação visual, edificações e planejamento, que não deveria ter esse nome mas sim urbanismo. Em qualquer uma destas atividades você pode ter um planejador e um projetista, que, a meu ver, são atividades diferentes, são produtos finais diferentes. Eu acho que ambos são, nós podemos definir assim, atividade do arquiteto, na medida em que, tanto um quanto outro, envolvem o problema de organização do espaço físico.
RM: Mas o planejador não organiza o espaço físico!
RBL: O planejador arquiteto organiza. Toda a intervenção dele no planejamento é no sentido de organizar o espaço. Não é no sentido de organizar a economia, não é no sentido de organizar a estrutura social, não é no sentido de nada disso, é no sentido de organizar o espaço. Mesmo que ele não dê soluções para o espaço físico, ele atua no sentido de organizar, de orientar a organização.
A meu ver, não existe uma relação do pequeno para o grande. Quando fica muito grande não dá para fazer o projeto?
Garanto para você que, se nós quisermos sentar dois anos, nós fazemos um projeto para o Brasil, sem fazer um plano para o Brasil. O problema parece ser de métodos utilizados, uma diferença de objetos, de produtos finais a conseguir.
O "fazer planejamento" é um tipo de atividade que pode ser aplicada a uma série de coisas. O "fazer projeto" é um outro tipo de atividade. Talvez a denominação correta para diferenciar o "fazer cidade" do "fazer edifícios", seja urbanismo. O urbanismo é a arte de fazer cidades, seja planejando, seja projetando.
Eu posso fazer um edifício que é planejado, eu posso fazer um edifício que é fundamentalmente um plano. O edifício que eu estou fazendo do Hospital das Clínicas na Hidroservice, o produto final do Hospital das Clínicas vai ser uma série de diretrizes, normas e leis, que eles vão ter que adotar em todo o processo de mudança de utilização do edifício, para que ele atenda as mudanças de funções no tempo.
Em todo o nosso sistema aqui, no sistema de consciência geral do grupo social que se define como Brasil, a consciência do planejamento ainda é bastante precária. Ainda não se tem percebido a necessidade das pessoas abrirem mão de alguns problemas particulares em função da coletividade, entendendo que essa abertura em função da coletividade talvez seja a garantia de uma sobrevivência melhor nesse contexto social que nós vivemos.
A mentalidade individualista tem funcionado muito ainda. Não existe uma tendência, um anseio da população em geral, pelo planejamento ou pela implantação de planos. Ninguém nunca reclamou da falta de planos ou da falta de planejamento em termos de cada cidadão, do conjunto da sociedade. O sujeito, quando vai fazer um plano, esbarra em interesses econômicos, em interesses que não são os interesses do planejamento, da consciência do planejamento Ele esbarra em interesses que são, na maioria das vezes, particulares, individualistas, contrários aos interesses do planejamento global como nós pretendemos.
O que tem acontecido é que você faz um plano, e esse plano é deturpado até que ele venha a atender estes interesses financeiros particulares. Você faz um plano, e esse plano não é implantado se ele não atende a esses interesses.
O que pode se desenvolver, e já se desenvolveu um pouquinho no Brasil, e talvez seja uma forma de você ter a participação do arquiteto planejador no aparelho de Estado, é através da elaboração de uma lei, seja uma lei de zoneamento, seja uma lei de uso do solo. O arquiteto pode, ao fazer a lei, garantir que, mesmo com uma certa deturpação, o plano leve aquilo que ele pretende para o futuro.
Isso é mais difícil para o arquiteto entender, elaborar normas, princípios econômicos, mas talvez seja mais fácil para o arquiteto fazer com que certos elementos que fazem parte do plano e que correspondem a projetos setoriais, possam vir a ser elementos preponderantes e importantes nesse conjunto de coisas, a ponto de trazer a cidade para essa situação pretendida.
Residência Cleômenes Dias Batista, São Paulo, Rodrigo Lefèvre
Rodrigo Brotero Lefèvre
Nasceu em São Paulo, no dia 9 de fevereiro de 1938. Formou-se arquiteto na FAU-USP, onde ingressou como aluno em 1957, concluiu o curso em 1961 e no ano seguinte foi admitido como docente, cargo que ocupou até 1981. Também foi docente da FAU-Santos (1970), do curso de arquitetura da Faculdade Belas Artes de São Paulo (1982-1984) e da FAU PUC-Campinas (1977-1984). Participou da luta armada contra o regime militar, chegando a ser preso no final da década de 70. Formou com Sérgio Ferro e Flávio Império o grupo informal Arquitetura Nova. Desenvolveram uma arquitetura que se destaca pela crítica a arquitetura brasileira identificada às Escolas Carioca e Paulista, personalizadas nas figuras de Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Essa arquitetura se baseava na valorização das relações de trabalho presentes no canteiro de obras e, do ponto de vista técnico, se caracterizava pelas construções em abóbadas realizadas principalmente nas residências e escolas. De 1973 até sua morte trabalhou no Departamento de Arquitetura da empresa Hidroservice, onde participou de diversos trabalhos, entre eles destacam-se a sede do DNER em Brasília, o Instituto dos Ambulatórios do Hospital das Clínicas em São Paulo e do projeto para a instalação de serviços de saúde na Guiné Bissau (África), onde foi vítima de um acidente automobilístico fatal em 9 de julho de 1984.
Renato de Andrade Maia
Na época da entrevista era estudante do terceiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São José dos Campos e realizou esta entrevista entre uma série de outras, com diversos arquitetos, como parte de seu trabalho para a disciplina de Teoria da Arquitetura. Hoje é arquiteto e doutorando na FAU-USP
Entrevista
Esta entrevista com Rodrigo Brotero Lefèvre foi realizada em junho de 1974, na Residência Marietta Vampré (r João Moura, 2370. São Paulo SP). Está presente como anexo na dissertação de mestrado de Ana Paula Koury, "Grupo Arquitetura Nova", orientada por Carlos Alberto Ferreira Martins, Departamento de Arquitetura da EESC-USP, São Carlos 1999. Os originais manuscritos foram digitados por Ana Paula Koury e revisados por Marília Librandi Rocha. A entrevista foi disponibilizado em Vitruvius em março de 2000.
Fotos
As imagens presentes nesta entrevista foram digitalizadas por Ana Paula Koury para sua dissertação de mestrado na EESC-USP, com projeto financiado pela FAPESP. As fotos originais fazem parte do acervo Rodrigo Lefèvre, hoje na FAU-USP.