A diferença entre passado e futuro, do ponto de vista da teoria do conhecimento, consiste no próprio fato de que o passado é, em parte, experimentado agora e que, do ponto de vista da ciência urbana, pode ser esse o significado a dar às permanências: elas são um passado que ainda experimentamos”
Aldo Rossi, L’Architettura della città (1)
Nos últimos anos, a relação da população de Barra do Piraí/RJ com suas permanências tem sido evidenciada através da fotografia engajada – concerned photography, que em tradução livre seria "a fotografia que se importa". As fotografias acontecem muitas das vezes sem a intenção documental – no sentido estrito do termo, por parte de quem fotografa. Mesmo assim, fotógrafos profissionais e amadores tem contribuído para a constituição de um precioso acervo fotográfico da cidade, e junto a tal acervo floresce um movimento crítico que reivindica o direito à cidade e à preservação do patrimônio cultural barrense.
Por outro lado, neste momento conturbado e de perdas que vivemos a partir de 2020, as eleições municipais estão tomando outras proporções. Sabemos que com isso, outros aspectos ficam mais intensos, e no âmbito do patrimônio cultural e do direito à cidade isso não seria diferente. Nesse sentido, inclusive, a fotografia engajada tem sido fundamental enquanto base e expressão de ideias e críticas, não a toa, incomodando o poder hegemônico que pensa uma cidade exclusiva.
Por um lado, isso significa que a população está se conscientizando de seus direitos, procurando construir democraticamente os rumos da cidade. Nessa perspectiva, se a cidade é realmente nossa, devemos e podemos pensá-la para todos, considerando a opinião, as críticas e reinvindicações de todos, e engana-se quem pensa que isso se resume às urnas. De fato, se a cidade é de todos e para todos, as críticas devem ser tomadas como o melhor e mais importante indicador para a elaboração de políticas públicas visando a melhoria da qualidade de vida da população. E mais, os que criticam deveriam ser convocados a participar ativamente, propondo, elaborando e realizando as políticas públicas juntamente com os órgãos competentes, como pressupõe uma democracia. Isso seria exercer de fato o direito à cidade.
Entretanto, por outro lado, ao povo barrense – me incluo – muito nos custa dizer “minha cidade” e remeter à processos participativos ou a um certo sentimento de pertencimento, ao passo que isso é comum para as pessoas que vivem em outras cidades da região a qual fazemos parte. Isso não é de hoje, muito pelo contrário, esse modus operandi do status quo tem longa data. Mas com as transformações mais recentes e, principalmente aquelas que acompanhamos nos últimos anos, que ampliam a noção de patrimônio cultural e trazem ao centro do debate a questão do direito à cidade, constituiu-se uma certa movimentação que reclama direitos, ainda que ao seu jeito e com suas particularidades. Desse modo constituiu-se o projeto @barradopirahy, a partir de uma concepção ampla sobre o patrimônio cultural, considerando a memória tão essencial tanto quanto a materialidade, e reconhecendo que a preservação do patrimônio cultural é parte imprescindível do que vem a ser direito à cidade.
@barradopirahy
O povoado de Barra do Piraí surgiu sob o despertar de uma época áurea econômica nos fins do século 18 e se fortaleceu no século 19 com a economia cafeeira. A sua história tem início na barra do Rio Piraí com o Rio Paraíba do Sul, daí seu topônimo, e se confunde com a história das ferrovias no Brasil. Alguns ainda consideram o seu entroncamento ferroviário o maior da América Latina. Barra do Piraí se difere dos municípios vizinhos desde a sua formação até aos dias atuais, se destacando ora pelo caráter vanguardista, ora por sua centralidade geográfica. A estimativa do IBGE para 2020 era que Barra do Piraí tivesse cerca de 100 mil habitantes.
Ao considerar Barra do Piraí a partir de seu histórico, percebe-se a riqueza e a diversidade de elementos arquitetônicos e urbanísticos em sua paisagem. Entretanto, boa parte deles se encontra em processo de degradação contínua devido a diversos fatores, e estes últimos se tornam ainda mais complexos dada a inexistência de uma política ativa de preservação do patrimônio cultural no município. Ao analisar os aspectos normativos da preservação do patrimônio cultural na cidade, percebe-se que falta de proteção legal é uma das principais questões, mas também a falta de critérios envolvendo a valoração de bens culturais e ações visando a sua preservação propriamente dita são fatores determinantes para o processo vivido na atualidade. Barra do Piraí não possui qualquer repartição administrativa voltada especificamente para a preservação de seu patrimônio cultural, e outro fator a ser considerado é a ausência de documentação dos processos de tombamento nos arquivos das repartições administrativas (2).
Das iniciativas da sociedade civil em prol da preservação do patrimônio barrense, pode-se destacar aquelas do Instituto de Desenvolvimento Econômico Histórico e Cultural, que esteve envolvido em diversas ações que perpassam a temática nos últimos anos e tem obtido sucesso em suas iniciativas (3), apesar de enfrentar constantemente entraves financeiros, por falta de recursos e apoio para a realização de seus projetos. Destaca-se também o projeto Théâtre d’infiltration: l’espace de la ville au prisme des dramaturgies urbaines, iniciativa que promoveu a ocupação artística do prédio da antiga Estação Ferroviária de Barra do Piraí, até então semiabandonado. Por fim, mas não menos importante está o documentário “Entroncamentos” que busca reavivar as memórias dos trabalhadores que dedicaram suas vidas à ferrovia no maior entroncamento ferroviário da América Latina. O longa metragem, financiado coletivamente, é produzido pela Quiprocó Filmes.
Vídeo da Quiprocó Filmes para a campanha de financiamento coletivo
Dito isto, compreende-se que o patrimônio cultural em Barra do Piraí carece de atenção por parte dos órgãos responsáveis pela sua preservação, e que neste momento faz-se necessário o maior envolvimento da comunidade em ações preservacionistas, visando a salvaguarda do patrimônio barrense. Foi neste sentido que surgiu o projeto @barradopirahy, lá em 2014.
Na atualidade, a população barrense, consciente de seu patrimônio cultural e repleta de memórias, registra em fotografias aquilo que deseja salvaguardar – tudo o que valora em termos culturais, históricos, artísticos e ambientais – e, nos últimos anos, se utiliza das redes sociais para expor seus anseios. Ao observar o movimento, foi criado um perfil coletivo com a intenção de reunir todo o conteúdo publicado relacionado às temáticas, no qual são republicadas as fotografias acrescentando escritos que enfatizam o valor do elemento fotografado. Para fins de nomenclatura, foi utilizado o modo como se escrevia o nome da cidade antigamente: Barra do Pirahy. Aos poucos, o perfil se tornou um importante acervo de fotografias de Barra do Piraí, tendo como autores todos aqueles que se identificam de alguma forma com o patrimônio cultural e que se veem nele representados.
O projeto @barradopirahy acontece em apenas uma rede social, o Instagram, que oferece diferentes formas de interação, desde curtidas, comentários ou compartilhamento, até a produção de conteúdo propriamente dita, como fotografias, pesquisa histórica, adaptação e releitura de conteúdo, elaboração de escritos críticos e descritivos e também abordagem sobre fatos recentes que implicam na preservação do patrimônio cultural e no direito à cidade.
Aos poucos, questões sociais foram despontando. As imagens, que mostram o município tal qual como parece, revelaram o seu foco em discussões de cunho cultural e ambiental, integrando-se assim à fotografia engajada, ramo da fotografia documental que tem o objetivo de mostrar a vida de pessoas ou comunidades desfavorecidas e geralmente tenta chamar a atenção para questões relacionadas à violação de direitos, atuação de movimentos sociais, condições de vida e também agressões ao meio ambiente.
Um aspecto particular desta experiência tem sido a valorização do patrimônio arquitetônico. A identificação das permanências arquitetônicas na paisagem através da fotografia engajada tem permitido o reconhecimento de fragmentos espaciais que conformam a cidade, que guardam memórias e significados, e que permanecem constituindo um vasto mosaico do espaço-tempo. Assim como para Aymonino, “a cidade é um lugar onde cada época tenta, mediante a representação de si própria nos monumentos arquitetônicos, assinalar aquele tempo determinado, para além das necessidades e dos motivos contingentes porque os edifícios foram construídos” (4). Nesse sentido, o testemunho dos monumentos continua a ser válido exatamente em virtude das constantes transformações ou adaptações que estes sofreram no tempo histórico-social.
Por outro lado, este projeto permite perceber que, assim como a fotografia, as redes sociais são instrumentos poderosos. Quando utilizados com responsabilidade e critérios bem definidos, permitem a confluência de ideias, a discussão e a reflexão acerca de determinado tema, influenciando positivamente aqueles que participam e acompanham a dinâmica. Recentemente, o projeto despertou o interesse de colaboradores e também de fotógrafos profissionais, que com rigor técnico, conseguem transferir para as fotografias todo o sentimento de pertencimento e as memórias presentes na cidade.
Trata-se de uma ação em andamento, e que, portanto, não traz conclusões finais, apenas parciais, mas que já se encontra relacionada a um sentimento de pertencimento no qual os barrenses se identificam e se sentem de alguma forma representados. Sabe-se que há muito o que se fazer em prol do patrimônio cultural de Barra do Piraí e esta é apenas uma das formas de manifestar as inquietações daqueles que se importam, dos que acompanham o fim daquilo que lhes é caro sem muito poder fazer para mudar a própria realidade. Espera-se que de alguma forma este brado de fotografias engajadas surta algum efeito e que o patrimônio cultural barrense seja salvaguardado, preservando assim os elementos que permanecem na paisagem da cidade e a memória desta comunidade singular, cuja materialidade histórica tem escapado, ao longo do tempo, do conhecimento comum de seus próprios moradores.
notas
1
ROSSI, Aldo. L’Architettura della città. Macerata, Quodlibet Abitare, 2011, p. 52.
2
O Arquivo Municipal está instalado desde 2015 em um dos galpões que serviam à ferrovia aos fundos da antiga Estação Central, que fica no Centro da cidade, porém se encontra ainda carente de organização que possibilite sua consulta por aqueles interessados. A escassa documentação relacionada à preservação do patrimônio cultural encontrada em outras repartições municipais não abrange os aspectos aqui levantados. De todo modo, não foram encontrados os documentos relativos aos processos de tombamento.
3
Recentemente deu-se por iniciado o processo de restauração e reabilitação da Estação Ferroviária Central de Barra do Piraí, iniciativa do IDEHC com apoio financeiro da empresa MRS Logística.
4
AYMONINO, Carlo. O significado das cidades. Lisboa, Editorial Presença, 1984, p. 11.
sobre a autora
Jéssica Rossone é arquiteta e urbanista (2016) e mestra em Ambiente Construído (2018) pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. Fez intercâmbio na Alma Mater Università di Bologna (2013-2014) e professora bolsista na Fundação de Apoio a Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (2017-2020). É especialista em Desenvolvimento Regional e Sustentabilidade pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ, 2021) e doutoranda do Instituto de Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IPPUR UFRJ.