O Centro Pompidou vai fechar para restauro, anuncia a imprensa. O governo francês vai pô-lo à venda, com preço de liquidação? Pois parece que não. O Centro Pompidou vale seu peso em ouro. É um equipamento vivo, com museu, cinemateca, galeria de exposições, restaurante, loja, praça na frente. E claro, é atrativo turístico de primeira, para nativos e forasteiros. Tem gente que nem entra, mas usa a escada rolante para desfrutar da vista.

Nosso Palácio Capanema, antigo Ministério da Educação, Saúde e Cultura, também é equipamento vivo, embora vazio para restauro no momento. Tem galeria de exposições, auditório, um andar nobre com afrescos e murais integrados, bibliotecas, Escola de Patrimônio do Iphan, restaurante, loja e praça-com-pilotis que é atalho e encruzilhada. Não precisa entrar no edifício para desfrutar dos azulejos de Portinari, da escultura de Bruno Giorgi ou dos jardins de Portinari. Ah, e tudo o que ali funciona está pagando aluguel de momento.

O Centro Pompidou é documento também, valorizado pelo Governo Francês enquanto testemunho dos anos 1970 em que se projetou, levantou e começou a operar. Máquina metálica concebida por arquitetos ingleses e construída por engenheiros alemães, fala de um certo estado da tecnologia de construir, quando as instalações prediais importavam tanto ou mais que a estrutura resistente, e a ausência de colunas internas traduzia a aspiração a uma flexibilidade funcional ilimitada da arquitetura e podia tomar-se por contrapartida do "é proibido proibir" que as demonstrações de maio de 1968 tinham como lema.

Erguido entre 1936 e 1945, em parte contemporâneo de uma Segunda Guerra Mundial arrasadora, nosso Ministério tem também um quê de brinquedo de armar, mais para bloco de madeira (o proto-Lego) que para peças metálicas perfuradas (tipo Meccano). A estrutura de ponta é em concreto armado, e emprega lajes cogumelo em balanço que incorporam tubulações antecipando os pisos elevados atuais. Os pilares são espaçados o suficiente para garantir uma planta livre com divisórias. A construção leve é exemplo pioneiro de edifício alto com corpo envidraçado protegido por brise-soleil, a expressão popularizada por Le Corbusier, que tomou a ideia dos muxarabis muçulmanos e até então só a tinha esquematizado no papel. O pé-direito folgado se conjuga às janelas guilhotina para permitir ventilação cruzada eficaz por cima dos tabiques divisórios. Original sem dúvida o Ministério, na medida em que ser original é fazer melhor o que outros fizeram bem. É astuto também, porque ladrão de rouba de ladrão tem cem anos de perdão. E ainda oportuno, reivindicação de geração que, cansada de uma vida e arquitetura em tom de discurso patriótico, reclamava uma vida e arquitetura em tom de conversa civilizada. Octogenário, o Ministério documenta a esperança apesar de tudo.

Pode-se dizer que não haveria Centro Pompidou sem Ministério, embora a presença de Oscar Niemeyer no júri do primeiro possa ser apenas acidente. Mas a conexão não se esgota na condição de equipamento e documento. Ambos são monumentos intencionais, marcos memoráveis celebrando, entre muitas coisas, o Estado como coisa pública e comum, instituição que assegura a soberania de um território e promove suas artes e ofícios, técnicas e ciências – cooperando para a criação de um mundo humano mais longevo que a vida do indivíduo, em oposição à mutabilidade do mundo natural tanto quanto à esfera privada da intimidade familiar. Do ponto de vista simbólico, alienar Ministério ou Centro Pompidou equivale a mutilá-los na essência, e atentar contra a cidadania que os fez nascer. Patrimônio da nação, mesmo a passagem de sua titularidade para província ou cidade seria vivenciada como degradação. O governo francês sabe disso muito bem e não lhe ocorre nem torrar o Centro Pompidou, nem rebaixa-lo a órgão departamental.

O Macron pode ser de direita, mas para mentecapto não serve.

notas

NE 1 – o documento “Heritage under siege in Brazil – the Bolsonaro Government announced the auction sale of the Palácio Capanema in Rio, a modern architecture icon that was formerly the Ministry of Education building”, redigido pelo Docomomo Internacional e Brasil, pode ser lido e assinado no link <https://bit.ly/3D7bglQ>.

NE 2 – sobre o tema, veja a série de artigos:

CAU/BR, Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil; et. al. “O MEC não pode ser vendido!”. Manifesto contra ameaça de venda do Palácio Capanema. Drops, São Paulo, ano 21, n. 167.06, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.167/8203>.

COMAS, Carlos Eduardo. Equipamentos, documentos, monumentos, desgovernos. A desventura do Palácio Capanema. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.10, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8226>.

CURTIS, William J. R. A destruição da memória. Contra a privatização de um importante monumento histórico e cívico. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.07, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8220>.

DANOWSKI, Miriam. Memória ameaçada. Governo federal continua evasivo sobre o destino do Palácio Capanema. Minha Cidade, São Paulo, ano 22, n. 254.01, Vitruvius, set. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/22.254/8239>.

FRAMPTON, Kenneth. Carta de Kenneth Frampton a Ana Tostões e Renato Gama-Rosa Costa, presidentes do Docomomo International e Brasil. Palácio Capanema em risco. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.06, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8218>.

HATOUM, Milton. Palácio Capanema. O difícil processo de alfabetização. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.12, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8234>.

LIERNUR, Jorge Francisco. Lembrete para autoridades sem memória, e sem juízo. O Palácio Capanema não é mercadoria. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.08, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8223>.

MONTANER, Josep Maria. A venda do Palácio Capanema é um ultraje e uma insensatez. Carta aos arquitetos Carlos Eduardo Comas e Abilio Guerra. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.09, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8225>.

ROLNIK, Raquel. Feirão de um sonho de país. Palácio Capanema à venda. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.03, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8204>.

SCHLEE, Andrey Rosenthal. Oportunidade perdida (mais uma...). Ignorância e ignorância assolam o Palácio Capanema. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.11, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8235>.

TOSTÕES, Ana; COSTA, Renato da Gama-Rosa; INTERNATIONAL, Docomomo; BRASIL, Docomomo. Patrimônio sob cerco no Brasil. Palácio Capanema à venda. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 253.04, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.253/8216>.

sobre o autor

Carlos Eduardo Comas é arquiteto e professor emérito da UFRGS.